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Grécia: problemas nacionais, desdobramentos internacionais

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Edição: Ano 24 nº 03 - 2015

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A formação de um novo governo grego, sob a liderança do partido de esquerda Syriza, em janeiro de 2015, lançou à Europa e ao mundo questões bem maiores do que a relevância econômica da Grécia. Apesar de o País representar pouco mais de 1% do Produto Interno Bruto (PIB) da União Europeia (UE), os desdobramentos das negociações sobre o financiamento e o volume do enorme passivo, além de sua permanência na Zona do Euro, podem influir em outras partes do Velho Continente. A ascensão de Alexis Tsipras constitui-se em um desafio à continuidade das políticas austeras no combate à crise econômica no bloco europeu.

Até 2008, quando os problemas econômicos se tornaram mais agudos, a Grécia crescia a um ritmo acima da média europeia, graças ao vigoroso setor de turismo, mas, também, ao consumo financiado via empréstimos estrangeiros, sobretudo da própria UE. Estes últimos, aliados aos saldos comerciais negativos, culminavam em sucessivos e onerosos déficits em suas transações correntes, que chegaram a 15% em relação ao PIB em 2008.

Desde então, conforme dados do Eurostat, órgão estatístico da UE, a economia grega entrou em um verdadeiro colapso: retração de quase um terço do PIB, aumento da dívida externa (de 109% em 2008 a 175% do PIB em 2015) e desemprego em 27%. Outros casos “problemáticos”, como Espanha, Portugal e Irlanda, registraram problemas semelhantes em suas transações correntes antes de entrarem na recessão, porém em menor grau. O desastre grego só não foi pior do que o da minúscula Islândia, a qual teve, em 2008, 25% de déficit em relação ao PIB nesse indicador e sofreu uma redução de quase a metade em seu produto entre 2007 e 2010.

A depressão econômica da Grécia, equiparável em termos de profundidade à Grande Depressão nos Estados Unidos, parecia ter encontrado seu “ponto de inflexão” em 2014, quando se registrou uma tímida recuperação, com crescimento de 1%. As transações correntes permaneceram deficitárias, mas em um nível bem menor do que no início da crise (cerca de 2% do PIB). No entanto, no último trimestre desse ano, o PIB do País voltou a registrar retração de 0,4% em relação ao trimestre anterior.

Dado o colapso da economia grega, não surpreende o desempenho de partidos mais novos e radicais, inclusive o próprio Syriza, que congrega diversos grupos de esquerda, e seu aliado, Novos Gregos, de direita. Apesar de estes dois últimos discordarem em uma série de questões de política social e migração, eles convergem na crítica aos dois pacotes de resgate, assinados em 2010 e 2014. Esses acordos previam o financiamento da dívida grega, condicionado a cortes rígidos no orçamento estatal e a aumento de impostos.

Ao longo de 2015, esperam-se negociações entre o governo grego e a chamada Troika — Banco Central Europeu (BCE), Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional (FMI) — sobre o problema do financiamento da dívida grega. Tsipras busca rever esses acordos e estancar os cortes orçamentários. Até o momento, os credores concordaram em postergar em alguns meses alguns prazos da dívida, mas rejeitaram a revisão de seu volume.

Com impasse nas negociações, a Grécia poderá ver-se obrigada a abandonar o euro e ter dificuldades ainda maiores em obter acesso aos circuitos tradicionais de fornecimento de crédito. E há boas chances de isso ocorrer, já que, além das pressões internas, os credores internacionais estão pouco propensos a ceder. Tem sido destacada (e criticada) a intransigência da Alemanha, mas outros atores têm também adotado posições rígidas, como a Holanda e a Finlândia, além do FMI e do BCE.

Observa-se uma postura mais discreta de países em situação econômica desconfortável, como a França e a Itália, cujos líderes inclusive declararam a necessidade de a Grécia crescer para se tornar solvente. Em situação mais crítica, Espanha, Irlanda e Portugal terão eleições em 2015, nas quais os partidos “antiausteridade” apresentam boas perspectivas de desempenho, com destaque ao “Podemos”, um jovem partido espanhol com semelhanças programáticas — e simpatias — ao próprio Syriza. No espectro ideológico da direita, movimentos nacionalistas críticos à União Europeia e à moeda comum têm ganhado espaço em manifestações e debates em quase todos os países da Europa Ocidental e do Norte. A ruptura grega com o euro, apelidada de Grexit (trocadilho em inglês para “saída da Grécia”), poderia alimentar os quadros dos movimentos políticos mais radicais na Europa, tanto à esquerda, quanto à direita.

Ao mesmo tempo, o novo governo grego tem buscado ampliar sua margem de manobra, ao estreitar relações com países fora do bloco, como a Rússia, EUA e China. Chamou a atenção a decisão russa de suspender, no final de 2014, o projeto do gasoduto Corrente do Sul, que conectaria as regiões gasíferas da Rússia à Europa Central e à Alemanha via Bulgária. Mas, com a enorme pressão da UE sobre esta última em face do conflito na Ucrânia, os russos têm investido em outro projeto, o Corrente Turca. Como o nome sugere, deve atravessar a Turquia e atingir a Grécia. Essa, ainda, seria favorecida com a construção, em seu território, de um hub, a partir do qual o gás russo seria escoado para o restante da Europa, inclusive para países menos críticos a Moscou, como Macedônia, Sérvia, Hungria e até mesmo Áustria. Curiosamente, a mudança de planos russa coincidiu com a ampliação do favoritismo do Syriza na campanha eleitoral. Os EUA, numa posição mais intermediária, defendem reformas pró-mercado, mas apenas após a retomada do crescimento. A China, no passado recente, já se ofereceu para comprar títulos da dívida grega e tem planos de investir em infraestrutura portuária, um setor de alta relevância econômica no País.

Os desdobramentos da crise grega para a economia mundial e para o próprio Brasil são mais difíceis de serem identificados. Mas o interesse geral tem sido grande, em função das contribuições sobre o debate de política econômica. Por exemplo, até que ponto o País tem a capacidade política de convencer os financiadores de seus déficits em transações correntes? O alinhamento econômico e político com Rússia e China e uma maior autonomia frente a Bruxelas poderão trazer alento à economia grega? Quais as consequências do Grexit e da retomada da soberania monetária e cambial? E, afinal, os países em crise devem pagar suas dívidas para depois crescer, ou vice-versa? As respostas deverão ser levadas em consideração por parte de gregos, troianos, e todos os interessados em gestão pública.

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