Textos com assunto: produto primário

O superciclo dos preços das commodities desacelerou ou está diante do fim?

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Edição: Ano 23 nº 04 – 2014

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A datar de meados de 2003, os preços internacionais das commodities iniciaram um percurso persistente de alta, um fenômeno singular em termos de amplitude. A crise financeira de 2008 não significou a interrupção deste movimento, uma vez que a recuperação das perdas teve início logo no ano subsequente. Os principais grupos de commodities — desconsiderando-se os combustíveis — alcançaram picos históricos no ano de 2011, com destaque para metais e alimentos. O petróleo, por sua vez, atingiu a maior cotação do período pós-crise em março de 2012, em meio à Primavera Árabe. O seu preço atual, porém, ainda se encontra aquém do recorde de julho de 2008.

Entre os possíveis eventos relacionados a este superciclo, além do tão enfatizado efeito-China, pode-se citar o aumento de custos de produção, como, por exemplo, o encarecimento da extração de petróleo em águas profundas. A elevação desse combustível gera um efeito em cadeia, principalmente para as commodities agrícolas, na forma de encarecimento
dos transportes, dos fertilizantes e, ainda, a elevação do custo implícito para a produção de alimentos, ao considerar-se a produção alternativa de biocombustíveis.

Outros fatores, como a política monetária de juros baixos nos Estados Unidos, a desvalorização do dólar e questões geopolíticas, também são apontados como causas para esse ciclo. Há, ainda, a presença dos investimentos financeiros responsáveis pela ampliação da volatilidade, a qual é intrínseca aos mercados de produtos primários.

Em 2012, os preços dos produtos básicos — ainda desconsiderando-se os combustíveis — cresceram 4,5%, sendo possível visualizar, no ano seguinte, uma direção descendente para esse grupo e também para os metais e alimentos. Nos dois primeiros meses de 2014, observa-se a elevação na cotação dos alimentos, tomando-se como referência dezembro de 2013, em especial do açúcar e do milho — em 12 meses, no entanto, esses produtos ainda acumulam baixas. As principais razões apontadas para a elevação recente dos preços estão relacionadas ao déficit hídrico no Brasil e aos conflitos geopolíticos envolvendo a Ucrânia, país de solo fértil que ocupa as primeiras posições entre os maiores exportadores mundiais de trigo e milho, sendo considerado o “celeiro” dos países europeus. A valorização dos combustíveis no início do ano ocorreu em meio a tensões entre a Rússia e o Ocidente. No grupo de bebidas, o café tem alta expressiva e recupera as perdas ocorridas desde 2011.

Os principais impactos desse movimento de 2014, apesar de aparentemente temporários, podem ser observados na inflação e nas contas externas. A combinação do real mais fraco desde o último quadrimestre de 2011 com a elevação
dos preços dos cereais no início de 2014 — correlação incomum para a maior parte do período — exerce pressão altista
na inflação doméstica no início do ano. Por sua vez, os principais determinantes para o resultado da balança comercial
nos últimos anos estão relacionados com os ganhos nos termos de troca e com a administração da balança de combustíveis.

Apesar da valorização de alguns grupos de commodities no primeiro bimestre de 2014, as previsões do FMI — que, em geral, são alvo de constantes revisões — para os preços dos principais grupos de commodities até 2019 sinalizam uma retração não brusca, o que traria paulatinamente os patamares de 2010 de volta para os preços. Caso os prognósticos
dessa instituição se confirmem, apesar da baixa, os preços ainda se localizariam em um degrau muito acima do que vigorava em 2003.

Dessa forma, as pressões inflacionárias com origem nas matérias-primas seriam arrefecidas, mas, por outro lado, as exportações dos produtos básicos, que cresceram em valor nos últimos 10 anos, devido, principalmente, ao efeito-preço, passariam a depender mais de outros fatores, como, por exemplo, a recuperação da economia mundial. Ademais, o debate sobre o desenvolvimento com recursos naturais não é inoportuno, haja vista os patamares ainda elevados alcançados pelos preços das commodities e os termos de troca favoráveis aos países exportadores de produtos primários. Concernente ao questionamento que intitula este texto, a despeito das previsões, é muito difícil traçar um comportamento futuro, a julgar pelos vários determinantes desses preços.

