Textos com assunto: recessão

Recuperação lenta e incerta

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Edição: Ano 26 nº 6 – 2017

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O bom resultado da safra agrícola e o nível levemente mais elevado da produção da indústria contribuíram para o crescimento de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) no primeiro trimestre deste ano, em comparação com o trimestre imediatamente anterior, o que interrompeu uma sequência de oito trimestres consecutivos de quedas. Apesar do dado positivo, é prematura a interpretação de que o País começa a sair da crise. Segundo o critério que se convencionou utilizar na mensuração de ciclos, uma recessão encerra-se, de forma análoga ao seu início, após dois trimestres consecutivos de crescimento. No entanto, os resultados do segundo trimestre, embora incipientes, ainda não avalizam a hipótese de continuidade da recuperação. Mesmo que, em seu sentido estritamente técnico, a recessão venha a ser superada ao longo de 2017, o ritmo de recuperação que se desenha parece insuficiente para a retomada da trajetória prévia à crise no curto ou no médio prazo.

A partir de 2015, a economia brasileira entrou numa espiral contracionista, cujo resultado foi uma queda acumulada do PIB de 7,2% em dois anos. O gráfico abaixo mostra as trajetórias do PIB após as recessões dos últimos vinte anos (selecionadas pelo critério de dois trimestres consecutivos de queda), tomando-se como base o trimestre imediatamente anterior ao início da crise. Para completar o período de 10 trimestres após o início da recessão atual (trecho pontilhado), adotou-se uma trajetória de crescimento trimestral consistente com a expansão de 0,5% para o PIB em 2017.[1] Nas crises anteriores, após alguns poucos trimestres de estabilização, a economia já retomava o crescimento. Passados 10 trimestres do início da recessão, o nível de atividade já se situava em um patamar entre 5% e 10% acima do verificado antes das crises. A dinâmica da crise atual é outra.

 

Excetuando-se a recessão que teve início no último trimestre de 2008, nas demais, e sobretudo na atual, o Governo brasileiro viu-se impelido a adotar políticas fiscais e monetárias contracionistas, a despeito de seus efeitos no aprofundamento do quadro recessivo, seja para reduzir o endividamento público, seja para controlar a inflação. Nas crises anteriores, porém, havia espaço para aumentar o superávit primário pela ampliação das receitas fiscais, o que permitiu uma consolidação fiscal relativamente rápida. Na crise atual, o ajuste concentra-se no corte de gastos, o que implica não apenas que se estenderá por mais tempo, mas que, possivelmente, será ainda mais contracionista. No que diz respeito à política monetária, a convergência da inflação para a meta, após a acomodação dos choques inflacionários de 2015, tem permitido a redução da taxa de juros. Cabe ponderar, porém, que o nível elevado de endividamento pode reduzir o potencial expansionista de uma melhora nas condições de crédito. Ao contrário das crises anteriores, a recessão atual atingiu as famílias e empresas após um longo ciclo de ampliação do endividamento, que envolveu certa euforia e foi seguido por uma frustração não prevista no ritmo de expansão da renda. Nesse contexto, é lícito supor que os consumidores e as empresas procurem adotar posições mais defensivas, mesmo em face de uma melhora futura nas condições de crédito.

A profundidade da crise atual também cobra o seu preço na perda de capacidade produtiva da economia, quer pela falência de empresas, quer pela exposição do estoque de capital e da força de trabalho a um período prolongado de subutilização. Tal efeito é agravado pelos processos gerados no ciclo de crescimento anterior, como a perda de elos nas cadeias produtivas da indústria e de mercados externos para a produção de bens manufaturados. Por outro lado, a ocupação da capacidade ociosa, quando se der, poderá ocorrer sem um correspondente aumento do emprego, visto que o nível de produtividade ainda está abaixo da média histórica, moderando o ritmo de recuperação da renda das famílias e do consumo.

Há, também, os elementos externos. Apesar da (tardia) recuperação da economia norte-americana, a crise econômica mundial ainda não foi de todo superada, fenômeno que pode ser depreendido tanto das expectativas de crescimento reduzidas para o PIB e para o comércio mundial quanto da volatilidade dos mercados financeiros. Essa não parece ser a causa da recessão brasileira, mas dificulta uma recuperação assentada sobre a via das exportações e dos investimentos estrangeiros. Finalmente, e talvez o mais importante, há a crise política, que coloca em xeque as instituições erguidas após a redemocratização e contribui para ampliar o quadro de incertezas, adiando decisões.

Em contraste com as oscilações cíclicas do período recente, a crise atual não somente é a mais profunda, como também é a que apresenta a recuperação mais lenta e incerta. Assemelha-se, nesse sentido, às grandes recessões do século passado. A persistência de elementos restritivos sobre a política econômica, as perdas na capacidade produtiva, o ambiente externo ainda difícil e a crise político-institucional combinam-se e reforçam-se, tornando mais complexa a recuperação.

[1]  Mediana das expectativas de mercado do Relatório Focus (Bacen) em 02 de junho de 2017.

