Textos com assunto: Indústria

Exportações, mercado interno e produção industrial brasileira

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Edição: Ano 26 nº 10 – 2017

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As exportações brasileiras representaram, em 2016, 12,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse percentual, ao longo das primeiras décadas do século XXI, teve o seu apogeu em 2004, quando o valor chegou a 16,5%. A partir de então, iniciou uma trajetória de redução, apesar de as exportações continuarem apresentando, em termos reais, um percurso de crescimento até 2007 (Gráfico 1). Depois desse último ano, a crise econômica mundial afetou tanto a quantidade exportada quanto a sua participação no PIB.

Quando se analisa a evolução do índice de quantum das exportações, observa-se que ele manteve uma elevada correlação com a evolução da produção física da indústria brasileira (transformação e extrativa mineral) até 2014, ou seja, até esse último ano, os ciclos da produção industrial acompanharam tanto o ciclo das exportações quanto o do mercado interno.

Pode-se estabelecer três fases bem definidas nessa trajetória das exportações e da produção industrial. A primeira estende-se de 2002 a 2007. Nesse período, o quantum das exportações cresceu a uma taxa média anual de 10,4%, enquanto a produção física da indústria cresceu 4,0% a.a. A segunda fase compreende o período 2008-14, quando tanto a produção física da indústria quanto o volume das exportações se mantiveram praticamente estagnados. Assim, observa-se que o volume das exportações brasileiras em 2014 foi 1,0% inferior ao apresentado em 2007, enquanto a produção industrial encerrou o ano de 2014 2,5% acima da de 2007, o que correspondeu a uma taxa média de crescimento anual de apenas 0,35%. A terceira fase engloba o período 2015-16, anos de queda acentuada do PIB, quando se verificou um comportamento assimétrico entre essas duas séries. Essa dissociação representa o impacto da redução do mercado interno sobre a produção industrial, comportamento que resultou da queda do consumo da administração pública, como consequência do ajuste fiscal promovido pelos Governos Federal e estaduais, do desemprego e da queda dos investimentos e seu impacto sobre o consumo das famílias.

Em 2017, o módico crescimento apresentado pela produção industrial nos primeiros sete meses do ano (0,9%) tem sido puxado pelas exportações localizadas em algumas atividades industriais ou por setores que têm uma participação substancial do mercado externo no total da sua demanda. Esse é o caso, por exemplo, da produção física da indústria extrativa mineral, a qual cresceu 5,2% no período em análise e que esteve associada ao crescimento das exportações de petróleo e gás natural bem como de minerais metálicos e não metálicos. Também merece destaque o crescimento da produção de veículos automotores (11,5%), que, em 2017, tem apresentado um grande aumento de suas vendas no mercado externo. Outro setor que mostra importantes efeitos de encadeamento sobre os demais setores da atividade industrial é o de fabricação de máquinas e equipamentos, cujo crescimento da produção (3,1%) está associado ao mercado externo e ao crescimento da produção agrícola. Dentro do grupo com elevado coeficiente de exportações, ainda convém destacar a produção de celulose e produtos de papel, que apresentou um crescimento tanto nas exportações como na produção (Gráfico 2).

Outros setores importantes dentro do parque industrial brasileiro, seja pela sua participação no Valor da Transformação Industrial, seja pelos seus efeitos de encadeamento, continuaram apresentando queda substancial na produção, apesar de terem tido um grande crescimento nas vendas externas. Esse é o caso das fabricações de coque e derivados do petróleo e de outros equipamentos de transporte. Apesar de, nesses setores, não haver uma correlação direta entre essas duas variáveis, pode-se inferir um desempenho bem inferior, caso não tivesse havido um substancial crescimento das exportações.
Segundo a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), quando se observa isso de um ponto de vista mais agregado, tem-se que, nos primeiros setes meses do ano, o quantum de exportações de manufaturados cresceu 2,5%, sendo que, no caso de bens de consumo duráveis, essa taxa chegou a 42,7%. No entanto, conforme demonstram os dados das Contas Nacionais, divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relativas ao primeiro semestre do corrente ano em relação ao primeiro semestre de 2016, a formação bruta de capital fixo apresentou uma queda de 5,1%, o consumo da Administração Pública caiu 1,9%, e o consumo das famílias teve uma queda de 0,6%. Assim, em que pese o fato de alguns setores da indústria já estarem operando com taxas positivas de crescimento da produção em 2017, os dados das Contas Nacionais em conjunto com o desempenho desigual entre os setores industriais dificilmente dariam suporte a uma reversão consistente do ciclo de crise da economia brasileira.

A análise acima parece demonstrar que uma reversão mais substancial da produção industrial deverá ir além do crescimento das exportações, ou seja, faz-se necessária uma reativação da demanda doméstica. A dimensão relativamente elevada da economia brasileira (9.a colocada no ranking mundial), o grande e diversificado parque industrial e o tamanho da população do País requerem um crescimento que esteja associado com o desenvolvimento do mercado interno. Isso, no entanto, vai depender de políticas que estimulem a geração e a distribuição de renda, de emprego e de investimentos.

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Crise e estagnação da produção industrial brasileira

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Edição: Ano 26 nº 9 – 2017

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Apesar do otimismo presente em algumas análises sobre o desempenho industrial brasileiro de 2017 — as quais identificam o início da recuperação da produção e a saída da crise brasileira —, o que os dados mostram para os seis primeiros meses do ano é um modesto crescimento da produção industrial de 0,5% em relação ao mesmo período de 2016. Segundo os dados da Produção Industrial Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse desempenho foi resultado de um crescimento de 6,0% na produção da indústria extrativa mineral, enquanto o conjunto da indústria de transformação (IT) apresentou uma queda de 0,3%.

