Textos com assunto: Rio Grande do Sul

Servidores públicos ativos do Estado do Rio Grande do Sul (1991-2016)

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Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

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O debate acerca dos serviços prestados pelo Estado é um tema candente e permeado de controvérsias. Para que uma análise acurada seja efetuada, é imprescindível a observação de dados que embasem as conclusões.

No caso do Rio Grande do Sul, dados de dezembro de 2016 apontam que 84,7% de todos os vínculos dos servidores públicos ativos estão alocados no Poder Executivo (administração direta). A Secretaria de Educação possui o maior número, sendo responsável por 56,0% dos vínculos ativos. Na sequência, vêm a Brigada Militar, representando 13,2%, e a Polícia Civil, com 3,5%. As autarquias e fundações da administração indireta detêm 5,9%. Já o Poder Judiciário, incluindo a Justiça Militar, detém 5,9% dos vínculos ativos, enquanto o Ministério Público abrange 1,9%. O Poder Legislativo, que é composto pela Assembleia Legislativa e pelo Tribunal de Contas, representa 1,6% dos vínculos ativos dos servidores públicos.

No gráfico, é possível observar a trajetória declinante ao longo do tempo no número vínculos de servidores públicos ativos do Estado do Rio Grande do Sul. Esse contingente correspondia a 184.554 em dezembro de 1991 e passou a 155.8981 em dezembro de 2016.A redução foi, portanto, de 28.656 (-15,5%). A diminuição dos vínculos ativos em relação à população foi mais acentuada ainda, já que a população do RS aumentou 23,5% no período. Caso a proporção se mantivesse desde 1991, hoje haveria 227.924 vínculos. É preciso ponderar que, nesse período, houve alteração técnica, sobretudo a informatização, que ampliou a eficiência e a produtividade nos processos e rotinas do setor público. De toda forma, a maior parte da redução em termos absolutos ocorreu nas áreas de educação e segurança.

O detalhamento dos setores está mais especificado a partir do ano de 2002. Os dados mostram que, entre 2002 e 2016, apenas o Poder Executivo e o Poder Legislativo apresentam queda no número de vínculos de servidores públicos ativos, enquanto o Poder Judiciário e o Ministério Público demonstram uma tendência de elevação no número de vínculos. A Secretaria de Educação é a que mais reduziu o número de vínculos ativos em termos absolutos, tendo caído de 111.484 para 88.895 (-20,3%). Na Brigada Militar, houve também uma variação expressiva do número de vínculos, de 25.397 para 20.551 (-19,1%). Já na Secretaria da Saúde, eram 6.394 e passaram a 4.038 (-36,9%). A redução de vínculos ativos foi de 30.122 nas três áreas citadas acima, incluindo a Polícia Civil.

É notável a redução ocorrida nos anos de 2015 e 2016, período coincidente com a agudização da crise financeira vivenciada pelo RS. A partir de janeiro de 2015, foram adotadas políticas restritivas, como corte de horas extras, não pagamento de promoções, fim do abono que policiais militares aposentáveis recebiam para continuar na ativa, suspensão de gratificação à permanência de professores e parcelamento de salários, inclusive do 13.° salário. Observa-se que a maior redução dos vínculos dos servidores públicos ativos ocorreu exatamente quando essas medidas foram tomadas. Por exemplo, somente entre janeiro de 2015 e dezembro de 2016, o número de vínculos caiu 17.675. Isso significa dizer que, em apenas 24 meses, a queda no número de vínculos ativos foi 60,8% superior ao que aconteceu entre dezembro de 1991 e dezembro de 2014.

Tais informações podem embasar reflexões acerca dos impactos desse expressivo processo de desligamento sobre os serviços prestados à população, tanto no presente quanto no futuro, uma vez que alterações na educação, por exemplo, são percebidas em um período mais extenso.


1Os dados do Poder Executivo são de dezembro de 2016. Para os demais poderes, foram considerados os dados de agosto de 2016. Não estão inclusas as empresas e outras instituições de economia mista, as quais possuem receitas próprias e, na maior parte, são lucrativas.

Como citar:

CONCEIÇÃO, João Batista Santos;AVILA, Róber Iturriet. Servidores públicos ativos do Estado do Rio Grande do Sul (1991-2016) Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/servidores-publicos-ativos-do-estado-do-rio-grande-do-sul-1991-2016/>. Acesso em: 20 de novembro de 2019.

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Maiores ganhos de participação no PIB dos municípios do RS de 2002 a 2014

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Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

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Entre 2002 e 2014, o Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul cresceu, nominalmente, 262,0%. Desse total, 34,5% deveram-se ao incremento no volume, e 172,7% ao aumento nos preços. Em nível municipal, de acordo com a metodologia de cálculo utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela Fundação de Economia e Estatística (FEE), não há a desagregação das variações de volume e preços; portanto, a única variação disponível é a nominal.

Durante o período analisado, alguns municípios destacaram-se positivamente através do aumento na participação das suas economias no total do Estado. Os 10 municípios da tabela foram aqueles que obtiveram os maiores ganhos em pontos percentuais (p.p.) no período.

Guaíba apresentou o maior ganho entre todos os municípios gaúchos, mais que dobrando a participação do seu PIB no total do Estado, fazendo com que, em 2014, o município fosse 14.a maior economia do RS, subindo 11 posições desde 2002. O ganho significativo deveu-se tanto ao setor industrial quanto ao de serviços, com ênfase nas atividades da construção civil, que exibiu sensível crescimento, principalmente em 2014, referente à construção da segunda linha de produção de celulose, e de comércio de veículos automotores e motocicletas.

O crescimento de Gravataí decorreu de altas nas atividades de fabricação de veículos automotores, peças e acessórios automotivos, além de transportes e comércio de veículos automotores e motocicletas. Esse contexto tornou o município possuidor da terceira maior economia do Estado.

Cachoeirinha destacou-se devido à elevação da arrecadação de impostos sobre produtos industrializados (IPI), a qual está relacionada à fabricação de cigarros e produtos do fumo. Também houve um aumento na participação do setor de serviços. Com isso, assumiu a 12.a colocação entre as maiores economias gaúchas.

