Textos com assunto: leite

Atividade leiteira no RS: produção em queda e preços elevados

Por:

Edição: Ano 26 nº 6 – 2017

Área temática:

Assunto(s): , ,

O Rio Grande do Sul é o segundo maior produtor de leite do Brasil, sendo responsável por aproximadamente 14% do leite produzido no País. De acordo com a Pesquisa Trimestral do Leite (PTL) realizada pelo Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE)[1], o Estado produziu, em 2016, 3,2 bilhões de litros de leite. Essa quantidade corresponde a um decréscimo de 6,8% em relação ao ano anterior, no qual foram captados 3,5 bilhões de litros. A retração foi observada nos quatro trimestres de 2016, em comparação com 2015.

A queda na produção não é exclusividade do RS, ocorrendo em outros dois dos cinco principais estados produtores de leite, bem como no total da produção brasileira. Maior produtor de leite do País, o Estado de Minas Gerais registra queda desde o quarto trimestre de 2014, e o Paraná, terceiro maior, desde o terceiro trimestre de 2015.

Entre as causas da retração da oferta é possível citar as condições climáticas desfavoráveis e o aumento dos custos de produção. Em 2016, a redução na oferta de milho, um dos principais componentes da ração, elevou os preços do grão em mais de 60%. Além disso, a ocorrência de casos de adulteração do leite causou prejuízo à imagem do setor no RS.

A redução da oferta doméstica ocorreu paralelamente ao aumento das importações. Já no ano de 2015, a importação de leite em pó integral cresceu 93,5%, passando de 30,3 para 58,6 milhões de quilogramas. Em 2016, o incremento no volume importado foi ainda maior, de 115,2%, totalizando 126,0 milhões de quilogramas. Nos quatro primeiros meses de 2017, foi registrada uma quantidade significativa de leite importado, de 33,1 milhões de quilogramas, o que representa uma alta de 34,3% em relação a igual período do ano anterior. Embora tenha ocorrido uma elevação considerável nos preços em dólar, de 26,5%, a valorização cambial verificada no início do ano contribuiu para manter as importações como alternativa viável, mesmo porque os preços do leite pagos ao produtor seguem em alta após um longo período de retração, que se estendeu de setembro de 2014 a outubro de 2015. De acordo com os dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), tanto no RS quanto no Brasil, a elevação nos preços do leite superou os 30% em 2016. Em agosto de 2016, mês de maior alta, o leite chegou a ficar 68,6% mais caro do que no mesmo período do ano anterior no RS, e 56,1% mais caro no Brasil. Nos três primeiros meses de 2017, os preços seguem subindo. O preço médio pago pelo litro de leite ao produtor no primeiro trimestre apresentou aumento de 25,3% no RS e de 19,8% no Brasil, na comparação com mesmo período do ano anterior.

O consumidor também sentiu o impacto dessa elevação, embora com menor intensidade. De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o item leite e derivados teve um ganho acumulado de 15,1% em 2016, mais que o dobro do índice geral, que foi de 6,3%. O índice foi impulsionado pelos subitens: manteiga, leite condensado e creme de leite, que apresentaram alta de 55,2%, 54,0% e 37,8% respectivamente. Já o leite longa vida, com o maior peso na formação do índice, subiu 12,2%. De janeiro a março de 2017, o IPCA de leite e derivados subiu 1,9%, contra 1,0% do índice geral. Segundo informações do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o consumo total de leite fluido, no Brasil, foi de 32,6 milhões de toneladas em 2016, 2,2 milhões a menos do que em 2015. Além da elevação dos preços, pesou para o consumidor o quadro recessivo pelo qual o País está passando, caracterizado pela queda na atividade econômica, com consequente aumento do desemprego e redução da massa salarial, que, por sua vez, ocasiona retração do consumo.

Embora o IBGE ainda não tenha disponibilizado a PTL do primeiro trimestre de 2017, os dados da pesquisa emprego formal celetista do agronegócio, da Fundação de Economia e Estatística, apontam para uma continuidade do desempenho negativo do setor. Em março de 2017, a indústria de laticínios gaúcha empregava 9.053 trabalhadores com carteira assinada, 99 a menos do que em março de 2016 e 177 a menos do que no mesmo período em 2015. No Brasil, o estoque de trabalhadores vem decrescendo desde novembro de 2015, acompanhando a fase de aceleração dos preços. É interessante notar que a intensidade da queda foi aumentando ao longo dos meses. Em novembro de 2015, primeiro mês de queda, a redução no estoque foi de apenas 0,2%, crescendo até atingir 2,5%, em agosto de 2016. A partir de então, o decréscimo estabilizou-se em torno de 2,1% ao mês até março de 2017, período da última observação disponível. No RS, a maior retração também ocorreu em agosto de 2016, mas sua intensidade foi bastante superior à do Brasil, chegando a -3,2%. Esses dados sobre o emprego condizem com o quadro de oferta restrita de matéria-prima e de continuidade da elevação dos preços.

Para 2017, o USDA projeta recuperação do setor, com incremento tanto da produção quanto do consumo de leite. Entre os fatores que poderiam contribuir para que esse resultado se concretize, cita-se o aumento de 45,8% na produção nacional de milho, com efeitos deflacionários para os custos de produção do leite, o que tende a favorecer a redução dos preços do produto. Entretanto, para o RS, as projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) apontam para um cenário desfavorável, com queda de 5,7% no Valor Bruto da Produção (VBP) da atividade leiteira, o que sugere que o Estado não terá capacidade de reverter essa tendência com tanta rapidez. Em relação à demanda, talvez só a queda dos preços não seja suficiente para que o consumo volte a crescer, sendo também importante um movimento de recuperação da economia e do poder aquisitivo da população.

[1]   Cabe ressaltar que a PTL não contabiliza o leite captado para consumo próprio do agricultor, apenas o destinado à indústria.

Compartilhe