Textos com assunto: Exportações

A importância do monitoramento do cenário global para o Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 26 nº 6 – 2017

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Em que pesem as opiniões divergentes sobre o papel do Estado como ator executor e difusor de análises sistêmicas sobre as várias dimensões do cenário global, a importância do setor externo na economia gaúcha, por si só, evidencia a relevância de estudos dessa natureza. Os impactos políticos e econômicos da dinâmica do cenário internacional sobre o Brasil e o Rio Grande do Sul são notórios. Diante disso, faz-se necessário o acompanhamento continuado das várias dimensões do processo de globalização em que toda a sociedade está inserido. Dada a expressiva participação das exportações gaúchas no Produto Interno Bruto (PIB) do Estado, assume-se, com certo grau de segurança, que o monitoramento contínuo das conjunturas domésticas e externas dos principais países compradores dos produtos gaúchos seja uma tarefa de extrema relevância para o Governo do Estado. A observação continuada da cena internacional objetiva, também, assessorar o poder público na formulação de políticas que visem ao enfrentamento de desafios transnacionais de nossos tempos, como o terrorismo, os fluxos migratórios globais e o extremismo político.

Essa interdependência dos cenários político e econômico internacionais atua como variável determinante sobre os efeitos multiplicadores decorrentes do desempenho das empresas exportadoras gaúchas distribuídas em vários municípios do Estado. É o caso, por exemplo, do impacto do embargo russo às exportações da União Europeia, Estados Unidos e Canadá, em 2014, em virtude do conflito geopolítico envolvendo Rússia e Ucrânia. Naquele contexto, as exportações gaúchas de carne suína para a Rússia apresentaram uma elevação de 30%, em valor, em 2015.

Assim, no que diz respeito ao Estado do Rio Grande do Sul, o olhar atento à dinâmica internacional deve ser percebida como prioridade, haja vista os graus de vulnerabilidade e sensibilidade entre diversos setores da economia do Estado com o setor externo. Essa atenção deve ser reforçada principalmente no que diz respeito aos principais setores econômicos do Estado e seus principais mercados. Os dados da FEE referentes ao comportamento das exportações no primeiro trimestre de 2017 mostram algo que já é de amplo conhecimento: a soja é o principal produto da pauta exportadora do Estado, e a China, o principal parceiro comercial do Rio Grande do Sul. Em seguida, na segunda posição, tem-se a Argentina e, na sequência, os Estados Unidos. Esses mercados evidenciam a importância do complexo soja, o automobilístico, o petroquímico e o metalmecânico.

O Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços divulga, de forma regular, o valor das exportações por estado da federação e por municípios. O valor por estado considera o valor daquilo que foi efetivamente exportado, produzido, extraído e cultivado em um estado, não importando a localização da sede da empresa. Já o valor das exportações por município leva em consideração, somente, o domicílio fiscal (sede) da empresa. Os dados do quadro abaixo mostram a distribuição por domicílio fiscal e por faixa de valor das empresas exportadoras gaúchas no ano de 2016. Na maior parte das ocorrências, o domicílio fiscal da empresa é o mesmo onde se dá a atividade exportadora. Por outro lado, há exemplos como o de Porto Alegre, em que a atividade exportadora de algumas empresas não se dá no município.

As principais empresas exportadoras com domicílio fiscal no Rio Grande do Sul, em 2016, que exportaram valores acima de US$ 100 milhões, foram: Agco e Petrobrás (Canoas), Tramontina (Carlos Barbosa), Marcopolo (Caxias do Sul), Louis Dreyfus (Cruz Alta), Epcos e GM (Gravataí), Celulose Riograndense (Guaíba), JBS (Montenegro), Amaggi, Bsbios, Cofco Brasil e JBS (Passo Fundo), 4 ADM do Brasil, Cargil, Engelhart CTP e Nidera Sementes (Porto Alegre), Bianchini, BRF S.A., Bunge, Ecovix e Gavilon do Brasil (Rio Grande), Forjas Taurus e Stihl (São Leopoldo), Brasken (Triunfo), China Brasil e CTA Continental (Venâncio Aires), JTI, Souza Cruz e Universal Leaf (Santa Cruz).

