Textos com assunto: Rio Grande do Sul

Principais atividades no Valor Adicionado dos municípios do RS

Por:

Edição: Ano 26 nº 8 – 2017

Área temática:

Assunto(s): , ,

A partir da nova série de dados do Produto Interno Bruto dos municípios, é possível analisar o desempenho das atividades econômicas dos municípios gaúchos desde 2002 até o dado mais recente, de 2014. Neste trabalho, identifica-se qual foi a atividade de maior participação no Valor Adicionado em cada um dos 497 municípios, e, a partir disso, quais mudanças ocorreram nesse período. As atividades foram classificadas em 36 diferentes grupos, tendo sido a agropecuária aberta em 14; a indústria, em 12 (sendo nove na transformação) e os serviços foram abertos em 10. Optou-se por excluir a administração pública da análise.

Em todos os anos, as atividades da agropecuária aparecem como a atividade principal no maior número de municípios. Em 2014, foi um total de 283 municípios. Desses, 134 têm a soja como principal atividade, seguida de bovinos (45), fumo (38) e cereais (24), especialmente as culturas de milho, arroz e trigo.

Dessas atividades, a que apresentou a maior mudança nos últimos anos foi a produção de soja. Em 2014, ela foi a principal atividade para 134 municípios do Estado (27% do total do RS), contra 103 em 2002. Boa parte desse avanço da soja se deu sobre outras atividades da agropecuária. Dos 50 novos municípios que passaram a ter a soja como a maior atividade, 21 deles tinham a produção de cereais (milho) como atividade principal em 2002 e, em 13, a produção de bovinos era a principal. O crescimento do número de municípios que teve a soja como atividade principal só não foi maior, basicamente, porque, em 15 municípios, ela deixou de ser a atividade principal, ou seja, mesmo tendo crescido, ela foi ultrapassada pelo comércio.

Os quatro Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes) que tinham a soja como principal atividade em 2002 mantiveram essa característica em 2014 (Alto da Serra do Botucaraí, Celeiro, Nordeste e Rio da Várzea). A soja passou a ser a principal atividade em dois Coredes: Jacuí-Centro e Vale do Jaguari. A produção de soja também se destaca nos Coredes Central e Missões, que são as duas regiões com a maior parcela da produção total do Estado. Porém, a soja não é a principal de suas atividades por conta da predominância do comércio. A cultura do fumo é a principal atividade para 38 municípios, sendo que, boa parte deles está no Corede Vale do Rio Pardo, onde 12 municípios têm o fumo como principal atividade (eram 14 em 2002). Além desses, há sete municípios no Corede Centro-Sul, nos quais prevalece o fumo (eram três em 2002).

No setor de serviços, apenas três das 10 atividades aparecem como atividade principal nos municípios: comércio, atividades imobiliárias e alojamento e alimentação. O comércio foi o principal setor em 102 municípios (21%), em 2014, sendo o que mais ganhou municípios no período (64). Esse resultado, nos municípios, acompanha o desempenho do setor no Estado, pois o comércio foi a atividade que mais ganhou participação no total do Valor Adicionado Bruto (VAB) do Estado, passando de 9,4% (2002) para 15,0% (2014). Já o setor referente às atividades imobiliárias é o destaque em 22 munícipios. Ela é a principal atividade em duas regiões com peso turístico: os Coredes Litoral e Hortênsias. No Litoral, ela é a principal atividade de oito dos seus 22 municípios, por conta dos imóveis destinados aos veranistas. Na região das Hortênsias, apenas Canela tem essa atividade como principal, porém, ela também tem participação significativa (mesmo que não seja a maior) nos munícipios de Gramado e Nova Petrópolis, onde se sobressaem as atividades de alojamento e alimentação e a de comércio respectivamente.

Olhando a presença da indústria nos municípios, 89 deles apresentam como principal atividade algum grupo de atividade industrial em 2014. O setor de máquinas e equipamentos, que era o principal em três munícipios em 2002, passou para sete em 2014. Na mesma direção, o setor de alimentos e bebidas também aumentou, passando de 14 para 18 munícipios nos quais esse setor lidera. No Corede Vale do Taquari, essa indústria passou a ser a principal em cinco municípios (eram dois em 2002), principalmente por conta da presença de frigoríficos. Nesse Corede também se destaca a presença de oito municípios, onde a criação de bovinos foi a principal atividade em 2014, sendo que não havia nenhum com essa predominância em 2002. Por fim, em apenas quatro Coredes, alguma atividade industrial é a atividade de maior Valor Adicionado: Fronteira Noroeste (máquinas e equipamentos), Vale do Rio Pardo (indústria do fumo), Vale do Caí (fabricação de móveis) e Paranhana-Encosta da Serra (coureiro-calçadista).

Nesse período, em 46% dos municípios, houve mudança na atividade principal (Figura). Além das mudanças já destacadas no comércio e na soja, chama atenção que a produção de bovinos, apesar de ter perdido municípios para a soja, acabou ganhando em outros, principalmente onde antes o principal era a produção de cereais ou aves.

Compartilhe

Pensar a indústria gaúcha em um contexto adverso

Por:

Edição: Ano 26 nº 5 – 2017

Área temática:

Assunto(s): , ,

A atual recessão que enfrentam as indústrias de transformação brasileira e sul-rio-grandense iniciou em 2013 e, aparentemente, registrou as menores taxas em dezembro de 2015 e janeiro de 2016. Em dez./2015, o Brasil registrou uma taxa de crescimento anualizada da produção industrial de -9,8%, e o RS, de -11,5%. A partir do primeiro trimestre de 2016, ambas as curvas parecem ter encontrado seu ponto de inflexão, ainda que tenham permanecido com taxas acumuladas negativas até fevereiro de 2017 (última informação disponível). Essa desaceleração trouxe consigo uma ampliação do desemprego, sendo que os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), para o ano 2016, revelam saldo negativo em praticamente todas as atividades industriais no RS, com exceção de couro e calçados, de celulose e papel e de produtos químicos.

Diversos argumentos, alguns divergentes entre si, vêm sendo utilizados para explicar essa situação. Alguns apontam para uma administração inadequada das variáveis macroeconômicas e do controle da dívida interna que limitaria os investimentos públicos e privados. Outras abordagens recorrem à desaceleração da economia mundial e a seus reflexos sobre as exportações, tanto de commodities industriais quanto de outros segmentos menos intensivos em tecnologia. Também é ressaltada a crise política que envolveu o processo de impeachment como um fator limitante da formulação de uma política industrial consistente. É evidente que medidas voltadas para a redução da máquina pública, assim como as reformas trabalhistas e da Previdência, tal como estão propostas, poderão estabelecer sérios limites à capacidade de crescimento industrial sustentável.

