Textos com assunto: taxa de desemprego

O que dizem as diferentes bases estatísticas sobre a recuperação do emprego em 2017

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Edição: Ano 26 nº 12 – 2017

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O diagnóstico de que a economia brasileira experimenta uma lenta retomada vem consolidando-se nos últimos meses. No primeiro semestre de 2017, ainda havia incertezas sobre a continuidade da recuperação, visto que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) esteve vinculado a fatores pontuais, como a safra agrícola favorável no primeiro trimestre e o aumento do consumo resultante da liberação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) no segundo. No terceiro trimestre, porém, o desempenho do PIB e dos principais indicadores de atividade parece assentar-se sobre bases mais sustentáveis, ainda que não necessariamente potentes para induzir uma aceleração da retomada, como a recuperação cíclica do investimento e a expansão do consumo associada ao aumento do emprego e da massa de rendimentos reais.

Em linha com os demais indicadores de atividade, os dados do mercado de trabalho são positivos, mas modestos frente ao tamanho da queda que precedeu a recuperação. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de janeiro a setembro foram gerados 1,035 milhão de ocupações no País. Esse montante, contudo, não foi suficiente para reduzir o contingente de desocupados, devido ao ingresso de 1,65 milhão pessoas na força de trabalho, no mesmo período. Representa, também, uma recuperação parcial da queda da ocupação observada em 2015 (menos 630 mil) e 2016 (menos 1,98 milhão). Segundo as estimativas da PNADC, no terceiro trimestre de 2017, 104,3 milhões de pessoas faziam parte da força de trabalho no Brasil. Desse total, 91,3 milhões encontravam-se ocupadas, e 13 milhões ainda estavam desempregadas (o que equivale a uma taxa de desocupação de 12,4%).

Uma característica distintiva da recuperação da ocupação em 2017 é a prevalência das ocupações informais e dos autônomos, ou seja, de formas de inserção mais precárias no mercado de trabalho. Como pode ser observado na tabela abaixo, na composição do crescimento da ocupação nos três primeiros trimestres do ano, destacam-se a redução do número de ocupados no setor privado com carteira assinada e os aumentos no setor privado sem carteira assinada e entre os autônomos. Os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de outubro de 2017, muito comemorados, apontaram a geração líquida de 76,6 mil vagas formais no mês (dado preliminar, a ser complementado com as declarações fora do prazo). De janeiro a setembro, o saldo também foi positivo (mais 231,0 mil vagas), embora reduzido, se comparado com a eliminação de 1,52 milhão de postos em 2015 e 1,31 em 2016.

O desempenho do mercado de trabalho no Rio Grande do Sul, segundo a PNADC, segue a mesma tendência observada em nível nacional — preservando, contudo, as diferenças estruturais como as menores taxas de participação e de desocupação. No Estado, estima-se que, no terceiro trimestre do ano, 6,1 milhões de pessoas faziam parte da força de trabalho, das quais 5,6 milhões estavam ocupadas e 490 mil desempregadas (taxa de desocupação de 8,0%). Ainda segundo a PNADC, de janeiro a setembro foram gerados 27 mil novas ocupações, mas também aqui se observa o predomínio do emprego informal e dos autônomos. De acordo com os dados do Caged para o Estado, foram geradas 8 mil vagas formais em outubro (dado também preliminar). De janeiro a setembro, o saldo ainda apresentava uma pequena redução (menos 187 vagas). Em 2015 e 2016, no entanto, foram eliminadas 93,7 mil e 53,0 mil vagas formais respectivamente.

No que se refere à Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), as informações da PNADC divulgadas trimestralmente são mais restritas, compreendendo apenas os dados de população e condição em relação à força de trabalho e ocupação. Nesse aspecto, a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED-RMPA) traz informações mais abrangentes sobre o desempenho do mercado de trabalho na região. Segundo a PED, no trimestre encerrado em novembro, 1,85 milhão de pessoas faziam parte da força de trabalho da RMPA, das quais 1,62 milhão encontravam-se ocupadas e 234 mil desempregadas (taxa de desemprego de 12,6%). De acordo com a Pesquisa, houve redução na ocupação de janeiro a novembro, sobretudo no setor público (-37 mil ocupados) e no setor privado com carteira (-31 mil ocupados).

