Textos com assunto: mercado financeiro

O crédito em 2011

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Edição: Ano 21 nº 03 - 2012

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O comportamento altista dos índices de preços em 2010, aliado à perspectiva de que, tanto pelo lado da demanda quanto pelo lado da oferta, não havia sinais claros de uma desaceleração no curto prazo, fez com que o Banco Central (Bacen) desse início, em dezembro desse ano, à adoção de uma série de medidas, com o intuito de controlar a inflação em 2011 e de trazê-la novamente para uma trajetória mais compatível com o centro da meta (4,5%).

Para atender a esse cenário, o Governo passou a se preocupar com a expansão do mercado de crédito e com seu efeito sobre os preços dos ativos financeiros e, possivelmente, dos bens e dos serviços. Assim, o Bacen anunciou, em dezembro de 2010, medidas de restrição ao crédito, incluindo aumento nas alíquotas de compulsório sobre depósitos a prazo, de 15% para 20%, no adicional de compulsório para depósitos a prazo e à vista, de 8% para 12%, e no fator de ponderação de risco nas operações de crédito para pessoa física, com prazo superior a 24 meses, de 100% para 150%.

Em um primeiro momento, essas medidas foram associadas ao objetivo de assegurar a estabilidade das finanças, isto é, de tornar as taxas de crescimento do crédito mais compatíveis com o equilíbrio de longo prazo da economia. Por essa razão, foram naturalmente denominadas medidas de caráter macroprudencial. Sendo o crédito um canal de transmissão reconhecidamente importante para a inflação, era natural que uma expansão mais moderada de suas taxas de crescimento fosse considerada positiva, no sentido de conter eventuais pressões inflacionárias. O aumento ocorrido, nos últimos anos, na participação do crédito em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) ampliou ainda mais a importância da influência desse canal sobre o comportamento da inflação.

Ainda dentro do objetivo de reforçar a redução do crescimento do total do crédito na economia, o Bacen iniciou, em 2011, um ciclo de elevação da taxa de juros Selic, a qual passou de 11,25% ao ano em janeiro para 12,50% ao ano em agosto. Além disso, anunciou medidas como o aumento do Imposto Sobre Operações Financeiras (IOF) para a entrada de capitais de curto prazo e de operações de financiamento de pessoa física superiores a 360 dias. No primeiro caso, a tentativa era reduzir a captação de linhas de crédito no exterior pelos bancos, cuja atratividade aumentou após a elevação do compulsório. No segundo caso, o objetivo era atingir mais diretamente a demanda do crédito pelos consumidores.

A resultante de todas essas medidas tomadas foi que o mercado de crédito continuou em expansão em 2011, embora com um crescimento mais moderado. O saldo total do crédito bancário, computadas as operações com recursos livres e direcionados, atingiu R$ 1.984 bilhões em novembro de 2011, expandindo-se 18,2% em 12 meses, e contribuindo para que a relação empréstimos totais/PIB chegasse a 48,2% nesse ano, ante 44,9% em novembro de 2010.

Constataram-se, também, principalmente, como resultado das medidas macroprudenciais, a redução no ritmo de concessões de crédito, a diminuição de prazos de financiamento e o aumento das taxas de aplicação. Ainda, influenciaram negativamente a demanda por crédito, a diminuição no ritmo de crescimento da economia e o recrudescimento da crise internacional.

Em relação às concessões de crédito, uma análise da média diária mostrou que o impacto das medidas macroprudenciais começou a aparecer em abril e maio de 2011, com a desaceleração das concessões de crédito à pessoa jurídica, e, a partir de agosto do mesmo ano, fizeram-se sentir também nas operações realizadas pelas pessoas físicas. Em relação a estas últimas, o destaque ficou por conta da queda nos financiamentos para aquisição de veículos, que, no período de agosto a novembro, apresentaram redução na comparação com os mesmos meses de 2010.

Os financiamentos bancários apresentaram crescimento mais acentuado nas operações referenciadas em recursos direcionados, que totalizaram R$ 709 bilhões em novembro, aumentando 22,8% em 12 meses, com ênfase à expansão de 44,0% nas operações de crédito habitacional. Só os financiamentos do BNDES, computadas as operações diretas e os repasses a instituições financeiras, atingiram R$ 408,7 bilhões, elevando-se 15,7% em 12 meses. O saldo das operações de crédito rural, impulsionado pela demanda para custeio e investimentos agrícolas para a safra 2011/2012, atingiu R$ 102,7 bilhões, aumentando 21,2% em 12 meses.