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Recessão e indústria no Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 26 nº 5 – 2017

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Recessões são fenômenos cíclicos que se repetem com frequência irregular em todas as economias de mercado. Tais períodos são caracterizados por uma queda simultânea em diversas atividades econômicas e, em geral, envolvem um alto custo social, com aumento do desemprego e queda na produção, nas vendas e na renda. Períodos assim, no entanto, constituem a exceção e não a regra na história econômica. Em outras palavras, toda recessão, uma hora ou outra, acaba e é substituída por uma nova fase de expansão, que, em média, dura mais que os períodos recessivos. Cada recessão, contudo, apresenta características que a tornam singular, seja pelos mecanismos causais, seja pelos canais de transmissão que atuam em determinado momento histórico. Não é objetivo deste texto tratar dessas especificidades, mas tão somente analisar o comportamento da produção industrial do estado à luz dos períodos de recessão no Brasil.

No Brasil, entre 1980 e 2009, houve oito períodos recessivos, com duração média de 15,8 meses, segundo o Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos (Codace-Ibre-FGV). As mais longas recessões do País, contudo, concentram-se na década de 80 e no início da década de 90, com duração média de 26 meses.

Em 2014, o Brasil entrou em sua mais recente — e longa — recessão desde a década de 80, sendo esta, talvez, a mais longa de sua história. E, com ela, a atividade econômica deteriorou-se rapidamente, processo que se intensificou em 2015 e 2016. As taxas de crescimento trimestrais tornaram-se negativas a partir do segundo trimestre de 2014, tanto no Brasil quanto no RS, indicando uma simultaneidade entre o início da fase recessiva de ambos. Com isto, nos últimos três anos, a queda acumulada no Produto Interno Bruto (PIB) foi de 6,8% no Brasil e de 6,6% no RS.
Diante dessa conjuntura, a indústria foi um dos setores que mais sofreu no Estado. O Valor Adicionado Bruto (VAB) da indústria gaúcha, nos últimos três anos, sofreu queda de aproximadamente 18%, sendo a maior parte relativa à indústria de transformação. Contudo é justamente nessa atividade onde começam a aparecer os primeiros sinais de arrefecimento na contração do setor, talvez na própria recessão no Rio Grande do Sul.

Para avaliar o cenário recessivo no qual está inserida a economia do Rio Grande do Sul, é interessante observar o comportamento da produção da indústria gaúcha. Existem dois motivos principais pelos quais o índice de produção industrial pode ser utilizado nesse contexto. Primeiramente, é um indicador historicamente utilizado como proxy mensal da atividade econômica de um país. No entanto, com o aumento considerável da participação dos serviços no produto, foi substituído por outras proxies mais adequadas para esse fim. Contudo a produção física da indústria ainda pode ser entendida como um indicador coincidente da atividade econômica. Isto é, os movimentos cíclicos na indústria tendem a acompanhar conjuntamente os ciclos econômicos e, portanto, podem dar algumas pistas sobre o comportamento da economia com uma frequência mais alta que o PIB, uma vez que os dados de produção industrial estão disponíveis mensalmente, enquanto o PIB é divulgado somente a cada trimestre.

A figura a seguir mostra o comportamento do índice de produção física do Rio Grande do Sul da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no período de janeiro de 2002 a fevereiro de 2017, juntamente com a datação das recessões no Brasil realizadas pelo Codace. Nesse período, o País entrou em recessão três vezes. A primeira foi iniciada em novembro de 2002 e findada em junho de 2003; a segunda começou em agosto de 2008 e teve término em janeiro de 2009. Mais recentemente, no segundo trimestre de 2014, o país entrou em sua primeira recessão nesta década.

Ao longo desse período, é possível observar alguns momentos de queda na produção industrial. Nota-se que há épocas de retração mais branda da atividade, associados a períodos de seca no Estado, como nos anos de 2004-05 e 2012. Contudo as contrações mais intensas nesse indicador estão associadas a períodos de recessão nacional, indicando uma alta correlação entre a queda cíclica da atividade econômica no País e a produção da indústria gaúcha.

Percebe-se também que o comportamento do indicador não é homogêneo entre os períodos recessivos nacionais. Nas duas primeiras recessões, nota-se uma rápida e profunda queda da série, seguida de uma recuperação igualmente veloz e intensa. Tais características, contudo, não parecem estar presentes na atual recessão. Alguns meses antes do início da terceira recessão, a produção industrial já vinha demonstrando tendência de queda. Após o início do período recessivo, essa tendência aprofundou-se, havendo pequenas oscilações entre crescimento positivo e negativo em torno da tendência contracionista.

Todavia, ao final do período em análise, os primeiros sinais de “trégua” na recessão começaram a aparecer na produção industrial do Rio Grande do Sul. Em primeiro lugar, o menor nível de produção da série histórica foi atingido em abril de 2016. Desse ponto até fevereiro de 2017, o indicador já acumula quase 8% de crescimento. Em segundo lugar, a frequência com que ocorreram taxas positivas de crescimento em seis meses (i.e., t/t-6) — entre as atividades da indústria de transformação gaúcha (alimentos, bebidas, fumo, couro, celulose, derivados de petróleo, químicos, borracha e plástico, metalurgia, produtos de metal, máquinas e equipamentos, veículos e móveis) — aumentou.1 Contudo, como explicado anteriormente, toda recessão tem seu fim. Salvo alguma mudança estrutural na economia que inverta para baixo a tendência de longo prazo do setor, o mesmo vale para quedas cíclicas setoriais. E quanto mais tempo dura a contração, mais aumentam as chances de a mesma se encerrar. Na produção industrial do Rio Grande do Sul, essa queda iniciou em outubro de 2013, havendo chances de ter findado ainda em 2016, caso a trajetória positiva da série se mantenha nos próximos meses. Poderia esse ser um indicativo de que a recessão no Estado está com os dias contados?