O desempenho bastante positivo de Passo Fundo derivou em alto grau das atividades industriais relacionadas a alimentos e bebidas e ao comércio atacadista de combustíveis. Ademais, o município apresentou um incremento no setor de serviços como um todo, colaborando para que figurasse como a sétima maior economia do Estado.
Caxias do Sul aumentou sua participação no PIB gaúcho principalmente devido à boa performance nas indústrias química e de veículos automotores, reboques e carrocerias e à elevação na participação do seu comércio atacadista. Dessa forma, o município manteve-se como a segunda maior economia do Estado, abaixo apenas de Porto Alegre.
Apesar de Erechim ter-se mantido como a 16.a maior economia do RS, foi o sexto município que mais incrementou sua participação no PIB. Esse ganho decorreu, sobretudo, da indústria de alimentos e bebidas, que é bastante representativa no município.

Assim como Erechim, Bento Gonçalves e Santa Maria também mantiveram suas posições no ranking dos maiores PIBs do RS (13.a e 11.a respectivamente). Bento Gonçalves apresentou alta nas indústrias de fabricação de móveis e metalurgia, e Santa Maria na distribuição de energia elétrica e gás natural e no comércio atacadista e varejista.
Já Cruz Alta e Lajeado subiram sete posições no ranking. O ganho de participação de Cruz Alta ocorreu, em grande medida, devido ao bom desempenho de todo o comércio, principalmente o atacadista, tornando o município o detentor do 24.° maior PIB do RS. Lajeado (17.° maior PIB em 2014) obteve crescimento considerável na indústria de alimentos e bebidas e comércio de veículos automotores e motocicletas.

De modo geral, os ganhos de participação desses 10 municípios foram fruto de desempenhos superiores à média estadual nas atividades de indústria de transformação e comércio, as quais são responsáveis por parcela considerável do Valor Adicionado Bruto do RS e são fundamentais na geração de empregos e renda. Esse grupo de municípios tornou-se responsável por 20,6% do PIB gaúcho em 2014, exibindo, desde 2002, acréscimo de 3,63 p.p. na parcela que possuía do PIB do Estado.

Como citar:

FANTINEL, Vinícius Dias. Maiores ganhos de participação no PIB dos municípios do RS de 2002 a 2014 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/maiores-ganhos-de-participacao-no-pib-dos-municipios-do-rs-de-2002-a-2014/>. Acesso em: 20 de novembro de 2019.

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O desempenho exportador do Rio Grande do Sul em 2016

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Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

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Em 2016, as exportações gaúchas totalizaram US$ 16,578 bilhões, uma redução de US$ 939,9 milhões (-5,4%) em relação a 2015. A retração das receitas ocorreu a despeito do crescimento de 2,5% nos preços médios dos produtos exportados, sendo ocasionada pela queda de 7,6% no volume embarcado ao exterior. Enquanto o valor auferido em 2016 alcançou o menor patamar desde 2010 e registrou o terceiro ano consecutivo de queda, o volume embarcado (21,674 milhões de toneladas) foi o segundo maior da história, atrás apenas do de 2015. Já os preços médios dos produtos exportados voltaram a crescer após dois anos de fortes quedas. O resultado coloca o Estado como o quarto maior exportador nacional (8,9%), atrás de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Os determinantes que contribuem para explicar esses resultados são de ordem tanto estrutural quanto conjuntural, passando por questões externas e internas. No plano externo e estrutural, o ano de 2016 caracterizou-se pelo menor crescimento do comércio e da atividade econômica globais, além do recrudescimento de práticas protecionistas ao redor do mundo. Ainda sem os dados consolidados, 2016 deve ser o ano com o ritmo mais lento de crescimento do comércio mundial desde o auge da crise financeira internacional, em 2009. Adicionalmente, a taxa de crescimento do comércio, que evoluiu o dobro da taxa do PIB mundial desde os anos 80 até a crise financeira, desacelerou-se pela metade no período recente, com possibilidade de crescer menos que o produto em 2016, algo que não ocorre há mais de uma década.

Soma-se, no plano externo, a dinâmica dos preços das commodities. Após o forte arrefecimento desses preços a partir do final de 2012 e com maior intensidade desde o final de 2014, os preços em dólar dos produtos exportados pelo Rio Grande do Sul iniciaram uma recuperação gradual ao longo de 2016. Esse movimento foi influenciado pela recuperação, mesmo que incipiente, dos preços dos produtos básicos, na esteira da recuperação pontual dos preços internacionais de algumas commodities importantes para o Estado, como a soja em grão e o fumo em folhas.

No que tange ao plano interno, o destaque positivo de 2016, na comparação com 2015, foram as vendas de celulose, com crescimento de 789.000 toneladas e recorde de volume embarcado para a China — principal destino da celulose gaúcha — e outros 18 países. A explicação para o referido crescimento é a quadruplicação da capacidade produtiva da planta em Guaíba e a base de comparação ainda baixa. Outros dois produtos de destaque foram as vendas de calçados e de automóveis de passageiros. As vendas de calçados cresceram 18% em valor e 42% em volume (8,227 milhões de pares vendidos a mais do que em 2015), influenciadas pelo aumento da rentabilidade do setor no ano, da contração do mercado interno e do aumento na participação em feiras internacionais. Foram registrados crescimentos nos embarques para a Argentina (mais 1,713 milhão de pares), Estados Unidos (mais 1,590 milhão de pares) — os dois mais tradicionais destinos dos calçados gaúchos — e para outros 100 países. Já as vendas de automóveis cresceram 46% em valor e 47% em volume, influenciadas também pela contração do mercado interno e do estabelecimento de novos acordos automotivos a partir de 2015, com o consequente crescimento das exportações para a Colômbia e início para o Chile (mais 3.000 unidades cada), além da forte retomada das encomendas da Argentina (mais 7.000 unidades).

Por outro lado, os produtos que mais contribuíram negativamente para o resultado geral das exportações gaúchas foram a soja em grão, o trigo e o arroz. A produção da oleaginosa cresceu 3,2%, mas as exportações recuaram 10,6% em volume (retração de 1,125 milhão de toneladas), um fato atípico na medida em que grande parte do grão produzido pelo Estado se volta à exportação. Ademais, até o primeiro semestre, as vendas externas de soja alcançaram o recorde de toda a série histórica. Contudo fatores como concorrência antecipada atípica da safra norte-americana, frustração da produção brasileira e a estratégia de segurar os estoques para alcançar maiores preços tanto pela valorização no mercado internacional quanto pela variação cambial contribuem na explicação desse desempenho aparentemente paradoxal (FEIX, 2017). Já o recuo nas vendas de trigo (70,7% em valor e 64,9% em volume) se deu pela boa qualidade na produção dos grãos, que cresceu 82,5%. Com tal qualidade, os grãos voltam-se ao abastecimento do mercado interno, diferentemente do que ocorre quando os grãos não atingem a qualidade mínima exigível e são vendidos ao exterior. Já a retração das vendas de arroz (-30,0% em valor e -27,8% em volume) foi ocasionada pela quebra de safra por conta do excesso de chuva.

