Textos com assunto: indústria gaúcha

Indústrias brasileira e gaúcha: que recuperação é essa?

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Edição: Ano 27 nº 02 – 2018

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Em 2013, a indústria brasileira iniciou um movimento de queda que alcançou sua menor taxa anualizada em janeiro de 2016 (-13,4%), em relação a igual acumulado do ano anterior. Desde então, iniciou-se uma branda recuperação, e, em setembro de 2017, houve a sinalização do primeiro resultado positivo (0,5%). No período nov./16-nov./17, essa taxa de crescimento passou de -7,3% para 2,2%, obtendo-se um ganho de 9,5 pontos percentuais. Em dez./17, a tendência de recuperação manteve-se, sendo registrada uma taxa de 2,5% (informação de dezembro disponível apenas para o Brasil). No período referido, o Rio Grande do Sul apresentou a mesma tendência positiva com taxas superiores às brasileiras, mas, a partir de out./17, o Brasil ultrapassou os resultados estaduais (ver gráfico).

Uma análise qualitativa desse desempenho requer a decomposição do agregado indústria geral nos dois grandes grupos que o compõem (indústria de transformação e extrativa mineral), sendo que essa informação desagregada é disponível apenas para o Brasil (IBGE/PIM). Entre dez./16 e dez./17, a indústria de transformação brasileira passou de -6,0% para 2,2%, uma variação de 8,2 pontos percentuais. Já a indústria extrativa mineral evoluiu de -9,4% para 4,6%, uma variação positiva de 14 pontos percentuais. Ainda que o peso da extração mineral sobre o total da produção industrial seja muito inferior ao da indústria de transformação, chama a atenção o crescimento que aquela vem obtendo na última década em relação ao grupo de atividades de transformação.

Na indústria de transformação brasileira, em nov./17, os melhores resultados foram registrados nas atividades produtoras de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (20,2%), fumo (17,6%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (16,7%). O intenso crescimento de equipamentos de informática reflete o aquecimento do mercado doméstico por produtos eletrônicos em consonância com a atual tendência mundial. Porém, no Brasil, essa atividade possui um menor efeito multiplicador, uma vez que uma parcela muito significativa de componentes eletrônicos é importada, sobretudo aqueles mais intensos em tecnologia. A indústria de fumo, por sua vez, tem como base de comparação um período de forte queda, causada por problemas climáticos que reduziram a oferta de matéria-prima para processamento em 2016, o que requer uma relativização do resultado alcançado em 2017. A produção de veículos automotores foi favorecida por certo aquecimento do mercado doméstico sob possível influência da queda das taxas de juros e pela liberação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) no segundo trimestre de 2017. Além disso, a expansão das vendas externas foi muito significativa, devido à recuperação do mercado da Argentina, principal mercado externo de autoveículos, bem como aos recentes acordos comerciais, como é o caso da Colômbia.

Os piores resultados foram registrados por fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-4,2%), fabricação de coque, de produtos derivados do petróleo e de biocombustíveis (-5,3%) e fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-6,5%). A indústria de outros equipamentos de transporte, exceto veículos automotores (-11,9%) é bastante diversificada e inclui muitas atividades classificadas como alta e média-alta intensidade tecnológica para o contexto da indústria brasileira. O primeiro item citado abarca a fabricação de componentes e equipamentos destinados à geração e à distribuição de energia elétrica, cabos de fibra ótica, peças para máquinas e equipamentos, dentre outros. Liga-se, portanto, à construção de bens que fazem parte das novas tecnologias de informação e telecomunicação (TICs) e à transmissão de energia, ou seja, bens de alta e média-alta tecnologia. O segundo grupo, cujo principal valor reside na atividade das refinarias de petróleo acumulou prejuízos nos últimos anos, em decorrência de várias razões. Por um lado, foi afetado pela queda do preço internacional do petróleo, assim como pela política de preços inferiores aos preços internacionais, praticada em 2013 no mercado interno, com o intuito de manter a inflação baixa. Também é importante lembrar que a Petrobras foi o principal foco da crise institucional e de desestruturação das estatais que hoje abala a economia brasileira. A modificação recente da legislação relativa ao controle da Petrobras, das reservas de petróleo e do pré-sal contribuiu para os resultados negativos da produção de petróleo e de produtos petroquímicos. O conjunto de problemas enfrentados pela Petrobras repercutiu diretamente sobre seus fornecedores, em particular os produtores de plataformas marítimas, bem como provocou impactos negativos sobre sua capacidade de ser utilizada como instrumento de desenvolvimento de sua cadeia produtiva no Brasil, sobretudo em termos tecnológicos e de estímulo à modernização e à inovação dos fornecedores. Além disso, vem implicando a perda de empregos altamente qualificados. Pode-se supor que os problemas enfrentados pela empresa tenham influenciado também a queda da atividade de outros equipamentos de transporte, que abrange, dentre outros, a produção de embarcações e estruturas flutuantes.

