Textos com assunto: Rio Grande do Sul

Ciclos na economia gaúcha: em busca de fatos estilizados

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Edição: Ano 27 nº 02 – 2018

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O ano de 2017 trouxe boas notícias para a economia brasileira. Em 30 de outubro, o Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos (Codace-IBRE-FGV) anunciou que a recessão nacional iniciada no segundo trimestre de 2014 tivera fim no último trimestre de 2016. Com duração de 11 trimestres, a última recessão foi a mais duradoura desde a redemocratização, juntamente com a de 1989-92. Apesar de não haver, formalmente, uma cronologia dos ciclos na economia gaúcha, é provável que a recessão no Rio Grande do Sul tenha apresentado duração similar, dado que as taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) estadual (trimestre sobre mesmo trimestre do ano anterior) tornaram-se negativas a partir do segundo trimestre de 2014 e deixaram de sê-lo após o quarto trimestre de 2016, juntamente com as do Brasil. As recessões, contudo, não são todas iguais, assim como os períodos de crescimento econômico. Os diferentes setores possuem idiossincrasias que acentuam ou atenuam os distintos períodos cíclicos da economia gaúcha. Por exemplo, em 2012, o baque provocado pela seca no setor agropecuário trouxe consequências para o restante da economia regional. Diante disso, perguntas como “qual é o componente mais volátil no ciclo do PIB?” ou “qual deles tem maior correlação com o produto agregado?” merecem ser respondidas.

Existem diferentes maneiras de estudar os ciclos econômicos, por exemplo, entendendo-os como desvios em torno de uma tendência de crescimento de longo prazo, que se modifica lentamente no tempo. Como não é possível observar diretamente esses ciclos, os economistas costumam valer-se de uma gama de técnicas estatísticas para estimá-los, sendo uma das mais tradicionais o chamado “filtro HP”. Esse filtro foi aplicado nas séries históricas trimestrais do Rio Grande do Sul com ajuste sazonal do índice de volume do Valor Adicionado Bruto (VAB) da agropecuária, da indústria e dos serviços, bem como nas de VAB total, impostos e PIB, para isolarmos o respectivo componente cíclico de cada um desses indicadores. O período de análise vai do 1.° trim./2002 ao 3.° trim./2017. Os ciclos obtidos através desse procedimento podem ser visualizados na Figura 1.

Computando algumas estatísticas simples, como desvio-padrão e coeficiente de correlação das estimativas supracitadas — disponíveis no Quadro 1 — é possível iniciar a busca por “fatos estilizados” dos ciclos econômicos no Rio Grande do Sul. Em primeiro lugar, a agropecuária é aquela que apresenta ciclos com maior volatilidade dentre as três principais atividades da economia: cinco vezes a dos ciclos do PIB. Dada a maior exposição a choques climáticos, os quais causam grandes oscilações na produção agrícola, podem ser observadas também variações bruscas no volume de produção da atividade. No período sob análise, as secas de 2004-05 e 2012 ilustram o argumento: na primeira, houve um desvio de até 49% em relação à tendência de longo prazo, enquanto, na segunda, o descolamento em relação à tendência chegou a 63%. Por outro lado, o setor de serviços — composto pelas atividades de comércio, transporte, serviços de informação, financeiro, administração pública e outros serviços — é o que apresenta ciclos mais estáveis. Uma hipótese que permite explicar esse resultado é a de que as famílias podem proteger-se das variações de renda, poupando uma maior parte dela em tempos de bonança ou mesmo tomando empréstimos para financiar seus gastos durante períodos de desemprego, o que resulta em maior estabilidade do consumo. Como boa parte do comércio — componente de maior peso nos serviços gaúchos — refere-se ao comércio varejista, que, em última instância, atende ao consumo das famílias, a estabilidade no consumo reflete-se em maior estabilidade nos ciclos do comércio e, dessa forma, dos serviços. Além disso, as atividades de outros serviços — que incluem atividades artísticas, serviços de manutenção de computadores, educação e saúde mercantil, serviços de alimentação, dentre outros — e de administração e serviços de educação e saúde públicas tendem a apresentar poucas flutuações.

Um segundo grupo de “fatos estilizados” pode ser explorado observando-se as correlações entre os diferentes componentes do produto agregado gaúcho. Os ciclos do PIB, por exemplo, estão mais correlacionados com os ciclos na atividade industrial do que nas demais, reforçando a ideia de que a indústria é um setor-chave para compreender o timing das flutuações da atividade econômica agregada do Estado, e vice-versa. Ademais, há também uma maior correlação entre as flutuações na arrecadação de impostos e os movimentos cíclicos da indústria do que no restante das séries analisadas. Por outro lado, os ciclos, tanto no setor de serviços, devido ao seu peso, quanto no setor agropecuário, por sua integração com a indústria local, apresentam também alta correlação com o PIB, não devendo ser ignorados em análises conjunturais, sobretudo em momentos de inflexão na atividade econômica.

Em suma, para compreender a dinâmica da economia regional, as interações entre seus diferentes setores, as fontes e as consequências de suas flutuações cíclicas não bastam apenas conjecturas, é preciso olhar os fatos. Diante disso, o texto buscou identificar alguns possíveis “fatos estilizados” da economia regional. A robustez desses fatos, contudo, precisa ser confirmada ainda em estudos vindouros. Ademais, conforme a economia e a própria sociedade se transformam, é preciso também estar atento a que novos fatos venham a suprimir os anteriores no caso de quebras estruturais nas séries. Como observou certa vez o prêmio Nobel de economia, Paul Samuelson, “[…] quando os eventos mudam, eu mudo de opinião. O que você faz?”.

 

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Companhia de Desenvolvimento de Caxias do Sul (Codeca): uma política pública de impacto ambiental, social e econômica bem-sucedida

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Edição: Ano 27 nº 01 – 2018

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“O caos que progressivamente se instala no mundo está diretamente ligado ao esgotamento de um conjunto de instituições que já não respondem às nossas necessidades de convívio produtivo e civilizado.”