Independentemente da faixa de valor em que as empresas exportadoras gaúchas se encontram, o fato é que ao se desagregarem os dados das relações econômicas do Estado com o setor externo, é possível mensurar os efeitos da dinâmica global sobre cada um dos municípios gaúchos em termos de geração de emprego, renda e demanda por serviços públicos nas áreas de educação, saúde pública e assistência social. Assim, levando-se em consideração o valor total das exportações gaúchas de US$ 16,57 bilhões para o ano de 2016, reforça-se a importância e necessidade do monitoramento dos mercados externos das empresas exportadoras no sentido de antecipar o impacto das oscilações externas sobre os efeitos de transbordamento da atividade dessas firmas no dia-a-dia de cada um dos municípios gaúchos em que elas estão estabelecidas. O monitoramento dos cenários globais consolida-se como tarefa imprescindível não só para as empresas, mas também para o Estado do Rio Grande do Sul.

 

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A evolução do Índice de Rentabilidade das Exportações Gaúchas no período 2008-16

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Edição: Ano 26 nº 4 – 2017

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A Fundação de Economia e Estatística lançou, no dia 15 de março, um novo indicador: o Índice de Rentabilidade das Exportações Gaúchas (IREG), cujo objetivo é acompanhar mensalmente a evolução das rentabilidades total e setorial advindas da atividade exportadora do Estado ao longo do tempo. Tal acompanhamento contribui tanto para o setor governamental, auxiliando no direcionamento e na avaliação de políticas públicas voltadas ao setor produtivo, quanto para o empresarial, na medida em que permite entender, com maior precisão, a opção de uma empresa direcionar a sua produção para o exterior ou para o mercado doméstico ou, ainda, sua decisão de realizar, ou não, investimentos voltados à exportação. Logo, o IREG contribui para a avaliação da dinâmica da atividade produtiva exportadora do Rio Grande do Sul, indicando a direção e a margem de ganho de tal atividade. Ademais, o IREG é baseado no indicador nacional de rentabilidade das exportações, da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), e é o único existente em âmbito estadual.

O IREG resulta da relação entre três dos principais determinantes da rentabilidade exportadora, quais sejam o preço de exportação, a taxa de câmbio e os custos de produção. O diferencial do índice de rentabilidade é calcular, explicitamente, os custos de produção para as atividades econômicas que produzem bens tradables, ou seja, bens exportáveis, os quais só podem ser calculados a partir de uma matriz de insumo-produto (MIP). No caso, foi utilizada a matriz mais atual do Rio Grande do Sul — referência 2008, calculada pela Fundação de Economia e Estatística (FEE). Além da MIP-RS 2008, outra ferramenta de grande relevância para o cálculo do IREG foi o Sistema de Exportações FEE (SisExp), que fornece, nesse caso, os preços de exportação.

Quanto aos dados, a série anualizada do IREG aponta três períodos bastante definidos: o primeiro, de redução da rentabilidade, deu-se entre 2008 e 2011; o segundo, de crescimento, ocorreu de 2012 a 2015; e o terceiro, de forte recuo da rentabilidade exportadora gaúcha, evidenciou-se em 2016.

O primeiro período foi marcado pela forte apreciação do real em relação ao dólar e pela elevação dos preços de exportação e dos custos de produção, desconsiderando os efeitos adversos da crise financeira internacional de 2008/2009. Nesse momento, os preços dos bens exportados pelo RS ainda mostravam-se elevados, sob o efeito do boom das commodities, o qual também contribuiu para a apreciação do câmbio.

