A economia brasileira está superaquecida?

O crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil no primeiro trimestre de 2010 atingiu 9%, quando comparado com o do mesmo trimestre de 2009. Essa elevação, bastante superior àquelas registradas nos últimos 30 anos, trouxe de volta preocupações que têm preenchido periodicamente as agendas dos interessados na análise dos rumos da economia nacional: a sustentabilidade de um alto crescimento e seus possíveis reflexos sobre os preços. Essa discussão se renova, à medida que esse crescimento avança, com alguns de seus protagonistas ignorando convenientemente que já previram, lá atrás, a impossibilidade de uma expansão continuada sem aumento da inflação. Vejamos por que esses aspectos são mais complexos do que aparentam.

A crise mundial de 2008 trouxe especificidades à análise do nível da atividade que não podem ser ignoradas. O primeiro semestre de 2010 deve ser visto como aquele no qual se completa o processo de recuperação da atividade econômica, após a queda abrupta do final de 2008, que se estendeu até o início do ano passado. Nesse contexto, a retração da produção industrial de 7,4% durante todo o ano de 2009 foi revertida para um expressivo crescimento de 17,3% nos primeiros cinco meses de 2010, quando comparados a igual período do ano anterior. Entretanto o nível de atividade industrial até maio foi apenas 1% superior àquele apresentado nos primeiros cinco meses de 2008. E, embora reduzidos frente ao ritmo anterior, houve investimentos em 2009, os quais se aceleraram ao longo do ano, em um processo que adentrou 2010. Assim, a utilização da capacidade instalada na indústria, no mês de maio, embora se apresente em patamar relativamente alto, encontra-se um ponto percentual abaixo dos 85,6% registrados em maio de 2008. Ou seja, a atividade industrial até o momento encontra-se aquecida, mas não ainda superaquecida, sendo essa uma constatação que parece poder ser estendida à economia como um todo.

Isso não significa que qualquer processo de crescimento não possua limites, internos ou externos. No caso em tela, a forte demanda interna, com as vendas do varejo atingindo níveis recordes no País, vem progressivamente minando o saldo em conta corrente, que apresenta déficit acumulado, nos últimos 12 meses até junho, de 2,13% do PIB. É um indicador a ser acompanhado, mesmo que, no curto prazo, o problema seja minorado pelo elevado nível das reservas brasileiras. Também no front externo, outra ameaça mais concreta advém do fato de a crise financeira mundial estar longe de ter terminado, pressagiando um segundo semestre de desaceleração na atividade econômica dos países desenvolvidos, o que pode prejudicar exportações brasileiras. Mas também aí existem efeitos positivos para o controle da inflação brasileira, em um contexto sempre ignorado pelos defensores dos apertos na política monetária. Outro aspecto é o positivo processo de acelerada geração de empregos, que fez com que a taxa de desemprego tenha recuado em jun./10 para 7,0% nas principais regiões metropolitanas. Uma queda acentuada do desemprego no segundo semestre pode disseminar situações de pressão para elevações salariais, tal qual ocorre, hoje, no segmento da construção civil, com possíveis efeitos sobre os preços. Mas, também aí, o crescimento da População Economicamente Ativa deve mitigar esse efeito. É importante ter-se em mente que o processo de crescimento capitalista é sempre desequilibrado. O fundamental é que a solução dessas inevitáveis tensões se dê em favor de uma dinâmica positiva.

A economia brasileira está superaquecida

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