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Recuperação na indústria de transformação?

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Edição: Ano 25 nº 11 – 2016

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A possibilidade de recuperação da indústria de transformação nacional tem sido apresentada como o principal elemento dinâmico de uma eventual retomada da economia brasileira. Em que pesem a melhora das expectativas dos empresários do setor, o crescimento das exportações e a tendência de estabilização da produção na margem, os dados parecem indicar, quando muito, um crescimento lento a partir de um patamar bastante reduzido.

Após um longo período de ajustes, que resultou numa redução acumulada da produção de 18% entre o primeiro trimestre de 2014 e o primeiro trimestre de 2016 — segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal-Produção Física (PIM-PF) do IBGE —, alguns setores da indústria de transformação passaram a exibir um desempenho mais favorável a partir de abril deste ano, pelo menos na comparação com o trimestre imediatamente anterior. Esses setores podem ser divididos em dois grupos. No primeiro, estão aqueles cuja rentabilidade aumentou com a depreciação do real, com reflexos tanto na ampliação das exportações quanto no aumento da parcela do mercado interno atendida pela produção nacional. Podem ser incluídos, nesse grupo, calçados, têxteis, papel e celulose e químicos. No segundo grupo, estão os setores vinculados à produção de bens de capital, categoria que registrou uma expansão de 7,0% entre abril e agosto. Incluem-se, nesse grupo, parte da metalurgia e a produção de máquinas e equipamentos, de material elétrico e de equipamentos de informática. A expansão da produção de bens de capital parece refletir a conjunção de três fenômenos: a ampliação de exportações, o fim do ciclo de redução de estoques e um processo incremental de reposição do capital depreciado. Trata-se, porém, de um crescimento pequeno, frente aos longos meses de cortes.

Apesar da melhora marginal em alguns setores, o total da indústria de transformação ainda registrou queda de 1,6% entre abril e agosto. Entre os setores que seguem em retração, há alguns que ora sinalizam uma estabilização, ora voltam a se reduzir, apresentando um desempenho irregular. Esse parece ser o caso dos produtos alimentícios e dos veículos automotores. Entre abril e julho, por exemplo, ambos os setores haviam registrado um crescimento acumulado de 3,0% e 4,6% respectivamente. Nos dois casos, a expansão verificada foi completamente anulada pelo desempenho negativo registrado apenas no mês de agosto. No setor de veículos, há informações de que a queda no mês teria sido aprofundada por problemas pontuais com o fornecimento de peças e com a greve bancária. Com a normalização da produção, é possível que o setor retome a trajetória observada até julho.

Há, finalmente, aqueles setores nos quais houve redução da produção devido à atuação de elementos exógenos, como a queda de 41,4% na produção de fumo, afetada pela quebra de safra, ou cuja dinâmica de produção é caracterizada por descontinuidades, como nos derivados de petróleo e nos outros equipamentos de transporte (aviões e construção de embarcações). No geral, o desempenho do conjunto da indústria nacional ainda não avaliza a hipótese de recuperação. Porém, quando são excluídos os eventos pontuais, a tendência à estabilização, acompanhada de um crescimento moderado na margem, parece ser a regra entre os principais setores (gráfico).

A indústria do Rio Grande do Sul costuma apresentar uma maior variabilidade frente à média nacional, a despeito de ser uma das mais diversificadas do País. Tal fenômeno é próprio das economias regionais, haja vista a maior concentração de determinados setores ou o menor número de empresas em cada setor. Com efeito, algumas especificidades da composição setorial da indústria gaúcha, como a maior participação relativa da produção de fumo e de derivados de petróleo — setores que, por suas características, costumam ser mais voláteis —, ajudam a explicar não apenas a queda mais intensa, de 3,8%, registrada entre abril e agosto, mas também as oscilações que vêm sendo verificadas ao longo deste ano. A maior participação da produção de móveis, cuja crise perdura no País, também justifica o diferencial de crescimento no período. Em sentido contrário, pesam a favor do desempenho da indústria gaúcha a expansão da produção de celulose, que ampliou a sua relevância recentemente, bem como a de calçados e dos setores que compõem o segmento metalmecânico, ainda tradicionais na estrutura produtiva estadual.

Superada a fase inicial de ajustes e de estabilização, a recuperação da indústria, nacional e regionalmente, poderá ganhar consistência quando o mercado interno mostrar sinais mais claros de expansão. Ainda que as exportações de bens industriais sejam um destino relevante para a produção, sobretudo no Rio Grande do Sul, o seu potencial de crescimento é reduzido por diversos motivos, entre os quais, o lento crescimento esperado para a demanda mundial. Nesse contexto, o cenário de queda da inflação e da taxa de juros no País, combinado com alguma melhora nas condições de crédito, poderá contribuir para a retomada. Porém, os níveis elevados de endividamento das famílias e das empresas, assim como o alto desemprego e a persistência da tendência de redução dos rendimentos reais, podem limitar o potencial expansivo desse movimento. Por outro lado, apesar do crescimento recente do investimento, o nível de utilização da capacidade instalada na indústria ainda é baixo, sendo pouco provável que a expansão autônoma da produção dos bens de capital persista para além da fase de reposição. Assim, é possível que a recuperação ensaiada em 2016 se consolide em 2017, a partir de uma recuperação moderada do mercado interno, na esteira da redução dos juros. Não há, porém, indicativos de que essa retomada possa adquirir força suficiente para restabelecer o nível de produção pré-crise no curto prazo.

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Como citar:

HOFF, Cecília Rutkoski. Recuperação na indústria de transformação? Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/recuperacao-na-industria-de-transformacao/>. Acesso em: 23 de agosto de 2017.

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