A atratividade do Setor Primário gaúcho

Diversos trabalhos mostram que a trajetória da economia gaúcha tem vinculação direta com o desempenho de suas atividades primárias. Nesse sentido, compreender como a atratividade econômica desse setor vem evoluindo é estratégico para os tomadores de decisão. Ocorre que essa é uma tarefa difícil, na qual nem sempre é possível vislumbrar a direção correta, dada a complexidade dos fatores envolvidos. Se, por um lado, o aumento do crédito (para custeio e investimento) e a introdução de novas tecnologias tendem a favorecer o setor, por outro lado, o aumento das restrições ambientais, dos custos de insumos e mesmo a incidência de eventos climáticos extremos (enchentes ou estiagens) reduzem e, não raro, tornam negativa a sua rentabilidade. Tem-se, ainda, a desvalorização cambial, com resultado mais ambíguo, aumentando os preços tanto dos produtos como dos insumos utilizados.

Sabendo-se que a conjugação de todos esses fatores não é unívoca e com o objetivo de lançar luz sobre o assunto, o gráfico abaixo apresenta a evolução das relações de troca da agropecuária gaúcha de janeiro de 2000 a abril de 2012. Para tanto, divide-se o índice de preços recebidos (IPR) pelo índice de preços pagos (IPP) pelos produtores, calculados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). Sua interpretação é direta, mostrando que, quando o índice é superior a 100, os produtores estão beneficiando-se nas suas trocas, e, quando é menor, ocorre o contrário.

Um primeiro ponto que se observa é que, com pequenas oscilações, a evolução positiva se mantém até o final de 2004. Destaques desse período, que favoreceram os preços recebidos, foram a desvalorização cambial de 2002 e o aumento das exportações, sobretudo de soja para a China. Do início de 2005 até o final de 2007, o indicador mostrou-se negativo aos produtores rurais. Esse resultado é ainda mais nefasto, se relembrarmos que, em 2005, uma forte estiagem atingiu o RS. Assim, não bastasse a importante quebra de safra — que, para os grãos de verão (soja, milho, feijão e arroz), foi de mais de um terço —, os produtores viram seus custos subirem mais que suas receitas. Não é de se estranhar que, em 2005, a economia gaúcha tenha decrescido 2,8%.

A partir de 2008 até meados de 2011, houve uma relativa estabilização dos termos de troca. A tendência de alta que então se apresenta é sustentada por aumento dos preços recebidos e pela estagnação dos preços pagos.

O indicador mostra, portanto, sinais de melhora na atratividade do segmento agropecuário estadual, sobretudo no período mais atual. Deve-se ressaltar, porém, que esses resultados devem ser analisados com cuidado, pois não captam diretamente a variação da produtividade e nem as particularidades das diferentes culturas agrícolas e das atividades pecuárias, que são consideravelmente heterogêneas.

Apesar dessas limitações, outros indicadores reforçam a existência de uma melhora na atratividade da agropecuária gaúcha. Por exemplo, o preço real médio do arrendamento de terras no RS, calculado pela FGV, aumentou cerca de 50% entre dezembro de 1999 e junho de 2010 — último dado disponível. Já o preço de venda da terra subiu ainda mais, com ganhos reais acima de 120% para terras de pastagens e de 140% para áreas de lavoura. A elevação do preço do arrendamento é indicativo do crescimento da renda operacional propiciada pela atividade. Já a alta do preço de venda da terra reflete também a expectativa de valorização da mesma.

A principal questão que se apresenta é se essa tendência positiva de preços tende a continuar. Fatores como preços internacionais em ascensão, aumento da demanda por carnes, soja e biocombustíveis, crescimento do crédito rural, desvalorização cambial, e, recentemente, a estiagem nos EUA, dentre outros, são sinais indicativos de continuidade dessa tendência, pelo menos no futuro próximo. Desse modo, o momento parece propício para que os investimentos (públicos e privados) sejam direcionados para a atenuação dos riscos climáticos (estiagens e enchentes), mitigando as oscilações negativas da produção, para que a melhoria de renda se torne uma realidade para os produtores rurais, beneficiando toda a economia gaúcha.

A atratividade do Setor Primário gaúcho

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