O superciclo dos preços das commodities desacelerou ou está diante do fim

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Apoio à extração mineral confirma tendência à “commoditização”

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Edição: Ano 23 nº 01 – 2014

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Através do apoio à atividade mineradora, o Governo procura acelerar o crescimento econômico brasileiro, aprofundando um modelo fortemente baseado nas exportações de minerais e nas commodities agroindustriais. Essa orientação permeia a proposta de um novo marco regulatório para a extração de minerais. O Projeto de Lei no 5.807, de 2013, destinado à criação de um novo código da mineração, deveria ter sido votado ainda em dezembro de 2013, para substituir o Decreto-Lei no 227, de 1967. Como tal não ocorreu, o Governo Federal decidiu acelerar a implantação de políticas destinadas a apoiar a mineração, através da Medida Provisória que criou a Agência Nacional de Mineração (ANM) e o Conselho Nacional de Política Mineral (CNPM). O Conselho é formado pelos Ministérios de Minas e Energia, Meio Ambiente, Casa Civil e Desenvolvimento, com a representação de estados e municípios envolvidos e empresas do setor.

O açodamento governamental em acelerar a implantação de um novo código da mineração explica-se pela grande expansão da extração mineral nos últimos 10 anos no Brasil, bem como pela urgência em eliminar a especulação com terras mineráveis.

Os dados do Instituto Brasileiro de Mineração (IBRAM) confirmam o impressionante crescimento da extração de minérios no Brasil, a exemplo do que vem ocorrendo em muitos outros países africanos e latino-americanos. Segundo essa fonte, a produção mineral brasileira cresceu 550% entre 2001 e 2011, sendo que a indústria extrativa mineral cresceu 156% sobre o PIB brasileiro nesse mesmo período: no ano 2000, representava 1,6% e, em 2011, 4,1%. Essa atividade tem permitido a manutenção de resultados positivos na Balança Comercial brasileira, que teria déficits de US$ 7,6 bilhões em 2010 e de US$ 10 bilhões em 2011, não fosse o crescimento das exportações de minérios.

Outra forma de estimular a extração e a exportação de minerais está expressa nos investimentos apoiados pelo BNDES, que destina mais de metade de sua carteira de investimentos aos setores de petróleo, gás e mineração. Conforme o IBRAM, a previsão de novos investimentos para o período 2012-16 é de US$ 75 bilhões. Segundo o Plano Nacional de Mineração, elaborado pelo Ministério de Minas e Energia, a extração mineral deverá crescer em mais de 100% até 2030, o que certamente desviará recursos e investimentos de setores com melhores potenciais de sustentabilidade.

Também as obras de infraestrutura contidas no Plano de Aceleração do Crescimento destinam-se, primordialmente, a apoiar a extração mineral e o agronegócio. Além disso, tramita no Congresso Nacional o Projeto de Lei no 1.610, que regulamenta a extração mineral em áreas indígenas. Isso ocorre em um contexto em que não se está considerando o ponto de vista das populações que vivem nessas regiões.

Tudo indica que o objetivo da atual proposta é a formatação de um novo código, que garanta a ampliação do superávit comercial e da arrecadação de impostos. Com isso, o Governo pretende reduzir os chamados obstáculos burocráticos, bem como limitar algumas distorções, como é o caso de artifícios jurídicos que permitem a manutenção de concessões em áreas sem nenhum tipo de exploração. Outro aspecto importante é o de agilizar os processos de licitações públicas dos contratos para a exploração de lavras. Além desses itens, não se verificam avanços significativos com relação ao código atualmente vigente, sobretudo no que concerne aos aspectos ambientais e tecnológicos.

A ausência de uma política setorial de longo prazo capaz de promover o desenvolvimento sustentado aparece muito claramente nessa escolha. Muito se tem discutido sobre o risco que significa para um País embasar seu crescimento na produção de commodities, em particular sobre a extração mineral, seja por seus parcos efeitos multiplicadores sobre a economia, seja por tornar o País excessivamente dependente das oscilações do mercado internacional.

Atualmente, diversos pesquisadores, no Brasil e no exterior, debatem sobre a necessidade da elaboração de uma transição pós-extrativista voltada para a elaboração de medidas destinadas à extração apenas dos minerais indispensáveis ao funcionamento das economias. Nesse cenário, as riquezas naturais, dentre essas a água, seriam consideradas bens públicos, o que permitiria uma certa autonomia local e regional, capaz de limitar a extração mineral ao desenvolvimento de atividades menos predatórias e à exigência de mecanismos compensatórios eficazes.