1 As séries foram dessazonalizadas utilizando o método X13-ARIMA-SEATS.

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A recessão brasileira pelo retrovisor

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Edição: Ano 26 nº 4 – 2017

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Ao longo do segundo semestre de 2016, renovou-se a aposta de muitos analistas econômicos de que a retomada da “confiança” encaminharia o encerramento do processo recessivo iniciado ainda em 2015. Em análise anterior, adotou-se perspectiva radicalmente diversa, ao considerar inexistente qualquer potencial fonte de demanda efetiva capaz de permitir a retomada do crescimento econômico no curto prazo. A divulgação, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos dados oficiais sobre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 2016 e seus componentes sugere a confirmação dessa expectativa. Após contração bastante pequena (-0,3%) no segundo trimestre de 2016, as condições voltaram a deteriorar-se tanto no terceiro (-0,7%) quanto no quarto trimestre (-0,9%), e a economia brasileira fechou o ano com queda de 3,6% no seu PIB. Considerando os dois últimos anos, o IBGE registrou uma queda acumulada de 7,23%.

Observou-se, também em trabalho anterior, que, por características que são estruturais, uma recessão com essa intensidade ocorre naturalmente associada à redução tanto da taxa de investimento quanto do coeficiente global de importações. Com base nos dados anuais, verifica-se que esse movimento esteve presente tanto em 2015 quanto em 2016, sendo mais uma evidência a confirmar a persistência da recessão. Os indicadores trimestrais do último ano revelam, entretanto, uma dinâmica um pouco diferente na comparação com a do ano anterior.

O consumo das famílias mostrou redução em rigorosamente todos os oito trimestres do biênio 2015/2016, acumulando queda de pouco mais de 8% ao longo do período. Na comparação entre os dois anos, a contração de 2016 (-4,25%) foi ainda mais intensa do que a de 2015 (-3,94%). Com respeito ao consumo do Governo, em 2015, foram observadas contrações em três dos quatro trimestres, acumulando queda de 1,06% no ano. Já em 2016, ocorreu o inverso, ou seja, houve variação positiva em três dos quatro trimestres, mas foi insuficiente para evitar a nova queda de 0,56% no dado anual. O desempenho das exportações, que havia sido o único componente da demanda a contribuir positivamente para o PIB ao longo de 2015, já não teve o mesmo desempenho em 2016. Três reduções sucessivas do volume exportado a partir do segundo trimestre fizeram com que, no acumulado do ano, sua contribuição tenha sido positiva, mas muito pequena e distante de poder contrapor a tendência recessiva da demanda doméstica.

As diferenças mais significativas no comparativo entre os anos de 2015 e 2016 parecem estar no comportamento da formação bruta de capital fixo e das importações. Ao contrário de 2015, em que os dados trimestrais revelam um padrão mais definido de queda de ambas as variáveis, em 2016 há uma certa alternância entre períodos de retração e de crescimento. Com respeito à formação bruta de capital fixo, a impressionante queda acumulada de 22,66% ao longo dos dois anos deve-se tanto à contração de 2015 (-13,91%) quanto à de 2016 (-10,17%). Considerando os indicadores trimestrais dessazonalizados, observa-se, entretanto, que, após 10 trimestres consecutivos de queda, houve um crescimento de 0,65% no segundo trimestre de 2016, em relação ao do ano anterior, mas variações negativas voltaram a ser registradas no terceiro e no quarto trimestre. No que diz respeito às importações, foi também precisamente no segundo trimestre de 2016 que o indicador de volume importado interrompeu uma sequência anterior de quatro quedas e apresentou crescimento de 5,6%. Após nova queda no terceiro trimestre, as importações voltam a crescer no último período, dessa vez, acompanhadas não de um aumento da formação bruta de capital fixo, mas, sim, de uma contribuição positiva da variação de estoques, aqui interpretada como aumento do investimento não planejado.

Pode-se cogitar, em primeiro lugar, a possibilidade de que o crescimento das exportações ao longo do ano de 2015 e no primeiro trimestre de 2016 tenha levado algumas unidades produtivas a ampliar, ou, ao menos, ajustar, a capacidade produtiva, visando atender a uma expectativa de crescimento do mercado externo. Um segundo elemento, não excludente em relação ao primeiro, pode ser a necessidade de executar certos investimentos que visam simplesmente sustentar a operação normal de algumas unidades produtivas. Certas frações do capital seguem chegando ao fim de sua vida útil e/ou sendo substituídas por similares mais modernas, motivando, assim, inversões pontuais, mesmo em condições de encolhimento do mercado interno e sem o objetivo de ampliar a capacidade produtiva.

Independentemente da causa predominante, o fundamental para a análise da conjuntura parece ser compreender por que esse movimento pôde constituir-se, no máximo, em um arrefecimento da recessão, em certo ponto de 2016, sem chegar a configurar uma efetiva recuperação. O investimento privado só poderá voltar a crescer sistematicamente se houver a necessidade de ajustar, de forma mais sustentada, a capacidade produtiva, visando atender a uma demanda agregada crescente. Nem o possível movimento de ajuste de estoques nem o desempenho positivo efêmero das exportações em 2015 foram suficientes para pôr em marcha esse mecanismo.