Mesmo com a forte retração nas vendas de soja em grão, a oleaginosa continua sendo o produto mais vendido pelo Rio Grande do Sul (22,8% da pauta exportadora). Os demais principais produtos exportados foram: fumo em folhas (9,6%), carne de frango (6,3%), polímeros plásticos (6,1%) e farelo de soja (5,3%). A venda desses cinco produtos representou metade de toda a receita exportadora gaúcha. Em relação aos principais mercados de destino, China (26,1%), Argentina (7,9%), Estados Unidos (7,4%), Holanda (3,7%) e Bélgica (3,0%) foram os que mais compraram produtos gaúchos, com esses dois últimos países servindo de porta de entrada das mercadorias gaúchas para a União Europeia como um todo. Já a maior variação positiva de valor foi observada para o Irã (mais US$ 251,9 milhões), após a suspensão das sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) contra o país; e a maior variação negativa foi registrada para a China (menos US$ 540,3 milhões), por conta da venda, em 2015, do casco da plataforma P-67 por US$ 394,2 milhões e do recuo das compras de soja em grãos.

Dessa forma, quando se leva em consideração a conjuntura externa — baixo crescimento do comércio global e deflação nos preços dos produtos —, as exportações gaúchas não foram tão mal em 2016, na medida em que foi registrado o segundo maior volume da história, e os preços voltaram a crescer após dois anos. Contudo elas poderiam ter sido bem melhores caso, por exemplo, as vendas de soja não fossem impactadas negativamente pela tentativa frustrada de capitalização do setor. Essas questões apenas reforçam a necessidade da diversificação da pauta exportadora do Estado com o avanço nas cadeias de valor, bem como da ampliação dos seus mercados de destinos, para que movimentos conjunturais ou estruturais não afetem sobremaneira as receitas e os embarques dos produtos gaúchos destinados ao exterior.

Como citar:

TOREZANI, Tomás Amaral. O desempenho exportador do Rio Grande do Sul em 2016 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/o-desempenho-exportador-do-rio-grande-do-sul-em-2016/>. Acesso em: 20 de novembro de 2019.

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A persistência dos efeitos da queda da indústria de transformação no RS

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

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Na nova série de Contas Regionais do IBGE e da FEE, o crescimento acumulado do PIB do Rio Grande do Sul entre 2003 e 2014 foi maior apenas que o do Estado do Rio de Janeiro, ocupando a 26.ª posição entre os estados brasileiros. Em uma primeira observação, esse resultado pode indicar que o nosso estado passa por uma crise crônica que o faz ser incapaz de acompanhar o ritmo da economia nacional. Entretanto, uma análise mais acurada mostra que se olharmos a série a partir de 2006, configura-se outro resultado, com o RS apresentando um desempenho melhor (21.º) e mais próximo à média nacional, com um crescimento acumulado maior que o dos outros estados da Região Sul (Santa Catarina e Paraná) e de outras duas grandes economias estaduais (Minas Gerais e Rio de Janeiro). Entre os grandes Estados, o RS ficou atrás apenas de São Paulo. Compreender o que ocorreu no RS, tanto nos anos iniciais da série quanto na sua persistência no tempo é importante, principalmente devido aos seus efeitos sobre o PIB per capita, sobre a participação do Estado na economia nacional e sobre a arrecadação de impostos.

A primeira suspeita obviamente recai sobre a estiagem que se abateu sobre o Estado em 2004 e 2005, provocando severas perdas para a agropecuária. Entretanto, ela recuperou essas perdas em 2006 e exibiu um crescimento acumulado superior ao brasileiro de 2003 a 2014, mesmo com outra estiagem severa em 2012. Dessa forma, as perdas agrícolas decorrentes de problemas climáticos não podem explicar diretamente o desempenho gaúcho durante todo o período.

No gráfico, podemos ver que a indústria de transformação gaúcha teve desempenhos negativos em 2005 e 2006, enquanto o desempenho brasileiro, apesar de pequeno, foi positivo. Como o diferencial observado com o desempenho nacional não foi recuperado nos anos subsequentes, e, a partir de 2007, a indústria de transformação do RS e do Brasil tiveram desempenhos bastante similares, é na queda especificamente local da indústria de transformação desses anos que se encontra a maior diferença acumulada no PIB para o conjunto da série. Por que, nestes dois anos (2005 e 2006) especificamente, as atividades industriais se descolaram do desempenho do restante do País? Apesar de ser comum a ideia de que a valorização da taxa de câmbio está associada ao desempenho negativo da indústria gaúcha, ela não explica o porquê da retomada industrial a partir de 2007, mesmo com o câmbio valorizando-se até a crise de 2008 e em 2010 e 2011.

Se, além da seca e do câmbio, observarmos a redução da taxa de formação bruta de capital fixo nacional e o comportamento dos preços agropecuários, principalmente o da soja, nos anos de 2005 e 2006, poderemos acrescentar uma hipótese multicausal para o que aconteceu nesses anos e, assim, compreender melhor a dinâmica interna da nossa economia. A indústria de transformação é impactada diretamente de duas formas pela produção agropecuária: a montante, acarretando uma redução de demanda por insumos, e a jusante, provocando uma redução de oferta agrícola. A valorização da taxa de câmbio aumenta a concorrência externa aos produtos industriais, prejudicando tanto suas vendas internas quanto suas exportações. A redução do investimento nacional diminui a demanda por bens de capital e sua cadeia de fornecedores. A queda dos preços internacionais, combinada com a valorização do real, reduz a renda agrícola mediante a queda do valor da produção.

