Textos com assunto: Preço

O preço internacional da soja no último decênio

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Edição: Ano 24 nº 05 - 2015

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A valorização do preço internacional da soja, a partir da segunda metade de 2006, beneficiou os exportadores líquidos desse produto, entre eles o Brasil e o Estado do Rio Grande do Sul. Se, por um lado, esse movimento recente de valorização foi acompanhado por elevação da renda, por outro, enseja preocupações, haja vista a dependência do Produto Interno Bruto (PIB) e da performance das exportações do País e do Estado em relação ao preço do grão.

Diante dessa conjuntura, torna-se pertinente o estudo do movimento desse preço no mercado internacional, assim como o apontamento dos possíveis eventos que estejam colocando em marcha a sua trajetória de preços.

Para isso, primeiramente, é preciso ressaltar que, na segunda metade de 2006, a soja — assim como as demais commodities agrícolas — se inseriu em uma trajetória sem precedentes de crescimento de preços internacionais de commodities que já vinha sendo puxada por metais e combustíveis, pelo menos desde meados de 2003.

Nesse ínterim, insere-se o comportamento do preço da soja. Conforme os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI), o preço da oleaginosa multiplicou-se por 2,65 entre abril de 2006 e julho de 2008, este último sendo o ápice do preço até então. Após, desvalorizou-se bruscamente, em meio à crise financeira mundial.

A redução das posições dos investidores de índice em mercados futuros de commodities ocorreu em simultâneo à redução de preços, o que não permite descartar a hipótese de influência da especulação financeira nos preços. Para a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), essa retirada das posições em mercados futuros ocorreu em face das necessidades de cobrir as perdas financeiras com a crise. Já a retomada das posições ocorreu na sequência da política monetária expansionista norte-americana.

Assim, o preço da soja não somente se recuperou da queda como, em agosto de 2012, atingiu uma nova marca histórica, com elevação de 12,41% em relação ao pico anterior. A partir de então, o preço da soja desacelerou, mas manteve-se em uma relativa estabilidade até 2014. A partir do segundo semestre de 2014, emergiu uma tendência mais evidente de depreciação do preço. Apesar dessa redução de valor, ainda se mantém em um patamar muito superior em relação aos anos iniciais de crescimento — o preço da soja em março de 2015 é ainda 72,14% superior ao preço de abril de 2006.

Uma explicação recorrente para essa desaceleração de preços é a suposta redução do consumo chinês de soja ou a diminuição no crescimento da sua demanda. As importações chinesas de soja em quantum não diminuíram nos últimos anos, conforme dados do National Bureau of Statistics of China. De fato, houve uma desaceleração na taxa de crescimento no período pós boom, mas essa não parece ser a explicação exclusiva para esse movimento, pois é preciso ressaltar que o consumo chinês de soja cresce a taxas decrescentes desde o início do boom.

Por outro lado, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos tem enfatizado que a oferta mundial do grão se elevou. No entanto, ao dimensionar essa maior oferta pelo nível de ociosidade da indústria chinesa processadora de soja — em torno de 50% —, é difícil falar em uma oferta de soja em excesso.

Dessa forma, ganham destaque outros fatores que também podem estar influenciando o preço da soja, como a desvalorização das commodity currencies, a política monetária estadunidense, a especulação financeira e os custos de produção. Sem o intuito de hierarquizar os possíveis determinantes, destaca-se a sincronia entre o preço da soja e do petróleo a partir do ponto no qual o preço do barril de petróleo atinge os US$ 50.

Para alguns estudos do Banco Mundial, a variação do preço do combustível explicaria em torno de 50% da variação do preço das commodities agrícolas. Por hipótese, uma explicação para isso pode estar no fato de que o petróleo é um dos principais componentes dos fertilizantes utilizados na produção.

Por todos esses motivos, não se deve subestimar a necessidade de um estudo mais profundo dos possíveis determinantes do preço da soja. A sua negligência pode pegar de surpresa os formuladores de política, obstinados em dar uma resposta rápida e simples a um fenômeno que se mostra mais complexo do que se imagina.

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O preço internacional da soja no último decênio – Clarissa Black

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A queda do preço do petróleo: uma trama saudita?

