Textos com assunto: Região Metropolitana de Porto Alegre

Salário mínimo e empregos de baixos salários na RMPA

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Edição: Ano 25 nº 01 – 2016

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A regulação institucional do mercado de trabalho é reconhecida pela literatura internacional como um dos fatores que influencia a incidência de empregos de baixos salários em uma economia. Dentre as formas de regulação institucional, são destacados o salário mínimo, os sindicatos e a legislação de proteção ao emprego.

O salário mínimo é um dos instrumentos de regulação mais estudados pela literatura sobre trabalhadores de baixos salários. A sua instituição afeta os empregos de baixos salários na medida em que objetiva proporcionar um padrão de vida que seja socialmente aceitável para os trabalhadores menos qualificados e mais vulneráveis do mercado de trabalho. Ele opera como um tipo de truncamento na distribuição de salários em um instante no tempo, no sentido de que nenhum trabalhador poderá ser remunerado abaixo do valor que para ele foi estipulado.

Essa norma institucional irá interferir na proporção de empregos de baixos salários quanto mais abrangente for a sua cobertura e maior o nível em que for estabelecido em relação ao salário médio da economia. No que diz respeito à cobertura, se o salário mínimo for de acesso universal, ele se constituirá em uma norma de proteção abrangente contra baixos padrões remuneratórios. De forma distinta, se tiver uma aplicação restrita a determinados setores produtivos ou segmentos da força de trabalho, o seu alcance, em termos de proteção aos trabalhadores, será mais limitado.

No que se refere ao nível do salário mínimo, quanto mais elevado ele for estabelecido em comparação ao salário médio, maior será a sua capacidade de reduzir a parcela relativa de trabalhadores de baixos salários na economia. Como esse segmento de trabalhadores está inserido na base da estrutura salarial, a fixação do salário mínimo com maior proximidade do salário médio significa que o ponto de corte na parte inferior da distribuição de salários irá truncá-la mais acima, limitando a incidência de empregos de baixos salários.

Buscando-se operacionalizar, em termos empíricos, o objeto de investigação deste texto, adota-se como referência para a mensuração do segmento de trabalhadores de baixos salários a definição da Organização Para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que é a de que este corresponde aos empregados que recebem menos de dois terços da mediana do salário-hora da economia. Essa definição foi também adotada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Global Wage Report de 2010.

De acordo com evidências apresentadas em estudos para os países da OCDE, há uma clara correlação negativa entre a incidência de empregos de baixos salários nesses países e o Índice de Kaitz, indicador que é obtido pela divisão do salário mínimo pelo salário médio. Ou seja, quanto maior for esse índice, menor a parcela relativa de empregos de baixos salários.

Procurando investigar esse tema no âmbito da Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), pode-se observar, no gráfico, a incidência de empregos de baixos salários e o Índice de Kaitz para o período 1995-2014. Conforme se constata, maiores patamares do Índice de Kaitz correspondem a menores parcelas relativas de empregos de baixos salários na região. Nesse sentido, o Índice de Kaitz avançou de 0,21 em 1995 para 0,37 em 2014, enquanto a proporção de empregos de baixos salários se reduziu de 28,1% para 14,7% nessa mesma base comparativa.

A hipótese que se propõe neste trabalho é a de que o processo de valorização do salário mínimo real no período, cujo crescimento foi de 106,1% na comparação de 1995 com 2014, contribuiu para reduzir a desigualdade da estrutura salarial e, correlatamente, a incidência de empregos de baixos salários. Nesse sentido, o Coeficiente de Gini dos salários-hora reais diminuiu de 0,458 em 1995 para 0,386 em 2014. De acordo com outro recorte analítico, o 1° decil dos salários-hora reais — situado próximo da base da estrutura salarial — registrou um crescimento de 71,5%, enquanto o 9° decil se manteve relativamente estável, com um acréscimo de somente 0,3%. Isso reforça a compreensão de que ocorreu uma queda da desigualdade salarial na RMPA, no período, e que esta foi influenciada pelo processo de valorização do salário mínimo real.

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Inversão do comportamento do desemprego entre homens e mulheres na RMPA

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Edição: Ano 24 nº 11 – 2015

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Estudos apontam que a diferenciação entre gênero ocorre desde o início da inserção feminina no mercado de trabalho. Contudo as mulheres estão vencendo as barreiras e aumentando, de uma forma lenta e gradual, sua participação no ambiente profissional.

