Textos com assunto: Fatos Estilizados

Ciclos na economia gaúcha: em busca de fatos estilizados

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Edição: Ano 27 nº 02 – 2018

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O ano de 2017 trouxe boas notícias para a economia brasileira. Em 30 de outubro, o Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos (Codace-IBRE-FGV) anunciou que a recessão nacional iniciada no segundo trimestre de 2014 tivera fim no último trimestre de 2016. Com duração de 11 trimestres, a última recessão foi a mais duradoura desde a redemocratização, juntamente com a de 1989-92. Apesar de não haver, formalmente, uma cronologia dos ciclos na economia gaúcha, é provável que a recessão no Rio Grande do Sul tenha apresentado duração similar, dado que as taxas de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) estadual (trimestre sobre mesmo trimestre do ano anterior) tornaram-se negativas a partir do segundo trimestre de 2014 e deixaram de sê-lo após o quarto trimestre de 2016, juntamente com as do Brasil. As recessões, contudo, não são todas iguais, assim como os períodos de crescimento econômico. Os diferentes setores possuem idiossincrasias que acentuam ou atenuam os distintos períodos cíclicos da economia gaúcha. Por exemplo, em 2012, o baque provocado pela seca no setor agropecuário trouxe consequências para o restante da economia regional. Diante disso, perguntas como “qual é o componente mais volátil no ciclo do PIB?” ou “qual deles tem maior correlação com o produto agregado?” merecem ser respondidas.

Existem diferentes maneiras de estudar os ciclos econômicos, por exemplo, entendendo-os como desvios em torno de uma tendência de crescimento de longo prazo, que se modifica lentamente no tempo. Como não é possível observar diretamente esses ciclos, os economistas costumam valer-se de uma gama de técnicas estatísticas para estimá-los, sendo uma das mais tradicionais o chamado “filtro HP”. Esse filtro foi aplicado nas séries históricas trimestrais do Rio Grande do Sul com ajuste sazonal do índice de volume do Valor Adicionado Bruto (VAB) da agropecuária, da indústria e dos serviços, bem como nas de VAB total, impostos e PIB, para isolarmos o respectivo componente cíclico de cada um desses indicadores. O período de análise vai do 1.° trim./2002 ao 3.° trim./2017. Os ciclos obtidos através desse procedimento podem ser visualizados na Figura 1.

Computando algumas estatísticas simples, como desvio-padrão e coeficiente de correlação das estimativas supracitadas — disponíveis no Quadro 1 — é possível iniciar a busca por “fatos estilizados” dos ciclos econômicos no Rio Grande do Sul. Em primeiro lugar, a agropecuária é aquela que apresenta ciclos com maior volatilidade dentre as três principais atividades da economia: cinco vezes a dos ciclos do PIB. Dada a maior exposição a choques climáticos, os quais causam grandes oscilações na produção agrícola, podem ser observadas também variações bruscas no volume de produção da atividade. No período sob análise, as secas de 2004-05 e 2012 ilustram o argumento: na primeira, houve um desvio de até 49% em relação à tendência de longo prazo, enquanto, na segunda, o descolamento em relação à tendência chegou a 63%. Por outro lado, o setor de serviços — composto pelas atividades de comércio, transporte, serviços de informação, financeiro, administração pública e outros serviços — é o que apresenta ciclos mais estáveis. Uma hipótese que permite explicar esse resultado é a de que as famílias podem proteger-se das variações de renda, poupando uma maior parte dela em tempos de bonança ou mesmo tomando empréstimos para financiar seus gastos durante períodos de desemprego, o que resulta em maior estabilidade do consumo. Como boa parte do comércio — componente de maior peso nos serviços gaúchos — refere-se ao comércio varejista, que, em última instância, atende ao consumo das famílias, a estabilidade no consumo reflete-se em maior estabilidade nos ciclos do comércio e, dessa forma, dos serviços. Além disso, as atividades de outros serviços — que incluem atividades artísticas, serviços de manutenção de computadores, educação e saúde mercantil, serviços de alimentação, dentre outros — e de administração e serviços de educação e saúde públicas tendem a apresentar poucas flutuações.

Um segundo grupo de “fatos estilizados” pode ser explorado observando-se as correlações entre os diferentes componentes do produto agregado gaúcho. Os ciclos do PIB, por exemplo, estão mais correlacionados com os ciclos na atividade industrial do que nas demais, reforçando a ideia de que a indústria é um setor-chave para compreender o timing das flutuações da atividade econômica agregada do Estado, e vice-versa. Ademais, há também uma maior correlação entre as flutuações na arrecadação de impostos e os movimentos cíclicos da indústria do que no restante das séries analisadas. Por outro lado, os ciclos, tanto no setor de serviços, devido ao seu peso, quanto no setor agropecuário, por sua integração com a indústria local, apresentam também alta correlação com o PIB, não devendo ser ignorados em análises conjunturais, sobretudo em momentos de inflexão na atividade econômica.

Em suma, para compreender a dinâmica da economia regional, as interações entre seus diferentes setores, as fontes e as consequências de suas flutuações cíclicas não bastam apenas conjecturas, é preciso olhar os fatos. Diante disso, o texto buscou identificar alguns possíveis “fatos estilizados” da economia regional. A robustez desses fatos, contudo, precisa ser confirmada ainda em estudos vindouros. Ademais, conforme a economia e a própria sociedade se transformam, é preciso também estar atento a que novos fatos venham a suprimir os anteriores no caso de quebras estruturais nas séries. Como observou certa vez o prêmio Nobel de economia, Paul Samuelson, “[…] quando os eventos mudam, eu mudo de opinião. O que você faz?”.

 

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