Já no segundo período, a rentabilidade das exportações gaúchas cresceu ano após ano, até atingir o seu valor máximo em 2015, mesmo esse sendo um ano marcado pelas recessões brasileira e gaúcha, caracterizadas pela piora de praticamente todos os indicadores econômicos e sociais. Nesse período, a taxa de câmbio passou a se depreciar continuamente a partir do segundo semestre de 2011 (e, com maior intensidade, em meados de 2014), enquanto os custos de produção continuavam o seu comportamento altista, e os preços de exportação se mantinham praticamente estáveis até o primeiro semestre de 2014. Desse momento em diante, na esteira do fim do boom das commodities, os preços despencaram no mercado internacional. Mesmo assim, o câmbio mais que compensou os efeitos negativos dos demais componentes: enquanto a taxa de câmbio média, em 2011, fechou a R$/US$ 1,67, ela alcançou R$/US$ 3,33 em 2015.

A rentabilidade, por sua vez, recuou, em 2016, 9,9% em relação a 2015, pois o câmbio, mesmo com a depreciação de 4,8%, não foi capaz de neutralizar os efeitos adversos tanto da retração dos preços dos bens exportados (-5,3%) quanto do crescimento dos custos de produção (mais 10,5%). Com relação aos dados setoriais, todas as atividades, com exceção de apenas quatro (agricultura, produtos do fumo, outros equipamentos de transporte e pecuária e pesca), registraram variações negativas nos seus preços; por outro lado, os custos de todas as atividades econômicas apresentaram elevação. Na mesma comparação, foram registrados o maior recuo anual da rentabilidade e o maior aumento dos custos em toda a série.

Por fim, cabe destacar que a abertura setorial do IREG permite acompanhar as diferenças de trajetórias entre as atividades econômicas que o índice total não revela. Enquanto 2011 foi o ano em que o IREG total registrou o seu valor mínimo, ele também foi mínimo apenas para 12 das 25 atividades econômicas calculadas. Por outro lado, enquanto 2015 foi o ano com rentabilidade máxima no Estado, ela também foi máxima apenas para 11 atividades. Dessa forma, fica visível a relevância de se acompanhar os dados setoriais para um maior entendimento da realidade exportadora do RS, na medida em que ficam evidenciadas grandes diferenças na evolução da rentabilidade de cada atividade em resposta às diferenças no desempenho dos preços de exportação e nas estruturas de custo que impactam, de formas diferenciadas, a rentabilidade de cada atividade.

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O desempenho exportador do Rio Grande do Sul em 2016

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Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

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Em 2016, as exportações gaúchas totalizaram US$ 16,578 bilhões, uma redução de US$ 939,9 milhões (-5,4%) em relação a 2015. A retração das receitas ocorreu a despeito do crescimento de 2,5% nos preços médios dos produtos exportados, sendo ocasionada pela queda de 7,6% no volume embarcado ao exterior. Enquanto o valor auferido em 2016 alcançou o menor patamar desde 2010 e registrou o terceiro ano consecutivo de queda, o volume embarcado (21,674 milhões de toneladas) foi o segundo maior da história, atrás apenas do de 2015. Já os preços médios dos produtos exportados voltaram a crescer após dois anos de fortes quedas. O resultado coloca o Estado como o quarto maior exportador nacional (8,9%), atrás de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Os determinantes que contribuem para explicar esses resultados são de ordem tanto estrutural quanto conjuntural, passando por questões externas e internas. No plano externo e estrutural, o ano de 2016 caracterizou-se pelo menor crescimento do comércio e da atividade econômica globais, além do recrudescimento de práticas protecionistas ao redor do mundo. Ainda sem os dados consolidados, 2016 deve ser o ano com o ritmo mais lento de crescimento do comércio mundial desde o auge da crise financeira internacional, em 2009. Adicionalmente, a taxa de crescimento do comércio, que evoluiu o dobro da taxa do PIB mundial desde os anos 80 até a crise financeira, desacelerou-se pela metade no período recente, com possibilidade de crescer menos que o produto em 2016, algo que não ocorre há mais de uma década.