(Ladislau Dowbor, 2017)

A geração de resíduos sólidos é um grande problema da sociedade contemporânea. Agravou-se com o crescimento gradativo e desordenado da população, com a aceleração do processo de ocupação do território urbano e com o acentuado consumo, motivado pelo aumento da produção industrial, em que predominam alimentos cada vez mais processados de um lado, e, de outro, “bens duráveis” com alta taxa de obsolescência tecnológica. O “lixo” urbano é, hoje, um dos grandes desafios enfrentados pelas administrações públicas municipais.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei n.° 12.305, de 2 de agosto de 2010, dispõe sobre princípios, objetivos e instrumentos, bem como diretrizes, para a gestão integrada e para o gerenciamento de resíduos sólidos, incluindo os perigosos. Da mesma forma, trata das responsabilidades dos geradores e do poder público e dos instrumentos econômicos aplicáveis. O gestor público, tendo em vista as dificuldades enfrentadas pela municipalidade, prioriza a disposição final dos resíduos de forma ambientalmente adequada, ou seja, a distribuição ordenada de rejeitos em aterros sanitários. Ficou em segundo plano outro princípio desse marco regulatório, que é a visão sistêmica na gestão dos resíduos sólidos, que remete à agregação das variáveis ambientais, sociais, culturais, econômicas, tecnológicas e de saúde pública.

Nesse contexto, destaca-se, positivamente, a Companhia de Desenvolvimento de Caxias do Sul (Codeca), que apresenta uma gestão de resíduos sólidos urbanos exemplar no Brasil. Essa “Empresa Cidadã”, na contramão das opiniões desfavoráveis às gestões públicas, vem sendo a responsável por um dos projetos mais bem-sucedidos do País no setor de limpeza urbana. O reconhecimento disso vem com o Índice de Sustentabilidade de Limpeza Urbana (ISLU 2017) para os municípios brasileiros, correspondente ao período de 2016.

O ISLU  é uma publicação da PwC Brasil e do Sindicato das Empresas de Limpeza Urbana (Selur). Cerca de 3,5 mil municípios foram analisados. Maringá (PR), Niterói (RJ), Santos (SP) e Rio de Janeiro (RJ) são os quatro municípios mais limpos do País. Caxias do Sul foi considerada, novamente, a quinta do Brasil e a cidade mais limpa do Rio Grande do Sul.

O ranking das cidades é determinado a partir da análise dos serviços de limpeza urbana nos municípios brasileiros com base no Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). A Região Sul tem o melhor Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana e, liderada por Santa Catarina e Paraná, obteve o melhor desempenho no estudo, com 70% dos municípios entre os 50 mais bem colocados no levantamento, seguidos pelos estados da Região Sudeste. O Índice é medido pelo desempenho em quatro dimensões: engajamento, recuperação de recursos coletados, sustentabilidade financeira e impacto ambiental.

A própria história da Companhia de Desenvolvimento de Caxias do Sul explica e justifica esse sucesso. Criada em 1974 pelo Poder Executivo municipal, por meio da Lei Municipal n.º 2.192, de 29 de outubro de 1974, a Codeca é uma sociedade anônima de economia mista, gerenciada por um conselho de administração. No início das suas atividades, assumiu a limpeza urbana da cidade, ou seja, o recolhimento de resíduos domiciliares, a capina e a varrição de ruas, mas ainda sem a coleta diferenciada entre resíduos orgânicos e seletivos. O recolhimento de resíduos seletivos (secos) foi implantado em 1991, quando a coleta orgânica já se estendia por quase toda a cidade. Em 1997, ano em que a maioria absoluta dos municípios ainda tinha “lixões” (disposição dos resíduos em áreas sem controle de contaminantes e de riscos à saúde pública), foi concretizada a transformação do vazadouro São Giácomo, para onde eram destinados os resíduos urbanos, em aterro sanitário, ou seja, uma destinação com manejo adequado dos resíduos urbanos. Caxias saiu na frente, nesse mesmo período, implantando uma coleta seletiva que tinha um alcance de 40% a 50% da área urbana. Aos poucos, o Departamento de Limpeza Urbana (DLU) foi reestruturando seus setores e aumentando o número de bairros atendidos, até chegar a 100% da cidade (zona urbana) e a 85% na zona rural. Desde então, as gestões melhoraram a infraestrutura dessa área, transformando Caxias do Sul em modelo nacional.

É importante salientar que a criação da Codeca agregou a esse município gaúcho uma política de gestão de resíduos sólidos urbanos que contempla questões econômicas, sociais e ambientais. Destaca-se, dentre tantas ações concretas, diversificando seu potencial de ação pública, a criação, em 1981, do Departamento de Construção Civil (DCC), com o objetivo inicial de realizar apenas obras de calçamento. Entretanto, já em 1992, o departamento começou a realizar obras de asfaltamento a frio. A partir de 1997, em um novo passo no processo de inovação, a empresa passou a realizar obras de asfaltamento a quente.

Na área social, em 1997, a Companhia já atuava como apoiadora de programas de geração de trabalho e renda. A administração municipal implementou a Associação de Recicladores Interbairros, sendo a pioneira em Caxias. Outra importante política social foi a criação do projeto Troca Solidária, desenvolvido pela Codeca em parceria com a Secretaria Municipal da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (SMAPA) e a Fundação de Assistência Social (FAS). Implantado em 2009, já beneficiou mais de 114.000 famílias. Há sete anos, o Troca Solidária garante à população de baixa renda a permuta de 4kg de resíduo seletivo por 1kg de alimento. Essa ação, além de ajudar a cuidar da limpeza da cidade, oferece um complemento alimentar de qualidade. Proporciona, também, aos agricultores da serra gaúcha, a comercialização de seus produtos, adquiridos com recursos de projetos sociais. Por outro lado, os resíduos recebidos na troca são destinados às associações de recicladores conveniadas com o município. Através dessa iniciativa, todos saem ganhando: o meio ambiente, as famílias, as associações de recicladores e os agricultores locais.

Com uma forte atuação na questão ambiental, como uma vertente de educação cidadã, os Ecopontos destacam-se como um projeto inovador da Companhia e da Prefeitura Municipal. Implantados em 2012, tem como objetivo receber e destinar, de forma ambientalmente correta, os objetos pós-consumo. O sistema baseia-se na entrega voluntária, ou seja, as pessoas devem levar objetos inservíveis até o Ecoponto. No local, o cidadão terá a oportunidade de descartar e até de retirar objetos que estiverem em condições de uso ou com possibilidade de recuperação, tais como sofás, armários, cadeiras, camas, colchões, eletroeletrônicos, eletrodomésticos, equipamentos de informática, som e telefonia usados.

Por fim, a Companhia de Desenvolvimento de Caxias do Sul (Codeca) trabalha, de forma eficiente e eficaz, nos três eixos indispensáveis para um desenvolvimento realmente sustentável: o econômico, o social e o ambiental. Certamente, é um exemplo a ser seguido.