Apoio à extração mineral confirma tendência à “commoditização”

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Os preços das commodities e a balança comercial brasileira em 2013

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Edição: Ano 22 nº 07 - 2013

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Os preços das commodities, com exceção dos cereais, têm apresentado tendência de queda em 2013. De dezembro de 2012 a maio de 2013, o índice geral de commodities do FMI recuou 2,0%, assim como o índice de petróleo, enquanto o de metais caiu 8,5%. O índice de alimentos apresentou elevação de 2,0% no mesmo período e alta de 7,6% em maio deste ano, quando comparado ao mesmo mês do ano anterior. Apesar disso, o índice de alimentos está 4,9% abaixo do pico atingido em abril de 2011 e 1,7% aquém do valor máximo de 2012, atingido no mês de agosto.

Em maio de 2013, em relação ao mesmo mês do ano passado, as quedas foram de 3,3% no índice geral, de 8,8% no índice de metais e de 4,7% no índice de petróleo. Os produtos em destaque, por seu comportamento negativo, são: o arroz, o açúcar, o café e o minério de ferro, com quedas de 9,9%, 15,1%, 14,4% e 9% respectivamente. Já os produtos com alta no período são: a soja, o trigo e o milho, com elevações de 4,1%, 20,7% e 9,9%, nessa ordem.

Dada a sensibilidade das contas externas brasileiras com relação ao comportamento desses preços, justifica-se a análise desse impacto. O déficit comercial acumulado de janeiro a abril de 2013 alcançou US$ 6.151 milhões, enquanto, no mesmo período de 2012, houve um superávit de US$ 3.299 milhões. Em 2013, no acumulado até abril, as exportações somaram US$ 71.468 milhões, uma redução de 4,3% em relação ao mesmo período do anterior; e as importações, US$ 77.619 milhões, uma elevação de 8,79%. Já no primeiro semestre de 2013, o déficit comercial é de US$ 3.000 milhões, resultado das exportações acumuladas de US$ 114.500 milhões e importações de US$ 117.500 milhões. O déficit do semestre é inferior ao do quadrimestre, uma vez que, em maio e junho, foram alcançados superávits de US$ 759 milhões e de US$ 2.394 milhões respectivamente. Ou seja, o pior resultado ocorreu no primeiro quadrimestre, sendo janeiro o pior mês, com déficit comercial de US$ 4.040 milhões.

Nos primeiros quatro meses de 2013, as exportações de produtos básicos caíram 4,8% em relação a igual período de 2012, enquanto as de produtos semimanufaturados ficaram estáveis. Já os artigos manufaturados tiveram resultado semelhante ao primeiro grupo. No que concerne aos preços das exportações, os preços de produtos básicos apresentaram elevação de 2,8%, ou seja, o movimento de retração de alguns preços das commodities ainda não se refletiu de forma consistente no comportamento dessa classe de produtos. Já os preços dos semimanufaturados tiveram queda de 9,6%, e os dos manufaturados caíram 3,7%. O índice de quantum apresentou queda de 7,1% para o primeiro grupo, elevação de 11,1% para o segundo e retração de 1,3% para o último. Ao analisarem-se as exportações através das categorias de uso, o destaque negativo é a performance das vendas externas de combustíveis. Apesar da queda de 9,1% nos preços, a variação no quantum foi superior: -43,0%.

Sob a ótica das importações, destacam-se as compras externas de bens de consumo não duráveis, com elevação no valor das exportações de 12,5%, e as compras de combustíveis, com alta de 21,2% no quantum, arrefecida pela redução nos preços de 3,1%. Examinando-se somente a conta de combustíveis, o déficit é de US$ 9.665 milhões, superior ao déficit da balança comercial. Se estivesse em equilíbrio, o resultado comercial seria um superávit de US$ 3.514 milhões, superior ao resultado do primeiro quadrimestre de 2012.

Portanto, a queda nas vendas externas de combustíveis, somada ao aumento nas importações desse produto, explica a maior parcela do desempenho da balança comercial nos primeiros quatro meses de 2013. Algumas análises atribuem esse resultado ao crescimento no consumo de combustíveis no País, ou seja, parte da produção antes destinada ao exterior foi deslocada para suprir a demanda interna. Outro fator é a redução planejada da produção na Petrobras, devido à necessidade de atividades de manutenção em campos de exploração. É preciso lembrar a inclusão nas contas externas de 2013 de parte das importações realizadas em 2012 por causa de alterações na forma de registro na Receita Federal.

Em suma, a performance, em quantidade, tanto das importações quanto das exportações de combustíveis, parece ter tido o maior efeito no saldo negativo da balança comercial no primeiro quadrimestre de 2013. Apesar de a maior parte do desempenho da balança comercial brasileira ser atribuída a acontecimentos pontuais, a esperada perda de fôlego dos preços commodities ainda não afetou, de forma significativa, as contas externas. Por esse motivo, é preciso estar em alerta para a possibilidade de essa tendência de enfraquecimento nos preços de commodities continuar e, em algum momento, sensibilizar o valor das exportações. Nesse cenário, há a possibilidade de redução não somente no preço das exportações de produtos básicos, mas também de redução do quantum das vendas externas de manufaturados. Isto porque importantes países compradores desses produtos são predominantemente exportadores de commodities, principalmente os parceiros comerciais latino-americanos, os quais têm sua capacidade para importar influenciada pelo seu desempenho exportador.