Soma-se, no plano externo, a dinâmica dos preços das commodities. Após o forte arrefecimento desses preços a partir do final de 2012 e com maior intensidade desde o final de 2014, os preços em dólar dos produtos exportados pelo Rio Grande do Sul iniciaram uma recuperação gradual ao longo de 2016. Esse movimento foi influenciado pela recuperação, mesmo que incipiente, dos preços dos produtos básicos, na esteira da recuperação pontual dos preços internacionais de algumas commodities importantes para o Estado, como a soja em grão e o fumo em folhas.

No que tange ao plano interno, o destaque positivo de 2016, na comparação com 2015, foram as vendas de celulose, com crescimento de 789.000 toneladas e recorde de volume embarcado para a China — principal destino da celulose gaúcha — e outros 18 países. A explicação para o referido crescimento é a quadruplicação da capacidade produtiva da planta em Guaíba e a base de comparação ainda baixa. Outros dois produtos de destaque foram as vendas de calçados e de automóveis de passageiros. As vendas de calçados cresceram 18% em valor e 42% em volume (8,227 milhões de pares vendidos a mais do que em 2015), influenciadas pelo aumento da rentabilidade do setor no ano, da contração do mercado interno e do aumento na participação em feiras internacionais. Foram registrados crescimentos nos embarques para a Argentina (mais 1,713 milhão de pares), Estados Unidos (mais 1,590 milhão de pares) — os dois mais tradicionais destinos dos calçados gaúchos — e para outros 100 países. Já as vendas de automóveis cresceram 46% em valor e 47% em volume, influenciadas também pela contração do mercado interno e do estabelecimento de novos acordos automotivos a partir de 2015, com o consequente crescimento das exportações para a Colômbia e início para o Chile (mais 3.000 unidades cada), além da forte retomada das encomendas da Argentina (mais 7.000 unidades).

Por outro lado, os produtos que mais contribuíram negativamente para o resultado geral das exportações gaúchas foram a soja em grão, o trigo e o arroz. A produção da oleaginosa cresceu 3,2%, mas as exportações recuaram 10,6% em volume (retração de 1,125 milhão de toneladas), um fato atípico na medida em que grande parte do grão produzido pelo Estado se volta à exportação. Ademais, até o primeiro semestre, as vendas externas de soja alcançaram o recorde de toda a série histórica. Contudo fatores como concorrência antecipada atípica da safra norte-americana, frustração da produção brasileira e a estratégia de segurar os estoques para alcançar maiores preços tanto pela valorização no mercado internacional quanto pela variação cambial contribuem na explicação desse desempenho aparentemente paradoxal (FEIX, 2017). Já o recuo nas vendas de trigo (70,7% em valor e 64,9% em volume) se deu pela boa qualidade na produção dos grãos, que cresceu 82,5%. Com tal qualidade, os grãos voltam-se ao abastecimento do mercado interno, diferentemente do que ocorre quando os grãos não atingem a qualidade mínima exigível e são vendidos ao exterior. Já a retração das vendas de arroz (-30,0% em valor e -27,8% em volume) foi ocasionada pela quebra de safra por conta do excesso de chuva.

Mesmo com a forte retração nas vendas de soja em grão, a oleaginosa continua sendo o produto mais vendido pelo Rio Grande do Sul (22,8% da pauta exportadora). Os demais principais produtos exportados foram: fumo em folhas (9,6%), carne de frango (6,3%), polímeros plásticos (6,1%) e farelo de soja (5,3%). A venda desses cinco produtos representou metade de toda a receita exportadora gaúcha. Em relação aos principais mercados de destino, China (26,1%), Argentina (7,9%), Estados Unidos (7,4%), Holanda (3,7%) e Bélgica (3,0%) foram os que mais compraram produtos gaúchos, com esses dois últimos países servindo de porta de entrada das mercadorias gaúchas para a União Europeia como um todo. Já a maior variação positiva de valor foi observada para o Irã (mais US$ 251,9 milhões), após a suspensão das sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) contra o país; e a maior variação negativa foi registrada para a China (menos US$ 540,3 milhões), por conta da venda, em 2015, do casco da plataforma P-67 por US$ 394,2 milhões e do recuo das compras de soja em grãos.

