Textos com assunto: recuperação econômica

A recuperação por trás do PIB

Por:

Edição: Ano 22 nº 10 - 2013

Área temática:

Assunto(s): , ,

Os resultados do PIB no segundo trimestre, tanto na economia brasileira como no RS, confirmam a recuperação do nível de atividade em curso este ano e desautorizam as projeções excessivamente pessimistas que têm prevalecido desde meados do ano passado. No Brasil, o PIB cresceu 1,5% no segundo trimestre (em relação ao trimestre imediatamente anterior, na série com ajuste sazonal), o que equivale a um ritmo anualizado de cerca de 6,0%. No RS, o PIB cresceu 6,4% na mesma base de comparação. Em relação ao mesmo período do ano anterior, as taxas de crescimento foram de 3,3% e 15,0%, no Brasil e no RS. Ainda que estes resultados tenham sido inflados pela boa safra agrícola, a expansão não esteve restrita a esta atividade. Por certo, o impacto deste evento nos resultados dos próximos trimestres será menor, o que deve resultar em uma desaceleração no crescimento, principalmente no RS. Contudo, o processo de recuperação tende a prosseguir, ainda que em ritmo mais moderado.

Em nível nacional, o crescimento de 3,3% no segundo trimestre ajudou a compensar o desempenho decepcionante do primeiro trimestre (expansão de 1,9% em relação ao mesmo período do ano anterior). No acumulado do ano, a taxa de crescimento é de 2,6%. As mudanças na dinâmica setorial entre um trimestre e outro, contudo, foram importantes. Pelo lado da oferta, a indústria de transformação cresceu 4,6% no segundo trimestre, interrompendo uma sequência de sete trimestres consecutivos de quedas. A construção civil registrou crescimento de 4,0%, após queda de 1,3% no primeiro trimestre. Nos serviços, as atividades de comércio e transportes mostraram recuperação, com expansões de 3,5% e 2,7% no segundo semestre, após terem registrado desempenho pífio no primeiro. Por fim, mas não menos importante, entre os componentes da demanda, a formação bruta de capital fixo registrou dois trimestres consecutivos de alta, de 3,0% no primeiro trimestre e 9,0% no segundo, recuperando-se da queda observada ao longo de todo o ano passado. Esta reversão reflete, de um lado, o esgotamento de um longo ciclo de estoques e capacidade ociosa, gerado na estagnação de 2011/2012, e, de outro, os incentivos governamentais para a ampliação dos investimentos, sobretudo as taxas atrativas do BNDES.

Deve ser acrescentado, também, que o resultado do primeiro semestre como um todo foi influenciado negativamente pela interrupção, para manutenção, nas plataformas da Petrobras. Este evento se refletiu, pelo lado da oferta, em queda de 6,6% da produção da indústria extrativa no primeiro trimestre. Embora a recuperação desta atividade já tenha iniciado no segundo trimestre, com crescimento de 1,0% em relação ao primeiro, na série com ajuste sazonal, ainda há queda de 5,6% no acumulado do ano. Pelo lado da demanda, a redução da produção de petróleo também contribuiu para a queda de 5,7% das exportações no primeiro trimestre. A continuidade do processo de normalização das atividades da Petrobras nos próximos trimestres deve reforçar, portanto, o processo de recuperação, podendo compensar a redução esperada da contribuição da agropecuária nos próximos trimestres.

Na economia gaúcha, a recuperação da safra da soja foi, evidentemente, a grande responsável pelo crescimento de 15,0% entre o segundo trimestre e o seu equivalente no ano anterior, acumulando no ano uma expansão de 8,9%. Porém, percebe-se que a recuperação da economia gaúcha não ficou restrita à produção de soja e atividades relacionadas. Tal como na economia brasileira, ocorreram mudanças importantes na dinâmica setorial entre o primeiro e o segundo trimestres: a indústria de transformação cresceu 4,6%, após ter registrado queda de 0,8% no primeiro trimestre; a construção civil cresceu 4,0%, após ter registrado queda de 0,3%; e os serviços aceleraram o ritmo de crescimento, de 2,1% para 3,4%.

É verdade que uma parte da recuperação da indústria de transformação também esteve relacionada com a boa safra agrícola. A atividade de máquinas e equipamentos, na qual o segmento de máquinas agrícolas é um dos mais relevantes, apresentou crescimento de 11,5%. Porém, também deve ser notado que a produção de máquinas agrícolas não se destina exclusivamente ao RS (parte é exportada para o resto do mundo e parte para o restante do país). Ademais, excluindose estes bens, a produção da indústria ainda cresceria 4,1%. Por outro lado, os produtos alimentícios cresceram 4,8% no segundo trimestre, mas ainda apresentam queda de 0,2% no acumulado do ano. Como o resultado da safra se reflete com alguma defasagem nesta atividade, a expectativa é de continuidade do crescimento da indústria gaúcha nos próximos trimestres.

Para muitos analistas, o crescimento da indústria no segundo trimestre foi excessivo, levando ao acúmulo de estoques, especialmente em nível nacional. Esse movimento ajuda a explicar as oscilações mensais nesta atividade e pode, de fato, provocar uma desaceleração no próximo trimestre. Os indicadores de consumo e renda, contudo, mostram recuperação. Neste sentido, mesmo na hipótese de desaceleração ou queda da produção industrial nos próximos meses, as perspectivas para o terceiro trimestre e, principalmente, para o final ano, ainda são positivas. Não será surpresa se o crescimento do PIB superar a expectativa de 2,5% na economia brasileira e 6,0% no RS.