Essa aparente recuperação precisa ser interpretada dentro do contexto da produção industrial dos últimos anos, bem como dos demais condicionantes da atual conjuntura econômica nacional. Assim, quando se analisa o comportamento da indústria no período 2014-16, verifica-se que a IT acumulou uma queda de 18,8% no seu volume de produção. Tal queda colocou o nível da produção brasileira abaixo do verificado em 2004. Assim, se, por um lado, é verdadeiro que o desempenho industrial em 2017 não está demonstrando a mesma queda na produção que as verificadas nos anos anteriores, seria impreciso considerar que esse fenômeno estaria caracterizando uma recuperação da indústria. O que se tem verificado, nesse primeiro semestre de 2017, é que a produção industrial se encontra estagnada em um patamar extremamente baixo, quando comparada com o volume alcançado em anos anteriores.

Outro aspecto relativo ao desempenho industrial em 2017 é que, conforme pode ser observado no gráfico, as taxas de variação da produção tem sido muito desiguais entre os diversos setores que compõem a IT. As principais atividades da IT que apresentaram desempenho positivo no primeiro semestre de 2017 foram aquelas com forte relações comerciais com o mercado externo, ou que tiveram um crescimento no quantum das exportações, no primeiro semestre do ano. Esses são os casos, por exemplo, de fabricação de celulose e produtos de papel (2,2%), fabricação de produtos de couro e calçados (2,6%), produtos do fumo (15,6%), fabricação de veículos automotores (11,7%), máquinas e equipamentos (2,4%) e produtos de borracha e plástico (1,7%). Segundo os dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), embora o quantum do total das exportações no primeiro semestre do ano tenha crescido apenas 1,7%, para o caso dos setores produtores de bens de consumo duráveis essa taxa foi de 41,1%. Cabe destaque, também, à fabricação de equipamentos de informática e produtos eletrônicos, que, embora tenha pequena participação no Valor da Transformação Industrial (VTI), apresentou um crescimento de 18,6%.

Por outro lado, observa-se que alguns setores que já vinham de quedas acentuadas no período 2014-16 continuam apresentando a mesma tendência em 2017. Esses são os casos de fabricação de produtos alimentícios (-2,2%), fabricação de coque, derivados do petróleo e biocombustíveis (-7,6%), produtos farmacêuticos (-6,8%), fabricação de outros produtos químicos (-3,7%), produtos de minerais não metálicos (-3,9%), fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-7,4%), outros equipamentos de transporte (-11,6%) e fabricação de móveis (-4,4%). Em conjunto, esses setores representam mais de 50,0% do VTI da IT brasileira.

Em função dos níveis extremamente baixos de produção, uma plena recuperação da indústria brasileira somente ficará caracterizada quando os setores apresentarem uma tendência de crescimento que inclua os setores vinculados tanto ao mercado externo quanto ao interno e que abarquem um percentual substancial do VTI. No entanto, isso também não tem sido observado. Quando se analisam as taxas mensais de variação da produção, observa-se que as mesmas têm apresentado oscilações positivas e negativas ao longo do ano. Assim, embora, do ponto de vista estatístico, já se possa observar algumas taxas positivas de crescimento, localizadas em alguns setores, a indústria de transformação precisaria crescer cerca de 20,0% para retomar a produção de 2008, ou seja, de oito anos atrás.

Ao longo dos últimos anos, esse desempenho tem-se refletido no aumento do desemprego industrial, no reduzido nível de utilização da capacidade industrial e na consequente queda nos investimentos. Elevada capacidade ociosa, baixos níveis de investimento e depreciação de máquinas, equipamentos e instalações e quebra nas cadeias de relações interindustriais deverão ter impacto negativo no crescimento da produtividade industrial e, consequentemente, da sua inserção internacional. Esse conjunto de fatores poderá comprometer o desempenho do setor no longo prazo.

A análise precedente, portanto, parece sinalizar um agravamento da estrutura industrial no País. A profunda recessão, o fechamento de empresas e a quebra de cadeias domésticas de produção industrial, associadas com a ascensão das economias asiáticas e o surgimento de importantes inovações, acabam deixando o parque industrial brasileiro na retaguarda em termos tecnológicos, além de aumentar a sua dependência de produtos importados, tanto de matérias-primas como de produtos para o consumo final.

Em um contexto de elevadas taxas de desemprego, queda no rendimento médio real do trabalhador, crise fiscal com redução dos investimentos públicos e programas sociais, com baixos incentivos aos investimentos privados, a única possível fonte de demanda capaz de oxigenar a produção industrial serão as exportações. No entanto, esta última ainda depende da conquista e da manutenção de mercados, da existência de uma taxa de câmbio favorável e do crescimento da demanda externa. Portanto, não existem, em um horizonte próximo, motivos para estabelecer uma sólida recuperação da produção industrial. Esses são alguns dos desafios para o desenvolvimento industrial brasileiro, os quais vão muito além da atual estagnação.

Gráfico do drope 3

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As barreiras e os novos desafios para inovar

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Edição: Ano 26 nº 8 – 2017

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Conforme abordado na Carta de Conjuntura de fevereiro deste ano, a análise dos dados da Pesquisa de Inovação (Pintec), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para o triênio 2012-14, sinalizou a estagnação dos principais indicadores de inovação no Brasil e no Rio Grande do Sul. Os dados, divulgados em dezembro de 2016, foram coletados entre julho de 2015 e agosto de 2016. Nas empresas industriais, maior grupo da amostra, as taxas de inovação (produto e processo) e a taxa de intensidade inovativa (razão entre os gastos em atividades de inovação e a receita líquida de vendas) praticamente se mantiveram nos níveis do triênio anterior (2009-11).

Entre as empresas industriais gaúchas que não desenvolveram projetos de inovação em 2012-14, 60,0% delas declararam não necessitá-los devido às condições de mercado e 17,4% afirmaram não precisar desses projetos em virtude das inovações prévias. Entretanto, 22,6% não o fizeram por dificuldades que impediram sua execução. A pesquisa também averiguou os entraves nas empresas que inovaram. Em termos gerais, os problemas e obstáculos enfrentados podem ser sintetizados em três tipos de barreira: econômica (custos envolvidos e fontes de recursos monetários disponíveis), técnica (qualificação de mão de obra, variedade e oferta de insumos, conhecimento tecnológico, estrutura organizacional e acesso à informação) e institucional (redes públicas e privadas de apoio, arcabouço legal de proteção de conhecimento, instituições de ciência e tecnologia (C&T), cooperação e relação empresa-consumidores).