Dessa forma, quando se leva em consideração a conjuntura externa — baixo crescimento do comércio global e deflação nos preços dos produtos —, as exportações gaúchas não foram tão mal em 2016, na medida em que foi registrado o segundo maior volume da história, e os preços voltaram a crescer após dois anos. Contudo elas poderiam ter sido bem melhores caso, por exemplo, as vendas de soja não fossem impactadas negativamente pela tentativa frustrada de capitalização do setor. Essas questões apenas reforçam a necessidade da diversificação da pauta exportadora do Estado com o avanço nas cadeias de valor, bem como da ampliação dos seus mercados de destinos, para que movimentos conjunturais ou estruturais não afetem sobremaneira as receitas e os embarques dos produtos gaúchos destinados ao exterior.

Como citar:

TOREZANI, Tomás Amaral. "O desempenho exportador do Rio Grande do Sul em 2016," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 28 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/o-desempenho-exportador-do-rio-grande-do-sul-em-2016/>.

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Safra recorde, exportações em queda: o desempenho do complexo soja gaúcho em 2016

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

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Na segunda semana de janeiro, a Fundação de Economia e Estatística divulgou informações detalhadas sobre as exportações de mercadorias do agronegócio gaúcho em 2016. As vendas externas do agronegócio somaram US$ 11,0 bilhões, o que equivale a 66% das exportações totais do Rio Grande do Sul no ano passado.
Em termos setoriais, o principal destaque foi o complexo soja, que, além do grão, abrange os dois principais produtos derivados do seu processamento (farelo e óleo). As exportações gaúchas desse setor totalizaram US$ 4,8 bilhões, valor 8,2% inferior ao registrado em 2015. No ano em que a safra gaúcha de soja, pela primeira vez, foi superior à marca de 16 milhões de toneladas, os volumes embarcados para o exterior recuaram 9,9%. Na sequência, são analisados três fatores que podem explicar esse desempenho aparentemente paradoxal observado em 2016.
Um primeiro aspecto a se destacar é o ritmo das vendas externas da safra brasileira. Mesmo com a frustração da produção nacional, nos primeiros meses do ano, os embarques do grão foram intensos, tendo-se registrado crescimento de 37% até o mês de maio. A expansão dos volumes comercializados foi sustentada principalmente pelo escoamento da safra da Região Centro-Oeste, colhida antecipadamente em relação ao Sul e ao Nordeste. A partir de junho, com a contabilização das perdas, sobretudo no Mato Grosso e na região dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (conhecida por Matopiba), os embarques contraíram. Aparentemente, houve um ajuste nas vendas externas para garantir o atendimento da demanda doméstica, criando-se um incentivo à retenção de uma parcela adicional da safra gaúcha.

O segundo fator que constrangeu as exportações gaúchas de soja foi a dimensão da safra dos Estados Unidos, principal produtor mundial da oleaginosa. A colheita da safra norte-americana é iniciada tradicionalmente em setembro, e as exportações intensificam-se nos meses seguintes, até fevereiro. Em 2016, tendo em vista a ocorrência de condições climáticas excepcionalmente favoráveis ao desenvolvimento da cultura, os recordes de produtividade e produção eram dados como certos já no mês de agosto. Essa perspectiva de crescimento da oferta acelerou a comercialização dos estoques de passagem nos Estados Unidos e reduziu a demanda pela produção sul-americana ainda disponível. Pela primeira vez, as exportações norte-americanas, no período imediatamente anterior à entrada da nova safra (meses de julho e agosto), superaram a marca de cinco milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