 

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Perspectivas para a economia gaúcha em 2018

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Edição: Ano 27 nº 01 – 2018

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O ano de 2017 representou a retomada do crescimento do Rio Grande do Sul após três anos consecutivos de retração do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo os dados da FEE, no acumulado dos quatro trimestres terminados em setembro, o PIB do Estado cresceu 0,8%, com destaques positivos para a agropecuária (7,8%) e o comércio (1,3%) e negativo para a indústria (-1,4%). Para 2018, a se confirmarem as expectativas atuais, a economia do Rio Grande do Sul crescerá pelo segundo ano seguido, algo que não acontece desde o biênio 2010-11. Entretanto a sequência da recuperação seguirá lenta, caracterizando-se mais como uma recomposição parcial da perda do nível de atividade durante a recessão do que como uma retomada mais consistente da economia. Segundo pesquisa Focus, do Banco Central do Brasil, a economia brasileira deverá crescer 2,7% em 2018, tendo como base o aumento do consumo e, em menor grau, das exportações, com o investimento ainda aguardando períodos econômicos e políticos mais claros. A economia gaúcha, por óbvio, terá seu desempenho determinado, em grande parte, pelo ritmo de crescimento da economia brasileira. Entretanto especificidades econômicas do Estado poderão desviar o crescimento do RS daquele esperado para o Brasil.

Em 2017, a agricultura do Estado apresentou um bom desempenho graças ao aumento da área plantada e a rendimentos médios recordes nas culturas de arroz, milho e soja. Para 2018, as primeiras previsões do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de novembro de 2017, indicam que, em função da baixa rentabilidade esperada, haverá diminuição da área colhida dessas culturas temporárias. Como a produtividade física também deverá ser menor que a de 2017, é esperada uma redução da produção agrícola do Estado para 2018. A safra brasileira de grãos também deverá ser menor, mas como a participação da agropecuária no Valor Adicionado total é maior no Rio Grande do Sul, o efeito negativo deverá ser maior no Estado.

Após o ano de 2017, em que o desempenho da indústria de transformação oscilou entre avanços e quedas ao longo dos trimestres, a expectativa para 2018 é de um ritmo de expansão mais estável. Embora se espere que o comércio mundial cresça em torno 4,0% em 2018 — conforme o Fundo Monetário Internacional (FMI) —, o principal ponto de crescimento das vendas da indústria continuará no mercado interno, dada sua maior representatividade. Desse modo, o desempenho industrial do Rio Grande do Sul deverá acompanhar de perto o da economia brasileira neste ano que se inicia. Especificamente, a produção de celulose, bastante prejudicada em 2017, em função da parada de importante planta produtiva, deverá retomar normalmente a produção em 2018. As atividades ligadas ao setor automotivo também deverão ter um bom desempenho neste ano, alicerçadas na continuação do crescimento das vendas de automóveis no mercado doméstico e para a Argentina. Por outro lado, as atividades industriais ligadas ao setor agrícola deverão sentir os efeitos negativos da menor safra em 2018, enquanto o setor de máquinas e equipamentos poderá ser afetado duplamente, pelo menor investimento na agropecuária e pela ainda muito tímida retomada dos investimentos industriais em todo o País. Ao contrário de outras atividades econômicas, a construção civil ainda não esboçou — nem no Estado, nem no

Brasil — nenhum processo visível de retomada do crescimento. Essa atividade — que, tanto no País como no RS, não cresce desde 2013 — permanece com perspectivas ruins para 2018. Estoques elevados de novas moradias dificultam a recuperação do setor. Algum alívio pode vir de investimentos federais em obras de infraestrutura, mas nada que mude consistentemente a realidade do setor para 2018.

Depois de mais de dois anos de queda, o consumo das famílias brasileiras retomou a expansão em 2017. Como consequência direta, o comércio voltou a crescer no Brasil e no Rio Grande do Sul, algo não verificado desde 2014. Para o novo ano, as perspectivas são de aceleração do crescimento do consumo e consequente expansão das vendas comerciais. Tais expectativas se ancoram na elevação do crédito à pessoa física, na queda dos juros e na esperada melhora das condições do mercado de trabalho. Os últimos dados de 2017 mostram, no entanto, que o aumento do emprego e, principalmente, dos rendimentos reais dos ocupados ainda estão distantes de serem consistentes. Os empregos gerados são precários e de remuneração mais baixa, impedindo um aumento mais significativo da massa salarial. No caso do Rio Grande do Sul, haverá ainda o agravante da redução da safra agrícola, que geralmente produz efeitos diretos e indiretos sobre as vendas do comércio em todo o Estado. Em resumo, em 2018, o ritmo de expansão do comércio do Rio Grande do Sul estará condicionado pelo balanço das variáveis elencadas acima.

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Indicadores de risco no RS e o programa Primeira Infância Melhor

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Edição: Ano 27 nº 01 – 2018

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O estudo sobre a primeira infância vem ganhando cada vez mais espaço, nos últimos anos, na área de  desenvolvimento humano. Essa fase da vida, em função do peculiar estágio da estrutura cerebral, caracteriza-se por ser a mais sensível para uma criança aprender diferentes habilidades cognitivas e socioemocionais. As políticas públicas voltadas a essa etapa tendem, portanto, a ser mais efetivas, especialmente por se constituírem em uma “janela de oportunidades” com consequências duradouras. Dessa forma, depreende-se que, se a criança não receber os estímulos corretos na primeira infância, o aprendizado de novas habilidades ficará comprometido ao longo da vida.

Nesse sentido, a Secretaria Estadual de Saúde promove, desde 2003, o programa Primeira Infância Melhor (PIM). Nesse programa, as famílias com crianças de até cinco anos de idade consideradas em situação de risco recebem visitas semanais. O objetivo das visitas é permitir que a criança tenha um desenvolvimento pleno de suas capacidades, independentemente de sua condição social. Dessa forma, profissionais devidamente treinados visitam as famílias, auxiliando na construção de um ambiente propício ao desenvolvimento da criança, além de fornecer os estímulos corretos de acordo com sua idade.

Com o objetivo de contribuir com a gestão do programa, a Fundação de Economia e Estatística (FEE), em parceria com a Secretaria Estadual de Saúde, desenvolveu uma metodologia que visa mensurar e localizar espacialmente a população-alvo do programa no RS. Os indicadores considerados contemplam algumas dimensões das características das famílias em que a criança está inserida: (a) vulnerabilidade social, (b) acesso ao conhecimento, (c) escassez de recursos, (d) desenvolvimento infantojuvenil e (e) condições habitacionais. Os indicadores utilizados e seus respectivos percentuais dentro do RS, construídos a partir dos microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2015, encontram-se no quadro a seguir.