Historicamente, para a Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), a taxa de desemprego das mulheres era superior à dos homens, e, não raro, elas representavam a maioria dos desempregados. Entretanto a deterioração do mercado de trabalho dos últimos meses parece estar afetando mais os homens do que as mulheres. Em ago./15, pela primeira vez na série histórica da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED) iniciada em jun./92, observou-se uma igualdade nas taxas de desemprego entre homens e mulheres em 9,7%. Em set./15, a taxa de desemprego dos homens superou a das mulheres, sendo que a taxa masculina mais que dobrou no último ano, ao passar de 5,1% em set./14 para 10,3% em set./15 (aumento de 102%), enquanto a feminina subiu de 7,0% para 9,9% (aumento de 41,4%) no mesmo período.

Outro dado relevante é que os homens representavam 46,6% dos desempregados, e as mulheres, 53,4% em set./14, e esse comportamento se inverteu em set./15, passando para 54,5% e 45,5% respectivamente. Além disso, a diferença de gênero foi superior em 2015, passando de 6,8 p.p. a favor dos homens em set./14 para 9,0 p.p. a favor das mulheres em set./ 15, evidenciando uma maior adversidade masculina no mercado de trabalho.

Constata-se ainda que o desemprego tem afetado mais os chefes de domicílio, posição tradicionalmente ocupada por homens. Em set./15, houve um aumento de 105,6% da taxa de desemprego dos chefes de domicílio em relação a set./14. Quanto à faixa etária, identifica-se que o aumento do desemprego foi mais acentuado para os homens com idade entre 25 e 49 anos. O nível de escolaridade mais impactado pelo desemprego masculino foi para aqueles que possuem até ensino médio incompleto.

Uma possível explicação para esse comportamento desfavorável do mercado de trabalho atingir com maior intensidade os homens pode estar relacionada ao desempenho setorial da atividade econômica. No período set./14-set./15, houve uma redução do nível ocupacional em 37 mil pessoas. A indústria de transformação, considerada um reduto masculino, perdeu 34 mil postos de trabalho, enquanto o setor comércio e reparação de veículos e motocicletas, com grande presença feminina, perdeu 16 mil postos de trabalho. Os demais setores tiveram desempenho positivo no período: a construção com mais 1 mil postos e os serviços com mais 7 mil postos.

No setor industrial, as demissões atingiram mais os homens do que as mulheres. Em set./14, a indústria de transformação ocupava 21,8% dos homens e 12,8% das mulheres. Já em set./15, essas proporções passaram para 19,3% e 12,5% respectivamente. Em comércio e reparação de veículos e motocicletas, a ocupação feminina reduziu-se, passando de 19,4% em set./14 para 17,7% em set./15. Entre os ocupados homens, essa proporção aumentou de 20,1% para 20,6% no mesmo período. Os demais setores permaneceram estáveis nesse período de comparação.

O aumento da taxa de desemprego em set./15 atingiu predominantemente os homens, devido à retração do nível de atividade econômica ter impactado com mais intensidade os recintos masculinos, tais como a ocupação no setor da indústria de transformação e os chefes de domicílio. Isso pode ter uma relação com o diferencial de rendimentos entre gênero a favor dos homens e a busca por redução de custos por parte das empresas, atingindo aqueles com maiores salários.

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Resíduos sólidos urbanos na RMPA: a contramão da política nacional

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Edição: Ano 24 nº 03 - 2015

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O Brasil é a terceira nação que mais acumula lixo. O Relatório de Resíduos Sólidos Urbanos (IPEA, 2012) relata que são 183.481,50 toneladas de sobras por dia, só ficando atrás da China e dos Estados Unidos. Nas cidades com maior concentração populacional, a geração desses resíduos supera 1,2 kg/hab/dia. Segundo esse documento, caso todo o resíduo reaproveitável atualmente enviado a aterros e lixões em todo o Brasil fosse reciclado, a riqueza gerada poderia chegar a R$ 8 bilhões anuais, cerca de um terço do Bolsa Família, ou 3% do pagamento de juros da dívida.