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Edição: Ano 24 nº 04 - 2015

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Nos últimos meses, a brusca retração do preço do petróleo no mercado mundial tem chamado a atenção da comunidade internacional, que aguarda receosa os seus desdobramentos. De fato, a partir de junho de 2014, o preço dessa commodity despencou dos US$ 115 por barril e rompeu o patamar de US$ 50, estabilizando-se um pouco acima desse nível em março de 2015. Ao analisar as causas desse processo, vemos que há o encontro de uma baixa demanda (motivada pela estagnação na Europa e no Japão e pelo arrefecimento da expansão chinesa) com um recrudescimento da oferta, em virtude da produção crescente na Rússia, no Iraque e na Líbia e do avanço da extração não convencional, como o petróleo de folhelho (shale oil) nos Estados Unidos, as areias betuminosas no Canadá e o Pré-Sal no Brasil.

Ao contrário do que se poderia esperar, a posição da Arábia Saudita — principal produtor, exportador e dono das maiores reservas — não foi de preocupação. Em documentos e declarações oficiais, os sauditas asseveraram sua tranquilidade em relação à queda do valor do petróleo, salientando que o movimento especulativo dos mercados de capitais faz com que essa commodity flutue repetidamente. No entanto, como 90% das divisas externas que chegam a Riad são obtidas através da exportação de petróleo, levantou-se uma série de dúvidas sobre a sinceridade dessas afirmações, que poderiam estar ocultando outras motivações, de natureza não econômica, mas geopolítica.

Com efeito, há muitos anos, a postura dos sauditas no tocante ao preço do petróleo é diferente quando comparada com a de outros Estados da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), tais como Irã e Venezuela. Enquanto iranianos e venezuelanos, dentre outros, tencionam manter elevado o valor do produto, para auferir maiores receitas e levar a cabo seu projeto político, os sauditas parecem mais interessados na sustentabilidade da sua produção petrolífera: temem que os custos elevados incentivem a ampliação das fontes alternativas de energia e de extração mineral. Ademais, os outros países da OPEP gostariam que os sauditas desempenhassem o papel de swing state, ou seja, o de País que diminui ou aumenta sua produção petrolífera para alterar o preço desse item, o que atualmente não é bem aceito na Arábia Saudita.

Em boa medida, o contraste entre Riad e Teerã nesse ponto deve-se a diferenças políticas e demográficas, na medida em que o Irã é muito mais populoso (tem 77 milhões de habitantes, contra 28 milhões na Arábia Saudita) e tem um sistema político menos oligárquico, o que aumenta as pressões e as demandas sobre ele. Além disso, o País enfrenta um conjunto de sanções internacionais que têm atravancado seu crescimento econômico. Desse modo, como se trata de dois Estados rivais no sistema internacional, especula-se que os sauditas estejam forçando a baixa do preço do petróleo para minar o Governo iraniano.

Nesse contexto, muitos asseveram que a ofensiva saudita não se limitaria a prejudicar o Irã, mas também os Estados Unidos. Isso porque a produção norte-americana vem prosperando desde 2012, com a extração do folhelho, revertendo uma queda que vinha desde a década de 70. Entretanto, o montante para a realização dessa atividade é significativo, e o break even (preço mínimo do barril a partir do qual a produção se torna economicamente viável) situar-se-ia entre US$ 50 e US$ 70. Assim, Riad eliminaria um potencial competidor, assegurando uma maior margem de manobra com Washington e no mercado petrolífero. De quebra, daria uma resposta firme à reaproximação entre Estados Unidos e Irã, que vai de encontro aos seus interesses. Ressalta-se, ainda, que a morte do Rei Abdullah — sucedido por seu irmão Salman — não surtiu mudanças na postura do País, que segue com a ideia de manter baixo preço do petróleo.