De maneira geral, verifica-se que 46,6% das crianças de até cinco anos no RS se enquadravam em ao menos um dos critérios considerados de risco. Três indicadores individuais têm representatividade acima de 10% das crianças do RS em 2015. O primeiro diz respeito ao percentual de crianças vivendo em famílias com renda per capita inferior à linha de pobreza (26,4%). Ressalta-se que essa definição de pobreza construída pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) considera o preço de uma cesta de consumo, em uma determinada região, que atenda às necessidades calóricas dos indivíduos. Na Região Metropolitana de Porto Alegre, por exemplo, o valor da linha de pobreza, a maior do Brasil, foi de R$ 370 mensal em 2015.

O segundo indicador considerado na metodologia com maior proporção de crianças foi o relacionado à educação em pré-escola. Em 2015, 12,5% das crianças viviam em famílias que tinham ao menos uma criança entre quatro e cinco anos fora da escola. A relevância da educação infantil foi consagrada no Plano Nacional de Educação, que estabelece como obrigatória a educação em pré-escola de crianças nessa faixa etária. Após a aprovação do Plano, inclusive, tem-se verificado uma evolução bastante grande nessas matrículas no RS. Em 2010, esse indicador, por exemplo, era próximo a 30%.

O último destaque negativo considerado aqui é relacionado às condições de habitação a que a criança está exposta. Em 2015, 11,4% das crianças de até cinco anos viviam em domicílios com condições de saneamento inadequadas, quando o esgotamento sanitário não é por rede coletora ou fossa séptica. Essas condições têm impactos negativos significativos sobre a saúde na primeira infância.

Embora esse texto tenha dado destaque a apenas três indicadores, por sua representatividade dentro do RS, todos os critérios considerados no estudo e expostos no quadro são fundamentais para verificar se uma criança vive ou não em situação de risco. Outro resultado do estudo foi que dificilmente uma criança se enquadra em apenas um dos critérios considerados, evidenciando o caráter multidimensional da pobreza. Acredita-se que um acompanhamento contínuo de visitadores treinados, como o oferecido pelo PIM, pode mitigar os efeitos negativos das condições familiares sobre a criança, revertendo o perverso ciclo de reprodução da pobreza. Nesse sentido, inspirado pelo programa gaúcho, o Governo Federal lançou recentemente o programa Criança Feliz, com o objetivo de dar assistência a crianças nos primeiros 1.000 dias de vida (até os três anos de idade).

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Comportamento das atividades econômicas no RS a partir da crise de 2008

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Edição: Ano 26 nº 11 – 2017

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Passados nove anos da eclosão da crise em 2008, seus efeitos ainda são sentidos na economia mundial. Iniciada no setor financeiro dos Estados Unidos ainda em 2007, difundiu-se pelo mundo, afetando o crescimento das economias, retraindo o comércio, provocando recessões e aumento do desemprego em diversos países. A forte queda atividade, que parecia estar desvanecendo-se em 2010, voltou a recrudescer, na Europa, em 2011, passando a impactar mais fortemente os países em desenvolvimento, através de uma redução ainda mais significativa dos fluxos de comércio internacional.

O papel do cenário internacional no desempenho econômico do Brasil a partir de 2008 é matéria controversa. Entretanto, independentemente do maior ou menor peso atribuído aos erros de política para explicar a atividade econômica nos últimos anos, é inegável que as próprias políticas surgiram como resposta ao seu impacto e aos seus desdobramentos no País. Nesse sentido, a ideia deste artigo é descrever o comportamento das principais atividades econômicas no Rio Grande do Sul a partir da eclosão da crise, cotejando-as com o desempenho no Brasil, e apresentar algumas sugestões de interpretação para os fenômenos observados.

Será analisada a produção das atividades da agropecuária, das indústrias de transformação, da construção e do comércio. A indústria extrativa, apesar de importante no plano nacional, é pouco expressiva no Estado e não possui encadeamentos produtivos significativos, e por isso não será analisada. As duas primeiras atividades, sendo fortemente tradables (comercializáveis), são a base exportadora do Estado, e as últimas, sendo tipicamente no tradables (não comercializáveis), respondem às condições do mercado local.
A produção da agropecuária, tanto a nacional quanto a do Estado, não foi atingida pela crise de 2008. A demanda, principalmente a chinesa por soja, continuou crescendo durante todo o período. Os preços em dólares da soja continuaram elevados, tendo alcançado seu ápice em 2013 e retraindo-se a partir daí. As condições para a expansão do setor propiciaram crescimento da produtividade e expansão de área plantada, o que, no caso do Estado, resultou em um crescimento em volume maior que o do País, o maior entre todas as atividades econômicas no RS.

O volume do Valor Adicionado Bruto (VAB) da indústria de transformação brasileira não voltou a recuperar o nível anterior à sua queda, passando, nos últimos três anos, a recuar fortemente, estando atualmente em um nível 20% inferior ao do pico em 2008. A indústria gaúcha apresentou um movimento similar. O volume exportado pela indústria de transformação mantém o mesmo nível nos últimos 10 anos, tanto no Estado quanto no País. Já no plano internacional, considerando-se as economias industriais mais importantes, a produção industrial nos EUA vem recuperando-se lentamente desde 2009, a da Europa estabilizou-se em um nível inferior ao anterior da crise, e a China, depois de uma recuperação rápida, passou a ter taxas de crescimento inferiores às alcançadas antes da crise.

A construção é a atividade que liderou o crescimento nacional no período imediatamente pós-crise, crescendo mais que o Produto Interno Bruto (PIB) em quase todo o período que vai até o terceiro trimestre de 2014. A expansão do crédito imobiliário e o crescimento do investimento público, principalmente no período imediatamente após 2009 e em 2013, são as principais explicações para esse desempenho do setor. Contribuíram para a expansão do crédito o crescimento dos rendimentos reais e a queda da taxa de juros. No Rio Grande do Sul, a construção ficou atrás da agropecuária na liderança do crescimento pós 2008. No Estado, o desempenho da construção foi influenciado por fatores similares ao nacional, mas com uma menor participação das obras públicas.
O comércio seguiu de perto o crescimento da construção no País, mantendo-se no período pós-crise acima do nível PIB até o primeiro trimestre de 2015. Contribuíram para o desempenho da atividade o crescimento da renda familiar (incluídas as transferências governamentais), impulsionada pela elevação do salário mínimo, a redução do desemprego e os reajustes reais, um mercado de crédito mais acessível e a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para bens duráveis. O comércio no Estado cresceu mais que no País inteiro, provavelmente beneficiado pelo melhor desempenho de seu mercado de trabalho e pela renda agrícola.