O efeito da estiagem é local, e sua duração por dois anos amplificou o impacto da demanda sobre o setor de insumos. Os efeitos do câmbio e do investimento nacional impactaram toda a indústria nacional, mas, ainda mais, a indústria gaúcha devido à especificidade de sua estrutura. O efeito da queda de preços da soja, apesar de atingir todo o País, atingiu mais o Estado porque esta veio combinada com a redução da quantidade, causada pela estiagem. Ao atingir um contingente significativo de ocupados no RS, a queda de renda reduziu a demanda por bens locais, e, mais fortemente, por bens de capital (máquinas e implementos agrícolas). A importância do efeito-renda é corroborada pelo desempenho inferior do comércio gaúcho comparado ao nacional até 2009. Outra forma de vermos a questão é compararmos o que acorreu depois da seca de 2012 com a rápida recuperação decorrente da elevada capitalização do setor agrícola e do nível alto de preços da soja em 2012.

Entre os resultados do menor nível no volume do PIB do RS no período, a partir da queda da indústria de transformação gaúcha, a diminuição da arrecadação de impostos é que tem um significado mais direto para a atual situação fiscal do Estado. Como mais de 45% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é arrecadado pela indústria de transformação, o fato de a taxa acumulada pela indústria estar 70% inferior à brasileira ao longo do período de 2003 a 2014 indica uma potencial perda de arrecadação que poderia minorar as dificuldades fiscais do Estado e dos municípios. O efeito estrutural das consequências dessa queda e o caráter exógeno das causas do problema revelam a dificuldade de os governos estaduais e municipais mitigarem sozinhos suas consequências. Problemas como esses deveriam receber um tratamento diferente da Federação, sendo um dos objetos de um redesenho do pacto federativo.

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Como citar:

ROCHA, Roberto. A persistência dos efeitos da queda da indústria de transformação no RS Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/a-persistencia-dos-efeitos-da-queda-da-industria-de-transformacao-no-rs/>. Acesso em: 20 de novembro de 2019.

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Safra recorde, exportações em queda: o desempenho do complexo soja gaúcho em 2016

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

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Na segunda semana de janeiro, a Fundação de Economia e Estatística divulgou informações detalhadas sobre as exportações de mercadorias do agronegócio gaúcho em 2016. As vendas externas do agronegócio somaram US$ 11,0 bilhões, o que equivale a 66% das exportações totais do Rio Grande do Sul no ano passado.
Em termos setoriais, o principal destaque foi o complexo soja, que, além do grão, abrange os dois principais produtos derivados do seu processamento (farelo e óleo). As exportações gaúchas desse setor totalizaram US$ 4,8 bilhões, valor 8,2% inferior ao registrado em 2015. No ano em que a safra gaúcha de soja, pela primeira vez, foi superior à marca de 16 milhões de toneladas, os volumes embarcados para o exterior recuaram 9,9%. Na sequência, são analisados três fatores que podem explicar esse desempenho aparentemente paradoxal observado em 2016.
Um primeiro aspecto a se destacar é o ritmo das vendas externas da safra brasileira. Mesmo com a frustração da produção nacional, nos primeiros meses do ano, os embarques do grão foram intensos, tendo-se registrado crescimento de 37% até o mês de maio. A expansão dos volumes comercializados foi sustentada principalmente pelo escoamento da safra da Região Centro-Oeste, colhida antecipadamente em relação ao Sul e ao Nordeste. A partir de junho, com a contabilização das perdas, sobretudo no Mato Grosso e na região dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (conhecida por Matopiba), os embarques contraíram. Aparentemente, houve um ajuste nas vendas externas para garantir o atendimento da demanda doméstica, criando-se um incentivo à retenção de uma parcela adicional da safra gaúcha.

O segundo fator que constrangeu as exportações gaúchas de soja foi a dimensão da safra dos Estados Unidos, principal produtor mundial da oleaginosa. A colheita da safra norte-americana é iniciada tradicionalmente em setembro, e as exportações intensificam-se nos meses seguintes, até fevereiro. Em 2016, tendo em vista a ocorrência de condições climáticas excepcionalmente favoráveis ao desenvolvimento da cultura, os recordes de produtividade e produção eram dados como certos já no mês de agosto. Essa perspectiva de crescimento da oferta acelerou a comercialização dos estoques de passagem nos Estados Unidos e reduziu a demanda pela produção sul-americana ainda disponível. Pela primeira vez, as exportações norte-americanas, no período imediatamente anterior à entrada da nova safra (meses de julho e agosto), superaram a marca de cinco milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

A aproximação da supersafra, nos Estados Unidos, coincidiu com a queda das cotações internacionais, que haviam atingido o ponto mais alto em junho (média de US$ 420,03/tonelada). Até aquele momento, o crescimento da demanda externa sinalizava preços altamente remuneradores para a venda no Brasil: à valorização de 26% no preço Free on Board (FOB), em Paranaguá, acrescia-se a desvalorização de 10% na taxa de câmbio, comparativamente a junho de 2015. Desde então, além da queda nos preços de exportação, houve valorização da taxa de câmbio — interrompida em novembro —, o que produziu preços internos (em reais) menos favoráveis à exportação. Conformou-se, assim, uma terceira razão para a redução dos embarques gaúchos de soja no segundo semestre. Apenas em dezembro houve uma ligeira recuperação nas vendas, insuficiente para a compensação das quedas dos meses anteriores.

Ainda que uma parcela adicional da safra gaúcha tenha sido destinada ao atendimento do mercado brasileiro, conforme sugerido anteriormente, os estoques de passagem continuam elevados no Estado. Em 2017, a perspectiva de um novo recorde de produção de soja no Rio Grande do Sul aumenta a importância do planejamento pelos atores envolvidos na atividade de comercialização. O IBGE projeta que a safra gaúcha será 1,1% superior à verificada em 2016, isso em um cenário que contempla ainda a recuperação da produção nacional (104,9 milhões de toneladas, alta de 9,6%). Se confirmado esse cenário, e a safra dos demais países sul-americanos não for severamente prejudicada pelo clima — o impacto das chuvas recentes na Argentina ainda precisa ser dimensionado —, projeta-se uma elevação na relação estoque/consumo mundial de soja. Esse seria um fator limitante à recuperação dos preços internacionais do produto no primeiro semestre de 2017. Por óbvio, há outras variáveis que influenciam as cotações e o faturamento dos produtores e dos cerealistas brasileiros, a exemplo da taxa de câmbio e das estratégias de comercialização.