A persistência de um processo recessivo não exclui, portanto, a ocorrência de ajustes do estoque de capital, manifestados em variações positivas periódicas da formação bruta de capital fixo e das importações que lhe são complementares. Nas condições estruturais da economia brasileira, um retorno consistente do crescimento da produção e da capacidade produtiva parecem depender decisivamente do retorno do crescimento do consumo das famílias, principal componente da demanda agregada. Tal movimento está associado crucialmente às decisões da política econômica e das políticas públicas em geral. Nas atuais circunstâncias, em que a agenda política segue dominada pela austeridade fiscal e por projetos de reformas que, na perspectiva aqui adotada, devem penalizar os segmentos sociais com maior propensão ao gasto, segue bastante difícil encontrar elementos que permitam esperar que 2017 venha a apresentar resultados tão distintos daqueles que hoje se pode ver pelo espelho retrovisor.

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Política econômica e perspectivas para a economia brasileira

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Edição: Ano 25 nº 11 – 2016

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Desde sua origem, a Fundação de Economia e Estatística (FEE) tem refletido sobre a economia e a sociedade gaúchas sem pressupor que seus principais aspectos possam ser explicados exclusiva ou predominantemente, por fatores internos ao Estado do Rio Grande do Sul. Com respeito à determinação do nível de atividade, concorda-se com Lazzari (2011), para quem, o Produto Interno Bruto (PIB) estadual tende a acompanhar o desempenho da economia brasileira, exceto quando verificados choques específicos. A regra geral parece aplicar-se à recessão atual que, conforme Rocha (2015), ocorre em marcada sincronia com a economia nacional. Dessa forma, uma compreensão objetiva sobre como a situação corrente veio a concretizar-se no âmbito nacional parece essencial para qualquer avaliação sobre as perspectivas futuras da economia do Rio Grande do Sul.

A análise das contas externas brasileiras não revela qualquer cenário alarmante. O passivo externo líquido manteve-se relativamente estável como proporção das exportações ao longo de todo o período em que esteve no poder a Presidente Dilma Rousseff. Nesse mesmo intervalo de tempo, a economia brasileira vinha registrando déficits em transações correntes relativamente expressivos, próximos a 30% das exportações, financiados com folga pela entrada de capitais externos, ao menos até 2014. Somente ao longo do ano de 2015 é que se pôde perceber alguma insuficiência do fluxo autônomo de capitais, comparado às necessidades de financiamento externo. Tal situação determinou perda de reservas cambiais, porém em volume absolutamente inexpressivo frente ao estoque total acumulado. Ainda que a persistência de uma situação relativamente confortável de financiamento externo dependa sempre de condições exógenas, no atual cenário o déficit em transações correntes acabou fortemente comprimido pela recessão, reduzindo assim a própria dependência de absorção de capitais externos.

Nesse sentido, nada indica necessidade de rever constatação anterior (Lara, 2014) de que a recessão brasileira tem causas predominantemente domésticas. Ainda que o plano externo não seja mais aquele extremamente favorável vivido em grande parte dos anos 2000, as interpretações baseadas em uma suposta crise internacional não apontam canais de transmissão suficientemente significativos para explicar o desempenho macroeconômico brasileiro recente. No plano doméstico, por outro lado, o desfecho do processo de impeachment da Presidente Dilma Rousseff e os resultados das eleições municipais recentes indicam que a intensa disputa política em curso vem resultando em marcado enfraquecimento da capacidade de mobilização do Partido dos Trabalhadores. As conexões entre essa alteração da correlação de forças políticas e as condições macroeconômicas do Brasil constituem importante objeto de análise para os cientistas sociais em nossos dias. Ainda que seja tema complexo e impossível de ser analisado satisfatoriamente neste espaço, sua centralidade nos obriga a levantar algumas hipóteses a respeito.

A recessão atual constitui o desfecho de um processo que teve início já no primeiro mandato da Presidente Dilma Rousseff. O forte ajuste fiscal de 2011 e a concepção da “nova matriz macroeconômica”, de que era necessária a correção de preços relativos (juros e câmbio) para dinamizar exportações e investimento privado, já sinalizavam o desmonte da estratégia praticada anteriormente. A orientação de política macroeconômica adotada até 2010, em conjunto com as excelentes condições externas desse período, havia viabilizado não só uma aceleração do crescimento econômico como também um processo de mobilidade social ascendente. No debate público, entretanto, diversos elementos constituintes desse modelo foram questionados. O câmbio real valorizado, os ganhos reais do salário mínimo, o crescimento das transferências sociais e dos gastos previdenciários, o mercado de trabalho aquecido, o crescimento do consumo, a inflação dos serviços, o aumento da carga tributária induzido pelo movimento pró-cíclico da arrecadação, entre outros aspectos, foram apontados como distorções que cedo ou tarde inviabilizariam a continuidade dessa prosperidade compartilhada.