No RS, conforme a taxa acumulada nos últimos 12 meses até nov./17, os melhores desempenhos foram alcançados por fabricação de produtos do fumo, que passou de -30,1% (nov./2016) para 33% (nov./2017), afirmando-se como o principal responsável pelo resultado ainda positivo da indústria gaúcha. Seguem fabricação de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (de -5,3% para 9,4%), fabricação de bebidas (de -11,5% para 6%), fabricação de produtos de borracha e de material plástico (de -8,5% para 5,8%) e metalurgia (de -1,1% para 3,1%). Também apresentaram resultados positivos, porém muito próximos da média da indústria de transformação, as atividades de outros produtos químicos, minerais não metálicos e máquinas e equipamentos. A indústria gaúcha de veículos automotores, reboques e carrocerias cresceu apenas 1% contra os 16,7% obtidos no Brasil.

Os piores resultados ocorreram em fabricação de celulose, papel e produtos de papel (40,3% para -15,7%) influenciados pela interrupção da produção de uma das plantas da Celulose Riograndense, de fevereiro a novembro do ano anterior, devido a danos sofridos em uma das caldeiras. Soma-se a isso a fraca demanda internacional, uma vez que o RS exporta cerca de 90% de sua produção. Seguindo o mesmo fraco desempenho brasileiro, e pelas mesmas razões, fabricação de coque, de produtos derivados do petróleo e de biocombustíveis passaram de -10,1% para -8,2%. Acrescente-se que o RS foi particularmente atingido pela crise gerada na Petrobras, que interrompeu sua política de utilização de fornecedores brasileiros, atingindo diretamente o Polo Naval de Rio Grande, que, desde dezembro de 2016, vem fechando empresas e demitindo trabalhadores. As indústrias gaúchas de calçados e de móveis, duas atividades tradicionais e com grande capacidade de absorção de mão de obra, também obtiveram resultados negativos, embora menos acentuados do que as citadas anteriormente.

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Emprego na produção de equipamentos de saúde aumenta no RS

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Edição: Ano 26 nº 3 – 2017

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A produção de equipamentos médicos, hospitalares e odontológicos (EMHO) abarca duas classes de atividades da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE 2.0), a saber: fabricação de aparelhos eletromédicos e eletroterapêuticos e de equipamentos de irradiação (aqui denominada “aparelhos eletromédicos”) e fabricação de instrumentos e materiais para uso médico e odontológico e de artigos ópticos (“instrumentos médicos”). De forma geral, são bens utilizados em práticas médicas e odontológicas relacionadas à prevenção, ao diagnóstico e ao tratamento de doenças, sendo que o primeiro grupo de produtos apresenta maior sofisticação tecnológica que o segundo.

A fabricação de EMHO — também caracterizada como indústria de base mecânica, eletrônica e de materiais — constitui-se num dos três segmentos que integram o chamado Complexo Industrial da Saúde. Este é formado, ainda, pela indústria de base química e biotecnológica (medicamentos, fármacos, vacinas, soros, hemoderivados, toxinas e reagentes para diagnóstico) e pelos serviços de saúde (hospitais, ambulatórios, serviços de diagnóstico).

Embora a produção de EMHO não tenha uma forte representatividade quantitativa no conjunto da indústria gaúcha — 0,48% do emprego, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS, 2015), — ela tem importância no contexto local de algumas regiões, onde pode desempenhar um papel indutor do crescimento econômico.