Para ambos os grupos de empresas — as que não inovaram por complicações na execução de projetos e as que inovaram — os principais obstáculos foram os de natureza econômica. Para as empresas do primeiro grupo, no Brasil e no Rio Grande do Sul, os custos da inovação, os riscos econômicos excessivos e a escassez de fontes apropriadas de financiamento foram os mais destacados. Em particular, no RS, esses impedimentos foram observados em 78,9%, (altos custos da inovação), 66,7% (carência de fontes apropriadas de financiamento) e 66,3% (riscos econômicos elevados) das empresas industriais. Depois da barreira econômica, a segunda que mais obstaculizou a implementação de projetos de inovação foi a técnica. No País e no Estado, os problemas mais evidenciados foram: falta de pessoal qualificado; dificuldade para se adequar a padrões, normas e regulamentações; e rigidez organizacional. Com menor ênfase foram também mencionadas as carências de serviços técnicos externos adequados e de informações sobre mercados e tecnologia. As escassas possibilidades de cooperação com outras empresas ou instituições e a fraca resposta dos consumidores quanto a novos produtos foram as duas questões de cunho institucional.

Como salientado, para as empresas industriais que inovaram, os obstáculos econômicos foram os mais críticos: elevados custos da inovação (86,0% no País e 82,2% no RS) e os riscos econômicos excessivos (82,1% no Brasil e no RS), inclusive com percentuais superiores aos do grupo que não inovou. No que tange à barreira técnica, a escassez de pessoal qualificado, no País (53,1%) e no RS (66,1%), além de ter sido o principal obstáculo técnico na classificação geral dos impedimentos, foi o quarto mais valorado. Outra dificuldade técnica apontada foi a falta de informações tecnológicas e de mercados. A rigidez organizacional, a dificuldade para se adequar a padrões, normas e regulamentações e a escassez de serviços técnicos externos adequados também foram questões referenciadas por um pouco mais de um terço das empresas inovadoras gaúchas. No Brasil, a manifestação desses problemas técnicos foi um pouco mais expressiva. É válido observar que as empresas que inovaram se ressentem mais da baixa perspectiva de cooperação com outras empresas e instituições (41,3% no RS e 43,3% no Brasil) do que aquelas que não inovaram. Isso também se verifica na resistência dos consumidores aos novos produtos, que também foi mais enfatizada no conjunto de empresas inovadoras.

Além das dificuldades destacadas pelas empresas no último triênio da Pintec (2012-14), num plano mais geral, as perspectivas de avanço da inovação no Brasil e no Estado não são nada animadoras. Existe pelo menos um aspecto que é inerente ao processo de inovação e que impacta em todas as empresas: a incerteza. Disso resulta a enorme preocupação acerca do retorno dos recursos investidos, principalmente daqueles empregados em atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Portanto, para a maioria das empresas, a decisão de aplicar mais recursos em projetos de inovação invariavelmente ficará condicionada às suas expectativas de expansão, como a entrada em novos mercados e o aumento de suas vendas. Uma forma muito utilizada por vários países para fomentar e, no mínimo, preservar as atividades de P&D é colocar em prática um rol de políticas públicas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) que contemplem, entre os seus instrumentos, subvenções e linhas de financiamento próprias para a inovação.

Em 1985, com a criação do Ministério de Ciência e Tecnologia, investiu-se na construção de um sistema nacional de inovação, priorizando áreas de CT&I. Mais recentemente, foi concedido um conjunto de medidas para as empresas, incluindo incentivos fiscais (como a Lei do Bem) e linhas de financiamento próprias para a inovação, como os recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Entretanto, a defesa do ajuste fiscal, mais acirrada a partir de 2015, vem solapando as políticas de incentivo à CT&I e pondo em risco os avanços de inovação até então obtidos no Estado e no País (por exemplo, a Finep, que concedeu, em 2013, R$ 6,3 bilhões e, em 2014, R$ 8,6 bilhões, reduziu consideravelmente os aportes nos últimos dois anos: R$ 1,5 bilhão em 2015 e R$ 1,75 bilhão em 2016). Essa redução, no montante dos recursos (que atinge diretamente universidades, institutos de pesquisa e órgãos de fomento à CT&I, e, indiretamente, empresas com projetos de inovação) não prevê critérios ou orientações que atenuem seus impactos. Sem dúvida, o cenário é bastante desanimador. Como se não bastassem essas dificuldades, não se pode deixar de mencionar outras duas questões: a intensificação da comoditização produtiva acoplada às atividades com menor intensidade tecnológica e os desdobramentos da crise política e econômica brasileira que interrompem relevantes investimentos em C&T.

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Pensar a indústria gaúcha em um contexto adverso

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Edição: Ano 26 nº 5 – 2017

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A atual recessão que enfrentam as indústrias de transformação brasileira e sul-rio-grandense iniciou em 2013 e, aparentemente, registrou as menores taxas em dezembro de 2015 e janeiro de 2016. Em dez./2015, o Brasil registrou uma taxa de crescimento anualizada da produção industrial de -9,8%, e o RS, de -11,5%. A partir do primeiro trimestre de 2016, ambas as curvas parecem ter encontrado seu ponto de inflexão, ainda que tenham permanecido com taxas acumuladas negativas até fevereiro de 2017 (última informação disponível). Essa desaceleração trouxe consigo uma ampliação do desemprego, sendo que os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), para o ano 2016, revelam saldo negativo em praticamente todas as atividades industriais no RS, com exceção de couro e calçados, de celulose e papel e de produtos químicos.

Diversos argumentos, alguns divergentes entre si, vêm sendo utilizados para explicar essa situação. Alguns apontam para uma administração inadequada das variáveis macroeconômicas e do controle da dívida interna que limitaria os investimentos públicos e privados. Outras abordagens recorrem à desaceleração da economia mundial e a seus reflexos sobre as exportações, tanto de commodities industriais quanto de outros segmentos menos intensivos em tecnologia. Também é ressaltada a crise política que envolveu o processo de impeachment como um fator limitante da formulação de uma política industrial consistente. É evidente que medidas voltadas para a redução da máquina pública, assim como as reformas trabalhistas e da Previdência, tal como estão propostas, poderão estabelecer sérios limites à capacidade de crescimento industrial sustentável.