Endossando de alguma forma o diagnóstico geral de que eram necessários “ajustes”, a política macroeconômica passou a buscar uma transição entre o padrão anterior de crescimento inclusivo e um novo modelo em que o setor industrial privado deveria ter maior protagonismo. Diversas iniciativas do período 2011-14 foram justificadas sob essa lógica, como a redução da taxa de juros, a atitude no mínimo passiva do Banco Central com respeito ao câmbio em desvalorização, as crescentes desonerações tributárias, os controles de preços e os programas de concessões em infraestrutura. O resultado efetivo dessa nova orientação foi não só uma desaceleração quase contínua do crescimento, mas também uma deterioração dos indicadores fiscais considerados centrais pela maioria dos analistas econômicos. Pressionada por essas novas circunstâncias, a reeleita Presidente Dilma Rousseff adotou, no primeiro ano de seu segundo mandato, uma política orientada por pesados cortes de gastos públicos e reajustes de preços administrados, em meio a uma forte desvalorização cambial.

Tal orientação de política foi justificada publicamente pela necessidade de equacionar os indicadores fiscais e, por essa via, recuperar a “confiança” dos mercados. Por essa ótica, seu fracasso não poderia ter sido mais contundente. Os indicadores fiscais não melhoraram (Lara, 2015), o aumento do desemprego e a desvalorização cambial implicaram em elevação da rentabilidade dos setores comercializáveis, com o peso do ajuste recaindo sobre os salários reais (Lara, 2016), restringindo por essa via a retomada do crescimento do consumo. Para além de seus aspectos estritamente econômicos, tais circunstâncias parecem ter contribuído decisivamente para o desmoronamento da base de apoio do Governo Rousseff, encerrado melancolicamente em 2016 pelo processo de impeachment.

Nesse quadro, quais as perspectivas para a economia brasileira? Elevados níveis de ociosidade da capacidade produtiva não recomendam esperar por retomada do investimento privado. Ainda que o desempenho das exportações tenha sido positivo nos últimos trimestres, seu baixo peso estrutural inviabiliza uma retomada do crescimento por essa via. Pelo lado do consumo liderado por crédito, somente uma redução expressiva, portanto bastante improvável, das taxas de juros poderia redinamizar significativamente esse componente. Os efeitos da recessão sobre a arrecadação tributária e, por consequência, sobre os resultados orçamentários do setor público têm sido escassamente considerados no debate sobre a política econômica. Mesmo sem qualquer problema grave no cenário externo, a orientação pela austeridade fiscal em meio à recessão exclui sumariamente a alternativa de uma ação contracíclica. Não se observa, em síntese, nenhuma potencial fonte de demanda efetiva capaz de permitir a retomada do crescimento econômico a curto prazo. Persiste, entretanto, com grande popularidade, a concepção de que a “confiança” precisa ser reconquistada, agora via reformas legislativas que desarticulam progressivamente o vetor de inclusão social e prometem redução de custos para o setor privado. Tais circunstâncias indicam que a interrupção do modelo de crescimento inclusivo, verificada recentemente, não seja algo meramente conjuntural.

Como citar:

LARA, Fernando Maccari. "Política econômica e perspectivas para a economia brasileira," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 28 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/politica-economica-e-perspectivas-para-a-economia-brasileira/>.

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Crédito e recessão na economia do Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 25 nº 08 – 2016

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Desde o ano passado, o Banco Central tem disponibilizado dados trimestrais regionalizados do Sistema de Informações de Crédito (SCR), de forma retroativa a junho de 2014, contendo várias informações por modalidade de crédito.

Uma das aplicações é observar as relações do crédito com o processo recessivo nacional. Como o volume de crédito responde ao comportamento das atividades econômicas, do mercado de trabalho, dos preços e de decisões de política econômica, seu desempenho é resultado da interação dessas outras variáveis econômicas. A mesma análise pode ser aplicada aos estados, guardadas as devidas precauções, como os maiores vazamentos em uma economia subnacional.

Neste trabalho, o saldo das modalidades de crédito no Rio Grande do Sul foi reagregado, similarmente aos componentes da despesa do Produto Interno Bruto (PIB), e deflacionado pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) da Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), com vistas a se ter uma noção aproximada de poder de compra real da variação de seus saldos. Como gastos das pessoas físicas, foram reunidas as modalidades de empréstimo que financiariam parte do consumo das famílias. Como capital de giro das pessoas jurídicas, os financiamentos que seriam utilizados para financiar estoques e folha de pagamento em momentos de descasamento do fluxo de receitas e despesas das firmas. Sob a rubrica agropecuária, juntaram-se os créditos rurais e agroindustriais, tanto das pessoas físicas quanto das pessoas jurídicas, devido a características específicas da atividade, como o fato de o maior volume das operações ser das pessoas físicas. Como investimento das pessoas jurídicas, estão as modalidades que financiam capital fixo de pessoas jurídicas (obras e equipamentos), tanto públicas como privadas. Por fim, a conta habitacional refere-se aos saldos do crédito imobiliário para as famílias.

Com exceção do habitacional, todos os saldos diminuíram em termos reais, entre dezembro de 2014 e março de 2016. Entretanto, o capital de giro começou a cair, e o gasto corrente ficou quase estável durante o segundo semestre de 2014. A agropecuária caiu de dezembro de 2014 para março de 2015 e, desde então, vem-se mantendo estável. O investimento ficou estável no primeiro semestre de 2015, mas, no segundo, passou a cair acentuadamente. O habitacional desacelerou seu crescimento em 2014, tendo uma oscilação que aparenta ser normal no primeiro trimestre de 2016.

