Textos com assunto: finanças internacionais

Rumo à recessão global

Por:

Edição: Ano 17 nº 10 - 2008

Área temática:

Assunto(s): , ,

A crise das finanças desreguladas vem trazendo uma enorme dose de preocupação ao mundo: qual a profundidade de seus efeitos sobre a “economia real” e qual a possível extensão geográfica do contágio produzido pelo derretimento do sistema financeiro dos EUA?

O sistema financeiro global encolhe. O crédito ao consumidor e o acesso aos mercados de capitais tornam-se mais difíceis. A incerteza contamina a confiança dos consumidores e das empresas. O crescimento diminui. Esses efeitos, embora em escala limitada frente ao potencial arrasador do desastre, já estão acontecendo nos países desenvolvidos.

Nos EUA, a procura pelo seguro-desemprego atingiu 440.000 pedidos na segunda semana de setembro, frente a 320.000 há um ano atrás. Na Europa, bancos de diversas nacionalidades apresentaram perdas expressivas, ao comprarem o “lixo tóxico” espalhado pelos bancos de investimento dos EUA, totalizando US$ 228,9 bilhões até 15.09.08, estando 75% do total concentrados em 13 bancos, o que dá conta da amplitude mundial da débâcle financeira. O PIB do segundo trimestre, conforme dados do Banco Central europeu, mostrou uma retração de 0,2% frente ao trimestre anterior, o que não ocorria desde o início dos anos 90. Diversos países apresentaram desempenho negativo na mesma comparação: Alemanha (-0,5%), França (-0,3%) e Itália (-0,3%). Na Inglaterra, o Bank of England estima que dois milhões de pessoas correm risco de estar desempregadas até o Natal, enquanto o Ministro das Finanças, Alistair Darling, afirmou, no finalde agosto, que a economia do País enfrenta seu momento mais difícil em 60 anos. No Japão, o PIB caiu 0,6% no segundo trimestre. A redução da demanda externa aparece entre os fatores que golpearam o crescimento do País

E o Brasil? Uma das questões-chave está nos preços das commodities, fortemente influenciados pela instabilidade do dólar e pela demanda chinesa, que deve manter-se elevada. O Banco Central vem elevando os juros aceleradamente, buscando evitar que o desequilíbrio externo, aparente no déficit corrente superior a US$ 30 bilhões em 2008, se torne insustentável em 2009. O financiamento externo das empresas brasileiras também irá reduzir-se devido à crise global, enquanto o risco de fuga de capitais aumenta. Isso implica desaquecimento da economia, tanto maior quanto menos favoravelmente esses indicadores evoluírem para o País.

Embora os desempenhos de China e Índia devam sofrer apenas leve desaceleração em 2009, é impossível deixar-se de notar que a recessão global é quase uma certeza, dada a virulência e a profundidade da crise financeira. A idéia de que um desastre das proporções daquele que se abateu sobre o centro da globalização financeira (Wall Street e seus finados bancos de investimento) possa ter seus efeitos sobre o crescimento econômico facilmente controlado é tão ilusória quanto aquela que dizia ser essa uma “crise da parte subprime do sistema imobiliário norte-americano” em agosto de 2007. Pensar assim, embora possa ser reconfortante, é errar uma vez mais.

Rumo à recessão global

Compartilhe

Os limites do crescimento econômico embasado no mercado interno

Por:

Edição: Ano 17 nº 03 - 2008

Área temática:

Assunto(s): , , , ,

Por razões já amplamente discutidas, no terceiro trimestre de 2007 a economia norte-americana foi envolvida por crise que desacelerou sua atividade produtiva e causou o abalo das finanças internacionais. Com intensidade e duração ainda desconhecidas, o processo tem potencial de pôr em xeque o crescimento das demais economias do mundo.

Contudo, no Brasil, crê-se que sua economia não perderá muito do dinamismo de 4,4% anuais médios verificado entre 2004 e 2007. É claro, são mais resilientes à desaceleração generalizada dos mercados externos aquelas economias cujos crescimentos se baseiam na expansão de seus mercados internos. Esse é o caso da economia brasileira na atualidade, a qual, além disso, dispõe de situação confortável também no referente às suas contas públicas e externa.

É inquestionável, mas mercados internos expansivos, se bem que sejam condição necessária da resiliência referida, não totalizam as condições suficientes. Estas incluem requisitos adicionais. Dentre eles, o de serem capazes de garantir os meios materiais necessários à expansão produtiva. É verdade que o que não pode ser produzido internamente pode ser importado, e, para financiar a importação, pode-se fazer uso das reservas externas de que o País disponha. Mas esse recurso é, necessariamente, limitado no tempo. De forma alternativa, pode-se utilizar o aporte de capitais externos e saldos em transações correntes (STCs.).