Os dados apresentados mostram que as diferentes bases de dados e pesquisas disponíveis para o acompanhamento do mercado de trabalho no Brasil se complementam, ao invés de se sobreporem. O Caged é uma base de dados construída a partir dos registros administrativos do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que apresenta um retrato rico e detalhado do emprego formal no Brasil, para diferentes níveis regionais. Porém representa apenas a parcela formal do mercado de trabalho brasileiro e nada diz sobre a demanda por emprego e sobre as formas precárias de inserção que ainda persistem no País. A PNADC é uma pesquisa domiciliar por amostragem, que passou a ser a principal referência do IBGE para acompanhamento do mercado de trabalho no País, apesar da limitação de apresentar uma série histórica relativamente pequena, com início em 2012. Em sua versão trimestral, a pesquisa revela informações comparáveis entre o País e os estados, incluindo as diferentes formas de inserção no mercado de trabalho e as características sociais e econômicas dos trabalhadores. No entanto, as informações divulgadas trimestralmente para regiões menores, como a RMPA, são mais restritas. A PED, por sua vez, trabalha com uma amostragem que permite não apenas o acompanhamento mensal do desempenho do mercado de trabalho na RMPA, mas também o mapeamento das características econômicas e sociais dos trabalhadores da região, além de disponibilizar uma série histórica contínua, desde 1992, que permite a realização de estudos estruturais sobre as mudanças no mercado de trabalho ao longo dos anos.

Visto por diferentes ângulos, o mercado de trabalho parece mostrar sinais de relativa melhora em 2017. Porém, o aumento da ocupação ainda está longe de recuperar as perdas dos anos anteriores. Em conjunto com a queda da taxa de juros e com a melhora das condições de crédito, a ampliação do emprego e da renda teria potencial para dar tração ao processo de recuperação do consumo e de utilização da capacidade ociosa da economia. Por ora, porém, o tipo de ocupação que está sendo gerada não parece consistente para, ao lado do crédito, balizar uma aceleração do crescimento com base no consumo. Mostra-se, apenas, consistente com a hipótese de recuperação lenta da economia.

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Desemprego na RMPA: uma comparação entre 1998-99 e 2015-16

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Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

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O aspecto que mais preocupa do mercado de trabalho brasileiro na presente conjuntura de crise econômica é o desemprego. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgada em janeiro de 2017, estima-se que o Brasil tinha 11,76 milhões de pessoas desocupadas em 2016, o que corresponde a uma taxa de desocupação de 11,5%.

Este texto se propõe a tratar do desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), comparando dois períodos: a crise de 2015 e 2016 e o seu momento antecedente de maior gravidade, que se deu nos anos de 1998 e 1999. Essa comparação torna-se possível pelo fato de o trabalho utilizar dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego na RMPA (PED-RMPA), que hoje se constitui na mais longa série histórica da Região, pois apresenta médias anuais dos seus indicadores, de forma ininterrupta, desde 1993 até o presente.

Inicialmente, para a melhor compreensão do objeto deste trabalho, caberia esboçar brevemente a trajetória do desemprego na RMPA ao longo de toda a série histórica da Pesquisa. Nesse sentido, no contexto da estabilização monetária do País, em 1994, o desemprego evidenciou um período de descenso até 1995. De 1996 a 1999, no ambiente de baixo crescimento econômico combinado à reestruturação produtiva, o desemprego ingressou em um processo de acentuada elevação, atingindo o seu nível máximo em 1999. O período de 2000 a 2003 combinou uma fase inicial de queda com outra de crescimento do desemprego. De 2004 a 2014 — com uma interrupção pontual em 2009, devido aos efeitos crise econômica internacional —, o desemprego apresentou uma tendência consistente de redução, atingindo o seu nível mínimo neste último ano. Finalmente, em 2015 e 2016, na conjuntura de uma forte contração econômica, o desemprego passou por uma inflexão em sua trajetória, com acentuado crescimento.

