Textos com assunto: Industria agricola

Conexões entre a agricultura brasileira e a indústria gaúcha

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Edição: Ano 23 nº 06 – 2014

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Em se tratando da análise do desempenho recente da economia do RS, talvez o mantra mais repetido entre os economistas seja o de que “quando a agropecuária gaúcha vai bem, a economia gaúcha vai bem (e vice-versa)”. Mais especificamente, enfatiza-se que a ampliação da participação do RS na renda nacional está condicionada ao avanço do produto da agropecuária local. Essa máxima vigorou em 12 dos últimos 13 anos e promete repetir-se em 2014.

As razões dessa interdependência são bastante conhecidas. Apesar de participar com menos de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho, o campo origina significativa parcela das matérias-primas utilizadas pela indústria de transformação do Estado (alimentos, fumo, biocombustíveis). Além do mais, a agropecuária constitui-se em importante atividade demandante de bens industriais (insumos, máquinas, armazéns) e serviços de distribuição e transporte que são produzidos localmente. Por tudo isso, estima-se que o agronegócio responda por cerca de um terço da renda do Estado.

Porém os recorrentes altos e baixos do PIB gaúcho, associados às variações do produto da agropecuária em momentos de recuperação e quebra da safra, revelam apenas parte da dependência do Estado em relação ao agronegócio. Por sua importância para a produção de grãos, até a década de 80 do século XX o RS foi conhecido como celeiro do País. Desde então, a fronteira agrícola avançou mais em outras regiões, principalmente nas áreas do Cerrado, e o Estado perdeu protagonismo.

Essa mudança não foi tão impactante para a economia local, em parte, porque a indústria gaúcha de máquinas e equipamentos para o agronegócio, nascida para atender ao mercado regional, aproveitou o estímulo gerado pela expansão da produção agrícola nacional. Nos últimos 10 anos, o Valor Bruto da Produção agrícola do Brasil aumentou 140%, em um cenário marcado pela alta dos preços internacionais das commodities agrícolas, pelo avanço da área plantada e por substanciais ganhos de produtividade. A resultante  capitalização do produtor rural, aliada à melhoria das condições de crédito ofertadas para a compra de máquinas e equipamentos, gerou transbordamentos para a indústria gaúcha.

No Estado, estão presentes três Aglomerações Produtivas (AP) industriais, especializadas no fornecimento de produtos para distintas etapas das atividades agropecuárias e agroindustriais regionais e nacionais. A região dos Coredes Alto Jacuí e Produção destaca-se pela oferta de produtos voltados à preparação do solo, à plantação e ao cultivo agrícola (AP Pré-Colheita). Na Fronteira Noroeste, encontra-se a tradicional indústria de colheitadeiras (AP Colheita), e,  completando o mix industrial, no Noroeste Colonial, está concentrada a produção de equipamentos de armazenagem, secagem, limpeza, movimentação e controle de cereais (AP Pós-Colheita). Para se ter ideia da importância dessas atividades, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o peso das mesmas na indústria de máquinas e equipamentos do RS é superior a 50%.

Em 2013, a produção nacional de máquinas agrícolas atingiu a marca histórica de 100.000 unidades, tendo o Estado participado com 43,7% desse total. Esse crescimento da demanda nacional por bens de capital destinados a agricultura contribuiu decisivamente para o avanço de 62,2% na indústria gaúcha de máquinas e equipamentos entre 2003 e 2013. No mesmo período, a indústria de transformação do RS cresceu apenas 12,8%.

Assim, se é inegável que a economia gaúcha depende da agropecuária local, também se fortalece a percepção de que o avanço da indústria gaúcha está cada vez mais atrelado ao desempenho da agricultura nacional. No médio prazo, a expansão da renda agrícola brasileira deve manter-se, gerando oportunidades de crescimento para a indústria. Ainda que os recordes de 2013 não se devam repetir nesse ano, a retomada do Programa Moderfrota (BNDES), anunciada no final de maio, e a implementação do Plano Nacional de Armazenagem, são medidas que podem dar fôlego adicional para o setor no RS. Índices do Valor Bruto da Produção (VBP) agrícola e da produção de máquinas e equipamentos no Brasil e índice da produção de máquinas agrícolas no RS — 2003-13.