No caso brasileiro, o aporte de recursos externos tem sido mais do que suficiente para sustentar o dinamismo da economia brasileira dos últimos anos. Também em razão dele, as cotações da moeda e o volume das reservas externas do País elevaram-se para níveis reais inusitados (Tabela). Porém tamanha entrada de capitais forâneos só foi possível devido às excepcionais liquidez internacional e STCs vigentes nos últimos anos. Infelizmente, para o futuro, ambos tendem à redução.

A liquidez internacional sofrerá contração em razão das dificuldades que, já hoje, envolvem a economia norte-americana e as finanças internacionais. Além disso, mantido o dinamismo da economia brasileira, as evidências disponíveis são de que o País voltará a produzir volumosos déficits externos correntes em prazo não muito distante, mesmo que preservada a atual taxa de crescimento do comércio internacional (Tabela). Nesse caso, o mesmo dinamismo conjugar-se-ia à volta da elevada e desestabilizadora vulnerabilidade externa, que condenaria o primeiro.

Mas é mais provável que o crescimento econômico seja contido antes que os déficits externos atinjam níveis tão elevados. Constatada a tendência de déficits externos crescentes, seguir-se-iam desvalorização cambial, pressões inflacionárias e, dado o regime de metas de inflação vigente no Brasil, elevação dos juros internos, contenção do crescimento econômico e adequação das contas externas. A variável de ajuste seria o crescimento econômico.

A economia brasileira dispõe do fôlego que lhe propiciam suas volumosas reservas externas atuais. Depois que parcela significativa delas tiver sido utilizada, o crescimento econômico será contido, não interessando quão dinâmico seja atualmente seu mercado interno.

Os limites do crescimento econômico embasado no mercado interno

Compartilhe

Um fundo soberano brasileiro

Por:

Edição: Ano 17 nº 02 - 2008

Área temática:

Assunto(s): , , , , , ,

Os fundos soberanos, também conhecidos como Sovereign Wealth Funds (SWFs) ou Fundos de Riqueza Soberana, surgiram a partir de uma situação em que as reservas internacionais de alguns países ultrapassaram o volume considerado necessário e suficiente para que estes enfrentassem emergências e choques financeiros externos. São, pois, um patrimônio em moeda estrangeira, em geral aplicado fora do país. Administrados por organismo estatal, geralmente são utilizados no apoio à produção nacional ou em projetos internacionais de interesse do governo. Com a intensificação da acumulação de reservas internacionais por parte dos países emergentes, houve uma expansão desse tipo de fundo, contribuindo ainda mais para o aumento da liquidez internacional. Os SWFs não só se multiplicaram como ficaram mais agressivos e diversificaram sua carteira de investimentos, deixando de comprar apenas títulos governamentais de países desenvolvidos e passando a canalizar seus recursos para opções mais rentáveis, como a compra de imóveis, de ouro e de ações de grandes companhias, etc.

No caso brasileiro, como as reservas têm sua destinação prevista em lei e devem ser aplicadas em títulos seguros, de risco próximo a zero e, por isso, com baixa remuneração — como é o caso dos papéis emitidos pelo Tesouro norte-americano —, o dinheiro para o fundo viria de captações no exterior por meio de emissões de títulos do Tesouro Nacional e seria usado para financiar empresas brasileiras no exterior ou para comprar títulos (debêntures) de empresas estrangeiras de primeira linha, isto é, bem administradas e rentáveis.

Mesmo que fosse possível utilizar as reservas via mudança na legislação, essas ainda seriam insuficientes para cobrir os compromissos da dívida externa, e, se fossem utilizadas em aplicações de maior risco e menor liquidez, o Risco-País poderia disparar, elevando o custo de captação externa. Enquanto, em setembro de 2007, a dívida externa acrescida dos empréstimos intercompanhia era de US$ 238 bilhões, as reservas atingiam US$ 163 bilhões, representando 68% da dívida. Esse não é o caso dos países emergentes que possuem fundos soberanos e cujas reservas ultrapassam o valor de sua dívida externa. A China, por exemplo, tem reservas de US$ 1,3 trilhão e uma dívida externa estimada em US$ 300 bilhões.

Ainda que o Tesouro fosse o encarregado de captar os recursos, estaria subtraindo-os das reservas, já que estas deixariam de aumentar. Além disso, se, para adquirir esses dólares, o Tesouro tivesse de emitir títulos públicos no exterior, a dívida externa pública cresceria na mesma proporção, o que exigiria também a compra de mais reservas, para que a equivalência entre estas e a dívida se mantivesse. E, caso o Tesouro resolvesse comprar os dólares provenientes das exportações ou dos investimentos estrangeiros aqui realizados, precisaria de recursos orçamentários para fazê-lo, o que também é problemático.

Desse modo, embora importante e necessária, a criação de um fundo soberano pelo Brasil, no momento, parece prematura e só deveria ocorrer quando a relação reservas/dívida externa fosse bem maior do que a unidade.

Um fundo soberano brasileiro

Compartilhe