No entanto, as reais pretensões sauditas parecem bem mais modestas, sem o intuito de dificultar a exploração de petróleo não convencional, por duvidarem da possibilidade de sucesso dessa empreitada. Na realidade, a recusa em reduzir a produção estaria calcada em duas razões: em primeiro lugar, em outras conjunturas, a Arábia Saudita tomou uma atitude nesse sentido, mas não logrou elevar os preços como desejava e ainda viu seu market share reduzido, beneficiando somente os outros membros da OPEP. Ademais, justamente por saber que o preço do petróleo está abaixo do break even para muitos produtores, o Governo saudita crê ser inevitável uma diminuição do ritmo de investimentos nos Estados Unidos e em outros lugares, o que, de fato, já vem ocorrendo. Nessas circunstâncias, não valeria a pena cortar a produção quando empresas estrangeiras já se veriam obrigadas a fazê-lo.

A despeito da manobra saudita, não se pode afirmar que o valor do petróleo vai manter sua trajetória decrescente ou se haverá uma reversão desse fenômeno em breve. Historicamente, verifica-se uma grande oscilação no preço do produto, tanto por alterações na oferta e na demanda quanto por mudanças nas expectativas dos agentes econômicos, que também variam abruptamente conforme as circunstâncias. Ainda assim, é imperativo observar os desdobramentos futuros das negociações entre o Irã e o P5 + 1 (EUA, China, Rússia, França, Alemanha e Reino Unido). Como as tratativas avançaram, espera-se um levantamento gradual das sanções ao Irã, o que poderá implicar um aumento significativo nos investimentos em seus campos petrolíferos. Isso, por sua vez, voltaria a pressionar a oferta dessa commodity, retomando a perspectiva de uma nova baixa no preço do petróleo.

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Os preços das commodities e a balança comercial brasileira em 2013

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Edição: Ano 22 nº 07 - 2013

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Os preços das commodities, com exceção dos cereais, têm apresentado tendência de queda em 2013. De dezembro de 2012 a maio de 2013, o índice geral de commodities do FMI recuou 2,0%, assim como o índice de petróleo, enquanto o de metais caiu 8,5%. O índice de alimentos apresentou elevação de 2,0% no mesmo período e alta de 7,6% em maio deste ano, quando comparado ao mesmo mês do ano anterior. Apesar disso, o índice de alimentos está 4,9% abaixo do pico atingido em abril de 2011 e 1,7% aquém do valor máximo de 2012, atingido no mês de agosto.

Em maio de 2013, em relação ao mesmo mês do ano passado, as quedas foram de 3,3% no índice geral, de 8,8% no índice de metais e de 4,7% no índice de petróleo. Os produtos em destaque, por seu comportamento negativo, são: o arroz, o açúcar, o café e o minério de ferro, com quedas de 9,9%, 15,1%, 14,4% e 9% respectivamente. Já os produtos com alta no período são: a soja, o trigo e o milho, com elevações de 4,1%, 20,7% e 9,9%, nessa ordem.

Dada a sensibilidade das contas externas brasileiras com relação ao comportamento desses preços, justifica-se a análise desse impacto. O déficit comercial acumulado de janeiro a abril de 2013 alcançou US$ 6.151 milhões, enquanto, no mesmo período de 2012, houve um superávit de US$ 3.299 milhões. Em 2013, no acumulado até abril, as exportações somaram US$ 71.468 milhões, uma redução de 4,3% em relação ao mesmo período do anterior; e as importações, US$ 77.619 milhões, uma elevação de 8,79%. Já no primeiro semestre de 2013, o déficit comercial é de US$ 3.000 milhões, resultado das exportações acumuladas de US$ 114.500 milhões e importações de US$ 117.500 milhões. O déficit do semestre é inferior ao do quadrimestre, uma vez que, em maio e junho, foram alcançados superávits de US$ 759 milhões e de US$ 2.394 milhões respectivamente. Ou seja, o pior resultado ocorreu no primeiro quadrimestre, sendo janeiro o pior mês, com déficit comercial de US$ 4.040 milhões.

Nos primeiros quatro meses de 2013, as exportações de produtos básicos caíram 4,8% em relação a igual período de 2012, enquanto as de produtos semimanufaturados ficaram estáveis. Já os artigos manufaturados tiveram resultado semelhante ao primeiro grupo. No que concerne aos preços das exportações, os preços de produtos básicos apresentaram elevação de 2,8%, ou seja, o movimento de retração de alguns preços das commodities ainda não se refletiu de forma consistente no comportamento dessa classe de produtos. Já os preços dos semimanufaturados tiveram queda de 9,6%, e os dos manufaturados caíram 3,7%. O índice de quantum apresentou queda de 7,1% para o primeiro grupo, elevação de 11,1% para o segundo e retração de 1,3% para o último. Ao analisarem-se as exportações através das categorias de uso, o destaque negativo é a performance das vendas externas de combustíveis. Apesar da queda de 9,1% nos preços, a variação no quantum foi superior: -43,0%.