A despeito das explicações enumeradas, é importante destacar as particularidades relacionadas à indústria gaúcha a partir dos resultados acumulados em 12 meses, obtidos por seus diversos segmentos, até fevereiro de 2017 (IBGE). Esses mostram que o pior desempenho foi registrado pela indústria do fumo (-32%), resultado decorrente da redução da área plantada e agravado pela queda da rentabilidade provocada pelo clima desfavorável. Além dessa, as indústrias que também sofreram redução foram respectivamente: fabricação de coque, derivados do petróleo e biocombustíveis (-13,3%); produtos de minerais não metálicos (-10,9%); bebidas (-9,6%); mobiliário (-8%); produtos de borracha e material plástico (-5,8%); produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (-4,5%); veículos automotores, reboques e carrocerias (-3,6%); produtos químicos (-1,3%); couros, artefatos de couro e calçados (-0,8%); e máquinas e equipamentos (-0,3%). Ressalte-se que alguns segmentos poderão melhorar seu desempenho em consequência da esperada maior colheita de soja da história do Estado. A indústria fumageira, por sua vez, poderá recuperar-se um pouco, visto que a quebra de safra de 2016 foi maior do que o esperado.

A desaceleração da produção da indústria petroquímica vincula-se sobretudo à redução do preço internacional desse insumo. Vale lembrar que o complexo petroquímico vem sendo afetado pela crise institucional da Petrobrás, levando consigo importantes fornecedores gaúchos, como os produtores de plataformas marítimas, inibindo, por conseguinte, a perspectiva de criação do esperado polo naval. O desperdício do acúmulo tecnológico e a perda de empregos qualificados decorrentes do efeito do desmantelamento dessa estatal ainda não foram suficientemente avaliados. Essa empresa, profundamente enraizada na atividade industrial e nos serviços, é uma das principais companhias mundiais em termos de desenvolvimento tecnológico na exploração de petróleo em águas profundas, sendo um importante player do comércio internacional. Levando-se em conta a classificação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) quanto aos indicadores de intensidade tecnológica, o complexo químico-petroquímico é um dos poucos da indústria estadual que se enquadra como de média-alta tecnologia.

De fato, é urgente traçar um horizonte de médio prazo com base no potencial da indústria gaúcha em segmentos que apresentam melhores chances competitivas e capacidade de gerar efeitos multiplicadores sobre a matriz industrial. A definição de um programa que vise ao avanço da indústria gaúcha em termos competitivos passa pelo apoio ao seu desenvolvimento científico e tecnológico. É o caso de apostar em núcleos de alta intensidade tecnológica em que o Estado apresenta um potencial a ser desenvolvido (indústria naval e de instrumentos médicos e odontológicos), bem como estimular a expansão dos setores de média-alta intensidade já existentes (indústria de material elétrico; material de transporte, em particular de máquinas agrícolas e de máquinas-ferramenta).

Em que pese às vicissitudes da política macroeconômica, é mais do que nunca fundamental retomar alguns elementos necessários à elaboração de uma política industrial para o RS. Nesse sentido, é importante referir que uma das principais vantagens estaduais reside no existente aparato institucional de suporte à produção de ciência e tecnologia, capaz de garantir a expansão dos segmentos industriais referidos, cuja continuidade encontra-se ameaçada.

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Recessão e indústria no Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 26 nº 5 – 2017

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Recessões são fenômenos cíclicos que se repetem com frequência irregular em todas as economias de mercado. Tais períodos são caracterizados por uma queda simultânea em diversas atividades econômicas e, em geral, envolvem um alto custo social, com aumento do desemprego e queda na produção, nas vendas e na renda. Períodos assim, no entanto, constituem a exceção e não a regra na história econômica. Em outras palavras, toda recessão, uma hora ou outra, acaba e é substituída por uma nova fase de expansão, que, em média, dura mais que os períodos recessivos. Cada recessão, contudo, apresenta características que a tornam singular, seja pelos mecanismos causais, seja pelos canais de transmissão que atuam em determinado momento histórico. Não é objetivo deste texto tratar dessas especificidades, mas tão somente analisar o comportamento da produção industrial do estado à luz dos períodos de recessão no Brasil.

No Brasil, entre 1980 e 2009, houve oito períodos recessivos, com duração média de 15,8 meses, segundo o Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos (Codace-Ibre-FGV). As mais longas recessões do País, contudo, concentram-se na década de 80 e no início da década de 90, com duração média de 26 meses.

Em 2014, o Brasil entrou em sua mais recente — e longa — recessão desde a década de 80, sendo esta, talvez, a mais longa de sua história. E, com ela, a atividade econômica deteriorou-se rapidamente, processo que se intensificou em 2015 e 2016. As taxas de crescimento trimestrais tornaram-se negativas a partir do segundo trimestre de 2014, tanto no Brasil quanto no RS, indicando uma simultaneidade entre o início da fase recessiva de ambos. Com isto, nos últimos três anos, a queda acumulada no Produto Interno Bruto (PIB) foi de 6,8% no Brasil e de 6,6% no RS.
Diante dessa conjuntura, a indústria foi um dos setores que mais sofreu no Estado. O Valor Adicionado Bruto (VAB) da indústria gaúcha, nos últimos três anos, sofreu queda de aproximadamente 18%, sendo a maior parte relativa à indústria de transformação. Contudo é justamente nessa atividade onde começam a aparecer os primeiros sinais de arrefecimento na contração do setor, talvez na própria recessão no Rio Grande do Sul.