A queda no capital de giro das empresas reflete o fato de que a desaceleração da indústria de transformação e a da construção iniciaram já no primeiro trimestre de 2014 e continuaram em queda durante todo o período. O comportamento dos empréstimos para pessoas físicas pode ser associado à queda da massa de rendimentos reais, que já foi observada desde 2014, mas que se aprofunda com o aumento dos preços da energia elétrica e dos combustíveis, à desvalorização cambial e ao aumento do desemprego. Em 2015, a agropecuária teve condições mais estáveis e um excelente desempenho, o que pode explicar um volume de empréstimos reais menor devido à maior capitalização do setor. No caso do investimento, a parcela privada reagiu à deterioração das expectativas de crescimento e ao encarecimento das fontes de financiamento. Já o investimento do setor público respondeu à eliminação das margens de endividamento derivada de problemas fiscais. O habitacional reduziu menos devido à característica de ter amortizações pequenas quando comparadas ao valor total do crédito, o que torna os ajustes no estoque mais lentos. De qualquer forma, deixou de impulsionar novas edificações, ficando mais restrito à transferência de unidades já construídas.

Com a elevação da taxa básica de juros pelo Banco Central a partir de janeiro de 2015, junto com o aumento da inadimplência, as taxas de juros de todas as modalidades de crédito, com recursos tanto livres como direcionados, foram elevadas. A elevação foi maior para as pessoas físicas, o que implica uma redução maior no poder de compra real do crédito. A desalavancagem das empresas, voluntariamente ou não, resulta da necessidade de ajustar o capital ao nível de produção. O que os dados indicam é que, sem a retomada da atividade e dos rendimentos reais, o crédito não voltará a subir. Assim, uma possível redução das taxas de juros poderia auxiliar em um processo de retomada da atividade econômica, mas não seria suficiente para revertê-la, dadas as características da recessão.

Estoque das operações de crédito no Rio Grande do Sul — jun./14-mar./16

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Ajuste fiscal e recessão no Brasil em 2015

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Edição: Ano 24 nº 10 – 2015

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A persistente desaceleração do crescimento econômico brasileiro, em curso desde 2011, evoluiu, ao longo do primeiro semestre de 2015, para um processo recessivo. Os dados relativos ao segundo trimestre de 2015 do Produto Interno Bruto (PIB) trimestral, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que, comparando-se os últimos quatro trimestres com os quatro trimestres anteriores, a queda real do PIB foi de 1,23%. No trimestre anterior, já havia sido verificada a queda de 0,89%. Analisando-se esse resultado mais recente pela ótica da demanda, observa-se que a maior contribuição para a retração decorreu do comportamento da formação bruta de capital fixo (-1,39%), componente que já vinha em queda nos três trimestres anteriores. As novidades deste trimestre foram a contribuição negativa do consumo das famílias (-0,30%) e a pequena contribuição negativa do consumo do Governo (-0,05%). Em síntese, todos os componentes do gasto doméstico evoluíram na mesma direção e deram sua contribuição para o processo recessivo. As exportações, por seu turno, deram uma pequena contribuição no sentido oposto (0,10%), porém menos significativa do que o determinado pelo movimento de redução do coeficiente de importações (0,44%). Como é comum nos episódios recessivos de países periféricos, houve redução mais do que proporcional das importações em comparação com o total da demanda agregada, gerando um efeito contábil positivo sobre a taxa de crescimento do PIB.

Do ponto de vista da política econômica, o ano de 2015 é marcado pela incorporação, pelo Governo, da agenda do ajuste fiscal, recomendada pela ampla maioria dos analistas econômicos. Ainda que também tenham sido adotadas medidas visando à elevação de receitas, a via escolhida para o ajuste foi predominantemente a do corte de gastos. Decorrido pouco mais de um semestre, constata-se, entretanto, que todos os indicadores fiscais considerados relevantes seguem em deterioração. Como explicar que o resultado orçamentário tenha ficado mais deficitário, e que os indicadores de endividamento tenham aumentado em meio a uma política de corte de gastos? Alguns analistas têm interpretado esse movimento como indicativo de que o ajuste fiscal ainda nem se deu, ou seja, de que os prometidos cortes não teriam, de fato, ocorrido. Entretanto, alguns aspectos precisam ser considerados para compreender como, nas atuais condições da economia brasileira, a simultaneidade entre o corte de gastos e a deterioração dos indicadores fiscais não constitui paradoxo.

O primeiro ponto beira a obviedade, mas não tem sido adequadamente levado em conta no debate público. Ocorre que os indicadores fiscais são sempre avaliados como proporções do PIB. Desse modo, mesmo que a dívida bruta do Governo, por exemplo, estivesse inalterada em termos absolutos, sua proporção em relação ao PIB teria aumentado pela simples redução do denominador. Em segundo lugar, há significativa evidência empírica indicando que as receitas do Governo são fortemente pró-cíclicas. Apenas para ilustrar esse ponto, no período 2004-08, em que a economia brasileira cresceu a uma taxa média de 4,76% ao ano, as receitas tributárias federais cresceram ininterruptamente a uma taxa média de 7,38% ao ano, considerando-se os valores deflacionados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Entre julho de 2014 e junho de 2015, período em que o PIB registrou queda de 1,23%, o valor real daquelas receitas foi 4,18% inferior ao arrecadado nos 12 meses imediatamente anteriores. Assim, o desempenho ruim das receitas deve ser considerado entre as causas da deterioração do superávit primário. Em terceiro lugar, há que se considerar que esteve em curso, no período, um ciclo de elevação da taxa básica de juros pelo Banco Central. Esse movimento tende a ampliar os juros pagos sobre o estoque já existente de dívida pública. A maior carga de juros, associada com um superávit primário menor, gerou deterioração também do déficit nominal. Uma vez que o déficit nominal implica em novo aumento do estoque de dívida pública, parte da deterioração dos indicadores de endividamento também pode ser atribuída à elevação da taxa de juros.