A aproximação da supersafra, nos Estados Unidos, coincidiu com a queda das cotações internacionais, que haviam atingido o ponto mais alto em junho (média de US$ 420,03/tonelada). Até aquele momento, o crescimento da demanda externa sinalizava preços altamente remuneradores para a venda no Brasil: à valorização de 26% no preço Free on Board (FOB), em Paranaguá, acrescia-se a desvalorização de 10% na taxa de câmbio, comparativamente a junho de 2015. Desde então, além da queda nos preços de exportação, houve valorização da taxa de câmbio — interrompida em novembro —, o que produziu preços internos (em reais) menos favoráveis à exportação. Conformou-se, assim, uma terceira razão para a redução dos embarques gaúchos de soja no segundo semestre. Apenas em dezembro houve uma ligeira recuperação nas vendas, insuficiente para a compensação das quedas dos meses anteriores.

Ainda que uma parcela adicional da safra gaúcha tenha sido destinada ao atendimento do mercado brasileiro, conforme sugerido anteriormente, os estoques de passagem continuam elevados no Estado. Em 2017, a perspectiva de um novo recorde de produção de soja no Rio Grande do Sul aumenta a importância do planejamento pelos atores envolvidos na atividade de comercialização. O IBGE projeta que a safra gaúcha será 1,1% superior à verificada em 2016, isso em um cenário que contempla ainda a recuperação da produção nacional (104,9 milhões de toneladas, alta de 9,6%). Se confirmado esse cenário, e a safra dos demais países sul-americanos não for severamente prejudicada pelo clima — o impacto das chuvas recentes na Argentina ainda precisa ser dimensionado —, projeta-se uma elevação na relação estoque/consumo mundial de soja. Esse seria um fator limitante à recuperação dos preços internacionais do produto no primeiro semestre de 2017. Por óbvio, há outras variáveis que influenciam as cotações e o faturamento dos produtores e dos cerealistas brasileiros, a exemplo da taxa de câmbio e das estratégias de comercialização.

Em termos mais abrangentes, tendo o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul em perspectiva, permanece o desafio de estabelecer condições internas e externas que, no longo prazo, viabilizem a conversão de uma parcela maior da safra de soja e milho em proteína animal. Em outras palavras, isso significa avançar na cadeia de valor, aumentando a participação gaúcha na produção das carnes demandadas pelos países importadores de insumos para a ração animal (a China, por exemplo). Para que isso se torne possível, é fundamental melhorar a infraestrutura logística para a exportação e, sobretudo, garantir à indústria brasileira condições isonômicas em matéria tributária e de acesso a mercados, comparativamente aos principais concorrentes internacionais.

Como citar:

FEIX, Rodrigo Daniel. "Safra recorde, exportações em queda: o desempenho do complexo soja gaúcho em 2016," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 28 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/safra-recorde-exportacoes-em-queda-o-desempenho-do-complexo-soja-gaucho-em-2016/>.

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Recrudescimento do protecionismo global: desafios para o Brasil e para o RS

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Edição: Ano 25 nº 12 – 2016

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A arena política global apresenta elementos que convergem para a construção de um cenário de retração das relações comerciais. Assim, além da saída do Reino Unido da União Europeia, a eleição do republicano Donald Trump para a Presidência dos Estados Unidos consolidou a emergência de forças políticas conservadoras dentro da própria União Europeia que comungam de uma visão mais protecionista em relação a atual conjuntura do comércio internacional.

Segundo dados da Organização Mundial do Comércio (OMC), de 2008 a 2015 as economias do G20 introduziram 1.441 medidas de restrições ao comércio. Ao longo desse período, 354 dessas medidas foram removidas. O número de medidas restritivas em vigor até outubro de 2015 somava um total de 1.087. Embora as economias centrais tenham registrado crescimento econômico no ano de 2015, a desaceleração das economias emergentes no mesmo período, provocada principalmente pela persistente redução dos preços interacionais das commodities em um cenário mais desafiador para a economia chinesa, compromete o processo de retomada do crescimento dos fluxos comerciais globais.