Pelo gráfico abaixo, que apresenta as séries dessazonalizadas das atividades analisadas e do PIB no RS, a partir de 2008 observa-se uma maior dispersão. O desempenho do PIB no RS foi sustentando pela construção e o comércio até 2014. A transformação ficou estagnada em um nível inferior ao pico pré-crise até 2014, caindo a partir daí. A agropecuária manteve tendência de crescimento. A deterioração do saldo de transações correntes em 2013, fruto principalmente da queda dos preços das commodities e do aumento das importações, e as respostas de política a partir disso podem explicar a reversão dos fatores que sustentaram o PIB até 2014, tanto no Brasil quanto no Estado. Fica claro que, independentemente das políticas adotadas no período, o comportamento da indústria de transformação nacional e os determinantes da formação dos preços internacionais são elementos estruturais para o entendimento dos impactos da crise no Brasil e no RS.

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Mudanças na Previdência rural: impactos no RS

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Edição: Ano 26 nº 10 – 2017

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Entre os diversos pontos que vêm sendo discutidos no Congresso Nacional acerca da Reforma da Previdência, destaca-se a questão da Previdência rural. Trata-se de uma questão bastante delicada do ponto de vista político, fiscal e social, uma vez que ela possui uma série de características que a distinguem indubitavelmente da Previdência urbana, dentre as quais se destacam: inexigibilidade de tempo de contribuição, idade reduzida e não vinculação do benefício a valores de contribuições, mas ao valor de um salário mínimo. Pela forma como foi construída, a Previdência rural afasta-se de um sistema previdenciário strictu sensu e aproxima-se de uma política de distribuição de renda. Do ponto de vista estritamente fiscal, manter essa política custa caro aos cofres públicos. Segundo o Ministério do Trabalho e Previdência Social, em 2016 a Previdência rural apresentou receitas de apenas R$ 8,1 bilhões para fazer frente a desembolsos da ordem de R$ 113,1 bilhões, provenientes de contribuições previdenciárias de empregadores rurais e dos segurados. Os R$ 105 bilhões necessários para cobrir a diferença entre arrecadação e desembolso vieram do Tesouro. Trata-se, portanto, de importante política de redistribuição de renda. Parte desse valor chega aos beneficiários no Rio Grande do Sul (R$ 6,9 bilhões em 2016), e, apesar de, proporcionalmente, a Previdência rural não ser tão importante para os gaúchos quanto é, por exemplo, para os estados da Região Nordeste, trata-se de uma política pública muito relevante para algumas regiões e municípios.

No Rio Grande do Sul, de todos os benefícios previdenciários pagos em 2016, 24,47% deles foram rurais, os quais são extremamente importantes para muitos municípios. A figura mostra a proporção de benefícios rurais nos municípios do Estado. Percebe-se que, em muitos, a proporção de benefícios rurais sobre o total de benefícios concedidos supera os 50%. De fato, as regiões norte e central do Estado são aquelas em que há maior predominância de benefícios rurais e, nos municípios muito pequenos, a importância da Previdência rural chega a ser ainda maior. Em Vila Lângaro (pequeno município da região nordeste, com apenas 2.131 habitantes em 2016, segundo estimativa populacional da FEE), por exemplo, 90,39% dos 437 benefícios previdenciários pagos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), em 2016, foram benefícios rurais, ante apenas 9,61% de benefícios urbanos. Vila Lângaro é um exemplo extremo, mas não se trata de um caso isolado. Assim como ele, outros tantos municípios muito pequenos têm na Previdência rural importante fonte de renda na comunidade. Ao seu lado, dentre as diminutas municipalidades que mais dependem da aposentadoria rural, destacam-se as cidades de Ubiretama, de Novo Machado, de Floriano Peixoto e de Santa Cecília do Sul — todas com proporção de benefícios rurais superior a 89% do total.

A Previdência rural é, portanto, mais importante nos menores municípios do interior do Estado. Ainda que represente um percentual inferior a 25% do total de benefícios do Rio Grande do Sul, em muitas regiões, seu peso na economia, especialmente nos municípios muito pequenos, não deve ser desprezado. Mudanças nas regras da Previdência rural teriam efeito insignificante nos grandes centros urbanos do Rio Grande do Sul, mas causariam grande impacto nos pequenos municípios do interior, especialmente nas regiões norte e central do Estado. A proposta de reforma previdenciária originalmente apresentada pelo Governo Federal previa regras menos benéficas para o trabalhador rural, igualando os requisitos da aposentadoria rural àqueles da aposentadoria urbana, especialmente a idade mínima de 65 anos e o tempo mínimo de contribuição de 25 anos. No entanto, tal proposta não prosperou. O texto substitutivo, apresentado pelo relator da matéria, deputado Artur Maia (PPS-BA), trouxe como idades mínimas a de 60 anos para homens e a de 57 anos para mulheres e diminuiu o tempo de contribuição dos 25 anos inicialmente propostos para 15 anos. Adicionalmente, seria instituída uma cobrança de contribuição sobre o valor de um salário mínimo. Dependendo do nível de mudanças implementado, a Previdência rural poderia finalmente vir a se aproximar do regime previdenciário urbano, ao invés de continuar a ser mera política distributiva de renda. Ainda que os trabalhadores rurais necessitem, pelas características próprias do trabalho e pelo histórico do País, de maior proteção legal, o custo de manter uma política distributiva de renda nos moldes atuais da Previdência rural ficou alto demais. De fato, o custo fiscal ficou tão alto que, para que se mantenham os benefícios rurais, é preciso comprometer os benefícios urbanos, apropriando-se dos recursos provenientes da Previdência urbana. De qualquer modo, é preciso que o debate sobre a reforma avance no Legislativo para que se torne mais claro à sociedade que tipo de Previdência rural será efetivamente proposta e para que se possa estimar o impacto dessas mudanças no campo, especialmente nos pequenos municípios do interior gaúcho.

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O debate sobre o papel do Estado na inovação tecnológica, no Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 26 nº 10 – 2017

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Atualmente, é comum ouvir, com veemência, a ideia de que o setor público possui um papel secundário na economia e, principalmente, na promoção e no desenvolvimento de inovações tecnológicas. No âmbito econômico, o Estado teria que tão somente fazer os ajustes necessários macroeconômicos (como no câmbio, nos juros, etc.) para garantir o bom desempenho das atividades produtivas. No campo das inovações, esse pensamento também se apresenta, com o Estado sendo visto como um mero apoiador indireto dos processos inovadores ou, vulgarmente, estando associado à afirmação “se não atrapalhar já está bom”. Tal concepção tem por base o pressuposto de que a empresa privada é o agente inovador por excelência.