A despeito das explicações enumeradas, é importante destacar as particularidades relacionadas à indústria gaúcha a partir dos resultados acumulados em 12 meses, obtidos por seus diversos segmentos, até fevereiro de 2017 (IBGE). Esses mostram que o pior desempenho foi registrado pela indústria do fumo (-32%), resultado decorrente da redução da área plantada e agravado pela queda da rentabilidade provocada pelo clima desfavorável. Além dessa, as indústrias que também sofreram redução foram respectivamente: fabricação de coque, derivados do petróleo e biocombustíveis (-13,3%); produtos de minerais não metálicos (-10,9%); bebidas (-9,6%); mobiliário (-8%); produtos de borracha e material plástico (-5,8%); produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (-4,5%); veículos automotores, reboques e carrocerias (-3,6%); produtos químicos (-1,3%); couros, artefatos de couro e calçados (-0,8%); e máquinas e equipamentos (-0,3%). Ressalte-se que alguns segmentos poderão melhorar seu desempenho em consequência da esperada maior colheita de soja da história do Estado. A indústria fumageira, por sua vez, poderá recuperar-se um pouco, visto que a quebra de safra de 2016 foi maior do que o esperado.

A desaceleração da produção da indústria petroquímica vincula-se sobretudo à redução do preço internacional desse insumo. Vale lembrar que o complexo petroquímico vem sendo afetado pela crise institucional da Petrobrás, levando consigo importantes fornecedores gaúchos, como os produtores de plataformas marítimas, inibindo, por conseguinte, a perspectiva de criação do esperado polo naval. O desperdício do acúmulo tecnológico e a perda de empregos qualificados decorrentes do efeito do desmantelamento dessa estatal ainda não foram suficientemente avaliados. Essa empresa, profundamente enraizada na atividade industrial e nos serviços, é uma das principais companhias mundiais em termos de desenvolvimento tecnológico na exploração de petróleo em águas profundas, sendo um importante player do comércio internacional. Levando-se em conta a classificação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) quanto aos indicadores de intensidade tecnológica, o complexo químico-petroquímico é um dos poucos da indústria estadual que se enquadra como de média-alta tecnologia.

De fato, é urgente traçar um horizonte de médio prazo com base no potencial da indústria gaúcha em segmentos que apresentam melhores chances competitivas e capacidade de gerar efeitos multiplicadores sobre a matriz industrial. A definição de um programa que vise ao avanço da indústria gaúcha em termos competitivos passa pelo apoio ao seu desenvolvimento científico e tecnológico. É o caso de apostar em núcleos de alta intensidade tecnológica em que o Estado apresenta um potencial a ser desenvolvido (indústria naval e de instrumentos médicos e odontológicos), bem como estimular a expansão dos setores de média-alta intensidade já existentes (indústria de material elétrico; material de transporte, em particular de máquinas agrícolas e de máquinas-ferramenta).

Em que pese às vicissitudes da política macroeconômica, é mais do que nunca fundamental retomar alguns elementos necessários à elaboração de uma política industrial para o RS. Nesse sentido, é importante referir que uma das principais vantagens estaduais reside no existente aparato institucional de suporte à produção de ciência e tecnologia, capaz de garantir a expansão dos segmentos industriais referidos, cuja continuidade encontra-se ameaçada.

Compartilhe

Recessão e indústria no Rio Grande do Sul

Por:

Edição: Ano 26 nº 5 – 2017

Área temática:

Assunto(s): , ,

Recessões são fenômenos cíclicos que se repetem com frequência irregular em todas as economias de mercado. Tais períodos são caracterizados por uma queda simultânea em diversas atividades econômicas e, em geral, envolvem um alto custo social, com aumento do desemprego e queda na produção, nas vendas e na renda. Períodos assim, no entanto, constituem a exceção e não a regra na história econômica. Em outras palavras, toda recessão, uma hora ou outra, acaba e é substituída por uma nova fase de expansão, que, em média, dura mais que os períodos recessivos. Cada recessão, contudo, apresenta características que a tornam singular, seja pelos mecanismos causais, seja pelos canais de transmissão que atuam em determinado momento histórico. Não é objetivo deste texto tratar dessas especificidades, mas tão somente analisar o comportamento da produção industrial do estado à luz dos períodos de recessão no Brasil.

No Brasil, entre 1980 e 2009, houve oito períodos recessivos, com duração média de 15,8 meses, segundo o Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos (Codace-Ibre-FGV). As mais longas recessões do País, contudo, concentram-se na década de 80 e no início da década de 90, com duração média de 26 meses.

Em 2014, o Brasil entrou em sua mais recente — e longa — recessão desde a década de 80, sendo esta, talvez, a mais longa de sua história. E, com ela, a atividade econômica deteriorou-se rapidamente, processo que se intensificou em 2015 e 2016. As taxas de crescimento trimestrais tornaram-se negativas a partir do segundo trimestre de 2014, tanto no Brasil quanto no RS, indicando uma simultaneidade entre o início da fase recessiva de ambos. Com isto, nos últimos três anos, a queda acumulada no Produto Interno Bruto (PIB) foi de 6,8% no Brasil e de 6,6% no RS.
Diante dessa conjuntura, a indústria foi um dos setores que mais sofreu no Estado. O Valor Adicionado Bruto (VAB) da indústria gaúcha, nos últimos três anos, sofreu queda de aproximadamente 18%, sendo a maior parte relativa à indústria de transformação. Contudo é justamente nessa atividade onde começam a aparecer os primeiros sinais de arrefecimento na contração do setor, talvez na própria recessão no Rio Grande do Sul.

Para avaliar o cenário recessivo no qual está inserida a economia do Rio Grande do Sul, é interessante observar o comportamento da produção da indústria gaúcha. Existem dois motivos principais pelos quais o índice de produção industrial pode ser utilizado nesse contexto. Primeiramente, é um indicador historicamente utilizado como proxy mensal da atividade econômica de um país. No entanto, com o aumento considerável da participação dos serviços no produto, foi substituído por outras proxies mais adequadas para esse fim. Contudo a produção física da indústria ainda pode ser entendida como um indicador coincidente da atividade econômica. Isto é, os movimentos cíclicos na indústria tendem a acompanhar conjuntamente os ciclos econômicos e, portanto, podem dar algumas pistas sobre o comportamento da economia com uma frequência mais alta que o PIB, uma vez que os dados de produção industrial estão disponíveis mensalmente, enquanto o PIB é divulgado somente a cada trimestre.

A figura a seguir mostra o comportamento do índice de produção física do Rio Grande do Sul da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no período de janeiro de 2002 a fevereiro de 2017, juntamente com a datação das recessões no Brasil realizadas pelo Codace. Nesse período, o País entrou em recessão três vezes. A primeira foi iniciada em novembro de 2002 e findada em junho de 2003; a segunda começou em agosto de 2008 e teve término em janeiro de 2009. Mais recentemente, no segundo trimestre de 2014, o país entrou em sua primeira recessão nesta década.