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Nos Estados Unidos, o presidente eleito já afirmou que deixará a Parceria Transpacífica (TPP). O acordo, assinado em outubro 2015, envolve 12 países (Austrália, Canadá, Estados Unidos, México, Japão, Vietnã, Peru, Chile, Nova Zelândia, Singapura, Brunei e Malásia), 800 milhões de pessoas e aproximadamente 40% do PIB mundial. O abandono do acordo que vinha sendo estruturado para aumentar a influência dos norte-americanos na Ásia, ampliar mercados e conter o avanço da China aponta para a consolidação de uma postura mais isolacionista por parte dos Estados Unidos. Outro acordo que pode ser revisto, é o NAFTA, acordo de livre comércio envolvendo Estados Unidos, Canadá e México. Assim, levando-se em consideração o peso da economia norte-americana no cenário mundial, por menor que venha a ser o seu grau de isolamento no comércio internacional, esses encadeamentos podem ser significativos.
Na Europa, o resultado do referendo em favor da saída do Reino Unido da União Europeia (Brexit) evidenciou o crescente descontentamento das pessoas em torno dos processos de integração política e econômica. As graves crises políticas e financeiras na Grécia, na Espanha e, em menor medida, na Itália, somadas ao desafio imposto pelo terrorismo e pela crise migratória na Europa, constituem um cenário de difícil articulação para governos mais ao centro do espectro político.

Dentro desse contexto, as eleições presidenciais francesas que acontecerão em 2017 ganham uma nova dinâmica com os eventos já mencionados, Brexit e eleição de Donald Trump. Em entrevista para uma das principais publicações no mundo sobre política internacional, Foreign Affairs, Jean-Marie Le Pen, do partido Frente Nacional, afirmou que “[…] a globalização incontrolável é uma forma de totalitarismo, imposta a todo custo em uma guerra de todos contra todos em benefício de poucos”. Assim como Trump, Le Pen, por muitos alinhada com o pensamento de extrema direita, posiciona-se contrariamente à Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP), entre Estados Unidos e União Europeia. O TTPI enfrenta forte resistência popular em todo o Bloco. Para Le Pen, no que se refere às lições do Brexit, a candidata avalia que “[…] a França foi muito mais poderosa quando agia de forma independente, sendo França, do que sendo uma província da União Europeia”.

Todos esses eventos somam-se, também, ao complicado cenário político italiano. Após a vitória do “não” no referendo sobre reforma constitucional, ocorrido no último dia 4 de dezembro, proposto pelo Primeiro Ministro Matteo Renzi, este renunciou ao cargo em um contexto de inúmeras incertezas nos campos da política e da economia. Da mesma forma que aconteceu nos Estados Unidos, Reino Unido, França e Itália vêm sendo fortemente influenciados pelo sentimento de descrença em relação às soluções propostas pelos processos integracionistas e pela emergência de argumentos em prol de estratégias nacionalistas.

Para o Governo Temer, que vinha sinalizando, pelo menos em seu discurso, o desejo de incrementar as relações comerciais do Brasil por meio de novos acordos comerciais envolvendo, principalmente, Estados Unidos e União Europeia, o cenário internacional mostra-se incerto. Isso se torna mais preocupante, na medida em que, tradicionalmente, esses dois parceiros atuam agressivamente no sentido de promover as exportações e os investimentos de suas empresas e o Brasil encontra-se em uma situação mais vulnerável, tanto do ponto de vista político quanto econômico, o que compromete seu poder de negociação.

Quanto ao Rio Grande do Sul, que apresentou queda do valor acumulado exportado de US$ 1,36 bilhão entre janeiro a outubro de 2016 (dados da FEE), a concretização do cenário protecionista nos Estados Unidos pode comprometer as exportações de manufaturados e semimanufaturados gaúchos no médio e longo prazo. No que tange aos produtos básicos, a desaceleração chinesa afeta negativamente o agronegócio do Estado. Já no que se refere à Argentina, segundo principal parceiro comercial do Rio Grande do Sul, a crise econômica no país vizinho pode ensejar maiores dificuldades para os exportadores gaúchos.