Agora, comparando-se o desemprego na RMPA nos anos de 1998-99 com o de 2015-16, constata-se que, em ambos os períodos, a taxa de desemprego total teve uma considerável elevação, não obstante os seus níveis estivessem em patamares muito distintos — ver Gráfico 1. Nesse sentido, a taxa de desemprego total elevou-se para 15,9% em 1998 e para 19,0% em 1999, situando-se, neste último ano, 5,6 pontos percentuais acima de 1997. Já na crise econômica atual, a taxa de desemprego total aumentou para 8,7% em 2015 e para 10,7% em 2016, com um acréscimo de 4,8 pontos percentuais em relação ao ano de 2014. É importante assinalar que a trajetória do desemprego na RMPA em 1998-99 foi uma continuidade do processo de piora que havia iniciado em 1996. Por sua vez, na crise de 2015-16, a trajetória representou uma inflexão no movimento de descenso que vinha verificando-se desde 2004.

Quando se coteja o comportamento da População Economicamente Ativa (PEA) — uma proxy de oferta de força de trabalho — e o da ocupação nos dois períodos que estão sendo analisados, é possível avançar no conhecimento do que está subjacente à elevação do desemprego em cada um deles — ver Gráfico 2. A esse respeito, chama a atenção de imediato a diferença de comportamento do nível ocupacional entre ambos: enquanto, na crise atual, este apresentou contrações de 31 mil pessoas em 2015 e de 83 mil em 2016 — a maior da série histórica da Pesquisa em termos absolutos e relativos (-4,7%) —, em 1998 ele havia tido um acréscimo de 53 mil pessoas e, em 1999, de 24 mil. No que diz respeito à oferta de força de trabalho, foi também muito distinto o comportamento nos dois períodos em análise: na crise atual, ocorreram um acréscimo da PEA de 25 mil pessoas em seu contingente em 2015 e uma contração de 50 mil em 2016. Ao final dos anos 90, a PEA registrou aumentos muito expressivos, de 107 mil pessoas em 1998 — o maior da série histórica da Pesquisa — e de 89 mil em 1999. A combinação desses movimentos fez com que houvesse acréscimos no contingente de desempregados de 119 mil pessoas no período 1998-99 como um todo e de 89 mil em 2015-16.

Fica claro, portanto, que o crescimento do desemprego na RMPA, nos dois períodos enfocados neste texto, foi uma manifestação de movimentos bastante distintos do nível de ocupação e da oferta de força de trabalho. Na crise atual, o aumento do desemprego foi determinado pela contração do nível ocupacional, combinado com a elevação da PEA em 2015, mas atenuado pela saída de pessoas do mercado de trabalho em 2016. Já no período 1998-99, a elevação do desemprego foi provocada por um crescimento da oferta de força de trabalho em larga escala, muito superior à capacidade de geração de oportunidades ocupacionais pela economia regional naquela conjuntura.

Como citar:

BASTOS, Raul Luis Assumpção. Desemprego na RMPA: uma comparação entre 1998-99 e 2015-16 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/desemprego-na-rmpa-uma-comparacao-entre-1998-99-e-2015-16/>. Acesso em: 12 de dezembro de 2018.

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Perspectivas para a taxa de desemprego em 2017

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Edição: Ano 25 nº 11 – 2016

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O contexto de recessão em que se encontra a economia brasileira nos últimos dois anos vem-se traduzindo na escalada da taxa de desemprego e na deterioração dos demais indicadores do mercado de trabalho, após uma longa trajetória de redução do desemprego, do aumento real dos salários e da formalização. Com a proximidade do final do ano, o questionamento que se faz é: quais as perspectivas para a taxa de desemprego em 2017?

A taxa de desemprego no Brasil, que era de 6,8% em 2014, aumentou para 8,5% em 2015 e para 11,8% no trimestre de julho a setembro de 2016, atingindo mais de 12 milhões de pessoas, segundo os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O cenário favorável do mercado de trabalho que se estendeu até 2014 suscitou vários questionamentos sobre o motivo pelo qual a taxa de desemprego não estava sendo afetada pela desaceleração da economia brasileira desde 2011 e ainda mais em 2014, quando os sinais de estagnação econômica já eram visíveis. O fato é que, nesse período, o fraco crescimento nas oportunidades de trabalho foi compensado pelo menor engajamento na força de trabalho. Entretanto, em 2015, com o agravamento da crise e a redução dos salários, observou-se o ingresso de pessoas que até então estavam fora do mercado de trabalho, o que, combinado à retração do nível ocupacional, resultou na escalada na taxa de desemprego. Como o indicativo é que a geração de empregos seguirá lenta durante o próximo ano, a perspectiva da taxa de desemprego em 2017 irá depender do comportamento da População Economicamente Ativa (PEA).