Em síntese, portanto, o aumento da carga de juros e o estado recessivo da economia brasileira são aspectos que não podem ser ignorados na análise da deterioração recente dos indicadores fiscais. Levando-se em conta esses aspectos, chama a atenção o absoluto contraste entre, de um lado, a grande preocupação dos analistas econômicos com a evolução dos indicadores fiscais e, de outro, o escasso interesse em avaliar objetivamente a contribuição da própria estratégia de ajuste fiscal para o atual estado recessivo da demanda doméstica. Os dados do PIB trimestral mostram que a demanda doméstica já vinha em clara e forte desaceleração pelo menos desde o segundo trimestre de 2013, resultando em crescimento de apenas 0,15% ao final de 2014. Portanto, no exato momento da transição para o novo mandato da Presidente Dilma Rousseff, a economia brasileira já praticamente não crescia. Combinando-se essa tendência precedente com o impacto recessivo do corte de gastos, o resultado natural foi a queda do PIB e das receitas tributárias, bem como a deterioração dos indicadores fiscais.

Na medida em que os dados desagregados estiverem disponíveis, será fundamental avaliar, portanto, a real contribuição do ajuste fiscal para a dinâmica da demanda agregada ao longo deste ano. Um impacto recessivo importante do corte de gastos pode ter tornado a política econômica contraproducente para seus próprios objetivos declarados. Uma análise mais aprofundada dos mecanismos de transmissão entre os diversos componentes do gasto público e a demanda agregada pode inclusive trazer luz sobre algo aparentemente paradoxal para as convicções da maioria dos analistas econômicos: sob quais condições e em que horizonte de tempo uma política efetivamente contracíclica poderia vir a melhorar os indicadores fiscais? A relevância da questão fica evidente ao se constatar que a política pró-cíclica de cortar gastos públicos em meio à recessão revelou-se, no mínimo, bastante lenta para entregar os resultados prometidos.

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Em 2012: nem o fim do mundo, nem o fim da crise

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Edição: Ano 21 nº 07 - 2012

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O ano de 2012 envolve uma aura mística. Segundo previsões esotéricas, o dia 21.12.2012 marcaria o fim do último ciclo do calendário maia, o que alguns interpretaram como sinal do fim dos tempos.

Deixando-se de lado a metafísica, mas também no ramo da futurologia, outra “profecia” bastante repetida pelos cientistas econômicos é a de que este ano traria, finalmente, a recuperação dos países desenvolvidos frente aos eventos da crise financeira de 2007-08 — previsão para todos anos após o seu eclodir, mas sempre adiada. Na verdade, a análise da conjuntura econômica internacional não fornece subsídios para apostar em tal resultado. Isso faz a situação parecer uma busca dos líderes políticos e econômicos dos países desenvolvidos para melhorar as expectativas dos agentes privados, de modo que suas estimativas positivas se tornem profecias autorrealizáveis. O papel de propagar tal pensamento coube aos “profetas” de sempre: economistas conservadores de nações desenvolvidas comprometidos com o atual status quo da economia mundial.

Um exemplo veio do FMI, que, em seu World Economic Outlook, de abril de 2012, revia para cima suas previsões para o crescimento do PIB no ano, incluindo os EUA e diversos países da Zona do Euro, poucos dias antes de a divulgação dos dados do crescimento trimestral europeu mostrar que mais da metade dos países da Zona haviam entrado em recessão. Novamente, essa notícia trouxe pânico aos mercados financeiros e jogou por terra as expectativas de que a recuperação se daria ao longo do ano, intensificando-se no segundo semestre.

Segundo tal relatório, “[…] a economia mundial está gradualmente se fortificando, após os grandes percalços de 2011”. Os Estados Unidos dão sinais de uma recuperação mais acentuada, e a Europa está implantando “good politics”, para que venha recuperar a rota do crescimento.

Meses depois, em junho, a realidade é outra: os EUA sofreram arrefecimento de seu crescimento, a Europa segue em grave crise, e a desaceleração do produto global foi forte e sentida inclusive pelos países do grupo BRICs, que se destacam em termos de crescimento nos últimos anos, compensando, de certa forma, o mau desempenho das economias desenvolvidas.

Neste ano, não haverá uma retomada consistente da economia dos EUA. O País segue preso a um padrão de crescimento dependente do endividamento e da especulação, resultado das transformações estruturais sofridas desde a ascensão das políticas neoliberais na década de 80 e da financeirização de sua economia, que tiveram como consequência um forte aumento na desigualdade e na redução da parcela salarial da renda. Logo, o endividamento e os ganhos advindos de valorização patrimonial resultante das periódicas “bolhas de ativos” criadas sob tal padrão de crescimento foram a forma encontrada por parte das famílias para manter seus padrões de consumo. O estouro da “bolha” de 2007 trouxe uma brusca interrupção nesse padrão e deprimiu o consumo privado, desencadeando uma crise que atingiu o mundo todo. Coube ao Governo endividar-se e garantir que não ocorresse um total colapso da principal economia do planeta.

