Textos com assunto: spread bancário

O longo caminho entre o Copom e o consumidor

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Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

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A decisão sobre a taxa básica de juros (taxa Selic) possui grande repercussão no restante da economia. No Brasil, ela é definida pelo Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) em reuniões periódicas com intervalo de sete semanas. O público em geral é impactado pela definição, pois é essa taxa que determina a base sobre a qual os bancos irão fixar a taxa de juros cobrada do consumidor.

Em outubro passado, o BC iniciou um processo de redução na taxa Selic, devido ao arrefecimento da inflação e à fraca atividade econômica. Uma vez diagnosticado que as expectativas de inflação estão mais fortemente ancoradas, abre-se espaço para incentivar a retomada da atividade econômica via queda dos juros, o que provocaria a redução do endividamento das empresas e das famílias, permitindo um aumento do investimento e do consumo. No entanto, esse desenrolar não é tão trivial como se faz parecer: em períodos de recessão, não se espera que as empresas estejam dispostas a aumentar investimentos, pois não há perspectiva de expansão do mercado. Já no que se refere às pessoas físicas, pode parecer plausível que a queda nos juros estimule o consumo, embora, nesse caso, a queda na renda real decorrente da crise possa contribuir negativamente, tornando o efeito líquido menor ou mesmo nulo.

Em Rocha (2016), tratou-se da relação da atividade econômica no Rio Grande do Sul com o crédito às famílias e empresas. Ali, ficou demonstrado que, apesar de a queda da taxa básica de juros ajudar no processo de reversão do quadro recessivo, ela poderia não ser suficiente, pois a tomada de crédito por parte dos agentes depende não só do custo — a taxa de juros —, mas também da expectativa de demanda.

Além dessa dificuldade, deve-se salientar que a taxa Selic é apenas um dos componentes da taxa de juros cobrada dos consumidores: a ela é acrescido o spread bancário. O spread constitui-se naquilo que o banco comercial cobra dos consumidores a fim de cobrir seus custos administrativos, impostos, provisões de inadimplência e formar o lucro. Isso quer dizer que, se a taxa básica de juros cair, mas o spread se elevar, o juro ao consumidor pode não sofrer alteração. O gráfico apresenta algumas variáveis geralmente relacionadas como determinantes do spread, buscando explicar seu desempenho.

O comportamento do spread, a partir de janeiro de 2016, destoou do restante do período: somente no ano passado, aumentou cerca de 30%. No entanto, as variáveis relacionadas não são suficientes para explicá-lo: a taxa Selic e a inadimplência permaneceram constantes no período; já a inflação se reduziu, o que deveria provocar uma redução no spread. Como resultado, os custos da tomada de crédito para o consumidor aumentaram, embora: (i) a taxa básica estivesse estável; (ii) a inadimplência estivesse estável, com alguma elevação nas modalidades de cheque especial e cartão de crédito ao final de 2015; e (iii) a inflação estivesse em queda. O que, então, poderia explicar esse acréscimo no spread?

Sabe-se que as modalidades que mais contribuem para essa elevação são os créditos pré-aprovados, como cheque especial e o cartão de crédito, cujas taxas de juros, no último ano, chegaram aos recordes de 328% e 485% a.a. respectivamente. Em momento de aumento do desemprego e queda da renda real, os créditos pré-aprovados são os primeiros a serem utilizados pelos consumidores, pois independem de nova negociação com os bancos. E mais: nas recessões, os próprios bancos elevam as exigências requisitadas para os empréstimos, buscando proteger-se da expectativa de aumento da inadimplência. Com isso, os consumidores passam a utilizar aquele crédito mais acessível, que já foi pré-aprovado. Não por outro motivo, recentemente, o Banco Central limitou a um mês o prazo de utilização do cartão de crédito rotativo.

É fundamental também observar a atual postura dos bancos públicos, traçando comparações com outros momentos de incerteza. Considerando as diferenças quanto às causas e a profundidade das crises, em 2008 também houve uma limitação do acesso ao crédito. À época, a propagação desse fenômeno foi mitigada pela ação dos bancos públicos, que ingressaram no mercado oferecendo empréstimos e mantendo a fluidez de crédito na economia. Mais tarde, em 2012, as instituições públicas abertamente declararam sua ação no sentido de reduzir o spread bancário. Como podemos ver no gráfico, nesse período, houve uma elevação permanente da participação dos bancos públicos no total do crédito no Sistema Financeiro Nacional. Por outro lado, com a troca no comando em 2016, a postura das instituições públicas tornou-se oposta: além de ter sua expansão limitada, há declaradamente uma busca por maior rentabilidade.
Nesse sentido, percebe-se que a elevação do spread bancário em 2016 foi concomitante à interrupção do crescimento dos saldos de crédito originários de instituições públicas. Em um mercado em que seis bancos possuem 80% dos ativos, é mister perguntar até que ponto a concorrência dos bancos públicos servia para conter a elevação dos spreads bancários, e, portanto, se essa mudança de postura permitiu a elevação substancial dos juros ao consumidor. Adiciona-se, ainda, que os próprios bancos públicos têm reforçado esse aumento, com vistas a retomar a rentabilidade.

Em suma, qualquer esperança na reversão da crise via redução dos juros básicos passa por perceber que os intermediários — os bancos comerciais (públicos e privados) — têm papel importante no impacto final sobre as taxas de juros cobradas do consumidor. Se, no passado recente, os bancos públicos se colocaram como uma alternativa mais barata para a tomada de crédito, no momento atual essa alternativa não se apresenta. Nesse caso, a reversão completa desse crescimento recente no spread não parece estar no horizonte próximo, o que significa que a taxa de juros ao consumidor final não deverá cair na mesma medida em que subiu no último ano. Como consequência, o possível efeito positivo da queda da taxa básica também não será tão grande quanto o efeito negativo do período de seu aumento.

Como citar:

PAIM, Bruno. O longo caminho entre o Copom e o consumidor Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/o-longo-caminho-entre-o-copom-e-o-consumidor/>. Acesso em: 24 de outubro de 2017.

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