Em termos mais abrangentes, tendo o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul em perspectiva, permanece o desafio de estabelecer condições internas e externas que, no longo prazo, viabilizem a conversão de uma parcela maior da safra de soja e milho em proteína animal. Em outras palavras, isso significa avançar na cadeia de valor, aumentando a participação gaúcha na produção das carnes demandadas pelos países importadores de insumos para a ração animal (a China, por exemplo). Para que isso se torne possível, é fundamental melhorar a infraestrutura logística para a exportação e, sobretudo, garantir à indústria brasileira condições isonômicas em matéria tributária e de acesso a mercados, comparativamente aos principais concorrentes internacionais.

Como citar:

FEIX, Rodrigo Daniel. Safra recorde, exportações em queda: o desempenho do complexo soja gaúcho em 2016 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/safra-recorde-exportacoes-em-queda-o-desempenho-do-complexo-soja-gaucho-em-2016/>. Acesso em: 20 de novembro de 2019.

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O que esperar para as exportações gaúchas em 2017?

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Edição: Ano 25 nº 11 – 2016

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O atual cenário recessivo brasileiro enseja diversos questionamentos a respeito das possibilidades e perspectivas de uma possível retomada do crescimento da economia do País, assim como da gaúcha, em 2017. Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem recuando há seis trimestres sucessivos, desde o primeiro de 2015. Já na comparação interanual, a queda vem de nove trimestres consecutivos, acompanhada, há pelo menos seis trimestres sucessivos, por praticamente todos os componentes do produto. No mesmo sentido, o PIB do Rio Grande do Sul registrou quedas em oito dos últimos nove trimestres, desde o segundo de 2014.

Por outro lado, a exceção desse movimento são as exportações de bens e serviços, as quais são o único componente do PIB, pela ótica da demanda, a apresentar contribuição positiva desde 2015. O coeficiente de exportação da indústria de transformação apresentou, em 2015, uma reversão da trajetória de queda observada desde 2006 e mantém uma evolução positiva até o presente momento. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil foi o país, entre as grandes economias, que mais aumentou os embarques no primeiro semestre de 2016, e, embora com receitas menores por conta dos preços mais baixos dos produtos, a quantidade embarcada pelo País em 2016 no acumulado janeiro-outubro é a maior de toda a série histórica pelos dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). Os números do RS, na média, também seguem essa direção.

Recorrendo aos dados de registro fiscal de saídas da Secretaria da Fazenda do RS, é possível identificar três tipos de destinos das vendas gaúchas: para dentro do Estado, para o restante do Brasil e para o exterior. O gráfico abaixo evidencia que 2015 foi o ponto de inflexão das trajetórias crescentes das vendas para o resto do Brasil e das decrescentes para o exterior. A partir do referido período, todavia, as receitas em reais das vendas ao exterior cresceram fortemente. Nesse sentido, a recessão não prejudicou tanto as exportações do Estado, pelo contrário: a retração do mercado nacional, a forte depreciação da taxa de câmbio e uma demanda maior dos principais parceiros comerciais contribuíram para o incremento dos embarques, a rentabilidade dos exportadores e a elevação do número de empresas exportadoras, consolidando o mercado externo como alternativa viável à destinação da produção não vendida internamente. A questão que se impõe neste momento é se essa dinâmica favorável das exportações se manterá, ou não, em 2017.

Primeiramente, é mister compreender as perspectivas de crescimento do produto e do comércio mundiais. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o produto global, que cresceu 3,2% em 2015, tem previsão de crescimento de 3,1% para 2016 e de 3,4% para 2017, crescimentos esses puxados pelos países emergentes, sobretudo pela gradual normalização das condições macroeconômicas em economias que passaram por recessões e pelo aumento do peso dos países de rápido crescimento na economia mundial. Contudo, tal cenário é dependente de alguns fatores atinentes a riscos tanto políticos, tais como as incertezas em relação ao Brexit e a possibilidade de discursos protecionistas se refletirem nas políticas comerciais, quanto econômicos, tais como a estagnação persistente das economias avançadas, o ajustamento da economia chinesa e seus efeitos sobre a economia mundial, além da volatilidade financeira dos países emergentes.

O arrefecimento da demanda global nos últimos anos (em especial do investimento) desempenha um papel importante para explicar o crescimento moderado do comércio. Nesse particular, 2016 deve ser o ano com o ritmo mais lento de crescimento do comércio e do produto mundiais desde o auge da crise financeira internacional, em 2009. O volume do comércio, que cresceu a taxas médias de 2,1% a.a. entre 2012 e 2015, obteve crescimento zero até julho de 2016. A projeção da OMC é de crescimento de 1,7% no final do ano e de algo entre 1,8% e 3,1% em 2017. Adicionalmente, o comércio, que crescia, na média, o dobro da taxa do produto global desde os anos 80 até a crise financeira, desacelerou pela metade e passou a acompanhar a taxa média de crescimento da atividade econômica no período recente, com possibilidade de crescer menos que o produto em 2016, algo inédito há 15 anos. Mesmo com uma possível melhora da demanda externa em 2017, os riscos continuam sendo altos.

Em relação ao principal item da pauta de exportação gaúcha, a soja em grão, a Emater-RS projeta uma redução na produção de 2,1%. Apesar de uma possível retração da quantidade exportada em 2017, o preço do grão vem revertendo a trajetória baixista desde o fim do boom das commodities. De forma mais geral, a intensa retração dos preços dos bens exportados iniciada em meados de 2014 começa a dar sinais de desaceleração, embora incipientes, sobretudo os preços dos produtos básicos, que já registram uma trajetória ascendente desde abril de 2016, no acumulado em 12 meses, no Estado. Nesse tocante, os preços das commodities, que atingiram o seu menor valor no início de 2016 desde o fim do boom, agora exibem certa valorização — em grande parte, pela dinâmica das commodities energéticas. Já a projeção para os preços de produtos relevantes na pauta exportadora do Estado, como os do complexo soja, as carnes e o fumo, é de ligeira redução, embora o cenário ainda seja incerto.

Em relação à produção industrial, o Estado acumula um recuo de 5,2% nos primeiros oito meses do ano, e de 8,8% nos últimos 12 meses. Apesar da desaceleração das quedas, uma retomada sustentada já para 2017 mostra-se difícil, mesmo que exista grande capacidade ociosa na indústria. Ademais, a taxa de câmbio nominal, que vinha em forte depreciação desde o início de 2015 — alcançando R$/US$ 4,04 no final de janeiro de 2016 —, fechou outubro a 3,18. A expectativa do mercado financeiro para 2017, segundo o Relatório Focus, é de uma taxa a 3,33.