Entretanto, na contramão do Plano Nacional de Resíduos Sólidos, que regulamenta a Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010), todos os municípios da Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), bem como de outras regiões, foram, por uma gestão equivocada, levados a transportar o “lixo” para o aterro sanitário localizado em Minas do Leão. Além de desperdiçar matéria-prima, não aproveitar oportunidades de geração de trabalho e renda com reciclagem e reúso, são colocadas diariamente centenas de caminhões no já caótico trânsito, aumentando o risco de acidentes, o gasto de combustíveis, a poluição e um acelerado desgaste das nossas precárias estradas. Os prejuízos são de ordem econômica, social e ambiental.

Segundo o Departamento Municipal de Limpeza Urbana (DMLU) de Porto Alegre, a coleta seletiva corresponde         a 25% dos resíduos domiciliares. Entretanto mais de         1.000 t/dia são recolhidas pela coleta não seletiva, na qual cerca de uma quarta parte seria de recicláveis, não selecionados, “enterrados” em Minas do Leão. Outro dado importante para avaliar é que 64,44% do coletado é matéria orgânica.

O desafio da adequação da gestão dos resíduos sólidos urbanos exige dos órgãos responsáveis uma série de ações que passam, principalmente, pela revisão das normativas para esse setor. Isso não significa flexibilizar, mas, sim, modernizar as bases conceituais e referenciais que estruturam o licenciamento ambiental. Essa mudança pode e deve acontecer à luz da ciência e tecnologia dentro dos princípios de qualidade de vida e bem-estar social.

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O menor desemprego da RMPA: a melhor fase do mercado de trabalho?

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Edição: Ano 24 nº 03 - 2015

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A taxa de desemprego na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), em 2014, foi de 5,9% da População Economicamente Ativa (PEA), a menor média anual em 22 anos da Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED-RMPA), iniciada em junho de 1992. Todavia outros indicadores não tiveram comportamento favorável: o nível de ocupação teve queda de 2,1% — a maior da série histórica da pesquisa —, e o rendimento médio real dos ocupados registrou relativa estabilidade, após elevação contínua desde 2005. Esses resultados interrompem o desempenho positivo dos indicadores do mercado de trabalho regional, observado nos 10 anos anteriores. Nesse contexto, será que a menor taxa de desemprego em 2014 pode representar a melhor fase do mercado de trabalho?

A taxa de desemprego é determinada no mercado de trabalho a partir do confronto entre a demanda por trabalho — dependente do nível de produção  da  economia — e a oferta de trabalho, que é dada pelos movimentos da PEA, de forma que seu aumento ou sua redução terá reflexo direto sobre a taxa de desemprego.

Quanto à demanda por trabalho, há indicativos de que a fase de crescimento contínuo do emprego, que foi o principal determinante para a redução da taxa de desemprego no período de 2004 a 2013, ficou para trás. De fato, o nível ocupacional, já em desaceleração desde 2011, contabilizou queda em 2014. Como a economia não cresceu, a maioria dos setores demitiu mais do que contratou. O rendimento médio real dos ocupados, por sua vez, registrou relativa estabilidade, e os assalariados obtiveram queda de 0,5%. A massa de rendimentos reais teve retração de 2,0% para os ocupados e 2,7% para os assalariados em decorrência da queda na ocupação. Esses dados tornaram o ano de 2014 singular para o mercado de trabalho regional, pois, pela primeira vez, tem-se a menor taxa anual de desemprego e a maior taxa anual de retração da ocupação.

Para entender 2014, é necessário analisar o que está acontecendo no lado da oferta de trabalho. Verifica-se uma redução no ritmo de crescimento da força de trabalho de 2009 a 2012, relativa estabilidade em 2013 e retração de 2,7% em 2014, refletindo a saída de 51 mil trabalhadores do mercado de trabalho. Essa redução da PEA, sendo de maior magnitude do que a retração da ocupação (menos 38 mil ocupados), possibilitou a diminuição de 13 mil no contingente de desempregados e a consequente queda na taxa de desemprego, de 6,4% para 5,9%. Se não houvesse esse declínio da PEA e mantida a queda da ocupação, o resultado seria uma elevação na taxa de desemprego para 8,4% em 2014.

