Textos com assunto: política nacional de estatística

Quem elabora as estatísticas e as análises socioeconômicas nos Estados Unidos?

Por:

Edição: Ano 26 nº 12 – 2017

Área temática:

Assunto(s): , ,

Com o avanço dos debates sobre modernização do Estado tanto no Brasil como no Rio Grande do Sul, é salutar o interesse em conhecer a política nacional para estatística nos Estados Unidos da América (EUA). O País destaca-se por sua extensa e complexa rede de coleta, catalogação e análise de dados em diversas subáreas das ciências sociais aplicadas, e, consequentemente, a experiência norte-americana é usada como padrão para diversos outros países do mundo, com a existência de 13 agências governamentais de estatísticas na esfera federal. Entende-se a necessidade de apreender o modelo norte-americano em toda sua completude para o desenho das políticas nacionais de estatística em outras partes do mundo, considerando-se, evidentemente, as especificidades e as demandas locais.

A manutenção de um órgão governamental dedicado à produção e à disseminação de estatísticas oficiais é expressamente recomendada pela Divisão de Estatísticas da Organização das Nações Unidas (DE-ONU) Ademais, essas agências devem ser responsáveis pela manutenção e pelo aprimoramento das classificações estatísticas nacionais, cuja finalidade é fornecer suporte a diversas políticas públicas, tais como educação, trabalho, contas nacionais e segurança, e, também, pela provisão de recursos para financiar essas tarefas. As classificações nacionais, por sua vez, coexistem e devem observar as classificações internacionais; as últimas, que são tuteladas por diversas organizações internacionais, configuram-se como um conjunto de melhores práticas para as primeiras.

No caso norte-americano, a elaboração de estatísticas governamentais remonta a própria formação do Estado nacional. Alguns anos após a independência dos EUA, ainda em 1790, organizou-se o primeiro censo nacional. No século seguinte, à medida que viam sua economia e sociedade prosperarem e tornarem-se mais complexas, a produção de dados passou a incorporar novos temas, como as receitas tributárias, a pesca comercial, e até as informações sobre ocorrências de crimes. Ao longo do século XX, a complexificação das classificações estatísticas nos EUA resultou na descentralização e na compartimentalização temática na produção de informações oficiais. A maior parte das atuais 13 agências que fornecem estatísticas socioeconômicas vincula-se a determinado departamento de Estado1, como se pode observar no quadro adiante.

Em paralelo às agências federais, diversos estados norte-americanos apresentam instituições que coletam e disseminam informações sobre temas variados, ainda que essas estruturas se diferenciem significativamente em termos de tamanho, escopo e ordenamento legal em cada estado federado. No caso da Califórnia, por exemplo, alguns departamentos estaduais apresentam divisões específicas que se dedicam à elaboração e à divulgação de estatísticas. Cabe destacar, ainda, que quase todos os estados mantêm bases de dados sobre saúde pública.

A maior parte desses órgãos federais também elabora estudos analíticos regulares de amplo acesso com base nos dados que divulgam. Naturalmente, essa prerrogativa não é exclusiva dessas organizações, e é também realizada em uma diversidade de centros de pesquisa norte-americanos, como em universidades e, inclusive, nos chamados think tanks (literalmente, tanques de pensamento), os quais são financiados tanto por instituições privadas quanto pelo governo central e por autoridades estaduais ou locais, e, claro, por partidos políticos. O papel dos think tanks em relação ao dos órgãos federais, contudo, não deve ser confundido: enquanto os primeiros se inclinam a desenvolver análises com intuito de promover determinada agenda política, os últimos apresentam preocupação em oferecer, nas palavras da própria página do Census Bureau, uma “análise confiável, oportuna, e precisa sobre os dados”.

Como ressaltam as próprias recomendações da própria DE-ONU, a construção de um sistema nacional de estatística deve respeitar as singularidades locais. No caso brasileiro, tanto o exemplo norte-americano como o conjunto das denominadas boas práticas internacionais chanceladas pela referida agência internacional devem submeter-se ao crivo das especificidades sociais, econômicas e mesmo culturais do País. Ainda assim, o estudo de experiências estrangeiras, tanto as de países desenvolvidos como as de demais países em desenvolvimento, pode oferecer inspiração para o constante refinamento das políticas públicas na produção de estatística e na análise de dados.


1 Designação que corresponde aos ministérios no Brasil.

Compartilhe