Os preços das commodities e a balança comercial brasileira em 2013

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O comércio internacional de commodities

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Edição: Ano 21 nº 08 - 2012

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No primeiro decênio do século XXI, é proeminente a valorização dos preços internacionais das commodities. A compreensão desse movimento é importante para a economia brasileira, pois tem impactos na inflação, no câmbio e na balança comercial. Grande parte das análises relaciona esse comportamento ascendente de preços, quase exclusivamente, ao aumento da demanda chinesa por matérias-primas e, portanto, ao aumento no dinamismo do comércio internacional de commodities.

Dessa forma, é pertinente analisar o tão referenciado descompasso entre a demanda e a oferta. Na tabela, são apresentados os diferenciais, em pontos percentuais, entre as taxas de crescimento anuais das exportações mundiais (demanda) e as da produção mundial (oferta) em volume, com base nos dados da OMC.

Os resultados mostram que, de fato, no período 2003-10, houve um crescimento maior das exportações frente ao crescimento da produção em volume. Porém os excessos de crescimento da demanda de 1,71 ponto percentual ao ano para produtos agrícolas e de 1,19 ponto percentual ao ano para combustíveis e minérios não são tão expressivos, quando comparados aos do período 1994-98.

Neste último período, o comércio mundial foi mais dinâmico tanto para produtos agrícolas quanto para combustíveis e minérios. Esse resultado surpreende, pois esse é um período de redução nominal nos preços agregados de commodities.

Outro destaque é o período 1971-79, que apresentou um pequeno excesso de crescimento da demanda em relação à oferta para produtos agrícolas e, inclusive, um crescimento maior da oferta em relação à demanda para combustíveis e minérios. Entretanto esse é um período de aumento considerável nos preços primários

O panorama macroeconômico nos anos 70 compreendeu baixas taxas de juros nos Estados Unidos, desvalorização do dólar, especulação financeira e choques de petróleo. Curiosamente, esse arranjo em muito se assemelha ao do período atual.

A diferença é que, nos anos 70, uma onda inflacionária disseminou-se mundialmente, com forte reajuste de preços manufaturados. No período atual, por outro lado, os baixos custos de produção chineses têm contribuído para minimizar os reajustes nos preços dos manufaturados e arrefecer as pressões inflacionárias mundiais.

Essas constatações sugerem que, a despeito da influência dos elementos de oferta e demanda, há outros que devem entrar na análise dos determinantes de preços das commodities. A valorização do petróleo, a queda do dólar, a política monetária nos Estados Unidos e a especulação financeira também teriam alguma influência no movimento de alta dos preços das commodities verificado nos últimos anos.

A valorização do petróleo guardaria relação com um dólar fraco, uma vez que a desvalorização do dólar significa perdas de receitas de exportações para os países produtores dessa commodity. O reajuste do preço, em um contexto de crescimento econômico mundial, seria uma forma de compensação. A atividade especulativa com o petróleo ampliaria esse movimento.

Além disso, em alguns países, há um processo de “nacionalismo dos recursos naturais”, com impactos fiscais e restrições de acesso às fontes, o que aumenta custos de produção.

O petróleo mais caro, por sua vez, impacta os custos para as demais commodities — principalmente agrícolas —, ao encarecer os transportes, os insumos (fertilizantes) e os custos de oportunidade (substituição da produção agrícola por biocombustíveis).

Já as baixas taxas de juros operadas pelo Fed e a histórica correlação negativa entre commodities e ações tornaram atrativo o investimento em commodities. Há fortes indícios de que a especulação financeira tenha influência nos preços, embora esse tipo de interpretação não seja unânime entre os analistas. Uma evidência é o aumento da volatilidade, e outra é a maior sincronia tanto das commodities entre si quanto entre os índices de ações.

Por fim, os resultados mostram que a análise sobre os ciclos de preços das commodities é mais complexa que somente considerar elementos de oferta e de demanda. A tentativa de qualificar a avaliação dos determinantes desses preços é imprescindível, quando se deseja traçar um horizonte menos incerto para economias periféricas, como o Brasil, tão dependentes dos movimentos de preços das commodities.

O comércio internacional de commodities

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