Uma questão que se apresenta é até quando o aumento do desemprego será contido pela saída de pessoas do mercado de trabalho. Os dados de 2014 sugerem que fatores socioeconômicos passaram a influenciar o comportamento da PEA com maior intensidade do que as mudanças demográficas. Com base nas informações da PED-RMPA, comparando 2013 a 2014, em números absolutos, observa-se que a saída do mercado de trabalho ocorreu entre os jovens de 16 a 24 anos (menos 30 mil ou -8,6%) e adultos de 25 a 39 anos (menos 27 mil ou -3,7%), pois houve aumento de 6 mil entre os que possuem 40 anos e mais. Quanto à escolaridade dos que saíram, destaca-se que 43 mil possuíam, no máximo, o fundamental completo, e 11 mil tinham concluído o ensino médio ou estavam cursando o ensino superior. Ademais, verifica-se que a proporção de jovens de 16 a 24 anos que somente estudam, na RMPA, aumentou de 23,9% (127 mil) em 2013 para 26% (133 mil) em 2014, o mesmo ocorrendo entre os jovens dessa faixa etária que nem estudam e nem trabalham (nem-nem), cuja proporção subiu de 11,2% (60 mil) em 2013 para 12,6% (65 mil) em 2014.

O bom desempenho dos últimos 10 anos do mercado de trabalho e das políticas sociais parece ter proporcionado condições mais favoráveis para a permanência dos jovens na escola e o adiamento do ingresso no mercado de trabalho, apesar de não ter reduzido os “nem-nem”. No âmbito da família, destacam-se o crescimento do rendimento médio real dos ocupados e o baixo índice de desemprego para os chefes de domicílio (3,3% em 2014), e, no âmbito das políticas sociais, destacam-se os programas de incentivo à formação superior, como o financiamento estudantil (Fies), o Prouni e o Ciência sem Fronteiras. Esse fenômeno pode ser considerado como positivo para a sociedade gaúcha, mas questiona-se a continuidade desse processo, dado que o cenário da economia brasileira e da gaúcha para 2015 não é de otimismo. Nessa situação, uma menor renda no âmbito familiar poderá desencadear o movimento de retorno desses jovens e de outros membros da família ao mercado de trabalho. Portanto, após atingir a menor taxa de desemprego da série PED-RMPA, a análise do mercado de trabalho permite concluir que 2014 de fato não retrata a sua melhor fase, assim como dá indícios de que a taxa de desemprego poderá voltar a crescer a partir de 2015.

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Trabalhadores de baixos salários na Região Metropolitana de Porto Alegre

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Edição: Ano 24 nº 01 - 2015

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Ao longo dos anos 2000, um dos fenômenos mais relevantes que ocorreram no mercado de trabalho do Brasil foi o da geração de empregos com registros formais. Esse fato é bastante positivo, porque, dentro de certos limites, é razoável assumir-se que esses empregos são de melhor qualidade em comparação com as outras modalidades de inserção na estrutura ocupacional, pois eles permitem o acesso ao sistema de proteção social — Previdência, Fundo de Garantia por Tempo de Serviço, seguro-desemprego, etc. Nesse sentido, a geração de empregos com registros formais teria contribuído para que o mercado de trabalho retomasse o seu processo de estruturação, o qual havia sido interrompido nos dois decênios anteriores. Todavia tem sido mostrado, por algumas pesquisas, que os empregos com registros formais criados nos anos 2000 foram, em grande parte, de baixos salários, o que colocaria em questão o alcance daquele processo. Para corroborar essa compreensão, quando são feitas comparações, no tempo, de distribuições do emprego por faixas de salários mínimos, constata-se que os mesmos foram gerados majoritariamente para trabalhadores que percebem até dois salários mínimos.

Não obstante a constatação empírica proceda, ela não impõe o necessário controle sobre o efeito da mudança no salário mínimo real no período, uma vez que esse passou por um processo de valorização considerável. Isso coloca em dúvida a propriedade do seu uso para aferir a qualidade do emprego em diferentes momentos e, como decorrência, o quão precisa é a afirmação de que os empregos gerados nos anos 2000 são, em ampla medida, de baixos salários. Essa situação sugere a necessidade de se estudarem os empregos de baixos salários através do uso de outras referências analíticas, que não fiquem circunscritas ao salário mínimo. A esse respeito, a literatura sobre trabalhadores de baixos salários — low-wage workers — pode constituir-se em uma alternativa para avançar na investigação desse tema, uma vez que ela elabora e propõe uma série de elementos para o conhecimento de suas causas, níveis de incidência e características.

