Textos com assunto: Indústria 4.0

Investimentos da indústria gaúcha em inovação e novas tecnologias no mundo

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Edição: Ano 26 nº 9 – 2017

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Em dezembro de 2016, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou uma nova edição da Pesquisa de Inovação (Pintec), com dados para o triênio 2012-14, possibilitando a análise do desempenho das empresas brasileiras nessa dimensão. Um item importante é o comportamento dos investimentos em inovação da indústria — extrativa e de transformação — do Rio Grande do Sul e do Brasil. Como se sabe, a inovação, sobretudo a tecnológica, consiste em uma das principais fontes de competitividade para as empresas, pois permite a diferenciação de produtos e a melhora da eficiência na produção e dos métodos de comercialização.

Uma maneira de avaliar o comportamento dos investimentos em inovação consiste em observar a evolução da intensidade do esforço empreendido para essa finalidade. Aqui, esse indicador está sendo mensurado pela fração desses dispêndios em relação à receita líquida de vendas das empresas que implementaram inovações de produto ou de processo produtivo, novo ou significativamente aprimorado, no período 2005-14.

A intensidade do esforço em desenvolvimento tecnológico total — realização de atividades internas e aquisição externa de pesquisa e desenvolvimento (P&D) — aumentou na indústria do Rio Grande do Sul, saindo de 0,43% em 2005 para 0,41% em 2008, 0,66% em 2011, e 0,74% em 2014. Na média industrial do Brasil, a evolução desse indicador foi de 0,65%, 0,73%, 0,81% e 0,84% nos respectivos anos. Isto ocorreu mesmo em um contexto de incertezas associadas aos desdobramentos das crises financeira internacional (2008) e brasileira (desde 2014). Some-se, ainda, o processo de mais longo prazo de desindustrialização no Rio Grande do Sul e no Brasil. Cabe salientar que esse comportamento do esforço tecnológico é positivo, pois a decisão de investimento é relativamente mais sensível para os gastos em P&D do que para as demais atividades de inovação.

Contudo, quando se amplia o escopo para o total de atividades de inovação das empresas industriais — as quais englobam desenvolvimento, absorção e preparativos —, nota-se que esse foi mais afetado por estas adversidades. No Rio Grande do Sul, a evolução da intensidade de esforço em atividades de inovação de empresas que inovaram mostrou certa estabilidade, sendo de 2,18% em 2005, de 2,28% em 2008, de 2,17% em 2011, e de 2,13% em 2014. Já no Brasil, o indicador apresentou declínio, sendo de 2,77% em 2005, de 2,54% em 2008, de 2,37% em 2011, e de 2,12% em 2014. Esse comportamento dos investimentos no total das atividades de inovação deve-se à queda na absorção de tecnologias — na forma de ativos tangíveis e intangíveis (aquisição de outros conhecimentos externos, de software e de máquinas e equipamentos) — e nos demais dispêndios em preparativos para lançar inovações no mercado.

Esse comportamento influenciou a composição dos investimentos da indústria em atividades de inovação. Como consequência, constata-se um aumento na participação dos gastos em desenvolvimento tecnológico nos gastos totais em inovação, que, em 2005, representavam 19,7% no Estado e 23,5% no País, passando a responder, em 2014, por 34,5% e por 39,5% respectivamente. Ressalte-se, contudo, que, do total da absorção de tecnologia, individualmente, aquela incorporada em máquinas e equipamentos ainda responde pela maior fração dos gastos em atividades de inovação, cujas parcelas, em 2005, foram de 52,6% no Rio Grande do Sul e de 48,4% no Brasil, enquanto, em 2014, estas foram de 47,3% e de 40,2%.

Portanto, pode-se considerar que, de 2005 a 2014, ocorreu um processo importante, ainda que de baixa intensidade, de mudança qualitativa na composição dos investimentos em atividades de inovação nas indústrias do Rio Grande do Sul e do Brasil. A realização interna e a aquisição externa de P&D geram mais benefícios para as empresas, pois possibilitam maior aprendizado, domínio da tecnologia e potencial para a diferenciação de produtos, além de ganho estratégico em experiência na execução dessas atividades e na interação com o sistema de inovação, elevando sua capacidade e eficiência para futuros desenvolvimentos. Entre seus múltiplos determinantes, entende-se que, desde 2003, a ampliação e o aprimoramento das políticas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no País tenham contribuído para isso, pelo incentivo às atividades de P&D e pelo fortalecimento dos sistemas de inovação.

Para o Estado e o País, esses ganhos podem contribuir para combater o processo de desindustrialização e para ampliar a participação em nichos de produtos de maior valor agregado, além de auxiliar a inserção da indústria em oportunidades criadas em segmentos que incorporam as novas tecnologias que estão despontando: internet das coisas, energias renováveis, automotivas, etc. Destaque-se o pacote tecnológico da denominada “Indústria 4.0”, que se projeta que possa ampliar a coordenação, a produtividade e a flexibilidade na produção em diversas atividades econômicas. Saliente-se que a entrada em tecnologias radicalmente novas tende a ser mais fácil em seus estágios iniciais de desenvolvimento, pois as barreiras erigidas pelas empresas líderes ainda não estão suficientemente estabelecidas. As indústrias de países avançados já vêm ampliando esforços tecnológicos nessa direção, inclusive com o apoio de políticas de CT&I pelos governos, visando à mitigação de dificuldades socioeconômicas e ambientais.

Nesse contexto competitivo, o esforço tecnológico interno relativo ao PIB apresentado pela indústria do Rio Grande do Sul e do Brasil manteve certa estabilidade de 2011 a 2014, mas ainda está aquém do observado em nações industrializadas (gráfico). Porém, caso as empresas não elevem seus investimentos em atividades de inovação, sobretudo em P&D, bem como o poder público em seu apoio via políticas de CT&I, acompanhando essas tendências mundiais, arrisca-se a que a indústria estadual e a nacional percam competitividade e ampliem sua defasagem tecnológica em relação a esses países, restringindo-se a uma apropriação reduzida dessas novas oportunidades e de seus efeitos sobre o desenvolvimento econômico.

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