A partir da tabela, pode-se notar a concentração de empregos em seis municípios, os quais detêm praticamente 80% dos postos de trabalho na produção de EMHO no Estado. Desses seis municípios, três localizam-se na Região Metropolitana de Porto Alegre: Cachoeirinha, Canoas e Porto Alegre. Há ainda: Pelotas, no Corede Sul; Barão, no Corede Vale do Caí; e Caxias do Sul, no Corede Serra. Pode-se dizer, com isso, que a maioria das empresas produtoras de EMHO está situada no eixo industrial Caxias-Porto Alegre, onde pode beneficiar-se de vantagens de aglomeração. Mesmo o Município de Barão, que conta com uma importante empresa do setor, localiza-se nas cercanias do referido eixo industrial.

Situação bem diferente é a do Município de Pelotas, que não faz parte da região mais industrializada do Estado, mas abriga uma importante concentração de atividades referentes à saúde. Os dados da tabela apontam o elevado contingente de empregados na produção de EMHO, o que coloca esse município em segundo lugar no Estado.

A propósito disso, é necessário evocar uma particularidade de Pelotas, apontada em pesquisa cuja síntese encontra-se no livro eletrônico Aglomerações e Arranjos Produtivos Locais no Rio Grande do Sul, que analisou a produção de EMHO nesse município, dentre 10 outras aglomerações industriais gaúchas. Na referida pesquisa, foi constatada a existência de uma empresa produtora de cadeiras de rodas que não está classificada em nenhuma das duas classes de atividade consideradas habitualmente como fabricantes de equipamentos de saúde, mas, sim, na fabricação de bicicletas e triciclos não motorizados, onde se incluem cadeiras de rodas e carrinhos de bebê, dentre outros. Daí resulta coerente que, em Pelotas, seja levado em consideração esse fato, tendo em vista a importância desse segmento para a correta avaliação do setor. Assim, se os empregos dessa terceira classe forem incorporados, pode-se considerar que existiam, em 2015, em Pelotas, 681 empregos em EMHO (em lugar dos 532 que a tabela aponta), o que significa 21% do total do Estado. A importância dessa atividade para o município e sua região fez com que merecesse um estudo aprofundado (acima referido), elaborado pelo Núcleo de Análise Setorial do Centro de Estudos Econômicos e Sociais da Fundação de Economia e Estatística (NAS-CEES-FEE), em que foram estudadas as potencialidades dessa atividade para o desenvolvimento da região.

No contexto global do Estado, a tabela permite constatar, ademais, uma expansão do emprego na produção de EMHO entre 2010 e 2015, quando passou de 2.538 para 3.241 postos de trabalho, ou seja, cresceu 27,7%. Esse dinamismo é tanto mais significativo quando comparado com o desempenho da indústria de transformação em seu conjunto, que, no mesmo período, apresentou uma queda de, aproximadamente, 6% nos postos de trabalho.

O crescimento da produção de EMHO no RS foi puxado pela classe 32.507, que abrange a fabricação de instrumentos e materiais para uso médico e odontológico e de artigos ópticos, que expandiu o emprego em 29%, além de ser a classe que mais emprega em números absolutos.

Convém notar, ainda, que o Município de Porto Alegre foi o que ampliou mais intensamente o emprego em EMHO, atingindo um crescimento de 67,7% no período analisado.

A indústria de equipamentos e de materiais ligados à saúde — da mesma forma que o segmento de base química e biotecnológica, bem como os serviços de saúde de maneira geral — tem perspectivas muito positivas em face das alterações no perfil etário da população brasileira. A expectativa de vida ao nascer, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), vem crescendo bastante nas últimas décadas, tendo passado de 62,5 anos em 1980 para 75,5 anos em 2015. Como a população vive mais tempo, a incidência de doenças crônicas e/ou degenerativas tende a aumentar, o que resulta numa expansão da demanda por serviços de saúde — tanto públicos como privados — e, por consequência, tem-se o estímulo à produção industrial dos equipamentos e materiais necessários à prestação desses serviços.

Como citar:

BREITBACH, Áurea. Emprego na produção de equipamentos de saúde aumenta no RS Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/emprego-na-producao-de-equipamentos-de-saude-aumenta-no-rs/>. Acesso em: 12 de dezembro de 2018.

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