O Tesouro e o FED agiram prontamente, com diversas medidas de socorro ao setor privado, baseando-se, principalmente, em facilitações quantitativas, injeções diretas de recursos para a manutenção do valor patrimonial das empresas. Pelo lado destas últimas, houve uma retomada do fluxo financeiro, que voltou a se tornar positivo em 2010, o que não se refletiu em aumento significativo da demanda efetiva. Mantida a reversão da tendência de desvalorização do dólar, verificada nos últimos meses, deverá ser ainda mais prejudicada a recuperação de suas exportações, essenciais para a obtenção de um padrão de crescimento, como o verificado na década de 90. Sem alterações pró-salário na distribuição do produto que reativem o consumo, os EUA parecem estar fadados a uma década de crescimento do tipo “vôo de galinha”.

Na Europa, o quadro é ainda mais grave, com diversos países da Zona do Euro à beira de um colapso. As políticas aí implantadas como resposta à crise foram bastante conservadoras: austeridade, corte de gastos sociais e redução dos custos salariais, como forma de buscar um aumento da competitividade. Isso trouxe a intensificação da recessão e o aumento do desemprego em praticamente todo o Continente, trazendo à tona a possibilidade de que a Grécia e outros países periféricos na Zona venham a abandonar o bloco.

Certo mesmo é que a crise de 2007-08 não se encerrou, e parte dos motivos para a tímida recuperação está nas próprias políticas de salvamento, que, seguindo a crença ortodoxa, buscaram a solução para a queda na demanda através da utilização de mecanismos financeiros e monetários, em uma fase descendente do ciclo econômico. Porém, como os agentes privados estão em uma posição defensiva de consolidação patrimonial e desalavancagem, o estímulo fiscal direto por parte do Estado é a única forma consistente de recuperação. Sem uma mudança nessa postura, a crise pode tornar-se uma recessão de balanços, com estagnação que pode perdurar décadas.

Delirante ou não, certo é que a previsão sobre o fim do mundo, dado o seu pequeno grau de falseabilidade até o dia 21 de dezembro, irá perdurar por mais tempo do que a do fim da crise. Essa, sim, já desmoronou.

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Rumo à recessão global

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Edição: Ano 17 nº 10 - 2008

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A crise das finanças desreguladas vem trazendo uma enorme dose de preocupação ao mundo: qual a profundidade de seus efeitos sobre a “economia real” e qual a possível extensão geográfica do contágio produzido pelo derretimento do sistema financeiro dos EUA?

O sistema financeiro global encolhe. O crédito ao consumidor e o acesso aos mercados de capitais tornam-se mais difíceis. A incerteza contamina a confiança dos consumidores e das empresas. O crescimento diminui. Esses efeitos, embora em escala limitada frente ao potencial arrasador do desastre, já estão acontecendo nos países desenvolvidos.

Nos EUA, a procura pelo seguro-desemprego atingiu 440.000 pedidos na segunda semana de setembro, frente a 320.000 há um ano atrás. Na Europa, bancos de diversas nacionalidades apresentaram perdas expressivas, ao comprarem o “lixo tóxico” espalhado pelos bancos de investimento dos EUA, totalizando US$ 228,9 bilhões até 15.09.08, estando 75% do total concentrados em 13 bancos, o que dá conta da amplitude mundial da débâcle financeira. O PIB do segundo trimestre, conforme dados do Banco Central europeu, mostrou uma retração de 0,2% frente ao trimestre anterior, o que não ocorria desde o início dos anos 90. Diversos países apresentaram desempenho negativo na mesma comparação: Alemanha (-0,5%), França (-0,3%) e Itália (-0,3%). Na Inglaterra, o Bank of England estima que dois milhões de pessoas correm risco de estar desempregadas até o Natal, enquanto o Ministro das Finanças, Alistair Darling, afirmou, no finalde agosto, que a economia do País enfrenta seu momento mais difícil em 60 anos. No Japão, o PIB caiu 0,6% no segundo trimestre. A redução da demanda externa aparece entre os fatores que golpearam o crescimento do País

E o Brasil? Uma das questões-chave está nos preços das commodities, fortemente influenciados pela instabilidade do dólar e pela demanda chinesa, que deve manter-se elevada. O Banco Central vem elevando os juros aceleradamente, buscando evitar que o desequilíbrio externo, aparente no déficit corrente superior a US$ 30 bilhões em 2008, se torne insustentável em 2009. O financiamento externo das empresas brasileiras também irá reduzir-se devido à crise global, enquanto o risco de fuga de capitais aumenta. Isso implica desaquecimento da economia, tanto maior quanto menos favoravelmente esses indicadores evoluírem para o País.

Embora os desempenhos de China e Índia devam sofrer apenas leve desaceleração em 2009, é impossível deixar-se de notar que a recessão global é quase uma certeza, dada a virulência e a profundidade da crise financeira. A idéia de que um desastre das proporções daquele que se abateu sobre o centro da globalização financeira (Wall Street e seus finados bancos de investimento) possa ter seus efeitos sobre o crescimento econômico facilmente controlado é tão ilusória quanto aquela que dizia ser essa uma “crise da parte subprime do sistema imobiliário norte-americano” em agosto de 2007. Pensar assim, embora possa ser reconfortante, é errar uma vez mais.

Rumo à recessão global

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