Sob a ótica das importações, destacam-se as compras externas de bens de consumo não duráveis, com elevação no valor das exportações de 12,5%, e as compras de combustíveis, com alta de 21,2% no quantum, arrefecida pela redução nos preços de 3,1%. Examinando-se somente a conta de combustíveis, o déficit é de US$ 9.665 milhões, superior ao déficit da balança comercial. Se estivesse em equilíbrio, o resultado comercial seria um superávit de US$ 3.514 milhões, superior ao resultado do primeiro quadrimestre de 2012.

Portanto, a queda nas vendas externas de combustíveis, somada ao aumento nas importações desse produto, explica a maior parcela do desempenho da balança comercial nos primeiros quatro meses de 2013. Algumas análises atribuem esse resultado ao crescimento no consumo de combustíveis no País, ou seja, parte da produção antes destinada ao exterior foi deslocada para suprir a demanda interna. Outro fator é a redução planejada da produção na Petrobras, devido à necessidade de atividades de manutenção em campos de exploração. É preciso lembrar a inclusão nas contas externas de 2013 de parte das importações realizadas em 2012 por causa de alterações na forma de registro na Receita Federal.

Em suma, a performance, em quantidade, tanto das importações quanto das exportações de combustíveis, parece ter tido o maior efeito no saldo negativo da balança comercial no primeiro quadrimestre de 2013. Apesar de a maior parte do desempenho da balança comercial brasileira ser atribuída a acontecimentos pontuais, a esperada perda de fôlego dos preços commodities ainda não afetou, de forma significativa, as contas externas. Por esse motivo, é preciso estar em alerta para a possibilidade de essa tendência de enfraquecimento nos preços de commodities continuar e, em algum momento, sensibilizar o valor das exportações. Nesse cenário, há a possibilidade de redução não somente no preço das exportações de produtos básicos, mas também de redução do quantum das vendas externas de manufaturados. Isto porque importantes países compradores desses produtos são predominantemente exportadores de commodities, principalmente os parceiros comerciais latino-americanos, os quais têm sua capacidade para importar influenciada pelo seu desempenho exportador.

Os preços das commodities e a balança comercial brasileira em 2013

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Performance recente dos preços das commodities

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Edição: Ano 21 nº 02 - 2012

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Acompanhar o comportamento das commodities é relevante devido ao seu impacto na inflação e nas exportações. As commodities iniciaram movimento próspero de preços desde 2002 — com alta mais consistente a partir de 2003 —, relacionado, principalmente, com a retomada do crescimento econômico mundial, com destaque para a robusta demanda chinesa por matérias-primas.

Em julho de 2008, os preços dos não energéticos mais que dobraram em comparação com janeiro de 2003. Ao incluir os preços de energia — leia-se carvão, gás e petróleo —, a elevação foi de 3,3 vezes para o mesmo período. Entretanto, a partir de agosto de 2008, os preços começaram a cair, em decorrência da crise econômica mundial, mas logo se recuperaram.

Em dezembro de 2008, a cotação das commodities não energéticas diminuiu 34,80% em relação a julho do mesmo ano, mas subiu 32,84% de dezembro de 2008 a dezembro de 2009. De julho a dezembro de 2010, permaneceu em rota ascendente, e um novo patamar foi atingido em abril de 2011. A partir de maio de 2011, iniciou-se movimento baixista. Em dezembro de 2011, diminuiu 19,73% em relação a abril do mesmo ano. Apesar disso, ainda permanece elevada em comparação com os preços históricos e levemente abaixo do ápice de 2008. Se continuar a cair, podem ser arrefecidas as pressões inflacionárias. Por outro lado, o saldo comercial brasileiro, favorecido nos últimos anos pelos altos preços das commodities, poderá deteriorar-se.

Performance recente dos preços das commodities

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