Para avaliar o cenário recessivo no qual está inserida a economia do Rio Grande do Sul, é interessante observar o comportamento da produção da indústria gaúcha. Existem dois motivos principais pelos quais o índice de produção industrial pode ser utilizado nesse contexto. Primeiramente, é um indicador historicamente utilizado como proxy mensal da atividade econômica de um país. No entanto, com o aumento considerável da participação dos serviços no produto, foi substituído por outras proxies mais adequadas para esse fim. Contudo a produção física da indústria ainda pode ser entendida como um indicador coincidente da atividade econômica. Isto é, os movimentos cíclicos na indústria tendem a acompanhar conjuntamente os ciclos econômicos e, portanto, podem dar algumas pistas sobre o comportamento da economia com uma frequência mais alta que o PIB, uma vez que os dados de produção industrial estão disponíveis mensalmente, enquanto o PIB é divulgado somente a cada trimestre.

A figura a seguir mostra o comportamento do índice de produção física do Rio Grande do Sul da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no período de janeiro de 2002 a fevereiro de 2017, juntamente com a datação das recessões no Brasil realizadas pelo Codace. Nesse período, o País entrou em recessão três vezes. A primeira foi iniciada em novembro de 2002 e findada em junho de 2003; a segunda começou em agosto de 2008 e teve término em janeiro de 2009. Mais recentemente, no segundo trimestre de 2014, o país entrou em sua primeira recessão nesta década.

Ao longo desse período, é possível observar alguns momentos de queda na produção industrial. Nota-se que há épocas de retração mais branda da atividade, associados a períodos de seca no Estado, como nos anos de 2004-05 e 2012. Contudo as contrações mais intensas nesse indicador estão associadas a períodos de recessão nacional, indicando uma alta correlação entre a queda cíclica da atividade econômica no País e a produção da indústria gaúcha.

Percebe-se também que o comportamento do indicador não é homogêneo entre os períodos recessivos nacionais. Nas duas primeiras recessões, nota-se uma rápida e profunda queda da série, seguida de uma recuperação igualmente veloz e intensa. Tais características, contudo, não parecem estar presentes na atual recessão. Alguns meses antes do início da terceira recessão, a produção industrial já vinha demonstrando tendência de queda. Após o início do período recessivo, essa tendência aprofundou-se, havendo pequenas oscilações entre crescimento positivo e negativo em torno da tendência contracionista.

Todavia, ao final do período em análise, os primeiros sinais de “trégua” na recessão começaram a aparecer na produção industrial do Rio Grande do Sul. Em primeiro lugar, o menor nível de produção da série histórica foi atingido em abril de 2016. Desse ponto até fevereiro de 2017, o indicador já acumula quase 8% de crescimento. Em segundo lugar, a frequência com que ocorreram taxas positivas de crescimento em seis meses (i.e., t/t-6) — entre as atividades da indústria de transformação gaúcha (alimentos, bebidas, fumo, couro, celulose, derivados de petróleo, químicos, borracha e plástico, metalurgia, produtos de metal, máquinas e equipamentos, veículos e móveis) — aumentou.1 Contudo, como explicado anteriormente, toda recessão tem seu fim. Salvo alguma mudança estrutural na economia que inverta para baixo a tendência de longo prazo do setor, o mesmo vale para quedas cíclicas setoriais. E quanto mais tempo dura a contração, mais aumentam as chances de a mesma se encerrar. Na produção industrial do Rio Grande do Sul, essa queda iniciou em outubro de 2013, havendo chances de ter findado ainda em 2016, caso a trajetória positiva da série se mantenha nos próximos meses. Poderia esse ser um indicativo de que a recessão no Estado está com os dias contados?


1 As séries foram dessazonalizadas utilizando o método X13-ARIMA-SEATS.

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Inovação nas indústrias brasileira e gaúcha: há o que celebrar?

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Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

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Os últimos dados da Pesquisa de Inovação (Pintec) de 2014, referente ao triênio 2012-14, divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam poucos avanços em termos de desempenho e esforço inovativo por parte das empresas brasileiras e gaúchas. As informações, relacionadas às atividades de inovação desenvolvidas em empresas brasileiras, dos setores industrial, de eletricidade e gás, e de alguns serviços selecionados (como os de P&D), foram coletadas em uma amostra de 17.171 empresas, representativa de um universo de 132.529 firmas com 10 trabalhadores ou mais, sendo a maioria delas pertencentes ao setor industrial.

No Brasil, a taxa de inovação da indústria (extrativa e de transformação) foi de 36,4%, valor este não muito acima do computado no triênio anterior (2009-11), de 35,6%. Isso significa que pouco mais de um terço das empresas industriais realizaram algum tipo de aprimoramento substancial e/ou criaram um novo produto e/ou processo produtivo. No Rio Grande do Sul, a taxa foi superior à brasileira, 41,7%. Porém, em comparação ao período anterior, houve uma redução (42,2%), e o Estado perdeu uma posição na classificação nacional, passando do segundo para o terceiro lugar. Vale frisar que tanto o Brasil como o RS ainda não recuperaram os percentuais da Pintec 2008 (triênio 2006-08), quando a taxa de inovação na indústria atingiu os melhores níveis da série: 38,1% e 44,1% respectivamente.

Em 2014, as taxas de intensidade inovativa — proporção dos gastos das empresas com atividades de inovação em relação à receita líquida de vendas — também se reduziram no Brasil e em vários estados, a exemplo do RS. Na indústria brasileira, foi de 2,1%, enquanto, em 2011, alcançou 2,4%. No RS, a diminuição foi menor, passando do patamar de 2,2% para 2,1%.

Outro ponto sensível foi a inexistência ou o baixo grau de relevância imputado pelas empresas às ações de maior impacto de difusão e de criação inventiva. Como no triênio passado, as atividades internas em P&D, a aquisição externa de P&D, a aquisição de outros conhecimentos externos e a introdução de inovações tecnológicas no mercado representaram uma parte diminuta das ações executadas. Em oposição, prevaleceu, entre as ações pontuadas como de alta importância, a aquisição de máquinas e equipamentos (54,0% no Brasil e 59,6% no RS). A alta valoração conferida a essas aquisições pode revelar limites no potencial de geração de inovações próprias e recrudescer a dependência tecnológica externa.