De acordo com os dados da Pesquisa de Emprego e Desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA), a taxa de desemprego, que era de 5,9% da PEA em 2014 — menor patamar da série com dados desde 1993 —, subiu para 8,7% em 2015 e já atingiu 10,7% no acumulado entre janeiro e setembro de 2016. Assim como ocorreu no mercado de trabalho nacional, a redução na taxa de desemprego entre 2011 e 2014 deveu-se integralmente ao processo de queda na taxa de participação (de 57,1% para 54,4%), ou seja, a retração na PEA foi mais intensa que a diminuição no número de ocupados. A trajetória da taxa de ocupação, que corresponde à proporção de ocupados sobre a População em Idade Ativa (PIA), recuou nesse período (de 52,9% para 51,2%). Em 2015, a taxa de ocupação continuou em declínio (49,9%), tendo encolhido o número de ocupados em 31 mil pessoas, mas a taxa de participação apresentou leve crescimento, ao passar para 54,7%, decorrente do ingresso de 25 mil pessoas no mercado de trabalho, aumentando o contingente de desempregados para 169 mil indivíduos no ano. Os dados de janeiro a setembro de 2016 revelam redução na taxa de participação (53,0%), com a saída de 53 mil pessoas da força de trabalho, e uma queda ainda maior na taxa de ocupação (47,3%), com a eliminação de 86 mil ocupações, o que aumentou o contingente de desempregados para 202 mil pessoas, patamar que não era visto desde 2009.

A análise dos dados sugere que o crescimento da taxa de desemprego seria ainda mais intenso não fosse o recuo da taxa de participação, seja pelo adiamento do ingresso dos jovens nas atividades laborais para se dedicarem somente aos estudos, seja pelo aumento na proporção de idosos na população, em consequência da transição demográfica. A taxa de desemprego em 2016 (no acumulado de janeiro a setembro) teria atingido 13,2%, caso não tivesse ocorrido a redução na PEA. O fato é que a taxa de participação nos meses de agosto e setembro de 2016 já apresentou crescimento leve, indicando que a queda do rendimento médio real dos últimos dois anos, além do agravamento do desemprego, já começa a pressionar o ingresso daqueles que estavam fora do mercado de trabalho.

As perspectivas para o mercado de trabalho em 2017 indicam que o cenário mais provável ainda será o de elevação na taxa de desemprego, já que o emprego reage de forma defasada em relação ao nível de atividade. De um lado, os indicadores de atividade econômica sugerem uma saída lenta da crise, com fraco crescimento econômico, o que deve gerar poucas oportunidades de emprego e a manutenção dos salários em níveis baixos, o que, além de pressionar o desemprego, ainda dificulta uma retomada mais forte da economia. Por outro lado, um maior engajamento no mercado de trabalho à procura de uma ocupação também contribuirá para elevar a taxa de desemprego. Essa pressão será ainda maior se houver um aumento na taxa de participação dos jovens, pois eles apresentam taxa de desemprego mais elevada devido à pouca experiência profissional. Cabe ressaltar que a parcela de jovens fora do mercado de trabalho para se dedicar somente aos estudos já apresenta redução para os dados nacionais, o que ainda não se verifica na RMPA.

Em relação à posição na ocupação, verifica-se que estão sendo eliminadas as ocupações de melhor qualidade. Em 2016, já foram fechados 62 mil empregos com carteira de trabalho assinada na RMPA, e a única ocupação que vem crescendo nos últimos meses, de forma mais intensa, é a dos trabalhadores autônomos (42 mil de junho a setembro). Essa tendência deve-se manter em 2017, visto que essa ocupação se caracteriza pela precariedade, pois, via de regra, possui uma remuneração mais baixa em relação ao emprego formal, além de não ter acesso aos benefícios sociais.

Em síntese, a taxa de desemprego seguirá elevada enquanto o cenário não mostrar uma retomada do crescimento econômico de forma consistente. A perspectiva é que o patamar de desemprego no período pré-crise ainda demore algum tempo para aparecer no horizonte.

Como citar:

BRANCO, Iracema Castelo. Perspectivas para a taxa de desemprego em 2017 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/perspectivas-para-a-taxa-de-desemprego-em-2017/>. Acesso em: 12 de dezembro de 2018.

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