A crise econômica e as perspectivas para a indústria brasileira

Segundo a Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o volume da produção física da indústria de transformação (IT) brasileira apresentou uma queda de 8,9% nos sete primeiros meses de 2016, em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse desempenho veio somar-se a uma queda acumulada de 13,6% nos dois anos anteriores, fazendo com que o nível de produção de 2016 tenha ficado inferior ao de 2004. Mesmo com essa performance, segundo dados recentes da Organização das Nações Unidas Para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), o Brasil ocupou, em 2015, a 9.ª posição no ranking dos maiores parques industriais do mundo, quando considerado o Valor Adicionado industrial.

Esse fraco desempenho afetou todas as atividades da IT, e os setores produtores de bens de consumo duráveis e de capital foram os que apresentaram as quedas mais substanciais. Nos sete primeiros meses do ano, esses setores haviam apresentado diminuição na produção de, respectivamente, 22,3% e 19,5%, em relação ao mesmo período do ano anterior. Considerando que a queda acumulada dessas duas categorias em 2014-15 havia sido de 26,0% e 24,6% respectivamente, tem-se que o nível de produção se encontra em torno de 40% menor do que há três anos. Também com desempenho negativo em 2016, embora não tão acentuado, aparecem os setores produtores de bens intermediários (-8,9%) e de bens de consumo não duráveis (-1,6%).

Apesar dessas quedas expressivas, quando se observa a evolução das taxas acumuladas em 12 meses, verifica-se que a trajetória descendente da produção física da IT foi interrompida a partir do segundo trimestre deste ano, tendo, inclusive, a partir de então, iniciado uma tênue recuperação (gráfico). Convém destacar, no entanto, que essa recuperação tem sido motivada pelas exportações de bens de capital, as quais cresceram, em volume, 32,0% até agosto de 2016, em relação ao mesmo período do ano anterior.

Uma diminuição tão acentuada no volume de produção, como a que se tem observado, não pode ser creditada a apenas alguns poucos fatores. Ela é, com certeza, resultado de um conjunto de condicionantes de natureza tanto estrutural como conjuntural, que vêm atuando ao longo dos últimos anos.

Sem procurar estabelecer uma hierarquia entre esses condicionantes, convém destacar, em primeiro lugar, que a indústria já vinha apresentando oscilações de variação entre taxas negativas e positivas na produção física, ao longo de 2009-13, trajetória que manteve o volume de produção estagnado nesse período. Essa estagnação na produção industrial refletia as consequências da crise econômica internacional que se iniciou em 2007. De fato, o Brasil faz parte de um grande grupo de países que tiveram dificuldades para recuperar sua produção industrial após 2009, além de outros que nem mesmo conseguiram tal recuperação. Em segundo lugar, é importante enfatizar que a valorização cambial que se estendeu de meados de 2004 a meados de 2011 trouxe comprometimentos estruturais à indústria nacional, ao retirar dela, por um longo período, mercados e competitividade internacionais.

A esse cenário desfavorável vieram somar-se outros fatores de natureza conjuntural, como o impacto da Operação Lava Jato sobre a Petrobras, seus fornecedores e as grandes empreiteiras nacionais, o qual comprometeu profundamente os planos de investimentos de tais empresas, afetando, assim, toda a cadeia produtora de bens de capital. Simultaneamente, a deliberada política de ajuste fiscal promovida em 2015 só veio a agravar o quadro recessivo. Com isso, a taxa de desemprego que, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, estava 6,5% em dezembro de 2014, atualmente se encontra em 11,8%. Associados com a elevação inflacionária que se observou nesses anos e a restrição do crédito, os setores de produtores de bens de consumo duráveis e não duráveis também tiveram comprometidos não só os seus níveis de produção como também os seus planos de investimentos.

O Brasil ainda continua tendo um parque industrial amplo e diversificado, com um produto industrial maior do que o de países como a Rússia, o Canadá e o próprio Reino Unido. A queda nos níveis de produção observada nestes últimos três anos levou o País a uma diminuição de participação no Valor Adicionado manufatureiro mundial, embora este último fenômeno esteja também afetando as maiores economias mundiais, com exceção da Índia, da China e da Coreia do Sul.

Assim, em que pese a tênue recuperação que se tem manifestado neste segundo semestre, a retomada de uma trajetória de crescimento de longo prazo da produção industrial exigirá o enfrentamento de um conjunto de fatores que a tem restringido. A manutenção das elevadas taxas de juros reais, com o seu impacto sobre o câmbio, e a continuidade de uma política de ajuste fiscal estão entre os fatores de ordem conjuntural que deverão ser contornados. Do ponto de vista estrutural, convém destacar que esse fraco desempenho da indústria nacional desde 2009 pode ter gerado uma defasagem tecnológica e competitiva que irá dificultar ainda mais o processo de recuperação industrial e, consequentemente, de retomada do crescimento da economia brasileira. Dadas essas restrições, a sorte da indústria nacional dependerá da aceleração do crescimento da economia mundial, fato que tem sido a grande preocupação dos líderes das maiores economias do mundo.

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