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O impacto dos eventos de estiagem na economia dos municípios do RS

Por: e

Edição: Ano 22 nº 12 – 2013

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Um dos temas atuais e centrais que emergem da análise da economia gaúcha é o impacto da estiagem sobre a economia local. Sabe-se, pela estrutura de seu setor produtivo — baseado, em grande medida, no Setor Primário e em seus encadeamentos —, que os efeitos desses eventos são bastante acentuados. Além dos diretos, ocorrem também os chamados efeitos indiretos, que incluem aqueles sobre as indústrias de beneficiamento de grãos, alimentos e bebidas, máquinas e equipamentos agrícolas, além do comércio e os serviços em geral. É imperioso, pois, que se relacione a estiagem não apenas com o Valor Adicionado Bruto (VAB) do setor agropecuário, mas também com o VAB dos outros setores produtivos.

Nos últimos anos, tem aumentado significativamente o número de ocorrências registradas pela Defesa Civil do Rio Grande do Sul por municípios que sofreram algum tipo de impacto negativo em consequência da falta de chuva. Entre 2003 e 2012, 160 municípios comunicaram à Defesa Civil a ocorrência de estiagem em pelo menos quatro anos, com destaque para o Município de Bagé, que teve registros em oito dos 10 anos analisados.

Tendo em vista esses aspectos, objetiva-se relacionar a ocorrência de eventos de estiagem com o PIB total dos municípios gaúchos, visando incluir na análise todos os possíveis desdobramentos da escassez de chuva sobre as economias locais.

Os resultados principais do estudo são expostos na tabela abaixo. A variação nominal do PIB do RS foi decomposta em dois grandes grupos: municípios atingidos pelo evento estiagem (grupo de tratamento, A) e municípios não atingidos (grupo de controle, B). Também é evidenciado o número de municípios que declararam ou não estiagem em cada ano. A última coluna torna explícita a diferença de crescimento do PIB entre os dois grupos, em cada ano, em pontos percentuais.

Observa-se que, especialmente nos anos em que um número substancial de municípios registrou ocorrência de estiagem (2004, 2005 e 2009), o Grupo A apresentou crescimento do PIB menor. Em 2005, inclusive, a taxa de crescimento foi negativa (-3,8%), em face de taxas positivas do Grupo B (6,0%) e do RS (4,6%). Como síntese, os dados mostram que, em anos em que há mais registros de ocorrência de estiagem, os municípios atingidos tendem a perder participação econômica.

Há ainda outros aspectos interessantes que podem ser extraídos da análise realizada. Os municípios que registraram estiagem no período selecionado são, geralmente, os mesmos: os eventos são concentrados nas regiões noroeste, oeste e sul do Estado. Logo, eventos recorrentes de estiagem podem estar contribuindo para um aumento da disparidade econômica entre as regiões geográficas do Estado.

Um terceiro aspecto diz respeito ao fato de que a variação registrada no PIB dos municípios é nominal, ou seja, carrega consigo, além da variação de volume de produção, os preços. Em geral, quando há restrição na oferta de bens   agropecuários — situação típica de períodos de estiagem —, os preços sobem. Logo, se fosse registrada apenas a variação de volume de bens e serviços produzidos, a diferença entre o grupo de controle e o grupo de tratamento poderia ser ainda maior. Esse raciocínio vale, especialmente, para produtos nos quais a produção local tem capacidade de influenciar o seu preço, como são os casos do arroz e do milho.

Em quarto lugar, constatou-se que a diferença de desempenho econômico entre os municípios com e sem estiagem é maior no ano em que o evento ocorre do que em períodos maiores de análise. Em outras palavras, essa queda de participação econômica tende a ser parcialmente compensada nos anos seguintes. A razão é simples: com o aumento do preço relativo de alguns produtos agropecuários, há um incentivo para que haja uma maior oferta desses bens nos períodos seguintes. Do ponto de vista dos ofertantes, ocorre um efeito substituição positivo para os bens que ficaram relativamente mais caros, sejam esses preços determinados localmente ou mesmo no mercado internacional.

Os eventos de estiagem estão, portanto, cada vez mais frequentes, e vêm causando impactos visíveis no PIB dos municípios. Além disso, a recorrência desses eventos em algumas regiões geográficas específicas tende a intensificar as disparidades regionais no RS. Os resultados indicam a necessidade de manutenção e incremento de políticas públicas que tornem a economia gaúcha menos vulnerável às oscilações climáticas, agenda esta que deve ser prioritária para o desenvolvimento do RS.

O impacto dos eventos de estiagem na economia dos municípios do RS

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