A recuperação por trás do PIB

Compartilhe

Recuperação é lenta, mas ganha consistência

Por:

Edição: Ano 22 nº 05 - 2013

Área temática:

Assunto(s): ,

Nos dois últimos anos, o desempenho da economia brasileira foi bastante frustrante. Após uma expansão do PIB de 7,5% em 2010, a taxa de crescimento desacelerou-se para 2,7% em 2011 e para 0,9% em 2012. Esses resultados, porém, não refletem exatamente a dinâmica observada ao longo de cada ano, discrepância que resulta do carregamento estatístico associado ao cálculo da variação do PIB pela média anual. Ao se analisar a variação ponta a ponta do PIB (nível de produção alcançado no último trimestre do ano em relação ao último trimestre do ano anterior), observa-se um quadro diferente. Nessa comparação, o PIB já estava em desaceleração em 2010, com crescimento de 5,4%, seguiu desacelerando-se em 2011, para 1,4%, e repetiu o resultado de 1,4% em 2012.

É equivocada, portanto, a interpretação de que, no ano passado, houve um aprofundamento da desaceleração do nível de atividade. Em 2011, a economia cresceu no primeiro semestre e estagnou-se em seguida. Parte dessa desaceleração foi induzida pela adoção de políticas fiscais e monetárias contracionistas (com destaque para as medidas macroprudenciais e de contração fiscal), que tinham por objetivo reduzir as pressões inflacionárias observadas no início daquele ano. A essas medidas, somou-se o agravamento do cenário internacional. A profundidade da desaceleração daí decorrente induziu à reversão das políticas adotadas já a partir do segundo semestre de 2011. Porém, a resposta da economia foi lenta. Ao longo de 2012, observou-se uma estagnação no primeiro semestre, seguida de uma tímida recuperação no segundo semestre (ver gráfico).

Nesse sentido, cabe questionar por que as medidas expansionistas, tão exitosas na dissolução da crise de 2009, tiveram um efeito reduzido no ano passado.

A mudança no cenário internacional é uma das causas. Enquanto, em 2010, a economia mundial mostrava alguma recuperação em relação ao “fundo do poço” de 2009, em 2011 e no ano passado prevaleceram dúvidas sobre a capacidade de recuperação dos países desenvolvidos e volatilidades derivadas das dificuldades dos países da periferia do euro e das incertezas a respeito da política fiscal americana. Nesse contexto, a taxa de crescimento do volume das exportações de bens e serviços caiu de 13,5% em 2010 para 3,6% em 2011 e para 2,0% em 2012 (sempre na comparação ponta a ponta).

As incertezas do cenário internacional também afetaram, em alguma medida, os investimentos. A Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) reduziu-se em 4,4%, após ter crescido 2,0% em 2011 e 11,0% em 2010 (ponta a ponta). Há evidências de que a expansão dos investimentos em 2010, combinada com a redução do ritmo de crescimento da demanda no período subsequente, gerou um excesso de capacidade que ainda não foi completamente absorvido. As dificuldades de retomada do investimento público ao longo do ano passado também contribuíram, ainda que em menor grau, para essa redução.

O crescimento de 3,8% do consumo privado em 2012, por outro lado, embora represente uma recuperação em relação à expansão de 2,0% em 2011, ainda é inferior ao crescimento de 7,2% observado em 2010 e da média de 5,0% observada nos anos anteriores (2004-09). O arrefecimento no ritmo de crescimento do consumo, apesar das várias medidas de estímulo, reflete tanto o maior comprometimento da renda das famílias com o serviço da dívida (média de 22,5% em 2012, contra 21,2% em 2011 e 19,3% em 2010), quanto algum esgotamento do ciclo de consumo de bens duráveis.

Apesar da queda da FBCF, a expansão do consumo agregado (3,5% em 2012, contra 1,6% em 2011) permitiu um crescimento modesto de 2,2% da demanda doméstica em 2012. Essa expansão, porém, não foi suficiente para induzir um crescimento proporcional da produção. Tendo em vista que o crescimento das importações no período foi nulo, o descompasso entre produção e demanda aponta para a redução de estoques no período. Esse fenômeno é corroborado pelos indicadores de faturamento da indústria, que registram crescimento superior ao da produção. Por fim, também houve, no ano passado, alguma redução de oferta devido à estiagem que atingiu parte das Regiões Sul e Nordeste do País.

O que mostram os indicadores dos primeiros meses de 2013? O ritmo de crescimento do consumo, da produção e do emprego é moderado. As vendas do varejo cresceram apenas 2,9% no primeiro bimestre (contra 8,4% em 2012), enquanto a expansão produção da indústria foi de 1,1% (ante uma queda de 2,7% em 2012). O crescimento de 13,3% da produção de bens de capital no primeiro bimestre é um dado positivo, apesar de muito concentrado na recuperação da produção de equipamentos de transporte. De qualquer forma, a elevação das importações de bens de capital no primeiro trimestre (22,0%) e dos desembolsos do BNDES nos 12 meses encerrados em março (21,8%) reforçam a noção de que está ocorrendo algum crescimento na FBCF. Nesse sentido, o ritmo de recuperação é lento, mas ganha consistência com o crescimento dos investimentos. Os riscos associados à sua consolidação parecem, hoje, menores do que no ano passado.

Recuperação é lenta, mas ganha consistência

Compartilhe