Ao longo desse período, é possível observar alguns momentos de queda na produção industrial. Nota-se que há épocas de retração mais branda da atividade, associados a períodos de seca no Estado, como nos anos de 2004-05 e 2012. Contudo as contrações mais intensas nesse indicador estão associadas a períodos de recessão nacional, indicando uma alta correlação entre a queda cíclica da atividade econômica no País e a produção da indústria gaúcha.

Percebe-se também que o comportamento do indicador não é homogêneo entre os períodos recessivos nacionais. Nas duas primeiras recessões, nota-se uma rápida e profunda queda da série, seguida de uma recuperação igualmente veloz e intensa. Tais características, contudo, não parecem estar presentes na atual recessão. Alguns meses antes do início da terceira recessão, a produção industrial já vinha demonstrando tendência de queda. Após o início do período recessivo, essa tendência aprofundou-se, havendo pequenas oscilações entre crescimento positivo e negativo em torno da tendência contracionista.

Todavia, ao final do período em análise, os primeiros sinais de “trégua” na recessão começaram a aparecer na produção industrial do Rio Grande do Sul. Em primeiro lugar, o menor nível de produção da série histórica foi atingido em abril de 2016. Desse ponto até fevereiro de 2017, o indicador já acumula quase 8% de crescimento. Em segundo lugar, a frequência com que ocorreram taxas positivas de crescimento em seis meses (i.e., t/t-6) — entre as atividades da indústria de transformação gaúcha (alimentos, bebidas, fumo, couro, celulose, derivados de petróleo, químicos, borracha e plástico, metalurgia, produtos de metal, máquinas e equipamentos, veículos e móveis) — aumentou.1 Contudo, como explicado anteriormente, toda recessão tem seu fim. Salvo alguma mudança estrutural na economia que inverta para baixo a tendência de longo prazo do setor, o mesmo vale para quedas cíclicas setoriais. E quanto mais tempo dura a contração, mais aumentam as chances de a mesma se encerrar. Na produção industrial do Rio Grande do Sul, essa queda iniciou em outubro de 2013, havendo chances de ter findado ainda em 2016, caso a trajetória positiva da série se mantenha nos próximos meses. Poderia esse ser um indicativo de que a recessão no Estado está com os dias contados?


1 As séries foram dessazonalizadas utilizando o método X13-ARIMA-SEATS.

Compartilhe

Servidores públicos ativos do Estado do Rio Grande do Sul (1991-2016)

Por: e

Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

Área temática:

Assunto(s): , ,

O debate acerca dos serviços prestados pelo Estado é um tema candente e permeado de controvérsias. Para que uma análise acurada seja efetuada, é imprescindível a observação de dados que embasem as conclusões.

No caso do Rio Grande do Sul, dados de dezembro de 2016 apontam que 84,7% de todos os vínculos dos servidores públicos ativos estão alocados no Poder Executivo (administração direta). A Secretaria de Educação possui o maior número, sendo responsável por 56,0% dos vínculos ativos. Na sequência, vêm a Brigada Militar, representando 13,2%, e a Polícia Civil, com 3,5%. As autarquias e fundações da administração indireta detêm 5,9%. Já o Poder Judiciário, incluindo a Justiça Militar, detém 5,9% dos vínculos ativos, enquanto o Ministério Público abrange 1,9%. O Poder Legislativo, que é composto pela Assembleia Legislativa e pelo Tribunal de Contas, representa 1,6% dos vínculos ativos dos servidores públicos.

No gráfico, é possível observar a trajetória declinante ao longo do tempo no número vínculos de servidores públicos ativos do Estado do Rio Grande do Sul. Esse contingente correspondia a 184.554 em dezembro de 1991 e passou a 155.8981 em dezembro de 2016.A redução foi, portanto, de 28.656 (-15,5%). A diminuição dos vínculos ativos em relação à população foi mais acentuada ainda, já que a população do RS aumentou 23,5% no período. Caso a proporção se mantivesse desde 1991, hoje haveria 227.924 vínculos. É preciso ponderar que, nesse período, houve alteração técnica, sobretudo a informatização, que ampliou a eficiência e a produtividade nos processos e rotinas do setor público. De toda forma, a maior parte da redução em termos absolutos ocorreu nas áreas de educação e segurança.

O detalhamento dos setores está mais especificado a partir do ano de 2002. Os dados mostram que, entre 2002 e 2016, apenas o Poder Executivo e o Poder Legislativo apresentam queda no número de vínculos de servidores públicos ativos, enquanto o Poder Judiciário e o Ministério Público demonstram uma tendência de elevação no número de vínculos. A Secretaria de Educação é a que mais reduziu o número de vínculos ativos em termos absolutos, tendo caído de 111.484 para 88.895 (-20,3%). Na Brigada Militar, houve também uma variação expressiva do número de vínculos, de 25.397 para 20.551 (-19,1%). Já na Secretaria da Saúde, eram 6.394 e passaram a 4.038 (-36,9%). A redução de vínculos ativos foi de 30.122 nas três áreas citadas acima, incluindo a Polícia Civil.

É notável a redução ocorrida nos anos de 2015 e 2016, período coincidente com a agudização da crise financeira vivenciada pelo RS. A partir de janeiro de 2015, foram adotadas políticas restritivas, como corte de horas extras, não pagamento de promoções, fim do abono que policiais militares aposentáveis recebiam para continuar na ativa, suspensão de gratificação à permanência de professores e parcelamento de salários, inclusive do 13.° salário. Observa-se que a maior redução dos vínculos dos servidores públicos ativos ocorreu exatamente quando essas medidas foram tomadas. Por exemplo, somente entre janeiro de 2015 e dezembro de 2016, o número de vínculos caiu 17.675. Isso significa dizer que, em apenas 24 meses, a queda no número de vínculos ativos foi 60,8% superior ao que aconteceu entre dezembro de 1991 e dezembro de 2014.

Tais informações podem embasar reflexões acerca dos impactos desse expressivo processo de desligamento sobre os serviços prestados à população, tanto no presente quanto no futuro, uma vez que alterações na educação, por exemplo, são percebidas em um período mais extenso.


1Os dados do Poder Executivo são de dezembro de 2016. Para os demais poderes, foram considerados os dados de agosto de 2016. Não estão inclusas as empresas e outras instituições de economia mista, as quais possuem receitas próprias e, na maior parte, são lucrativas.

Como citar:

CONCEIÇÃO, João Batista Santos;AVILA, Róber Iturriet. Servidores públicos ativos do Estado do Rio Grande do Sul (1991-2016) Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/servidores-publicos-ativos-do-estado-do-rio-grande-do-sul-1991-2016/>. Acesso em: 21 de agosto de 2017.