A não realização ou a baixa relevância atribuídas às ações inovativas mais robustas dificultam o potencial de criação de novos produtos e/ou processos. Cotejando os dois últimos triênios, no Brasil, o lançamento de novos produtos e novos processos para o mercado nacional ficou estável: nos produtos, passou de 3,7% para 3,8%; e, nos processos, elevou-se de 2,1% para 2,6%. No Estado, os indicadores foram mais favoráveis: nos produtos, ocorreu um acréscimo de 5,5% para 6,3%; e, nos processos, de 2,3% para 3,2%. De fato, ao se examinar a série da pesquisa, constata-se que as empresas industriais gaúchas, em comparação com a média das brasileiras, conseguem obter melhores resultados nas suas atividades de inovação.

Em relação ao número de profissionais inseridos em atividades de P&D, não foram observadas grandes mudanças. Em 2014, na média nacional, 1% da mão de obra industrial esteve alocada em ações de P&D, ao passo que, em 2011, essa participação foi de 0,9%. Já no RS, embora a fração tenha sido semelhante, 1,2%, houve uma redução no número absoluto de pessoas ocupadas em funções de P&D. Nessas atividades, mais da metade dos profissionais são pesquisadores; ou seja, envolvem-se na concepção e/ou na criação de novos conhecimentos técnicos, produtos, processos, métodos e sistemas e na gestão dos projetos. No Brasil, 7,9% desses pesquisadores são pós-graduados. No RS, essa proporção é um pouco inferior, 6,5%. Um dado positivo para o Estado foi que, na comparação com 2011, houve um crescimento de 2,6 pontos percentuais, o que permitiu recuperar o nível de 2008 (6,5%).

Em linhas gerais, o panorama desenhado pela Pintec 2014 caracteriza-se pela estabilidade dos principais indicadores de inovação. Pode-se comemorar? Por um lado, sim, se se considerar que os níveis desses indicadores se mantiveram, apesar do cenário econômico adverso. Particularmente no País, deve-se ter em conta também os efeitos da desaceleração econômica a partir de 2014 e o período da coleta das informações da pesquisa (julho de 2015 a agosto de 2016), que transcorreu num contexto bastante atribulado nos campos econômico e político.

Por outro lado, para os próximos anos, os desafios serão enormes vis-à-vis os efeitos do ajuste fiscal, que muito provavelmente penalizarão áreas importantes para o desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no País e no Estado. A aposta deve centrar-se no aprimoramento e no monitoramento das políticas de CT&I. Um exitoso exemplo de acompanhamento de ações de CT&I foi o estudo da FEE, Ciência, Tecnologia e Inovação no Rio Grande do Sul, publicado em 2014. Além do rico acervo estatístico sobre o tema, a análise permitiu identificar fragilidades no sistema de inovação gaúcho, como o baixo esforço inovativo das empresas industriais gaúchas e os insuficientes dispêndios públicos em atividades de C&T.

Como citar:

SPEROTTO, Fernanda Queiroz. Inovação nas indústrias brasileira e gaúcha: há o que celebrar? Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/inovacao-nas-industrias-brasileira-e-gaucha-ha-o-que-celebrar/>. Acesso em: 24 de outubro de 2017.

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A persistência dos efeitos da queda da indústria de transformação no RS

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

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Na nova série de Contas Regionais do IBGE e da FEE, o crescimento acumulado do PIB do Rio Grande do Sul entre 2003 e 2014 foi maior apenas que o do Estado do Rio de Janeiro, ocupando a 26.ª posição entre os estados brasileiros. Em uma primeira observação, esse resultado pode indicar que o nosso estado passa por uma crise crônica que o faz ser incapaz de acompanhar o ritmo da economia nacional. Entretanto, uma análise mais acurada mostra que se olharmos a série a partir de 2006, configura-se outro resultado, com o RS apresentando um desempenho melhor (21.º) e mais próximo à média nacional, com um crescimento acumulado maior que o dos outros estados da Região Sul (Santa Catarina e Paraná) e de outras duas grandes economias estaduais (Minas Gerais e Rio de Janeiro). Entre os grandes Estados, o RS ficou atrás apenas de São Paulo. Compreender o que ocorreu no RS, tanto nos anos iniciais da série quanto na sua persistência no tempo é importante, principalmente devido aos seus efeitos sobre o PIB per capita, sobre a participação do Estado na economia nacional e sobre a arrecadação de impostos.

A primeira suspeita obviamente recai sobre a estiagem que se abateu sobre o Estado em 2004 e 2005, provocando severas perdas para a agropecuária. Entretanto, ela recuperou essas perdas em 2006 e exibiu um crescimento acumulado superior ao brasileiro de 2003 a 2014, mesmo com outra estiagem severa em 2012. Dessa forma, as perdas agrícolas decorrentes de problemas climáticos não podem explicar diretamente o desempenho gaúcho durante todo o período.

No gráfico, podemos ver que a indústria de transformação gaúcha teve desempenhos negativos em 2005 e 2006, enquanto o desempenho brasileiro, apesar de pequeno, foi positivo. Como o diferencial observado com o desempenho nacional não foi recuperado nos anos subsequentes, e, a partir de 2007, a indústria de transformação do RS e do Brasil tiveram desempenhos bastante similares, é na queda especificamente local da indústria de transformação desses anos que se encontra a maior diferença acumulada no PIB para o conjunto da série. Por que, nestes dois anos (2005 e 2006) especificamente, as atividades industriais se descolaram do desempenho do restante do País? Apesar de ser comum a ideia de que a valorização da taxa de câmbio está associada ao desempenho negativo da indústria gaúcha, ela não explica o porquê da retomada industrial a partir de 2007, mesmo com o câmbio valorizando-se até a crise de 2008 e em 2010 e 2011.