Dessa forma, o atual cenário, caracterizado pelo baixo crescimento do comércio e do produto globais e pela elevação de práticas protecionistas, impõe o acirramento da concorrência aos produtos gaúchos no exterior e lança mais desafios para as exportações em 2017. Todavia, por apresentar uma pauta exportadora concentrada em poucos produtos e destinos, uma recuperação de parceiros comerciais relevantes e uma evolução mais favorável dos preços dos bens exportados podem reverter um cenário ainda pior para as vendas externas gaúchas.

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Como citar:

TOREZANI, Tomás Amaral. O que esperar para as exportações gaúchas em 2017? Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/o-que-esperar-para-as-exportacoes-gauchas-em-2017/>. Acesso em: 20 de novembro de 2019.

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Desigualdades regionais no Rio Grande do Sul, entre 2010 e 2013

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Edição: Ano 25 nº 04 – 2016

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Recentemente, a Fundação de Economia e Estatística (FEE) lançou as novas séries do Produto Interno Bruto (PIB) e do Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese) para o Rio Grande do Sul, com dados consolidados de 2010 a 2013. É certo que as transformações econômicas e políticas por que tem passado o País desde 2014 terão consequências para as desigualdades regionais, mas os dados revisados para o período sinalizam uma tendência de maior convergência do desenvolvimento dos municípios gaúchos. Em qualquer cenário, no entanto, eles reforçam o importante elo causal entre as condições da safra agrícola, o desempenho da economia gaúcha e os níveis de desigualdade intermunicipal na geração de riqueza.

O período referido mostra grande variabilidade no desempenho da economia gaúcha, com um crescimento de 4,4% no PIB em 2011, seguido por uma queda de 2,1% em 2012 e um expressivo crescimento de 8,2% em 2013. Apesar do revés de 2012, decorrente da estiagem que provocou um encolhimento de quase 14% no valor adicionado nominal da agropecuária, a aceleração de 2013 representou mais do que a mera recomposição das perdas anteriores, sobretudo nas desigualdades intermunicipais.

Analisando-se o Valor Adicionado Bruto per capita (VABpc) dos municípios, verifica-se uma aproximação em relação à média estadual. O indicador mais popular para essa avaliação, o Vw de Williamson, sintetiza a intensidade da heterogeneidade intermunicipal, ao ponderar as diferenças entre o PIB per capita de cada município, suas populações e a média estadual, resultando em uma única medida, em uma escala de 0 a 1. Entre 2010 e 2013, o Vw estadual apresentou queda nos quatro anos. Os resultados são expressivos para o curto período.

Para compreender melhor o processo, novamente foi aplicada a técnica do Vw, agora para medir a intensidade com que varia o VABpc dentro de cada Região Funcional (RF) de Planejamento do Estado, tomando a média da região como referência. Foi possível, dessa forma, identificar tendências internas das RF, nem sempre análogas às do conjunto do Estado. Das nove regiões, tomadas como unidades independentes, a RF2 e a RF9 se mantiveram estáveis, com leve aumento das desigualdades internas, outras quatro tiveram leve queda, enquanto três, as RF6, RF9 e RF5, se destacaram por variações acentuadas.
Por um lado, a RF6 e a RF9, localizadas na fronteira tríplice do Oeste e no Norte, respectivamente, apresentaram uma queda mais acentuada das desigualdades intermunicipais. No caso da RF6, uma região com menor número de municípios, o movimento decorreu, em grande medida, da queda abrupta do VABpc do Município de Candiota, em 2011, impactado pelos resultados negativos da termelétrica CGTEE, em face do controle de preços de energia elétrica e da elevação dos custos de produção. Na RF9, o mesmo fenômeno se verificou no Município de Aratiba, onde está localizada a Hidrelétrica de Itá.

Por outro lado, na contramão do Estado, a RF5, onde se manifestam os dilemas socioeconômicos mais conhecidos da Metade Sul, apresentou um aumento significativo da concentração relativa do VABpc. Abrindo-se as informações, percebe-se uma importante contribuição do Município de Rio Grande, que passou de uma participação de cerca de 34,5% no VAB da RF em 2010 para 38,3% no último ano da série. Grande parte da expansão econômica do Município deve-se à indústria de equipamentos de transporte e aos serviços de transporte de carga e armazenagem associados ao polo naval, que tiveram bom desempenho em 2012 e 2013.
Apesar desses casos isolados, a tendência agregada de convergência explica-se pela forte recuperação do VAB da agropecuária em 2013, principalmente pelo efeito-preço das commodities, como a soja, uma vez que os dados municipais são divulgados em termos nominais (e não em volume de produção). O setor, que representava cerca de 8,3% do Valor Adicionado do Estado em 2010 e 2011, havia recuado para 6,7% em 2012, saltando para 10,1% em 2013. Por sua natureza, a atividade agrícola está mais distribuída territorialmente do que a indústria e os serviços. Naturalmente, uma expansão mais do que proporcional na agropecuária promove uma melhor distribuição espacial da geração de riqueza. Contudo, em que medida se pode afirmar que isso representa melhores condições de vida para as populações de regiões menos desenvolvidas do território gaúcho?
Além do conhecido encadeamento entre a agropecuária e a indústria do RS, um dos principais canais de ativação da economia regional se dá via renda agrícola. Para cada ponto percentual (p.p.) de crescimento do volume produzido por esse setor, no município, um estudo da FEE , de 2013, estimou um crescimento associado do comércio local de 0,3 p.p. acima da média estadual.

Por fim, os dados do Idese divulgados no último mês, que permitem uma avaliação mais abrangente do desenvolvimento regional, apontam no mesmo sentido. Aplicando-se um coeficiente de variação (CV) simples aos indicadores dos municípios do RS, a queda da dispersão em torno da média estadual foi constante e também expressiva, dado que o índice abarca características que se alteram mais lentamente do que a renda nominal, como saúde e educação.
Em que pese ao fato de as regiões estarem muito voltadas para a atração de grandes investimentos, a vocação agrícola do Rio Grande do Sul parece indissociável do desenvolvimento regional gaúcho. Nesse sentido, a reflexão que se impõe está ligada às alternativas de adensamento e qualificação da produção estadual e de controle mais eficientemente dos impactos climáticos e da variação dos preços internacionais, de forma que a economia regional não dependa tanto da expansão de lavouras como a de soja, cujo desempenho foi o grande avalista do resultado de 2013.