Compartilhe

Maiores ganhos de participação no PIB dos municípios do RS de 2002 a 2014

Por:

Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

Área temática:

Assunto(s): , ,

Entre 2002 e 2014, o Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul cresceu, nominalmente, 262,0%. Desse total, 34,5% deveram-se ao incremento no volume, e 172,7% ao aumento nos preços. Em nível municipal, de acordo com a metodologia de cálculo utilizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e pela Fundação de Economia e Estatística (FEE), não há a desagregação das variações de volume e preços; portanto, a única variação disponível é a nominal.

Durante o período analisado, alguns municípios destacaram-se positivamente através do aumento na participação das suas economias no total do Estado. Os 10 municípios da tabela foram aqueles que obtiveram os maiores ganhos em pontos percentuais (p.p.) no período.

Guaíba apresentou o maior ganho entre todos os municípios gaúchos, mais que dobrando a participação do seu PIB no total do Estado, fazendo com que, em 2014, o município fosse 14.a maior economia do RS, subindo 11 posições desde 2002. O ganho significativo deveu-se tanto ao setor industrial quanto ao de serviços, com ênfase nas atividades da construção civil, que exibiu sensível crescimento, principalmente em 2014, referente à construção da segunda linha de produção de celulose, e de comércio de veículos automotores e motocicletas.

O crescimento de Gravataí decorreu de altas nas atividades de fabricação de veículos automotores, peças e acessórios automotivos, além de transportes e comércio de veículos automotores e motocicletas. Esse contexto tornou o município possuidor da terceira maior economia do Estado.

Cachoeirinha destacou-se devido à elevação da arrecadação de impostos sobre produtos industrializados (IPI), a qual está relacionada à fabricação de cigarros e produtos do fumo. Também houve um aumento na participação do setor de serviços. Com isso, assumiu a 12.a colocação entre as maiores economias gaúchas.

O desempenho bastante positivo de Passo Fundo derivou em alto grau das atividades industriais relacionadas a alimentos e bebidas e ao comércio atacadista de combustíveis. Ademais, o município apresentou um incremento no setor de serviços como um todo, colaborando para que figurasse como a sétima maior economia do Estado.
Caxias do Sul aumentou sua participação no PIB gaúcho principalmente devido à boa performance nas indústrias química e de veículos automotores, reboques e carrocerias e à elevação na participação do seu comércio atacadista. Dessa forma, o município manteve-se como a segunda maior economia do Estado, abaixo apenas de Porto Alegre.
Apesar de Erechim ter-se mantido como a 16.a maior economia do RS, foi o sexto município que mais incrementou sua participação no PIB. Esse ganho decorreu, sobretudo, da indústria de alimentos e bebidas, que é bastante representativa no município.

Assim como Erechim, Bento Gonçalves e Santa Maria também mantiveram suas posições no ranking dos maiores PIBs do RS (13.a e 11.a respectivamente). Bento Gonçalves apresentou alta nas indústrias de fabricação de móveis e metalurgia, e Santa Maria na distribuição de energia elétrica e gás natural e no comércio atacadista e varejista.
Já Cruz Alta e Lajeado subiram sete posições no ranking. O ganho de participação de Cruz Alta ocorreu, em grande medida, devido ao bom desempenho de todo o comércio, principalmente o atacadista, tornando o município o detentor do 24.° maior PIB do RS. Lajeado (17.° maior PIB em 2014) obteve crescimento considerável na indústria de alimentos e bebidas e comércio de veículos automotores e motocicletas.

De modo geral, os ganhos de participação desses 10 municípios foram fruto de desempenhos superiores à média estadual nas atividades de indústria de transformação e comércio, as quais são responsáveis por parcela considerável do Valor Adicionado Bruto do RS e são fundamentais na geração de empregos e renda. Esse grupo de municípios tornou-se responsável por 20,6% do PIB gaúcho em 2014, exibindo, desde 2002, acréscimo de 3,63 p.p. na parcela que possuía do PIB do Estado.

Como citar:

FANTINEL, Vinícius Dias. Maiores ganhos de participação no PIB dos municípios do RS de 2002 a 2014 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/maiores-ganhos-de-participacao-no-pib-dos-municipios-do-rs-de-2002-a-2014/>. Acesso em: 21 de agosto de 2017.

Compartilhe

O desempenho exportador do Rio Grande do Sul em 2016

Por:

Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

Área temática: , ,

Assunto(s): , ,

Em 2016, as exportações gaúchas totalizaram US$ 16,578 bilhões, uma redução de US$ 939,9 milhões (-5,4%) em relação a 2015. A retração das receitas ocorreu a despeito do crescimento de 2,5% nos preços médios dos produtos exportados, sendo ocasionada pela queda de 7,6% no volume embarcado ao exterior. Enquanto o valor auferido em 2016 alcançou o menor patamar desde 2010 e registrou o terceiro ano consecutivo de queda, o volume embarcado (21,674 milhões de toneladas) foi o segundo maior da história, atrás apenas do de 2015. Já os preços médios dos produtos exportados voltaram a crescer após dois anos de fortes quedas. O resultado coloca o Estado como o quarto maior exportador nacional (8,9%), atrás de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Os determinantes que contribuem para explicar esses resultados são de ordem tanto estrutural quanto conjuntural, passando por questões externas e internas. No plano externo e estrutural, o ano de 2016 caracterizou-se pelo menor crescimento do comércio e da atividade econômica globais, além do recrudescimento de práticas protecionistas ao redor do mundo. Ainda sem os dados consolidados, 2016 deve ser o ano com o ritmo mais lento de crescimento do comércio mundial desde o auge da crise financeira internacional, em 2009. Adicionalmente, a taxa de crescimento do comércio, que evoluiu o dobro da taxa do PIB mundial desde os anos 80 até a crise financeira, desacelerou-se pela metade no período recente, com possibilidade de crescer menos que o produto em 2016, algo que não ocorre há mais de uma década.

Soma-se, no plano externo, a dinâmica dos preços das commodities. Após o forte arrefecimento desses preços a partir do final de 2012 e com maior intensidade desde o final de 2014, os preços em dólar dos produtos exportados pelo Rio Grande do Sul iniciaram uma recuperação gradual ao longo de 2016. Esse movimento foi influenciado pela recuperação, mesmo que incipiente, dos preços dos produtos básicos, na esteira da recuperação pontual dos preços internacionais de algumas commodities importantes para o Estado, como a soja em grão e o fumo em folhas.