Se, além da seca e do câmbio, observarmos a redução da taxa de formação bruta de capital fixo nacional e o comportamento dos preços agropecuários, principalmente o da soja, nos anos de 2005 e 2006, poderemos acrescentar uma hipótese multicausal para o que aconteceu nesses anos e, assim, compreender melhor a dinâmica interna da nossa economia. A indústria de transformação é impactada diretamente de duas formas pela produção agropecuária: a montante, acarretando uma redução de demanda por insumos, e a jusante, provocando uma redução de oferta agrícola. A valorização da taxa de câmbio aumenta a concorrência externa aos produtos industriais, prejudicando tanto suas vendas internas quanto suas exportações. A redução do investimento nacional diminui a demanda por bens de capital e sua cadeia de fornecedores. A queda dos preços internacionais, combinada com a valorização do real, reduz a renda agrícola mediante a queda do valor da produção.

O efeito da estiagem é local, e sua duração por dois anos amplificou o impacto da demanda sobre o setor de insumos. Os efeitos do câmbio e do investimento nacional impactaram toda a indústria nacional, mas, ainda mais, a indústria gaúcha devido à especificidade de sua estrutura. O efeito da queda de preços da soja, apesar de atingir todo o País, atingiu mais o Estado porque esta veio combinada com a redução da quantidade, causada pela estiagem. Ao atingir um contingente significativo de ocupados no RS, a queda de renda reduziu a demanda por bens locais, e, mais fortemente, por bens de capital (máquinas e implementos agrícolas). A importância do efeito-renda é corroborada pelo desempenho inferior do comércio gaúcho comparado ao nacional até 2009. Outra forma de vermos a questão é compararmos o que acorreu depois da seca de 2012 com a rápida recuperação decorrente da elevada capitalização do setor agrícola e do nível alto de preços da soja em 2012.

Entre os resultados do menor nível no volume do PIB do RS no período, a partir da queda da indústria de transformação gaúcha, a diminuição da arrecadação de impostos é que tem um significado mais direto para a atual situação fiscal do Estado. Como mais de 45% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é arrecadado pela indústria de transformação, o fato de a taxa acumulada pela indústria estar 70% inferior à brasileira ao longo do período de 2003 a 2014 indica uma potencial perda de arrecadação que poderia minorar as dificuldades fiscais do Estado e dos municípios. O efeito estrutural das consequências dessa queda e o caráter exógeno das causas do problema revelam a dificuldade de os governos estaduais e municipais mitigarem sozinhos suas consequências. Problemas como esses deveriam receber um tratamento diferente da Federação, sendo um dos objetos de um redesenho do pacto federativo.

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Como citar:

ROCHA, Roberto. A persistência dos efeitos da queda da indústria de transformação no RS Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/a-persistencia-dos-efeitos-da-queda-da-industria-de-transformacao-no-rs/>. Acesso em: 24 de outubro de 2017.

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Recuperação na indústria de transformação?

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Edição: Ano 25 nº 11 – 2016

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A possibilidade de recuperação da indústria de transformação nacional tem sido apresentada como o principal elemento dinâmico de uma eventual retomada da economia brasileira. Em que pesem a melhora das expectativas dos empresários do setor, o crescimento das exportações e a tendência de estabilização da produção na margem, os dados parecem indicar, quando muito, um crescimento lento a partir de um patamar bastante reduzido.

Após um longo período de ajustes, que resultou numa redução acumulada da produção de 18% entre o primeiro trimestre de 2014 e o primeiro trimestre de 2016 — segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal-Produção Física (PIM-PF) do IBGE —, alguns setores da indústria de transformação passaram a exibir um desempenho mais favorável a partir de abril deste ano, pelo menos na comparação com o trimestre imediatamente anterior. Esses setores podem ser divididos em dois grupos. No primeiro, estão aqueles cuja rentabilidade aumentou com a depreciação do real, com reflexos tanto na ampliação das exportações quanto no aumento da parcela do mercado interno atendida pela produção nacional. Podem ser incluídos, nesse grupo, calçados, têxteis, papel e celulose e químicos. No segundo grupo, estão os setores vinculados à produção de bens de capital, categoria que registrou uma expansão de 7,0% entre abril e agosto. Incluem-se, nesse grupo, parte da metalurgia e a produção de máquinas e equipamentos, de material elétrico e de equipamentos de informática. A expansão da produção de bens de capital parece refletir a conjunção de três fenômenos: a ampliação de exportações, o fim do ciclo de redução de estoques e um processo incremental de reposição do capital depreciado. Trata-se, porém, de um crescimento pequeno, frente aos longos meses de cortes.

Apesar da melhora marginal em alguns setores, o total da indústria de transformação ainda registrou queda de 1,6% entre abril e agosto. Entre os setores que seguem em retração, há alguns que ora sinalizam uma estabilização, ora voltam a se reduzir, apresentando um desempenho irregular. Esse parece ser o caso dos produtos alimentícios e dos veículos automotores. Entre abril e julho, por exemplo, ambos os setores haviam registrado um crescimento acumulado de 3,0% e 4,6% respectivamente. Nos dois casos, a expansão verificada foi completamente anulada pelo desempenho negativo registrado apenas no mês de agosto. No setor de veículos, há informações de que a queda no mês teria sido aprofundada por problemas pontuais com o fornecimento de peças e com a greve bancária. Com a normalização da produção, é possível que o setor retome a trajetória observada até julho.

Há, finalmente, aqueles setores nos quais houve redução da produção devido à atuação de elementos exógenos, como a queda de 41,4% na produção de fumo, afetada pela quebra de safra, ou cuja dinâmica de produção é caracterizada por descontinuidades, como nos derivados de petróleo e nos outros equipamentos de transporte (aviões e construção de embarcações). No geral, o desempenho do conjunto da indústria nacional ainda não avaliza a hipótese de recuperação. Porém, quando são excluídos os eventos pontuais, a tendência à estabilização, acompanhada de um crescimento moderado na margem, parece ser a regra entre os principais setores (gráfico).

