Textos com assunto: urbanismo

Impactos intra-urbanos de grandes empreendimentos

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Edição: Ano 18 nº 06 - 2009

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Os problemas dos grandes empreendimentos (GEs) emergiram com o avanço da urbanização e das aglomerações metropolitanas. Do ponto de vista da territorialidade, essas atividades apontam a formação de padrões adensados de ocupação de população, produção e consumo. Em Porto Alegre, a indústria praticamente se evadiu para o resto da formação metropolitana, deixando de exercer pressão relevante por ocupação. A reestruturação produtiva não só alçou os serviços à condição de carro-chefe da economia da Cidade, como estabeleceu escalas ampliadas para os mesmos. As escalas aumentaram tanto em nível do estabelecimento de um subsetor (super e hipermercados, hospitais, etc.) quanto na combinação de atividades com mais de um segmento de serviços (hotéis com centro de convenções, shopping centers com hotelaria, hospitais com hotelaria para acompanhantes de pacientes, etc.), formando verdadeiros complexos de serviços. A questão é onde localizar esse tipo de empreendimento numa cidade já construída, mas que ainda dispõe de alguns espaços disponíveis?

Todos os GEs têm algo em comum, na medida em que atraem grande quantidade de população (moradores, clientes e usuários), mercadorias e serviços, o que significa que são grandes geradores de viagens, além de elevarem substantivamente as densidades e o valor do solo no seu entorno. Isso tende a esgotar a capacidade das redes de infra-estrutura, criando demanda por redimensionamento das mesmas. Ainda que os investimentos adicionais em infra-estrutura venham sendo, de uma forma ou de outra, compartilhados entre o setor público e os GEs, um avanço inegável, não têm sido capazes de compensar o aumento da demanda que daí decorre. Há itens de infra-estrutura, como o sistema viário, que, em muitos casos, têm capacidade finita de expansão, o que desemboca, inevitavelmente, nos conhecidos congestionamentos e na conseqüente elevação dos custos de circulação.

É inegável a enorme sedução exercida pelos GEs sobre o imaginário social a partir de bem-concebidas campanhas de marketing, nas quais são realçadas a geração de renda e empregos, a revitalização de áreas livres e/ou degradadas da cidade e também os efeitos sobre as finanças locais. Cidades dinâmicas, como Porto Alegre, por exemplo, estão permanentemente discutindo projetos de grande escala, cuja preferência locacional são áreas relativamente ocupadas, próximas desítios nobres e frágeis ambientalmente, como a orla do Guaíba. Somente na faixa da orla que vai de Estação Rodoviária até o Hipódromo do Cristal (em torno de 8km) estão ou virão a ser implementados a Rodoviária, a revitalização do Cais do Porto, a complementação do Shopping Praia de Belas, a reforma do Complexo Beira Rio, o Pontal do Estaleiro e o Barrashoppingsul. Todos esses empreendimentos têm algum grau de importância para a economia da Cidade, todavia, se associarmos os GEs ao privilégio concedido ao transporte individual em detrimento do transporte coletivo, podemos imaginar os reflexos disso tudo sobre os custos de circulação.

Numa perspectiva de médio e longo prazos, somente no trecho acima referido, serão formados pontos de estrangulamento que causarão custos adicionais, generalizados, de congestionamento, que serão pagos pela população e pelas atividades econômicas que funcionam nessa parte da Capital. Significa uma elevação dos custos urbanos de Porto Alegre.

Desde 1998, o Governo local estabeleceu uma política para aperfeiçoar o controle de implantação de Ges, obrigando a apresentação do Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima). Além disso, tem exigido, em alguns casos, o cumprimento de medidas compensatórias aos efeitos negativos dessas unidades. Certamente, esse procedimento tem contribuído para mitigar, parcialmente, os efeitos mais perversos dos GEs sobre o seu entorno. Todavia não é suficiente para assegurar um desenvolvimento urbano equilibrado e sustentável da Cidade. As propostas que têm surgido são na linha de mais investimento viário, mais garagens, para atender a mais automóveis. Nessa direção, lamentavelmente, somos obrigados a concluir que não teremos soluções duradouras.

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