No que tange ao plano interno, o destaque positivo de 2016, na comparação com 2015, foram as vendas de celulose, com crescimento de 789.000 toneladas e recorde de volume embarcado para a China — principal destino da celulose gaúcha — e outros 18 países. A explicação para o referido crescimento é a quadruplicação da capacidade produtiva da planta em Guaíba e a base de comparação ainda baixa. Outros dois produtos de destaque foram as vendas de calçados e de automóveis de passageiros. As vendas de calçados cresceram 18% em valor e 42% em volume (8,227 milhões de pares vendidos a mais do que em 2015), influenciadas pelo aumento da rentabilidade do setor no ano, da contração do mercado interno e do aumento na participação em feiras internacionais. Foram registrados crescimentos nos embarques para a Argentina (mais 1,713 milhão de pares), Estados Unidos (mais 1,590 milhão de pares) — os dois mais tradicionais destinos dos calçados gaúchos — e para outros 100 países. Já as vendas de automóveis cresceram 46% em valor e 47% em volume, influenciadas também pela contração do mercado interno e do estabelecimento de novos acordos automotivos a partir de 2015, com o consequente crescimento das exportações para a Colômbia e início para o Chile (mais 3.000 unidades cada), além da forte retomada das encomendas da Argentina (mais 7.000 unidades).

Por outro lado, os produtos que mais contribuíram negativamente para o resultado geral das exportações gaúchas foram a soja em grão, o trigo e o arroz. A produção da oleaginosa cresceu 3,2%, mas as exportações recuaram 10,6% em volume (retração de 1,125 milhão de toneladas), um fato atípico na medida em que grande parte do grão produzido pelo Estado se volta à exportação. Ademais, até o primeiro semestre, as vendas externas de soja alcançaram o recorde de toda a série histórica. Contudo fatores como concorrência antecipada atípica da safra norte-americana, frustração da produção brasileira e a estratégia de segurar os estoques para alcançar maiores preços tanto pela valorização no mercado internacional quanto pela variação cambial contribuem na explicação desse desempenho aparentemente paradoxal (FEIX, 2017). Já o recuo nas vendas de trigo (70,7% em valor e 64,9% em volume) se deu pela boa qualidade na produção dos grãos, que cresceu 82,5%. Com tal qualidade, os grãos voltam-se ao abastecimento do mercado interno, diferentemente do que ocorre quando os grãos não atingem a qualidade mínima exigível e são vendidos ao exterior. Já a retração das vendas de arroz (-30,0% em valor e -27,8% em volume) foi ocasionada pela quebra de safra por conta do excesso de chuva.

Mesmo com a forte retração nas vendas de soja em grão, a oleaginosa continua sendo o produto mais vendido pelo Rio Grande do Sul (22,8% da pauta exportadora). Os demais principais produtos exportados foram: fumo em folhas (9,6%), carne de frango (6,3%), polímeros plásticos (6,1%) e farelo de soja (5,3%). A venda desses cinco produtos representou metade de toda a receita exportadora gaúcha. Em relação aos principais mercados de destino, China (26,1%), Argentina (7,9%), Estados Unidos (7,4%), Holanda (3,7%) e Bélgica (3,0%) foram os que mais compraram produtos gaúchos, com esses dois últimos países servindo de porta de entrada das mercadorias gaúchas para a União Europeia como um todo. Já a maior variação positiva de valor foi observada para o Irã (mais US$ 251,9 milhões), após a suspensão das sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) contra o país; e a maior variação negativa foi registrada para a China (menos US$ 540,3 milhões), por conta da venda, em 2015, do casco da plataforma P-67 por US$ 394,2 milhões e do recuo das compras de soja em grãos.

Dessa forma, quando se leva em consideração a conjuntura externa — baixo crescimento do comércio global e deflação nos preços dos produtos —, as exportações gaúchas não foram tão mal em 2016, na medida em que foi registrado o segundo maior volume da história, e os preços voltaram a crescer após dois anos. Contudo elas poderiam ter sido bem melhores caso, por exemplo, as vendas de soja não fossem impactadas negativamente pela tentativa frustrada de capitalização do setor. Essas questões apenas reforçam a necessidade da diversificação da pauta exportadora do Estado com o avanço nas cadeias de valor, bem como da ampliação dos seus mercados de destinos, para que movimentos conjunturais ou estruturais não afetem sobremaneira as receitas e os embarques dos produtos gaúchos destinados ao exterior.

Como citar:

TOREZANI, Tomás Amaral. O desempenho exportador do Rio Grande do Sul em 2016 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/o-desempenho-exportador-do-rio-grande-do-sul-em-2016/>. Acesso em: 21 de agosto de 2017.

Compartilhe

A persistência dos efeitos da queda da indústria de transformação no RS

Por:

Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

Área temática:

Assunto(s): , ,

Na nova série de Contas Regionais do IBGE e da FEE, o crescimento acumulado do PIB do Rio Grande do Sul entre 2003 e 2014 foi maior apenas que o do Estado do Rio de Janeiro, ocupando a 26.ª posição entre os estados brasileiros. Em uma primeira observação, esse resultado pode indicar que o nosso estado passa por uma crise crônica que o faz ser incapaz de acompanhar o ritmo da economia nacional. Entretanto, uma análise mais acurada mostra que se olharmos a série a partir de 2006, configura-se outro resultado, com o RS apresentando um desempenho melhor (21.º) e mais próximo à média nacional, com um crescimento acumulado maior que o dos outros estados da Região Sul (Santa Catarina e Paraná) e de outras duas grandes economias estaduais (Minas Gerais e Rio de Janeiro). Entre os grandes Estados, o RS ficou atrás apenas de São Paulo. Compreender o que ocorreu no RS, tanto nos anos iniciais da série quanto na sua persistência no tempo é importante, principalmente devido aos seus efeitos sobre o PIB per capita, sobre a participação do Estado na economia nacional e sobre a arrecadação de impostos.

A primeira suspeita obviamente recai sobre a estiagem que se abateu sobre o Estado em 2004 e 2005, provocando severas perdas para a agropecuária. Entretanto, ela recuperou essas perdas em 2006 e exibiu um crescimento acumulado superior ao brasileiro de 2003 a 2014, mesmo com outra estiagem severa em 2012. Dessa forma, as perdas agrícolas decorrentes de problemas climáticos não podem explicar diretamente o desempenho gaúcho durante todo o período.

No gráfico, podemos ver que a indústria de transformação gaúcha teve desempenhos negativos em 2005 e 2006, enquanto o desempenho brasileiro, apesar de pequeno, foi positivo. Como o diferencial observado com o desempenho nacional não foi recuperado nos anos subsequentes, e, a partir de 2007, a indústria de transformação do RS e do Brasil tiveram desempenhos bastante similares, é na queda especificamente local da indústria de transformação desses anos que se encontra a maior diferença acumulada no PIB para o conjunto da série. Por que, nestes dois anos (2005 e 2006) especificamente, as atividades industriais se descolaram do desempenho do restante do País? Apesar de ser comum a ideia de que a valorização da taxa de câmbio está associada ao desempenho negativo da indústria gaúcha, ela não explica o porquê da retomada industrial a partir de 2007, mesmo com o câmbio valorizando-se até a crise de 2008 e em 2010 e 2011.