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Expectativa de vida ao nascer no Rio Grande do Sul, no período 2000-14

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Edição: Ano 25 nº 01 – 2016

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O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga anualmente as Tábuas Completas de Mortalidade do Brasil, que são usadas pelo Ministério da Previdência Social como um dos parâmetros para determinar o fator previdenciário ao se calcularem as aposentadorias do Regime Geral da Previdência Social. As Tábuas apresentam informações sobre probabilidades de morte por sexo e idade, estimativas da taxa de mortalidade infantil, além da expectativa de vida às idades exatas até os 80 anos. Esses indicadores são fundamentais para avaliar as condições socioeconômicas de uma região, auxiliar na elaboração de políticas públicas, e para que se possam comparar os dados do Brasil com os níveis alcançados por outros países.

O último dado divulgado revela que, em 2014, a expectativa de vida ao nascer do brasileiro era de 75,2 anos, sendo de 78,8 para as mulheres e de 71,6 para os homens, uma diferença de 7,2 anos entre os sexos. Em 2000, esses indicadores eram, respectivamente, 69,8, 73,9 e 66,0 anos, sendo que a diferença entre os sexos era maior, de 7,9 anos. De fato, verifica-se que houve uma ampliação mais expressiva na expectativa de vida dos homens, a qual aumentou 5,6 anos no período, enquanto, para as mulheres, o acréscimo foi de 4,9 anos.

O IBGE também divulga alguns indicadores de mortalidade para as unidades da Federação, sendo possível estabelecer comparações bastante reveladoras. Em 2000, o Rio Grande do Sul apresentava a maior expectativa de vida ao nascer entre as unidades da Federação, que era de 72,4 anos. Para as mulheres, era de 76,2 anos, sendo também o primeiro colocado. Quanto à expectativa de vida ao nascer dos homens, o RS aparecia em segundo lugar, sendo ultrapassado apenas por Santa Catarina. O diferencial por sexo era um pouco menor que o do Brasil: 7,6 anos.

Em 2014, a expectativa de vida ao nascer do gaúcho alcançou 77,2 anos, tendo caído para a quinta colocação entre as unidades da Federação, estando em pior situação do que Santa Catarina, Distrito Federal, Espírito Santo e São Paulo. O aumento na expectativa de vida ao nascer da população gaúcha no período 2000-14 foi de 4,8 anos, acréscimo inferior ao dos nove primeiros colocados no ranking da expectativa de vida ao nascer das unidades da Federação em 2014; muito abaixo do aumento estimado para o Espírito Santo, por exemplo, que foi de 7,1 anos. Também em quinto lugar manteve-se a expectativa de vida ao nascer para o sexo feminino, cujo valor foi de 80,6 anos, tendo Santa Catarina, São Paulo, Distrito Federal e Minas Gerais um desempenho melhor que o RS nesse indicador. Já para o sexo masculino, Santa Catarina, Espírito Santo, Distrito Federal e São Paulo apresentaram melhores níveis de mortalidade que o Rio Grande do Sul, onde a expectativa de vida ao nascer dos homens foi estimada em 73,7 anos. A diferença entre os sexos no Estado era um pouco inferior à do Brasil em 2014: uma mulher gaúcha podia esperar viver em média 6,9 anos a mais que um homem gaúcho.

Se, no século passado, os níveis de mortalidade nos primeiros anos de vida eram altos, com o avanço da medicina e a descoberta de antibióticos no combate às doenças infecto-contagiosas, o perfil epidemiológico mudou, dando espaço às doenças degenerativas relacionadas ao envelhecimento, como problemas cardíacos. Mais recentemente, várias ações foram tomadas com o objetivo de reduzir não apenas a mortalidade infantil, como a das demais idades, como maior atenção ao atendimento pré-natal, incentivo ao aleitamento materno, campanhas massivas de vacinação, agentes de saúde comunitários, etc. Além disso, o aumento da escolaridade e da renda, e o aperfeiçoamento do saneamento básico dos domicílios também tiveram influência na melhora geral do nível de mortalidade no Brasil e na elevação da expectativa de vida.

A mensuração dos níveis de mortalidade através da expectativa de vida ao nascer indica que o Rio Grande do Sul está perdendo posição frente às demais unidades da Federação, fato que merece uma investigação mais detalhada para que políticas públicas específicas possam ser implementadas.

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Distribuição dos setores da economia gaúcha por municípios

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Edição: Ano 25 nº 01 – 2016

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Na estrutura do Valor Adicionado Bruto (VAB) da economia gaúcha, o principal setor de atividade é o serviços, com uma participação de 65,6% do total, seguido da indústria (24,3%) e da agropecuária (10,1%), no ano de 2013. Entretanto a estrutura dentro de cada um dos 497 municípios, de um modo geral, diferencia-se da observada para o RS como um todo.

Para 30% dos municípios do Estado, a agropecuária tem uma participação predominante em relação aos demais setores da economia. Esse grupo, que, na maioria dos municípios, tem menos de 5.000 habitantes, representa apenas 4% do Produto Interno Bruto (PIB) do RS. Em termos de PIB per capita, esses municípios ficam pouco abaixo da média do Estado (-3%).

Já o conjunto que tem a indústria como principal atividade é composto apenas por 32 municípios (6% dos municípios do RS). Esses municípios apresentam um PIB per capita 63% maior que a renda média do Estado, valor que é influenciado, em parte, pela presença dos três municípios de maior PIB per capita, que são Triunfo (Polo Petroquímico), Aratiba e Pinhal da Serra (usinas hidrelétricas). Mesmo assim, a maioria desse grupo (81%) apresenta um PIB per capita maior que a média do Rio Grande do Sul.

No restante dos municípios (64%), o setor serviços tem predominância sobre os demais. Além disso, por incluir atividades como comércio, transportes, intermediação financeira e administração pública, o setor serviços possui presença significativa em quase todos os municípios do Estado. Nesse grupo, porém, há municípios em que a agropecuária tem uma participação destacada, tanto que metade deles apresenta uma participação do setor agropecuário com mais de 30% do VAB municipal — ainda que abaixo da participação do setor serviços, é um valor significativo, se comparado com a média estadual.