Com base na literatura sobre o tema, uma das definições que se encontra para os empregos de baixos salários é a da Organização Para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que delimita esse segmento como correspondendo aos trabalhadores que percebem menos de dois terços da mediana do salário de uma economia. Alguns trabalhos propõem que se refine essa definição para os empregos de baixos salários ao impor um controle relativo ao número de horas trabalhadas, utilizando como ponto de corte menos de dois terços da mediana do saláriohora. Esse procedimento constitui-se em uma adequação empírica que faz todo o sentido, pois existem trabalhadores com jornadas de trabalho tanto integral quanto parcial, bem como há considerável variabilidade do número de horas trabalhadas em termos individuais. Na medida em que os trabalhadores de baixos salários, enquanto objeto de investigação, têm uma interface com a desigualdade salarial, o uso do salário-hora como uma unidade de medida é mais adequado para o tratamento dessa inter-relação temática.

Além da escolha da definição de empregos de baixos salários, cabe explicitar-se que, neste texto, o trabalho assalariado corresponde à agregação dos empregados nos setores privado e público e dos empregados domésticos mensalistas.

Utilizando-se a definição de empregos de baixos salários antes identificada, acrescida do controle das horas trabalhadas, e aplicando-a à Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), pode-se constatar no gráfico que ocorreu uma tendência de redução considerável da parcela relativa de trabalhadores de baixos salários no período 2000-10, tendo essa passado de 25,1% para 15,6% do emprego regional. A partir de 2011, ela se mostrou relativamente estável, sendo a proporção atingida em 2013 igual à de 2010, que foi a de menor tamanho para o período como um todo.

Tendo por referência a proposição encontrada na literatura de que, em economias em que é menor a desigualdade salarial, a incidência de empregos de baixos salários é também de menor tamanho, elabora-se, de forma breve, uma interpretação a respeito da redução da parcela relativa de empregos de baixos salários na RMPA, no período 2000-13. Para trabalhar esse objetivo, são apresentadas evidências sobre a desigualdade salarial na RMPA, procurando cotejá-las com a evolução da parcela relativa de trabalhadores de baixos salários. De acordo com o que se pode constatar no gráfico, o Coeficiente de Gini dos salários-hora reais teve uma clara tendência de queda — com interrupções somente em 2008 e 2013 —, tendo passado de 0,476 em 2000 para 0,397 em 2013, nível levemente superior ao do ano anterior (0,393), o menor de todo o período. Ao se comparar o comportamento dessa medida de desigualdade salarial com o da parcela relativa de trabalhadores de baixos salários, com exceção dos anos posteriores a 2010, as evidências sugerem a existência de uma associação direta entre ambas, o que vai ao encontro da proposição encontrada na literatura.

Se a incidência de empregos de baixos salários está associada à desigualdade salarial, é preciso avançar-se no conhecimento sobre as causas da queda desta última. A esse respeito, uma possibilidade é assumir a compreensão de que a regulação institucional dos salários é um elemento que para tanto contribui. Nessa perspectiva, deve-se dar atenção — dentre outros aspectos — para a regulação do salário mínimo e dos pisos salariais no Rio Grande do Sul, esses últimos contemplados por uma Lei Estadual desde 2001.

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O comportamento recente da População Economicamente Ativa (PEA) na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA)

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Edição: Ano 23 nº 11 - 2014

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O contingente de indivíduos da RMPA na condição de PEA — que compõe a força de trabalho — vem apresentando um comportamento nos últimos meses que chama atenção, à medida que sua evolução tem contribuído para a manutenção do baixo desemprego em um contexto de estagnação da ocupação.

De fato, conforme estimativas recentes da Pesquisa de Emprego e Desemprego na RMPA (PED-RMPA), houve redução de 4,86% no contingente da PEA, entre set./11 e set./14 — taxa média de crescimento mensal de -0,14%. Períodos anteriores, a título de comparação, apresentaram comportamentos distintos, dado que a taxa média de crescimento mensal da PEA, de set./05 a set./08, foi de 0,18%, enquanto, de set./08 a set./11, foi de 0,04%. Assim, os dados recentes sugerem uma reversão na tendência da PEA, após um período de aumento e outro de relativa estabilidade.