Se, além da seca e do câmbio, observarmos a redução da taxa de formação bruta de capital fixo nacional e o comportamento dos preços agropecuários, principalmente o da soja, nos anos de 2005 e 2006, poderemos acrescentar uma hipótese multicausal para o que aconteceu nesses anos e, assim, compreender melhor a dinâmica interna da nossa economia. A indústria de transformação é impactada diretamente de duas formas pela produção agropecuária: a montante, acarretando uma redução de demanda por insumos, e a jusante, provocando uma redução de oferta agrícola. A valorização da taxa de câmbio aumenta a concorrência externa aos produtos industriais, prejudicando tanto suas vendas internas quanto suas exportações. A redução do investimento nacional diminui a demanda por bens de capital e sua cadeia de fornecedores. A queda dos preços internacionais, combinada com a valorização do real, reduz a renda agrícola mediante a queda do valor da produção.

O efeito da estiagem é local, e sua duração por dois anos amplificou o impacto da demanda sobre o setor de insumos. Os efeitos do câmbio e do investimento nacional impactaram toda a indústria nacional, mas, ainda mais, a indústria gaúcha devido à especificidade de sua estrutura. O efeito da queda de preços da soja, apesar de atingir todo o País, atingiu mais o Estado porque esta veio combinada com a redução da quantidade, causada pela estiagem. Ao atingir um contingente significativo de ocupados no RS, a queda de renda reduziu a demanda por bens locais, e, mais fortemente, por bens de capital (máquinas e implementos agrícolas). A importância do efeito-renda é corroborada pelo desempenho inferior do comércio gaúcho comparado ao nacional até 2009. Outra forma de vermos a questão é compararmos o que acorreu depois da seca de 2012 com a rápida recuperação decorrente da elevada capitalização do setor agrícola e do nível alto de preços da soja em 2012.

Entre os resultados do menor nível no volume do PIB do RS no período, a partir da queda da indústria de transformação gaúcha, a diminuição da arrecadação de impostos é que tem um significado mais direto para a atual situação fiscal do Estado. Como mais de 45% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é arrecadado pela indústria de transformação, o fato de a taxa acumulada pela indústria estar 70% inferior à brasileira ao longo do período de 2003 a 2014 indica uma potencial perda de arrecadação que poderia minorar as dificuldades fiscais do Estado e dos municípios. O efeito estrutural das consequências dessa queda e o caráter exógeno das causas do problema revelam a dificuldade de os governos estaduais e municipais mitigarem sozinhos suas consequências. Problemas como esses deveriam receber um tratamento diferente da Federação, sendo um dos objetos de um redesenho do pacto federativo.

drop-5-grafico

Como citar:

ROCHA, Roberto. A persistência dos efeitos da queda da indústria de transformação no RS Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/a-persistencia-dos-efeitos-da-queda-da-industria-de-transformacao-no-rs/>. Acesso em: 21 de agosto de 2017.

Compartilhe

Safra recorde, exportações em queda: o desempenho do complexo soja gaúcho em 2016

Por:

Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

Área temática: ,

Assunto(s): , ,

Na segunda semana de janeiro, a Fundação de Economia e Estatística divulgou informações detalhadas sobre as exportações de mercadorias do agronegócio gaúcho em 2016. As vendas externas do agronegócio somaram US$ 11,0 bilhões, o que equivale a 66% das exportações totais do Rio Grande do Sul no ano passado.
Em termos setoriais, o principal destaque foi o complexo soja, que, além do grão, abrange os dois principais produtos derivados do seu processamento (farelo e óleo). As exportações gaúchas desse setor totalizaram US$ 4,8 bilhões, valor 8,2% inferior ao registrado em 2015. No ano em que a safra gaúcha de soja, pela primeira vez, foi superior à marca de 16 milhões de toneladas, os volumes embarcados para o exterior recuaram 9,9%. Na sequência, são analisados três fatores que podem explicar esse desempenho aparentemente paradoxal observado em 2016.
Um primeiro aspecto a se destacar é o ritmo das vendas externas da safra brasileira. Mesmo com a frustração da produção nacional, nos primeiros meses do ano, os embarques do grão foram intensos, tendo-se registrado crescimento de 37% até o mês de maio. A expansão dos volumes comercializados foi sustentada principalmente pelo escoamento da safra da Região Centro-Oeste, colhida antecipadamente em relação ao Sul e ao Nordeste. A partir de junho, com a contabilização das perdas, sobretudo no Mato Grosso e na região dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (conhecida por Matopiba), os embarques contraíram. Aparentemente, houve um ajuste nas vendas externas para garantir o atendimento da demanda doméstica, criando-se um incentivo à retenção de uma parcela adicional da safra gaúcha.

O segundo fator que constrangeu as exportações gaúchas de soja foi a dimensão da safra dos Estados Unidos, principal produtor mundial da oleaginosa. A colheita da safra norte-americana é iniciada tradicionalmente em setembro, e as exportações intensificam-se nos meses seguintes, até fevereiro. Em 2016, tendo em vista a ocorrência de condições climáticas excepcionalmente favoráveis ao desenvolvimento da cultura, os recordes de produtividade e produção eram dados como certos já no mês de agosto. Essa perspectiva de crescimento da oferta acelerou a comercialização dos estoques de passagem nos Estados Unidos e reduziu a demanda pela produção sul-americana ainda disponível. Pela primeira vez, as exportações norte-americanas, no período imediatamente anterior à entrada da nova safra (meses de julho e agosto), superaram a marca de cinco milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

A aproximação da supersafra, nos Estados Unidos, coincidiu com a queda das cotações internacionais, que haviam atingido o ponto mais alto em junho (média de US$ 420,03/tonelada). Até aquele momento, o crescimento da demanda externa sinalizava preços altamente remuneradores para a venda no Brasil: à valorização de 26% no preço Free on Board (FOB), em Paranaguá, acrescia-se a desvalorização de 10% na taxa de câmbio, comparativamente a junho de 2015. Desde então, além da queda nos preços de exportação, houve valorização da taxa de câmbio — interrompida em novembro —, o que produziu preços internos (em reais) menos favoráveis à exportação. Conformou-se, assim, uma terceira razão para a redução dos embarques gaúchos de soja no segundo semestre. Apenas em dezembro houve uma ligeira recuperação nas vendas, insuficiente para a compensação das quedas dos meses anteriores.

Ainda que uma parcela adicional da safra gaúcha tenha sido destinada ao atendimento do mercado brasileiro, conforme sugerido anteriormente, os estoques de passagem continuam elevados no Estado. Em 2017, a perspectiva de um novo recorde de produção de soja no Rio Grande do Sul aumenta a importância do planejamento pelos atores envolvidos na atividade de comercialização. O IBGE projeta que a safra gaúcha será 1,1% superior à verificada em 2016, isso em um cenário que contempla ainda a recuperação da produção nacional (104,9 milhões de toneladas, alta de 9,6%). Se confirmado esse cenário, e a safra dos demais países sul-americanos não for severamente prejudicada pelo clima — o impacto das chuvas recentes na Argentina ainda precisa ser dimensionado —, projeta-se uma elevação na relação estoque/consumo mundial de soja. Esse seria um fator limitante à recuperação dos preços internacionais do produto no primeiro semestre de 2017. Por óbvio, há outras variáveis que influenciam as cotações e o faturamento dos produtores e dos cerealistas brasileiros, a exemplo da taxa de câmbio e das estratégias de comercialização.

