Textos com assunto: Finanças

Finanças: o infinito que desaba

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Edição: Ano 17 nº 10 - 2008

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Está-se no meio da “crise norte-americana”, que é uma crise longa, severa, de extensão mundial e que tem a forma de uma escada. Vai-se de degrau em degrau, em sentido descendente. E a pergunta explode no coração das pessoas: até onde? Esta é a primeira lição da crise: está-se num nevoeiro onde não se sabe o fim. E, depois de cada etapa, há outra a cumprir. E, ao mesmo tempo, um rastilho de pólvora está sempre presente, são os títulos oriundos das hipotecas imobiliárias, onde tudo começou. Eles continuam aí, levando incômodo a todos. Mas essa crise financeira foi uma esbórnia, porque o crédito, sem critério, foi usado como promessa de compra e de pagamento para tudo – moradias, casas de verão, carro, viagens, empréstimos educacionais, etc. – no nível dos consumidores e foi também o que permitiu, a partir dos bancos comerciais e dos bancos de investimento, a invenção de uma verdadeira salada de títulos (desde títulos baseados nas hipotecas das casas até títulos que sustentam o default de outros títulos, como o Credit Default Swaps (CDS). Desde logo, nunca foi só uma crise das hipotecas imobiliárias, mas, desde sempre, uma crise do sistema financeiro.

Chega-se à segunda lição: por que aconteceu tudo isso? O sistema financeiro é um universo em expansão que tende ao infinito. Só que o infinito econômico é um infinito que acaba, que morre e que desaba. E, quando os capitais respondiam que o sistema era auto-regulado, sua resposta era falsa, os capitais não têm a capacidade de se controlar. A concorrência introduz um conflito que rompe inexoravelmente a trajetória do infinito. Dessa forma, pôde-se ver, o Banco Central só regulava os bancos comerciais. E, com manobras jurídicas e contábeis, esses bancos estavam separados dos bancos de investimento, que por sua vez, estavam separados dos hedge funds. Auto-regulação. Autodestruição.

Ora, veja o leitor: o sistema financeiro era como um balão que estava cheio, que a gente ia e ia assoprando e que, de repente, escapava da mão e subia para tombar, vomitando o ar que estava dentro. O sistema funcionava assim: o ar é a especulação que vai ampliando-se, que vai inflacionando o valor dos títulos. A euforia e a alegria correndo loucas, todo mundo com a sensação de vencedor. Mas é um mercado de fina sensibilidade, precificado minuto a minuto, um mercado instável, um mercado de tiro instantâneo. Um dia, alguém desconfia que o castelo de cartas chegou ao limite. Se botar ou tirar uma carta, o todo desaba. E foi isso que aconteceu: um problema nas hipotecas, e elas passaram a ter um odor fétido, “títulos podres”.

Instaurou-se, então, a dinâmica da crise com a desconfiança no mercado. A desconfiança é o vírus do sistema financeiro e passa pela fonte de irrigação que são os bancos comerciais com o seu mercado interbancário, com o seu mercado de empréstimos, etc. Chega o temor das perdas, e os bancos fecham a sua torneira. O nome técnico disso é credit crunch, que, no popular, quer dizer: ninguém empresta para ninguém. Aparece, então, a hora do Banco Central, o FED. Mas a sua intervenção só anima os bancos a não emprestarem, pois Keynes já dizia que, na crise, há uma preferência absoluta, a “preferência pela liquidez”. E assim foi. Daí o Bearn Stearns exibiu suas entranhas malditas, e o FED ajeitou sua compra pelo JP Morgan. Depois, tudo foi um escorrer de água: veio a bancarrota do Lehman Brothers; a compra do Merril Lynch pelo Bank of América; a necessidade de intervir na Fanny Mae e no Freddy Mac; a intervenção na seguradora AIG; a transformação do Morgan Stanley e do Goldman Sachs em bank holding companies, as compras do Washington Mutual pelo JP Morgan e do Wachovia pelo Citigroup, etc. E o incêndio espalhou-se por toda parte, atingindo primeiramente a Europa.

E quando a coisa chega nesse ponto – “vamos passar o mico adiante”-, o sistema sabe que desabou: regulação, securitização, fatiamento dos títulos, produtos, etc. Vem a principal lição: a necessidade da intervenção do Estado e, claro, do endividamento público, para salvar a convulsão dos capitais. Na seqüência, nasce um plano para sustentar o sistema financeiro e recolher os títulos tóxicos – uma espécie de Resolution Trust Corporation (RTC). E, por outro lado, há que se pensar na criação de um Home Owner´s Loan Corporation (HOLC), para solucionar o problema das dívidas dos compradores de casa. Com as tarefas aumentando, o precipício abre-se e chama-se hedge funds; sua queda tem uma dinamite poderosa, pode levar de arrasto os fundos de pensão. E, aí, acaba a previdência dos norte-americanos. Por isso, já se vê, a crise econômica puxa sua solução para a política. Dela, virão as proposições imprescindíveis à regulação, ao salvamento do sistema financeiro e ao dólar, atravessando o Congresso e o futuro Executivo com Obama ou McCain. Para encontrá-las, todos terão que aprender a lidar com a queda do infinito, outro modo de dizer, com o fim do neoliberalismo.

