A COP21 aposta na posição dos cientistas do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas (IPCC)

A controvérsia sobre o que causa o aquecimento global – Para começar, não há um consenso entre os cientistas sobre a importância antropogênica na questão do aquecimento global, razão pela qual farei um breve comentário.

O ponto – Os cientistas do IPCC, Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (Intergovernmental Panel on Climate Change), órgão ligado às Nações Unidas, que defendem a ideia do aquecimento global com forte influência antropogênica, disseram claramente que alguns dos impactos das mudanças climáticas são inevitáveis, mas ainda existe tempo para proteger a humanidade de algumas das consequências mais desastrosas. Essa reação deve vir como parte de uma rápida mudança nas estratégias globais, visando evitar emissões significativas de CO2.

E o contraponto – Os críticos, por outro lado, dizem que há falhas nos modelos e que fatores externos não levados em consideração poderiam alterar as conclusões acima. Os críticos dizem que simulações climáticas são incapazes de modelar os efeitos resfriadores das partículas, ajustar a retroalimentação do vapor de água e levar em conta o papel das nuvens. Os críticos também mostram que o Sol pode ter uma maior cota de responsabilidade no aquecimento global    atualmente observado do que a aceita pela maioria da comunidade científica. Alguns efeitos solares indiretos podem ser muito importantes e não são levados em conta pelos modelos. Assim, a parte do aquecimento global causada pela ação humana poderia ser menor do que se pensa atualmente.[1] Mas o homem pode ser a gota d’água, será?

Entre os críticos, cita-se Mojib Latif, que afirma: “[…] haverá, ‘nos próximos 10 ou 20 anos’, uma tendência de resfriamento natural da Terra que irá sobrepor-se ao aquecimento causado pelos humanos”. Somente depois, diz o cientista, é que o aquecimento global se fará novamente observável. O resfriamento seria causado por alterações cíclicas naturais nas correntes oceânicas e nas temperaturas do Atlântico Norte, um fenômeno conhecido como Oscilação do Atlântico Norte — North Atlantic Oscillation (NAO). Os dados sobre os ciclos naturais oceânicos seriam suficientes para explicar todas as recentes variações nas monções da Índia, nos furacões do Atlântico, no degelo do Ártico e outros eventos.

Um ponto de tangência – Entretanto, ambos os lados da comunidade científica concordam: que a temperatura global subiu um grau desde o final do século XIX; que os níveis de CO2 na atmosfera subiram aproximadamente 30% no mesmo período e que essa tendência pode contribuir para um futuro aumento do aquecimento global.

O que tem pretendido a COP 21? – Líderes governamentais de 195 países, inclusive os de largo espectro, propõem-se a criar, em meio a 40.000 assistentes, um novo acordo internacional sobre o clima na United Nations      Framework Convention on Climate Change (UNFCCC) of the Parties (COP21) em Paris, em dezembro de 2015. Para tal, esses países se comprometem a esboçar as ações que pretendem tomar a respeito do clima pós 2020, sob um acordo internacional conhecido como Intended Nationally     Determined Contributions (INDCs). Disso dependerá, em grande parte, se a COP 21 obterá um ambicioso acordo em 2015, resultando, ou não, em baixar, significativamente, a emissão de CO2 e propiciar ao clima uma boa capacidade de recuperação a partir do horizonte temporal estabelecido por ela mesma. Espera-se intensa discussão em temas polêmicos, como: quem pagará a conta? Ou como construir um trade-off entre crescimento econômico e emissões? Ou ainda, se o acordo será obrigatório e como monitorar as ações em face das proposições.

Em 2010, os cientistas puseram-se em acordo para evitar a catástrofe, que o aumento da temperatura seria limitado a mais 2ºC até 2100, em relação aos níveis do período pré-industrial. De acordo com a British MET Office, suas previsões extrapolam para 5ºC para o final do século, em relação à mesma base. Mesmo assim, a Conferência de Paris inclui revisões, que os países se obrigam a fazer de cinco em cinco anos, e, talvez, a meta acordada, de diminuição de 2ºC, não seja suficiente, o que implicaria em seu rebaixamento.

Para o sucesso da COP 21, alguns países ou regiões são chave pela sua participação no total das emissões de CO2. Dentre eles, destacam-se: a China, os Estados Unidos da América, a União Europeia, a Índia e o Brasil (principalmente pelo desmatamento da Floresta Amazônica).

Os resultados obtidos pela COP 21 – De modo geral, os resultados da COP 21 confirmam suas pretensões.

Países devem trabalhar para que o aquecimento fique muito abaixo de 2ºC, buscando limitá-lo a 1,5ºC; os países ricos devem garantir financiamento inicial de US$ 100 bilhões por ano, a partir de 2020 até 2025.

Não há menção à porcentagem de corte de emissão de gases de efeito estufa necessária para atingir as metas, nem se determina quando as emissões precisam parar de subir.

O Acordo deve ser revisto a cada cinco anos, a partir de 2018, quando os trabalhos da COP 21 deverão ser ajustados e sugeridos os cortes de emissões.

Alguns dispositivos foram colocados fora do documento do acordo e entraram no texto de “decisão” da COP 21. Esses elementos não precisam de aprovação doméstica nos países, porque são emendas à “Convenção do Clima”, já assinada pelas 195 nações em 1992.

Rei morto, rei posto? – Independentemente da posição dos cientistas que divergem em seus diagnósticos, se a ideia do combate ao aquecimento global seguir adiante, ela será agente catalizador de uma grande batalha entre dois reinos, o dos fósseis (petróleo, gás, carvão, etc.) e o das energias renováveis (hídrica, bioenergia, eólica, solar, etc.). Nessa batalha, o novo rei, se vencer, inaugurará uma nova era, cuja base resultaria de dois vetores: o da tecnologia e de seus custos competitivos. Por outro lado, a matriz energética daí resultante propagar-se-ia de forma descentralizada e passaria a ocupar um grande papel, já na transição. Trata-se de uma revolução do modo de produção, que seria totalmente redesenhado, e a sociedade humana poderia dar um salto qualitativo sem precedentes. As concentrações de poder cederiam lugar à atomização da oferta. Mas os poderosos do velho reino, juntamente com a indústria bélica, farão de tudo para se apresentar em dueto.

[1] LOMBORG, Bjørn . The Skeptical Environmentalist: Measuring the Real State of the World.[S.l.]: Cambridge University, 2001. Disponível em: <http://en.wikipedia.org/wiki/The_Skeptical_Environmentalist>.

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