Em termos mais abrangentes, tendo o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul em perspectiva, permanece o desafio de estabelecer condições internas e externas que, no longo prazo, viabilizem a conversão de uma parcela maior da safra de soja e milho em proteína animal. Em outras palavras, isso significa avançar na cadeia de valor, aumentando a participação gaúcha na produção das carnes demandadas pelos países importadores de insumos para a ração animal (a China, por exemplo). Para que isso se torne possível, é fundamental melhorar a infraestrutura logística para a exportação e, sobretudo, garantir à indústria brasileira condições isonômicas em matéria tributária e de acesso a mercados, comparativamente aos principais concorrentes internacionais.

Como citar:

FEIX, Rodrigo Daniel. Safra recorde, exportações em queda: o desempenho do complexo soja gaúcho em 2016 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/safra-recorde-exportacoes-em-queda-o-desempenho-do-complexo-soja-gaucho-em-2016/>. Acesso em: 21 de agosto de 2017.

Compartilhe

O que esperar para as exportações gaúchas em 2017?

Por:

Edição: Ano 25 nº 11 – 2016

Área temática:

Assunto(s): , ,

O atual cenário recessivo brasileiro enseja diversos questionamentos a respeito das possibilidades e perspectivas de uma possível retomada do crescimento da economia do País, assim como da gaúcha, em 2017. Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem recuando há seis trimestres sucessivos, desde o primeiro de 2015. Já na comparação interanual, a queda vem de nove trimestres consecutivos, acompanhada, há pelo menos seis trimestres sucessivos, por praticamente todos os componentes do produto. No mesmo sentido, o PIB do Rio Grande do Sul registrou quedas em oito dos últimos nove trimestres, desde o segundo de 2014.

Por outro lado, a exceção desse movimento são as exportações de bens e serviços, as quais são o único componente do PIB, pela ótica da demanda, a apresentar contribuição positiva desde 2015. O coeficiente de exportação da indústria de transformação apresentou, em 2015, uma reversão da trajetória de queda observada desde 2006 e mantém uma evolução positiva até o presente momento. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil foi o país, entre as grandes economias, que mais aumentou os embarques no primeiro semestre de 2016, e, embora com receitas menores por conta dos preços mais baixos dos produtos, a quantidade embarcada pelo País em 2016 no acumulado janeiro-outubro é a maior de toda a série histórica pelos dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). Os números do RS, na média, também seguem essa direção.

Recorrendo aos dados de registro fiscal de saídas da Secretaria da Fazenda do RS, é possível identificar três tipos de destinos das vendas gaúchas: para dentro do Estado, para o restante do Brasil e para o exterior. O gráfico abaixo evidencia que 2015 foi o ponto de inflexão das trajetórias crescentes das vendas para o resto do Brasil e das decrescentes para o exterior. A partir do referido período, todavia, as receitas em reais das vendas ao exterior cresceram fortemente. Nesse sentido, a recessão não prejudicou tanto as exportações do Estado, pelo contrário: a retração do mercado nacional, a forte depreciação da taxa de câmbio e uma demanda maior dos principais parceiros comerciais contribuíram para o incremento dos embarques, a rentabilidade dos exportadores e a elevação do número de empresas exportadoras, consolidando o mercado externo como alternativa viável à destinação da produção não vendida internamente. A questão que se impõe neste momento é se essa dinâmica favorável das exportações se manterá, ou não, em 2017.

Primeiramente, é mister compreender as perspectivas de crescimento do produto e do comércio mundiais. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o produto global, que cresceu 3,2% em 2015, tem previsão de crescimento de 3,1% para 2016 e de 3,4% para 2017, crescimentos esses puxados pelos países emergentes, sobretudo pela gradual normalização das condições macroeconômicas em economias que passaram por recessões e pelo aumento do peso dos países de rápido crescimento na economia mundial. Contudo, tal cenário é dependente de alguns fatores atinentes a riscos tanto políticos, tais como as incertezas em relação ao Brexit e a possibilidade de discursos protecionistas se refletirem nas políticas comerciais, quanto econômicos, tais como a estagnação persistente das economias avançadas, o ajustamento da economia chinesa e seus efeitos sobre a economia mundial, além da volatilidade financeira dos países emergentes.

O arrefecimento da demanda global nos últimos anos (em especial do investimento) desempenha um papel importante para explicar o crescimento moderado do comércio. Nesse particular, 2016 deve ser o ano com o ritmo mais lento de crescimento do comércio e do produto mundiais desde o auge da crise financeira internacional, em 2009. O volume do comércio, que cresceu a taxas médias de 2,1% a.a. entre 2012 e 2015, obteve crescimento zero até julho de 2016. A projeção da OMC é de crescimento de 1,7% no final do ano e de algo entre 1,8% e 3,1% em 2017. Adicionalmente, o comércio, que crescia, na média, o dobro da taxa do produto global desde os anos 80 até a crise financeira, desacelerou pela metade e passou a acompanhar a taxa média de crescimento da atividade econômica no período recente, com possibilidade de crescer menos que o produto em 2016, algo inédito há 15 anos. Mesmo com uma possível melhora da demanda externa em 2017, os riscos continuam sendo altos.

Em relação ao principal item da pauta de exportação gaúcha, a soja em grão, a Emater-RS projeta uma redução na produção de 2,1%. Apesar de uma possível retração da quantidade exportada em 2017, o preço do grão vem revertendo a trajetória baixista desde o fim do boom das commodities. De forma mais geral, a intensa retração dos preços dos bens exportados iniciada em meados de 2014 começa a dar sinais de desaceleração, embora incipientes, sobretudo os preços dos produtos básicos, que já registram uma trajetória ascendente desde abril de 2016, no acumulado em 12 meses, no Estado. Nesse tocante, os preços das commodities, que atingiram o seu menor valor no início de 2016 desde o fim do boom, agora exibem certa valorização — em grande parte, pela dinâmica das commodities energéticas. Já a projeção para os preços de produtos relevantes na pauta exportadora do Estado, como os do complexo soja, as carnes e o fumo, é de ligeira redução, embora o cenário ainda seja incerto.

Em relação à produção industrial, o Estado acumula um recuo de 5,2% nos primeiros oito meses do ano, e de 8,8% nos últimos 12 meses. Apesar da desaceleração das quedas, uma retomada sustentada já para 2017 mostra-se difícil, mesmo que exista grande capacidade ociosa na indústria. Ademais, a taxa de câmbio nominal, que vinha em forte depreciação desde o início de 2015 — alcançando R$/US$ 4,04 no final de janeiro de 2016 —, fechou outubro a 3,18. A expectativa do mercado financeiro para 2017, segundo o Relatório Focus, é de uma taxa a 3,33.