Diversos estudiosos dos mais diferentes países e campos do conhecimento, reunidos na área que se convencionou chamar de Estudos da Inovação, vêm combatendo esse ideário com outra perspectiva: a de que as atividades de inovação ocorrem em um contexto de alinhamento dos setores público e privado e da sociedade civil, cabendo, sim, um papel importante ao Estado. Como exemplo dessa visão, recentemente foi fundado o Instituto para a Inovação e o Propósito Público (Institute for Innovation and Public Purpose) na University College London, na Inglaterra, o qual, como fica subentendido pelo próprio nome, pretende fomentar a discussão, em âmbito internacional, sobre as atribuições do Estado nos processos de inovação, e é integrado por uma equipe qualificada de pesquisadores de várias partes do mundo.

No RS, como no Brasil, esse debate se faz necessário também, apesar das dificuldades e complexidades de realizá-lo. Nesse sentido, parece válido observar alguns indicadores sobre o apoio do Governo para a inovação, presentes na Pesquisa de Inovação, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que nos mostram algumas tendências interessantes e, ao mesmo tempo, preocupantes. Com referência às empresas industriais gaúchas e brasileiras, no Gráfico 1, podemos ver os percentuais de financiamento das atividades internas de pesquisa e desenvolvimento (P&D) provenientes de fontes públicas. No Brasil, há um comportamento constante, em todo o período considerado (2003 a 2014), de crescimento do apoio governamental às atividades inovadoras, tendência também seguida pelo RS até 2008. Após esse período, há uma significativa diminuição desse tipo de auxílio no Estado, o que tem diversas explicações, entre as quais a mais importante é a falta de interesse das empresas gaúchas nesse tipo de ajuda. Trata-se de uma retração que alcançou quase 11 pontos percentuais, de 28,2% em 2008 para 17,5% em 2014, porém com valores ainda superiores aos nacionais (14,7%). Se prosseguir essa tendência, na próxima edição da pesquisa, o RS ficará abaixo da média nacional. Tal fato é preocupante porque, frequentemente, o investimento público tem-se notabilizado como aquele voltado aos projetos mais complexos e de maior risco (econômico e/ou técnico) e, portanto, de maiores impactos positivos, quando exitosos.

Além disso, os dados mais desagregados do apoio estatal à inovação mostram um fato inquietante de caráter estrutural (Figura 1). A grande maioria das empresas inovadoras obtém financiamento governamental para a aquisição de máquinas e equipamentos para inovar, tanto no País (77,8%) como no Estado (78,1%). Isso demonstra a baixa capacidade do tecido produtivo local de produzir efetivamente suas inovações (preferem comprar os artefatos tecnológicos prontos), em detrimento de outros tipos de apoios mais relevantes em termos de alcance e impacto das novidades, como são os projetos de P&D e inovação em colaboração com universidades (ambos, Brasil e RS, na faixa dos 2 a 3%). Ademais, o segundo programa mais utilizado pelas empresas gaúchas e brasileiras é o de incentivos fiscais (14,7% e 10,5% respectivamente), um tipo de auxílio que vem sofrendo críticas de especialistas de várias nações pela sua pouca efetividade em promover, realmente, os processos de inovação, pois acaba sendo, simplesmente, uma forma de substituir os recursos próprios das firmas para inovação por meio desse incentivo e não de aumentar o montante geral de investimentos.

Os dados aqui apresentados reforçam, principalmente para o RS, a necessidade do debate a respeito das atribuições estatais, em todas as suas esferas (municipal, estadual e federal), na efetivação das atividades de inovação como uma prática sistemática da estrutura produtiva (privada e pública), no quadro de uma economia moderna, que depende enormemente do conhecimento e da aprendizagem para o desenvolvimento econômico e social geral.

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Principais atividades no Valor Adicionado dos municípios do RS

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Edição: Ano 26 nº 8 – 2017

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A partir da nova série de dados do Produto Interno Bruto dos municípios, é possível analisar o desempenho das atividades econômicas dos municípios gaúchos desde 2002 até o dado mais recente, de 2014. Neste trabalho, identifica-se qual foi a atividade de maior participação no Valor Adicionado em cada um dos 497 municípios, e, a partir disso, quais mudanças ocorreram nesse período. As atividades foram classificadas em 36 diferentes grupos, tendo sido a agropecuária aberta em 14; a indústria, em 12 (sendo nove na transformação) e os serviços foram abertos em 10. Optou-se por excluir a administração pública da análise.

Em todos os anos, as atividades da agropecuária aparecem como a atividade principal no maior número de municípios. Em 2014, foi um total de 283 municípios. Desses, 134 têm a soja como principal atividade, seguida de bovinos (45), fumo (38) e cereais (24), especialmente as culturas de milho, arroz e trigo.

Dessas atividades, a que apresentou a maior mudança nos últimos anos foi a produção de soja. Em 2014, ela foi a principal atividade para 134 municípios do Estado (27% do total do RS), contra 103 em 2002. Boa parte desse avanço da soja se deu sobre outras atividades da agropecuária. Dos 50 novos municípios que passaram a ter a soja como a maior atividade, 21 deles tinham a produção de cereais (milho) como atividade principal em 2002 e, em 13, a produção de bovinos era a principal. O crescimento do número de municípios que teve a soja como atividade principal só não foi maior, basicamente, porque, em 15 municípios, ela deixou de ser a atividade principal, ou seja, mesmo tendo crescido, ela foi ultrapassada pelo comércio.

Os quatro Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes) que tinham a soja como principal atividade em 2002 mantiveram essa característica em 2014 (Alto da Serra do Botucaraí, Celeiro, Nordeste e Rio da Várzea). A soja passou a ser a principal atividade em dois Coredes: Jacuí-Centro e Vale do Jaguari. A produção de soja também se destaca nos Coredes Central e Missões, que são as duas regiões com a maior parcela da produção total do Estado. Porém, a soja não é a principal de suas atividades por conta da predominância do comércio. A cultura do fumo é a principal atividade para 38 municípios, sendo que, boa parte deles está no Corede Vale do Rio Pardo, onde 12 municípios têm o fumo como principal atividade (eram 14 em 2002). Além desses, há sete municípios no Corede Centro-Sul, nos quais prevalece o fumo (eram três em 2002).