Ter uma grande predominância de um determinado setor no município não significa, necessariamente, que os maiores Valores Adicionados de cada setor no RS estejam nesses municípios. Ocorre, na verdade, que os 10 municípios com maior Valor Adicionado absoluto na indústria tem, na verdade, uma maior participação do setor serviços (com exceção de Gravataí e Triunfo). Da mesma forma, os 10 maiores Valores Adicionados da agropecuária também estão em municípios com preponderância dos serviços. Isso mostra o quão importante é a atividade de serviços para dar suporte às demais atividades da economia e atender à demanda da população desses municípios que concentram grande Valor Adicionado. Já no caso de Gravataí e Triunfo, o alto Valor Adicionado na indústria acaba não gerando uma demanda por serviços tão alta, devido à característica dos segmentos industriais presentes nesses municípios (automotivo e petroquímico respectivamente).

Ao observar a distribuição de cada setor de atividade entre os municípios, nota-se que há diferentes níveis de concentração, de acordo com o setor analisado. A agropecuária é distribuída em um número maior de municípios, enquanto a indústria e os serviços são mais concentrados. Em 2013, metade do VAB agropecuário do Estado estava concentrada em 50 municípios, enquanto a indústria, nessa mesma proporção, estava concentrada em apenas 13, e o setor  serviços, em 12 municípios.

Entre os municípios que concentram a atividade industrial e os que concentram a de serviços, oito estão nos dois grupos. Tendo em vista que essas duas atividades representam, em conjunto, 90% do VAB gerado no Estado, nota-se também uma concentração do PIB gaúcho (metade está em 17 municípios). Essa concentração da indústria e dos serviços em poucos municípios ajuda a subestimar a importância que a agropecuária tem para alguns municípios do Estado, conforme destacado anteriormente.

Por fim, cabe ressaltar que, nesta análise, não são consideradas as interligações entre os setores e as dependências entre os municípios, principalmente entre municípios próximos. Os setores da economia, assim como o desempenho econômico de cada município, não ocorrem de forma isolada. Porém a distribuição setorial por municípios permite ter um retrato mais fiel da economia gaúcha do que ao se olhar apenas para o agregado do Estado.

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Vulnerabilidade social nos Coredes do Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 25 nº 01 – 2016

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O Atlas da Vulnerabilidade Social nos Municípios Brasileiros, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em setembro último, permitiu um mapeamento da vulnerabilidade social (VS) para todos os 5.565 municípios brasileiros. Com o objetivo de oferecer uma caracterização da exclusão e da VS no País, foi criado o Índice de Vulnerabilidade Social (IVS) a partir da média aritmética de três subíndices: IVS Infraestrutura Urbana, IVS Capital Humano e IVS Renda e Trabalho.

Os municípios que apresentam IVS entre 0 e 0,200 são considerados como de muito baixa VS; valores entre 0,201 e 0,300 indicam baixa VS; os que apresentam IVS entre 0,301 e 0,400 são de média VS; entre 0,401 e 0,500 são considerados de alta VS; e valores entre 0,501 e 1 indicam que o município possui muito alta VS. Com o objetivo de analisar a situação nos municípios do Rio Grande do Sul, foram calculadas as médias do IVS e de seus subíndices para os Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes), ponderadas pela população dos seus respectivos municípios.

A faixa centro-norte do território gaúcho concentra os Coredes de muito baixa VS, sendo eles, em ordem dos menores índices (melhores) para os maiores (piores): Vale do Taquari, Serra, Fronteira Noroeste, Paranhana-Encosta da Serra, Hortênsias, Vale do Caí, Noroeste Colonial e Alto Jacuí. Os demais Coredes apresentam baixa VS, sendo eles, seguindo a mesma ordem: Produção, Central, Norte, Litoral, Vale do Rio Pardo, Missões, Vale do Rio dos Sinos, Jacuí-Centro, Vale do Jaguari, Nordeste, Fronteira Oeste, Sul, Rio da Várzea, Celeiro, Campanha, Campos de Cima da Serra, Centro-Sul, Metropolitano Delta do Jacuí, Alto da Serra do Botucaraí e Médio Alto Uruguai.

O Médio Alto Uruguai era o único Corede que, em 2000, apresentava alto IVS e foi o que registrou a maior queda no índice, passando a apresentar um IVS baixo em 2010. Somente os IVS dos Coredes Produção e Central não melhoraram de classe no período 2000-10, permanecendo na faixa de baixa VS. O Corede Serra possuía o melhor IVS em 2000, mas foi o que obteve a menor queda no índice e acabou perdendo o posto para o Vale do Taquari.

O IVS Infraestrutura Urbana é calculado a partir de indicadores de abastecimento de água e esgotamento sanitário inadequados, inexistência de coleta de lixo e mobilidade urbana precária (este último com dados apenas de 2010). Todos os Coredes apresentam IVS Infraestrutura Urbana muito baixo, à exceção do Metropolitano Delta do Jacuí, que se manteve na faixa média em 2000 e 2010.

O IVS Capital Humano é obtido a partir de indicadores de mortalidade infantil, de crianças que não frequentam a escola, de adolescentes com filhos, de mães com pouca escolaridade chefes de família, de analfabetismo de jovens e adultos, de baixa escolaridade e de jovens de famílias de baixa renda que não estudam nem trabalham. Os Coredes caracterizados na faixa de alto IVS Capital Humano em 2000 passaram para médio em 2010, e os caracterizados na faixa médio passaram para baixo, com exceção do Corede Hortênsias, que permaneceu na faixa média nos dois anos.

O IVS Renda e Trabalho considera em sua composição famílias de baixa renda, desocupação, ocupação informal com baixa escolaridade, pessoas de baixa renda dependentes de idosos e atividade de adolescentes. O IVS Renda e Trabalho foi o que apresentou mais positiva evolução no período 2000-10, com os Coredes passando das classes baixa, média, alta e muito alta para as classes muito baixa, baixa e média. Apenas o Corede Serra apresentava IVS Renda e Trabalho baixo em 2000, passando para muito baixo em 2010. Já os Coredes Celeiro e Médio Alto Uruguai classificavam-se em muito alto, passando para médio em 2010.

Ao mesmo tempo em que a totalidade dos Coredes apresentou uma melhora nos quatro indicadores no período 2000-10, foi também constatada uma redução das disparidades dos IVS entre os Coredes, já que os municípios de maior VS foram os que apresentaram as maiores quedas e os municípios de menor VS apresentaram as menores quedas nos indicadores.

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