O saldo das operações com recursos livres totalizou R$ 1.275 bilhões em novembro de 2011, ampliando-se 15,8% em 12 meses e passando a representar 64,3% da carteira do sistema financeiro ante 64,9% em agosto do mesmo ano. Os empréstimos a pessoas físicas somaram R$ 644 bilhões, aumentando 17,2% no mesmo período de 12 meses. Nesse segmento, a greve bancária em outubro afetou, sobretudo, as contratações de crédito pessoal e consignado, ao mesmo tempo em que contribuiu para a intensificação da demanda por crédito rotativo. As operações contratadas no segmento de pessoas jurídicas somaram R$ 631,4 bilhões em novembro, representando um aumento de 15,8%. Nessa modalidade, o arrefecimento da demanda por crédito acompanhou a moderação da atividade econômica.

Para 2012, o estímulo ao consumo decorrente do desmonte de parte das medidas macroprudenciais, da redução da taxa básica de juro e do alívio fiscal dado a alguns produtos poderá esbarrar na deterioração do cenário externo, o que limitaria a eficácia da atuação do Governo no sistema de crédito brasileiro.

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Das marolas ao tsunami

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Edição: Ano 17 nº 12 - 2008

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O exuberante crescimento dos mercados financeiros, espraiado mundo afora desde o começo dos anos 90, terminou exatamente como esperado, num crash de desvalorizações. Iniciada no pólo mais avançado desse processo, o mercado de títulos imobiliários dos EUA, a desinflação de ativos financeiros muito rapidamente veio contaminando todos os demais mercados de crédito, numa onda ainda não terminada. Seus efeitos sobre o setor produtivo já se fazem sentir e, dependendo da capacidade de os governos envolvidos coordenarem respostas eficazes e a tempo, podem adquirir as sinistras proporções da Grande Depressão de 1929. O que chegou a ser designado como uma marola adquiriu a terrível forma de um tsunami, cujas conseqüências devastadoras recém começam a ser percebidas.

Tudo teve início no começo dos anos 80, quando os Governos britânico e norte-americano adotaram políticas de desregulação e liberalização das suas praças financeiras. Além das convicções ideológicas, logo apelidadas de neoliberais, e dos interesses econômicos que visavam beneficiar, essas iniciativas receberam elogios de boa parte dos economistas de suas mais respeitadas instituições universitárias. A expectativa era de que a “desrepressão” financeira, com a retirada dos controles estabelecidos pelo acordo de Bretton Woods, inauguraria uma fase longa de prosperidade, garantida pelo livre funcionamento dos mercados financeiros “eficientes”. Nessa mesma época, tanto o keynesiano Minsky como os regulacionistas Aglietta e Orléan criticavam a teoria econômica convencional exatamente no seu pressuposto de uma tendência ao equilíbrio do mercado financeiro. Sua audiência foi exígua até há uns meses atrás

O centro de sua crítica apontava para o equívoco da visão que então predominava. Os resultados mais certos do funcionamento do mercado financeiro são justamente as bolhas de inflação de preços e suas decorrentes crises de desvalorização abrupta. Se, nos mercados de, por exemplo, automóveis, os excessos de produção são recorrentes e visíveis na forma de pátios lotados de carros zero-quilômetro, também podem, na maior parte das vezes, ser corrigidos pelas próprias empresas, com uma reprogramação de suas metas de produção. No mercado financeiro, entretanto, não é possível nenhum tipo de planejamento. Todas as decisões relevantes são tomadas no curto prazo, levando-se em consideração unicamente o que os outros estão fazendo. Só esse padrão de comportamento imitativo pode julgar razoável que um banco de investimento multiplique 30 vezes seus depósitos iniciais para financiar a compra de títulos que todos estão comprando sob a convicção absurda de que o movimento de valorização não só nunca vai parar como renderá ganhos sempre crescentes

Nesse processo, a pirâmide de papéis de capital fictício cresce a um ritmo vertiginosamente superior ao do capital real, os ativos produtivos. Sua natureza, entretanto, permanece. Esses títulos representam unicamente um direito sobre a renda gerada pelo trabalho comandado pelo capital produtivo. A trajetória de valorização é sempre interrompida quando algum episódio, muitas vezes dos mais corriqueiros, demonstra o tamanho da distância entre os direitos assim multiplicados e a possibilidade de a economia real realizá-los.

Foi justamente essa aposta no irrealizável que causou a presente crise. Desde meados dos anos 90, na medida em que esses movimentos altistas de preços de papéis portadores de alguma forma de renda financeira atingiram proporções muito elevadas, bolhas de inflação de ativos e colapsos de deflação vêm ocorrendo. As sucessivas crises em mercados periféricos da América Latina, da Ásia e da Europa Oriental foram minimizadas pelos economistas defensores da tese dos mercados eficientes e creditadas a equívocos da política econômica ou à falta de “bons fundamentos” nesses países. A receita terapêutica foi sempre a mesma: faltava dar mais liberdade aos agentes financeiros, já que acreditavam ser a causa desses colapsos não a especulação, mas, sim, a persistência de práticas e regras que a pudessem coibir.