No setor de serviços, apenas três das 10 atividades aparecem como atividade principal nos municípios: comércio, atividades imobiliárias e alojamento e alimentação. O comércio foi o principal setor em 102 municípios (21%), em 2014, sendo o que mais ganhou municípios no período (64). Esse resultado, nos municípios, acompanha o desempenho do setor no Estado, pois o comércio foi a atividade que mais ganhou participação no total do Valor Adicionado Bruto (VAB) do Estado, passando de 9,4% (2002) para 15,0% (2014). Já o setor referente às atividades imobiliárias é o destaque em 22 munícipios. Ela é a principal atividade em duas regiões com peso turístico: os Coredes Litoral e Hortênsias. No Litoral, ela é a principal atividade de oito dos seus 22 municípios, por conta dos imóveis destinados aos veranistas. Na região das Hortênsias, apenas Canela tem essa atividade como principal, porém, ela também tem participação significativa (mesmo que não seja a maior) nos munícipios de Gramado e Nova Petrópolis, onde se sobressaem as atividades de alojamento e alimentação e a de comércio respectivamente.

Olhando a presença da indústria nos municípios, 89 deles apresentam como principal atividade algum grupo de atividade industrial em 2014. O setor de máquinas e equipamentos, que era o principal em três munícipios em 2002, passou para sete em 2014. Na mesma direção, o setor de alimentos e bebidas também aumentou, passando de 14 para 18 munícipios nos quais esse setor lidera. No Corede Vale do Taquari, essa indústria passou a ser a principal em cinco municípios (eram dois em 2002), principalmente por conta da presença de frigoríficos. Nesse Corede também se destaca a presença de oito municípios, onde a criação de bovinos foi a principal atividade em 2014, sendo que não havia nenhum com essa predominância em 2002. Por fim, em apenas quatro Coredes, alguma atividade industrial é a atividade de maior Valor Adicionado: Fronteira Noroeste (máquinas e equipamentos), Vale do Rio Pardo (indústria do fumo), Vale do Caí (fabricação de móveis) e Paranhana-Encosta da Serra (coureiro-calçadista).

Nesse período, em 46% dos municípios, houve mudança na atividade principal (Figura). Além das mudanças já destacadas no comércio e na soja, chama atenção que a produção de bovinos, apesar de ter perdido municípios para a soja, acabou ganhando em outros, principalmente onde antes o principal era a produção de cereais ou aves.

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Pensar a indústria gaúcha em um contexto adverso

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Edição: Ano 26 nº 5 – 2017

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A atual recessão que enfrentam as indústrias de transformação brasileira e sul-rio-grandense iniciou em 2013 e, aparentemente, registrou as menores taxas em dezembro de 2015 e janeiro de 2016. Em dez./2015, o Brasil registrou uma taxa de crescimento anualizada da produção industrial de -9,8%, e o RS, de -11,5%. A partir do primeiro trimestre de 2016, ambas as curvas parecem ter encontrado seu ponto de inflexão, ainda que tenham permanecido com taxas acumuladas negativas até fevereiro de 2017 (última informação disponível). Essa desaceleração trouxe consigo uma ampliação do desemprego, sendo que os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), para o ano 2016, revelam saldo negativo em praticamente todas as atividades industriais no RS, com exceção de couro e calçados, de celulose e papel e de produtos químicos.

Diversos argumentos, alguns divergentes entre si, vêm sendo utilizados para explicar essa situação. Alguns apontam para uma administração inadequada das variáveis macroeconômicas e do controle da dívida interna que limitaria os investimentos públicos e privados. Outras abordagens recorrem à desaceleração da economia mundial e a seus reflexos sobre as exportações, tanto de commodities industriais quanto de outros segmentos menos intensivos em tecnologia. Também é ressaltada a crise política que envolveu o processo de impeachment como um fator limitante da formulação de uma política industrial consistente. É evidente que medidas voltadas para a redução da máquina pública, assim como as reformas trabalhistas e da Previdência, tal como estão propostas, poderão estabelecer sérios limites à capacidade de crescimento industrial sustentável.

A despeito das explicações enumeradas, é importante destacar as particularidades relacionadas à indústria gaúcha a partir dos resultados acumulados em 12 meses, obtidos por seus diversos segmentos, até fevereiro de 2017 (IBGE). Esses mostram que o pior desempenho foi registrado pela indústria do fumo (-32%), resultado decorrente da redução da área plantada e agravado pela queda da rentabilidade provocada pelo clima desfavorável. Além dessa, as indústrias que também sofreram redução foram respectivamente: fabricação de coque, derivados do petróleo e biocombustíveis (-13,3%); produtos de minerais não metálicos (-10,9%); bebidas (-9,6%); mobiliário (-8%); produtos de borracha e material plástico (-5,8%); produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (-4,5%); veículos automotores, reboques e carrocerias (-3,6%); produtos químicos (-1,3%); couros, artefatos de couro e calçados (-0,8%); e máquinas e equipamentos (-0,3%). Ressalte-se que alguns segmentos poderão melhorar seu desempenho em consequência da esperada maior colheita de soja da história do Estado. A indústria fumageira, por sua vez, poderá recuperar-se um pouco, visto que a quebra de safra de 2016 foi maior do que o esperado.

A desaceleração da produção da indústria petroquímica vincula-se sobretudo à redução do preço internacional desse insumo. Vale lembrar que o complexo petroquímico vem sendo afetado pela crise institucional da Petrobrás, levando consigo importantes fornecedores gaúchos, como os produtores de plataformas marítimas, inibindo, por conseguinte, a perspectiva de criação do esperado polo naval. O desperdício do acúmulo tecnológico e a perda de empregos qualificados decorrentes do efeito do desmantelamento dessa estatal ainda não foram suficientemente avaliados. Essa empresa, profundamente enraizada na atividade industrial e nos serviços, é uma das principais companhias mundiais em termos de desenvolvimento tecnológico na exploração de petróleo em águas profundas, sendo um importante player do comércio internacional. Levando-se em conta a classificação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) quanto aos indicadores de intensidade tecnológica, o complexo químico-petroquímico é um dos poucos da indústria estadual que se enquadra como de média-alta tecnologia.

De fato, é urgente traçar um horizonte de médio prazo com base no potencial da indústria gaúcha em segmentos que apresentam melhores chances competitivas e capacidade de gerar efeitos multiplicadores sobre a matriz industrial. A definição de um programa que vise ao avanço da indústria gaúcha em termos competitivos passa pelo apoio ao seu desenvolvimento científico e tecnológico. É o caso de apostar em núcleos de alta intensidade tecnológica em que o Estado apresenta um potencial a ser desenvolvido (indústria naval e de instrumentos médicos e odontológicos), bem como estimular a expansão dos setores de média-alta intensidade já existentes (indústria de material elétrico; material de transporte, em particular de máquinas agrícolas e de máquinas-ferramenta).