A indústria do Rio Grande do Sul costuma apresentar uma maior variabilidade frente à média nacional, a despeito de ser uma das mais diversificadas do País. Tal fenômeno é próprio das economias regionais, haja vista a maior concentração de determinados setores ou o menor número de empresas em cada setor. Com efeito, algumas especificidades da composição setorial da indústria gaúcha, como a maior participação relativa da produção de fumo e de derivados de petróleo — setores que, por suas características, costumam ser mais voláteis —, ajudam a explicar não apenas a queda mais intensa, de 3,8%, registrada entre abril e agosto, mas também as oscilações que vêm sendo verificadas ao longo deste ano. A maior participação da produção de móveis, cuja crise perdura no País, também justifica o diferencial de crescimento no período. Em sentido contrário, pesam a favor do desempenho da indústria gaúcha a expansão da produção de celulose, que ampliou a sua relevância recentemente, bem como a de calçados e dos setores que compõem o segmento metalmecânico, ainda tradicionais na estrutura produtiva estadual.

Superada a fase inicial de ajustes e de estabilização, a recuperação da indústria, nacional e regionalmente, poderá ganhar consistência quando o mercado interno mostrar sinais mais claros de expansão. Ainda que as exportações de bens industriais sejam um destino relevante para a produção, sobretudo no Rio Grande do Sul, o seu potencial de crescimento é reduzido por diversos motivos, entre os quais, o lento crescimento esperado para a demanda mundial. Nesse contexto, o cenário de queda da inflação e da taxa de juros no País, combinado com alguma melhora nas condições de crédito, poderá contribuir para a retomada. Porém, os níveis elevados de endividamento das famílias e das empresas, assim como o alto desemprego e a persistência da tendência de redução dos rendimentos reais, podem limitar o potencial expansivo desse movimento. Por outro lado, apesar do crescimento recente do investimento, o nível de utilização da capacidade instalada na indústria ainda é baixo, sendo pouco provável que a expansão autônoma da produção dos bens de capital persista para além da fase de reposição. Assim, é possível que a recuperação ensaiada em 2016 se consolide em 2017, a partir de uma recuperação moderada do mercado interno, na esteira da redução dos juros. Não há, porém, indicativos de que essa retomada possa adquirir força suficiente para restabelecer o nível de produção pré-crise no curto prazo.

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Como citar:

HOFF, Cecília Rutkoski. Recuperação na indústria de transformação? Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/recuperacao-na-industria-de-transformacao/>. Acesso em: 24 de outubro de 2017.

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A participação das exportações na indústria gaúcha

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Edição: Ano 22 nº 02 - 2013

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Uma maneira de se medir o peso das exportações na produção da indústria é calculando o coeficiente de exportação. Essa medida indica qual o percentual do Valor Bruto da Produção que cada setor da indústria destina para exportações. A partir dos dados da Pesquisa Industrial Anual (PIA) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e dos dados de exportação do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC), foi calculado o coeficiente de exportação para os principais setores da indústria de transformação no ano de 2010 (último ano disponível na PIA).

A participação das exportações no total produzido pela indústria de transformação gaúcha foi de 16% no ano de 2010, enquanto, para o Brasil, o índice foi de 13%.

O setor de fabricação de produtos de fumo foi o que apresentou maior coeficiente, com 51% da produção do setor destinada ao mercado externo.

A indústria de produtos alimentícios exportou 26% do valor produzido em 2010. Dentro desse setor, os mais voltados para o mercado externo foram o setor de abate e fabricação de produtos de carne, que teve um coeficiente de 47%, e o setor de óleos e gorduras vegetais e animais, que exportou 45% do total produzido. Por outro lado, o setor de moagem, que representa cerca de um quarto da produção da industrial de alimentos, apresentou um baixo coeficiente de exportação, de apenas 4%.

O setor de couro e calçados ainda destina boa parte de sua produção para o mercado externo. Em 2010, um quarto da produção desse setor foi exportado. O subsetor de curtimento e outras preparações de couro teve um alto coeficiente, de 44%. Já o subsetor de calçados exportou 19% da produção. Cabe ressaltar que a indústria calçadista tem diminuído sua participação na pauta exportadora do Estado nos últimos anos, principalmente devido à concorrência dos produtos chineses.

A fabricação de veículos automotores, reboques e carrocerias, apesar de ser um setor com uma participação significativa tanto no valor produzido na indústria de transformação como no valor exportado, destinou apenas uma pequena parte da sua produção para o mercado externo. O coeficiente de exportação desse setor foi de 5%. Apesar desse baixo índice, alguns segmentos que compõem esse setor apresentaram uma participação maior das exportações. É o caso da fabricação de caminhões e ônibus, que exportou 23% da produção, e da fabricação de cabines, carrocerias e reboques para veículos automotores, que destinou 11% da produção para o mercado externo.

A participação das exportações na indústria gaúcha

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O declínio do setor calçadista gaúcho

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Edição: Ano 20 nº 06 - 2011

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Segundo a Pesquisa Industrial Anual (PIA) do IBGE, o setor calçadista gaúcho representava, em 2000, 10,6% do valor da transformação industrial do Estado. Em 2008, essa participação caiu para 5,6%. A redução do tamanho do setor seguiu-se à queda nas exportações. Os Estados Unidos sempre foram o principal comprador dos calçados gaúchos. Ao longo dos anos, entretanto, o menor preço do calçado chinês fez com que as vendas do Estado para aquele mercadocaíssem significativamente. De US$ 931,7 milhões em 2000, as exportações do RS para os EUA caíram para US$ 181,0 milhões em 2010. À perda de competitividade em função dos menores custos de mão de obra dos chineses somaram-se as decorrentes da valorização cambial. Entre 2003 e 2010, a taxa de câmbio real/dólar caiu 42,8%; no mesmo período, o valor das exportações gaúchas de calçados reduziu 29,8%.

Parte das perdas com o mercado norte-americano foi compensada pelo aumento das exportações para outros mercados, notadamente União Europeia e Mercosul. Em 2010, esses dois mercados já respondiam por 56,4% das vendas do Estado. Outra providência adotada pelos empresários foi transferir a produção — total ou parcialmente — para estados da Região Nordeste, de mão de obra mais barata. O resultado foi a perda de participação do Rio Grande do Sul na produção (de 56,8% 2000 para 33,5% em 2008) e nas exportações nacionais (de 81,1% em 2000 para 50,6% em 2010).

O declínio do setor calçadista gaúcho

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