Dessa forma, o atual cenário, caracterizado pelo baixo crescimento do comércio e do produto globais e pela elevação de práticas protecionistas, impõe o acirramento da concorrência aos produtos gaúchos no exterior e lança mais desafios para as exportações em 2017. Todavia, por apresentar uma pauta exportadora concentrada em poucos produtos e destinos, uma recuperação de parceiros comerciais relevantes e uma evolução mais favorável dos preços dos bens exportados podem reverter um cenário ainda pior para as vendas externas gaúchas.

drope-5-grafico

Como citar:

TOREZANI, Tomás Amaral. O que esperar para as exportações gaúchas em 2017? Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/o-que-esperar-para-as-exportacoes-gauchas-em-2017/>. Acesso em: 21 de agosto de 2017.

Compartilhe

Desigualdades regionais no Rio Grande do Sul, entre 2010 e 2013

Por:

Edição: Ano 25 nº 04 – 2016

Área temática:

Assunto(s): ,

Recentemente, a Fundação de Economia e Estatística (FEE) lançou as novas séries do Produto Interno Bruto (PIB) e do Índice de Desenvolvimento Socioeconômico (Idese) para o Rio Grande do Sul, com dados consolidados de 2010 a 2013. É certo que as transformações econômicas e políticas por que tem passado o País desde 2014 terão consequências para as desigualdades regionais, mas os dados revisados para o período sinalizam uma tendência de maior convergência do desenvolvimento dos municípios gaúchos. Em qualquer cenário, no entanto, eles reforçam o importante elo causal entre as condições da safra agrícola, o desempenho da economia gaúcha e os níveis de desigualdade intermunicipal na geração de riqueza.

O período referido mostra grande variabilidade no desempenho da economia gaúcha, com um crescimento de 4,4% no PIB em 2011, seguido por uma queda de 2,1% em 2012 e um expressivo crescimento de 8,2% em 2013. Apesar do revés de 2012, decorrente da estiagem que provocou um encolhimento de quase 14% no valor adicionado nominal da agropecuária, a aceleração de 2013 representou mais do que a mera recomposição das perdas anteriores, sobretudo nas desigualdades intermunicipais.

Analisando-se o Valor Adicionado Bruto per capita (VABpc) dos municípios, verifica-se uma aproximação em relação à média estadual. O indicador mais popular para essa avaliação, o Vw de Williamson, sintetiza a intensidade da heterogeneidade intermunicipal, ao ponderar as diferenças entre o PIB per capita de cada município, suas populações e a média estadual, resultando em uma única medida, em uma escala de 0 a 1. Entre 2010 e 2013, o Vw estadual apresentou queda nos quatro anos. Os resultados são expressivos para o curto período.

Para compreender melhor o processo, novamente foi aplicada a técnica do Vw, agora para medir a intensidade com que varia o VABpc dentro de cada Região Funcional (RF) de Planejamento do Estado, tomando a média da região como referência. Foi possível, dessa forma, identificar tendências internas das RF, nem sempre análogas às do conjunto do Estado. Das nove regiões, tomadas como unidades independentes, a RF2 e a RF9 se mantiveram estáveis, com leve aumento das desigualdades internas, outras quatro tiveram leve queda, enquanto três, as RF6, RF9 e RF5, se destacaram por variações acentuadas.
Por um lado, a RF6 e a RF9, localizadas na fronteira tríplice do Oeste e no Norte, respectivamente, apresentaram uma queda mais acentuada das desigualdades intermunicipais. No caso da RF6, uma região com menor número de municípios, o movimento decorreu, em grande medida, da queda abrupta do VABpc do Município de Candiota, em 2011, impactado pelos resultados negativos da termelétrica CGTEE, em face do controle de preços de energia elétrica e da elevação dos custos de produção. Na RF9, o mesmo fenômeno se verificou no Município de Aratiba, onde está localizada a Hidrelétrica de Itá.

Por outro lado, na contramão do Estado, a RF5, onde se manifestam os dilemas socioeconômicos mais conhecidos da Metade Sul, apresentou um aumento significativo da concentração relativa do VABpc. Abrindo-se as informações, percebe-se uma importante contribuição do Município de Rio Grande, que passou de uma participação de cerca de 34,5% no VAB da RF em 2010 para 38,3% no último ano da série. Grande parte da expansão econômica do Município deve-se à indústria de equipamentos de transporte e aos serviços de transporte de carga e armazenagem associados ao polo naval, que tiveram bom desempenho em 2012 e 2013.
Apesar desses casos isolados, a tendência agregada de convergência explica-se pela forte recuperação do VAB da agropecuária em 2013, principalmente pelo efeito-preço das commodities, como a soja, uma vez que os dados municipais são divulgados em termos nominais (e não em volume de produção). O setor, que representava cerca de 8,3% do Valor Adicionado do Estado em 2010 e 2011, havia recuado para 6,7% em 2012, saltando para 10,1% em 2013. Por sua natureza, a atividade agrícola está mais distribuída territorialmente do que a indústria e os serviços. Naturalmente, uma expansão mais do que proporcional na agropecuária promove uma melhor distribuição espacial da geração de riqueza. Contudo, em que medida se pode afirmar que isso representa melhores condições de vida para as populações de regiões menos desenvolvidas do território gaúcho?
Além do conhecido encadeamento entre a agropecuária e a indústria do RS, um dos principais canais de ativação da economia regional se dá via renda agrícola. Para cada ponto percentual (p.p.) de crescimento do volume produzido por esse setor, no município, um estudo da FEE , de 2013, estimou um crescimento associado do comércio local de 0,3 p.p. acima da média estadual.

Por fim, os dados do Idese divulgados no último mês, que permitem uma avaliação mais abrangente do desenvolvimento regional, apontam no mesmo sentido. Aplicando-se um coeficiente de variação (CV) simples aos indicadores dos municípios do RS, a queda da dispersão em torno da média estadual foi constante e também expressiva, dado que o índice abarca características que se alteram mais lentamente do que a renda nominal, como saúde e educação.
Em que pese ao fato de as regiões estarem muito voltadas para a atração de grandes investimentos, a vocação agrícola do Rio Grande do Sul parece indissociável do desenvolvimento regional gaúcho. Nesse sentido, a reflexão que se impõe está ligada às alternativas de adensamento e qualificação da produção estadual e de controle mais eficientemente dos impactos climáticos e da variação dos preços internacionais, de forma que a economia regional não dependa tanto da expansão de lavouras como a de soja, cujo desempenho foi o grande avalista do resultado de 2013.

drop-3-quadro

Compartilhe