Considerando as médias anuais, é muito provável que, com base na trajetória da PEA já percebida ao longo de 2014, o resultado deste ano culmine com redução pelo segundo ano consecutivo. Tal fenômeno deve acontecer pela primeira vez desde o início da série histórica da Pesquisa, em 1992. Em 1994 e 2002, a PEA também apresentou redução, mas voltou a crescer no ano seguinte.

As questões que se colocam são: quais as justificativas e quem seriam esses indivíduos que estão deixando o mercado de trabalho; e quais os impactos conjunturais e de longo prazo para o mercado e a economia como um todo?

Nesse contexto, o primeiro questionamento demanda uma análise mais profunda do perfil socioeconômico e das alterações que vêm ocorrendo na estrutura demográfica dessa parcela populacional, bem como dos fatores que estariam influenciando a tomada de decisão desses indivíduos — aspecto este não possível de ser abordado a partir dos dados da PED-RMPA.

Estimativas já divulgadas pela Pesquisa apontam uma parcela de População em Idade Ativa (PIA) que continua crescendo, provável efeito do aumento da expectativa de vida. Esse fenômeno, por sua vez, não deve perdurar por muito tempo, uma vez que a taxa de fecundidade média da RMPA já se encontra bem abaixo da taxa de reposição populacional.

Assim, dado que a série histórica dos resultados anuais da PED-RMPA nunca indicou redução do contingente da PIA, descarta-se, até agora, a hipótese de que a contração da PEA seria reflexo natural de uma queda da PIA.

Considerando apenas o recorte dos indivíduos de 15 a 64 anos de idade (PIA reduzida) — objetivando eliminar o efeito confundidor do aumento da expectativa de vida —, os dados também sugerem uma inversão na tendência da proporção dessa parcela no total populacional, interrompendo o crescimento que se verificava de 1993 até 2009. Enquanto isso, a parcela com 65 anos ou mais de idade passou a representar 11,3% do total populacional em 2013, frente aos 9,2% de 2009.

As distintas trajetórias recentes da PIA e da PEA são reflexo do aumento da inatividade: os inativos passaram a representar 38,6% do total populacional em 2013, frente aos 35,9% de 2008 (aumento de 142 mil pessoas). Tal crescimento é explicado, predominantemente, pela elevação do número de aposentados, cujo acréscimo — de 117 mil indivíduos — representou 82,4% do incremento da inatividade entre 2008 e 2013 — a parcela dos aposentados passou de 32,6% para 37,4% dos inativos.

Em relação à segunda questão levantada, alguns impactos são diretos e já vêm sendo observados, principalmente nas taxas de participação e de desemprego.

Existe certa relação entre a taxa de participação e a de desemprego, pois, mantida estável a quantidade de postos de trabalho, à medida que a primeira diminui, a segundadeclina. Ou seja, é possível reduzir a taxa de desemprego mesmo sem o aumento da ocupação. No período recente, dados da PED-RMPA indicam que a ocupação já vem apresentando indícios de estagnação, ou até de redução. Em termos de estimativas mensais, a tendência, ao longo da série histórica da pesquisa, foi de aumento, atingindo o topo em fevereiro de 2013 (contingente de ocupados estimado em 1.794 mil pessoas). De lá para setembro de 2014, a redução já é de 3,08%. Assim, em uma conjuntura de ausência de expansão da ocupação, a redução da PEA vem sendo a principal responsável pela continuidade do bom desempenho recente dos níveis de desemprego — em torno de 6,0% da PEA.

Para o futuro, sob um cenário de recuperação da PEA, desenha-se a necessidade de se voltar a criar postos de trabalho, sob o risco de aumento da taxa de desemprego. No caso de não recuperação da PEA, alguns creem que os impactos podem atuar no sentido da estagnação econômica, mesmo em um contexto de baixos níveis de desemprego.

Conclusivamente, os dados já apontam alguns primeiros indícios de um contexto pós bônus demográfico de envelhecimento populacional e de redução da força de trabalho — com crescimento da inatividade — na região metropolitana da capital do estado com maior proporção de indivíduos com 65 anos ou mais do País.

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