Em que pese às vicissitudes da política macroeconômica, é mais do que nunca fundamental retomar alguns elementos necessários à elaboração de uma política industrial para o RS. Nesse sentido, é importante referir que uma das principais vantagens estaduais reside no existente aparato institucional de suporte à produção de ciência e tecnologia, capaz de garantir a expansão dos segmentos industriais referidos, cuja continuidade encontra-se ameaçada.

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Recessão e indústria no Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 26 nº 5 – 2017

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Recessões são fenômenos cíclicos que se repetem com frequência irregular em todas as economias de mercado. Tais períodos são caracterizados por uma queda simultânea em diversas atividades econômicas e, em geral, envolvem um alto custo social, com aumento do desemprego e queda na produção, nas vendas e na renda. Períodos assim, no entanto, constituem a exceção e não a regra na história econômica. Em outras palavras, toda recessão, uma hora ou outra, acaba e é substituída por uma nova fase de expansão, que, em média, dura mais que os períodos recessivos. Cada recessão, contudo, apresenta características que a tornam singular, seja pelos mecanismos causais, seja pelos canais de transmissão que atuam em determinado momento histórico. Não é objetivo deste texto tratar dessas especificidades, mas tão somente analisar o comportamento da produção industrial do estado à luz dos períodos de recessão no Brasil.

No Brasil, entre 1980 e 2009, houve oito períodos recessivos, com duração média de 15,8 meses, segundo o Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos (Codace-Ibre-FGV). As mais longas recessões do País, contudo, concentram-se na década de 80 e no início da década de 90, com duração média de 26 meses.

Em 2014, o Brasil entrou em sua mais recente — e longa — recessão desde a década de 80, sendo esta, talvez, a mais longa de sua história. E, com ela, a atividade econômica deteriorou-se rapidamente, processo que se intensificou em 2015 e 2016. As taxas de crescimento trimestrais tornaram-se negativas a partir do segundo trimestre de 2014, tanto no Brasil quanto no RS, indicando uma simultaneidade entre o início da fase recessiva de ambos. Com isto, nos últimos três anos, a queda acumulada no Produto Interno Bruto (PIB) foi de 6,8% no Brasil e de 6,6% no RS.
Diante dessa conjuntura, a indústria foi um dos setores que mais sofreu no Estado. O Valor Adicionado Bruto (VAB) da indústria gaúcha, nos últimos três anos, sofreu queda de aproximadamente 18%, sendo a maior parte relativa à indústria de transformação. Contudo é justamente nessa atividade onde começam a aparecer os primeiros sinais de arrefecimento na contração do setor, talvez na própria recessão no Rio Grande do Sul.

Para avaliar o cenário recessivo no qual está inserida a economia do Rio Grande do Sul, é interessante observar o comportamento da produção da indústria gaúcha. Existem dois motivos principais pelos quais o índice de produção industrial pode ser utilizado nesse contexto. Primeiramente, é um indicador historicamente utilizado como proxy mensal da atividade econômica de um país. No entanto, com o aumento considerável da participação dos serviços no produto, foi substituído por outras proxies mais adequadas para esse fim. Contudo a produção física da indústria ainda pode ser entendida como um indicador coincidente da atividade econômica. Isto é, os movimentos cíclicos na indústria tendem a acompanhar conjuntamente os ciclos econômicos e, portanto, podem dar algumas pistas sobre o comportamento da economia com uma frequência mais alta que o PIB, uma vez que os dados de produção industrial estão disponíveis mensalmente, enquanto o PIB é divulgado somente a cada trimestre.

A figura a seguir mostra o comportamento do índice de produção física do Rio Grande do Sul da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no período de janeiro de 2002 a fevereiro de 2017, juntamente com a datação das recessões no Brasil realizadas pelo Codace. Nesse período, o País entrou em recessão três vezes. A primeira foi iniciada em novembro de 2002 e findada em junho de 2003; a segunda começou em agosto de 2008 e teve término em janeiro de 2009. Mais recentemente, no segundo trimestre de 2014, o país entrou em sua primeira recessão nesta década.

Ao longo desse período, é possível observar alguns momentos de queda na produção industrial. Nota-se que há épocas de retração mais branda da atividade, associados a períodos de seca no Estado, como nos anos de 2004-05 e 2012. Contudo as contrações mais intensas nesse indicador estão associadas a períodos de recessão nacional, indicando uma alta correlação entre a queda cíclica da atividade econômica no País e a produção da indústria gaúcha.

Percebe-se também que o comportamento do indicador não é homogêneo entre os períodos recessivos nacionais. Nas duas primeiras recessões, nota-se uma rápida e profunda queda da série, seguida de uma recuperação igualmente veloz e intensa. Tais características, contudo, não parecem estar presentes na atual recessão. Alguns meses antes do início da terceira recessão, a produção industrial já vinha demonstrando tendência de queda. Após o início do período recessivo, essa tendência aprofundou-se, havendo pequenas oscilações entre crescimento positivo e negativo em torno da tendência contracionista.

Todavia, ao final do período em análise, os primeiros sinais de “trégua” na recessão começaram a aparecer na produção industrial do Rio Grande do Sul. Em primeiro lugar, o menor nível de produção da série histórica foi atingido em abril de 2016. Desse ponto até fevereiro de 2017, o indicador já acumula quase 8% de crescimento. Em segundo lugar, a frequência com que ocorreram taxas positivas de crescimento em seis meses (i.e., t/t-6) — entre as atividades da indústria de transformação gaúcha (alimentos, bebidas, fumo, couro, celulose, derivados de petróleo, químicos, borracha e plástico, metalurgia, produtos de metal, máquinas e equipamentos, veículos e móveis) — aumentou.1 Contudo, como explicado anteriormente, toda recessão tem seu fim. Salvo alguma mudança estrutural na economia que inverta para baixo a tendência de longo prazo do setor, o mesmo vale para quedas cíclicas setoriais. E quanto mais tempo dura a contração, mais aumentam as chances de a mesma se encerrar. Na produção industrial do Rio Grande do Sul, essa queda iniciou em outubro de 2013, havendo chances de ter findado ainda em 2016, caso a trajetória positiva da série se mantenha nos próximos meses. Poderia esse ser um indicativo de que a recessão no Estado está com os dias contados?


1 As séries foram dessazonalizadas utilizando o método X13-ARIMA-SEATS.

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