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Bolsa de valores: o Rio Grande do Sul tem um caminho a percorrer

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Edição: Ano 16 nº 12 - 2007

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Nos últimos anos, o mercado de ações brasileiro tem vivido um momento de prosperidade. Em 2004 e 2005, foram 16 ofertas públicas iniciais — IPOs na sigla em inglês. Em 2006, foram 26, e, até julho deste ano, 46 novas IPOs.

O principal catalisador dessa mudança tem sido o Novo Mercado da Bovespa, segmento especial, idealizado, em 2000, para abrigar as companhias que se comprometem com as melhores práticas de governança corporativa. Foram criados, além do Novo Mercado, dois segmentos intermediários, os chamados Nível 2 e Nível 1.

Hoje, do total de 440 empresas na Bovespa, 70% delas ainda pertencem ao segmento tradicional.

O Rio Grande do Sul ocupa a terceira posição no número de empresas presentes na Bovespa — considerando as Regiões Sul e Sudeste —, mas tem o mais alto percentual de companhias que não estão classificadas em qualquer um dos níveis de governança corporativa (82,5%). Possui, também, o menor número de companhias no Novo Mercado, apenas três.

As explicações para o pequeno número de empresas gaúchas que demonstram maior preocupação com a governança corporativa são diversas, entre elas, a falta de destaque em setores que ultimamente estiveram em alta, com grande IPO no Novo Mercado, como o relacionado à produção de álcool e o segmento de empresas de tecnologia e educação.

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As fraudes corporativas e a poupança norte-americana

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Edição: Ano 11 nº 08 - 2002

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Como os norte-americanos podem ter confiança no mercado acionário e em seu país quando tudo parece ser uma grande fraude? Essa pergunta feita por um senador democrata no Financial Times, em 29 de julho, pareceria aos menos avisados completamente sem sentido até dezembro de 2001. Naquele mês, os problemas contábeis da maior empresa do setor de comércio de energia, a Enron, tornaram-se públicos, levando as famílias norte-americanas a se perguntarem sobre a sorte de sua poupança, cada vez mais ligada ao comportamento das Bolsas em um contexto de endividamento crescente.

Durante 2002, os casos de “contabilidade criativa” — que consistiam, na verdade, em diferentes formas de criação de falsas receitas, ao mesmo tempo em que escondiam o endividamento das empresas, alterando, assim, os lucros obtidos e suas perspectivas futuras, com influência imediata sobre o valor de mercado das ações — rapidamente se mostraram uma prática quase generalizada no mundo corporativo do país, atingindo empresas de uma ampla gama de setores, como a energia (Enron), as telecomunicações (WorldCom, Global Crossing, Tyco e Qwest), a mídia (Adelphia e Aol/TimeWarner) e a farmacêutica (Merck).

Assim, em julho de 2002, os executivos de 947 corporações norte-americanas estão sendo obrigados a confirmar a exatidão dos últimos registros contábeis de suas empresas junto à Securities and Exchange Commission (SEC), em uma tentativa de tranqüilizar os investidores lesados em sua confiança. Ao mesmo tempo, a legislação sobre o tema está sendo abruptamente reforçada após duas décadas de desregulamentação continuada. Para complicar ainda mais as coisas, na medida em que avançam as investigações sobre essas fraudes, torna-se cada vez mais claro que elas somente puderam ser realizadas com a conivência e a participação ativa de consultorias, auditorias e bancos de investimento, funções que se encontram, muitas vezes, reunidas em uma única empresa financeira.

Em um contexto de concentração das decisões em mãos de poucos atores relevantes, o ambiente extremamente competitivo revelou-se um grande estímulo à fraude. A apresentação de um resultado aquém do consenso do “mercado” representava para os executivos um grande risco de demissão e, até mesmo, de execração pública na poderosa imprensa especializada, enquanto o desempenho acima da média era premiado com uma remuneração milionária em opções de ações — não contabilizadas como despesas após 1994 —, as quais, acreditava-se, acoplariam os interesses dos executivos aos interesses dos acionistas.

A competência gerencial era exclusivamente medida pela capacidade de “criação de valor para o acionista” em curto prazo, distorções com esse objetivo sendo socialmente aceitas e estimuladas pela sociedade norte-americana ao longo das últimas duas décadas. Desse modo, o endividamento bancário das corporações para a recompra de ações, visando aumentar, artificialmente, os dividendos dos títulos que permaneciam no mercado, e as fusões de empresas com sentido de valorização acionária foram práticas correntes; no entanto, saudadas por todos os atores envolvidos em nome de duvidosas “sinergias” e “oportunidades”.

A fraude contábil constitui um recurso desesperado com o mesmo objetivo, em um momento no qual a facilidade de obtenção de novos créditos e de resultados “legítimos” foi minada pela retração no ritmo da atividade econômica e pela queda abrupta no preço das ações que representavam a “nova economia”. A quebra de confiança do público na governança corporativa voltada para os acionistas mostra os limites e os perigos de um comando exclusivamente financeiro das grandes corporações.

As fraudes corporativas e a poupança norte-americana

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