Em 2001, pela primeira vez, um cataclismo instalou-se no centro do sistema, o estouro da bolha da “nova economia” em Nova Iorque. À época, algumas vozes bem situadas em Wall Street e na academia falavam de uma certa “exuberância irracional” nesses mercados. Como a valorização fictícia foi retomada, o assunto foi logo esquecido. Isso até meados do ano passado, quando o ciclo de mais de uma década de inflação de preços de imóveis e de endividamento das famílias norte-americanas se encerrou. O ano e pouco que se sucedeu foi o tempo necessário para os contratos de dívidas que alavancavam as ousadas operações especulativas começarem a vencer sem poderem ser honrados. Sucederam-se as falências, por enquanto poucas, e as operações salvadoras dos Estados, muitas e bilionárias, intervindo, nacionalizando e recomprando créditos “envenenados”.

Os últimos 30 anos viram desenvolver-se e dominar-se a economia mundial um regime de acumulação dominado pelas finanças. Como em outros momentos similares na história, foi a fase precursora de uma grande crise. Não apenas porque o mundo do trabalho encontrou uma crescente dificuldade em suportar o peso do rentismo improdutivo, mas também porque a lógica desse regime de valorização interminável é contraditória com os limites da vida material. Aristóteles já dizia que o infinito não pertence ao mundo natural, lição que banqueiros e especuladores estão a aprender, sufocados por seus prejuízos bilionários.

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O significado da conquista do grau de investimento

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Edição: Ano 17 nº 06 - 2008

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No dia 30 de abril de 2008, o Brasil recebeu a certificação de grau de investimento pela agência de classificação de risco Standard & Poor´s (S&P), que atualizou o grau do País de BB+ para BBB-, com perspectiva estável, significando que o País é opção segura em termos de risco de crédito. Outras agências, especialmente a Mood´s e Fitch, ainda classificam o Brasil como grau especulativo, mas considera-se que é apenas questão de tempo seguirem a S&P, já que as classificações são fortemente correlacionadas. O anúncio surpreendeu o mercado, que dava como certa a certificação, mas somente para 2009, em razão da turbulência nos mercados financeiros internacionais de 2007/08. Tão logo se deu o anúncio, os mercados reagiram, a taxa de câmbio vem caindo, enquanto o Ibovespa bate seguidos recordes.

O relatório da S&P destacou a maturidade institucional do Brasil, evidenciada pela melhora fiscal, pela redução da dívida externa e pelo crescimento. Foram considerados pontos fortes da perspectiva do País a manutenção do regime de câmbio flutuante e do regime de metas de inflação. O relatório também destacou a independência na prática operacional do Banco Central. Já os pontos fracos estão associados à elevada relação dívida líquida/PIB do Governo — muito acima da dos países com a mesma classificação do Brasil —, ao crescimento acelerado dos gastos públicos correntes e às barreiras estruturais ao investimento, na forma de altas taxas de juros e de pouca participação do setor privado nos investimentos em infra-estrutura. Não há um otimismo quanto à aprovação de reformas estruturais, porém a evolução de um conjunto de medidas de menor impacto tem sido considerada satisfatória

Quanto à taxa de juros, os efeitos dar-se-ão mais no médio prazo, pois, no curto prazo, a sua trajetória ainda refletirá a política monetária apertada. Assim, a curva de juros deve ficar menos inclinada diante do menor prêmio de risco embutido nos prazos mais longos, fazendo com que, ao longo do tempo, as taxas de juros de curto prazo comecem a cair. Isso já está impactando os mercados de financiamento de prazo mais longo. Financiamentos habitacionais e financiamentos de prazos longuíssimos para bens duráveis, que focam especialmente as taxas de longo prazo, já vislumbravam uma curva de juros com taxas longas em queda coexistindo com taxas curtas ainda extremamente elevadas, tornando bastante rentáveis essas operações. Isso garante uma boa perspectiva, em especial para os mercados imobiliário e de automóveis.

A curva de juros menos inclinada terá também efeitos na taxa de câmbio. Com a perspectiva de alta nos fluxos financeiros e nos investimentos diretos, com os preços das commodities exportadas pelo Brasil em alta e a fraqueza global do dólar, não será surpresa se a taxa de câmbio cair abaixo de R$ 1,50 nos próximos meses, com a tolerância do Banco Central, que não hesitará em utilizar esse instrumento para enfrentar uma inflação que se mostra crescente.

A evidência relativa aos países que receberam o grau de investimento nos últimos anos mostra que os mercados antecipam a certificação, de tal maneira que os preços dos ativos domésticos começam a subir em torno de um ano antes do anúncio. Em alguns casos, os ativos esgotam sua valorização antes mesmo do anúncio, como no caso do México. A antecipação, porém, não tem como ser plena, pelas restrições estatutárias de aplicações em países não certificados e pelo grau de investimento por parte de vários fundos estrangeiros. Esses fluxos é que devem fazer diferença, ainda que, para virem, tenham que esperar por certificações adicionais.

O significado da conquista do grau de investimento

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