Conexões entre a agricultura brasileira

Rodrigo D. Feix
Economista, Pesquisador da FEE

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Brasil 2003: zona agrícola livre para transgênicos

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Edição: Ano 12 nº 10 - 2003

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A MP 131, de 25.09.03, oficializa a lavoura transgênica no País, associando a decisão às circunstâncias do Rio Grande do Sul, onde se estima em 70% a área de soja plantada com sementes modificadas, envolvendo cerca de 150.000 pequenos produtores rurais.

Supondo-se que a taxa de adesão (70%) ao transgênico esteja correta, então ela é semelhante à norte-americana (68%), todavia inferior à argentina (90%). Ora, considerando que a semente usada pelos gaúchos tem origem na produção contrabandeada da Argentina, considerando, ainda, que o país vizinho as utilizou pela primeira vez em 1996, mesmo supondo um mercado altamente fluido, é razoável supor que o plantio dos transgênicos no Estado tenha iniciado na safra de 1998, ou na de 1997, mais remotamente, atestando, em qualquer caso, a notável rapidez da adoção das sementes modificadas pelos gaúchos.

Sementes transgênicas constituem inovação tecnológica, e, como tal, do ponto de vista da racionalidade microeconômica, será incorporada pelo agricultor na expectativa de ganhos da rentabilidade da lavoura, os quais podem resultar seja de aumentos da produção para cada nível dado de inputs, seja da redução dos mesmos, sem prejuízo dos níveis conhecidos de produção. Quais as vantagens, então, que seriam proporcionadas pelo pacote tecnológico em discussão, que combina o uso de uma semente ao herbicida Roundup Ready, ambos de propriedade industrial da Monsanto?

Os estudos disponíveis sobre perfis de produção utilizando sementes de soja convencionais e modificadas em lavouras norte-americanas não são conclusivos quanto a ganhos de produtividade (t/ha) na adoção dos transgênicos, sugerindo, mesmo, não ser esse o fator decisivo na mudança da função de produção dos agricultores.

A diferença importante parece residir nos custos de produção e na flexibilização do processo produtivo. A vantagem da semente transgênica com relação à convencional advém, basicamente, de sua associação a um herbicida de largo espectro, que reduz os tipos e a quantidade dos defensivos utilizados ao longo do ciclo produtivo, bem como os requerimentos em máquinas e mão-de-obra relacionados à sua aplicação. Tal vantagem, no entanto, depende dos preços da semente transgênica em relação à convencional, de tal sorte que não se anulem os efeitos positivos da economia em defensivos. Ora, no caso concreto da lavoura gaúcha, não parece haver dúvida quanto à redução importante dos custos, pois o produtor está utilizando semente transgênica própria, deixando de pagar o valor de mercado que incluiria a margem devida à Monsanto pela propriedade industrial. A questão é saber se subsistiriam vantagens no caso da legalização definitiva dos transgênicos no País, isto é, quando o agricultor tiver que pagar para se apropriar da inovação tecnológica.

Para terminar, e focando a questão dos transgênicos do ponto de vista do desenvolvimento da agricultura, as inovações que estão sendo gestadas pela indústria agrobiotecnológica (dentre as quais a soja transgênica é apenas um exemplo isolado) são de tal qualidade que potencialmente constituem a base de uma nova revolução agrícola. Isto porque elas podem libertar a agricultura dos constrangimentos naturais aos quais sempre esteve sujeita (qualidade de solos, tipo de clima). Estaremos no limiar da era da transformação da agricultura em mais um ramo industrial?

Brasil 2003 zona agrícola livre

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