Como citar:

VALDEZ, Robson Coelho Cardoch. "Recrudescimento do protecionismo global: desafios para o Brasil e para o RS," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 28 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/recrudescimento-do-protecionismo-global-desafios-para-o-brasil-e-para-o-rs/>.

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O que esperar para as exportações gaúchas em 2017?

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Edição: Ano 25 nº 11 – 2016

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O atual cenário recessivo brasileiro enseja diversos questionamentos a respeito das possibilidades e perspectivas de uma possível retomada do crescimento da economia do País, assim como da gaúcha, em 2017. Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem recuando há seis trimestres sucessivos, desde o primeiro de 2015. Já na comparação interanual, a queda vem de nove trimestres consecutivos, acompanhada, há pelo menos seis trimestres sucessivos, por praticamente todos os componentes do produto. No mesmo sentido, o PIB do Rio Grande do Sul registrou quedas em oito dos últimos nove trimestres, desde o segundo de 2014.

Por outro lado, a exceção desse movimento são as exportações de bens e serviços, as quais são o único componente do PIB, pela ótica da demanda, a apresentar contribuição positiva desde 2015. O coeficiente de exportação da indústria de transformação apresentou, em 2015, uma reversão da trajetória de queda observada desde 2006 e mantém uma evolução positiva até o presente momento. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil foi o país, entre as grandes economias, que mais aumentou os embarques no primeiro semestre de 2016, e, embora com receitas menores por conta dos preços mais baixos dos produtos, a quantidade embarcada pelo País em 2016 no acumulado janeiro-outubro é a maior de toda a série histórica pelos dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). Os números do RS, na média, também seguem essa direção.

Recorrendo aos dados de registro fiscal de saídas da Secretaria da Fazenda do RS, é possível identificar três tipos de destinos das vendas gaúchas: para dentro do Estado, para o restante do Brasil e para o exterior. O gráfico abaixo evidencia que 2015 foi o ponto de inflexão das trajetórias crescentes das vendas para o resto do Brasil e das decrescentes para o exterior. A partir do referido período, todavia, as receitas em reais das vendas ao exterior cresceram fortemente. Nesse sentido, a recessão não prejudicou tanto as exportações do Estado, pelo contrário: a retração do mercado nacional, a forte depreciação da taxa de câmbio e uma demanda maior dos principais parceiros comerciais contribuíram para o incremento dos embarques, a rentabilidade dos exportadores e a elevação do número de empresas exportadoras, consolidando o mercado externo como alternativa viável à destinação da produção não vendida internamente. A questão que se impõe neste momento é se essa dinâmica favorável das exportações se manterá, ou não, em 2017.

Primeiramente, é mister compreender as perspectivas de crescimento do produto e do comércio mundiais. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o produto global, que cresceu 3,2% em 2015, tem previsão de crescimento de 3,1% para 2016 e de 3,4% para 2017, crescimentos esses puxados pelos países emergentes, sobretudo pela gradual normalização das condições macroeconômicas em economias que passaram por recessões e pelo aumento do peso dos países de rápido crescimento na economia mundial. Contudo, tal cenário é dependente de alguns fatores atinentes a riscos tanto políticos, tais como as incertezas em relação ao Brexit e a possibilidade de discursos protecionistas se refletirem nas políticas comerciais, quanto econômicos, tais como a estagnação persistente das economias avançadas, o ajustamento da economia chinesa e seus efeitos sobre a economia mundial, além da volatilidade financeira dos países emergentes.

O arrefecimento da demanda global nos últimos anos (em especial do investimento) desempenha um papel importante para explicar o crescimento moderado do comércio. Nesse particular, 2016 deve ser o ano com o ritmo mais lento de crescimento do comércio e do produto mundiais desde o auge da crise financeira internacional, em 2009. O volume do comércio, que cresceu a taxas médias de 2,1% a.a. entre 2012 e 2015, obteve crescimento zero até julho de 2016. A projeção da OMC é de crescimento de 1,7% no final do ano e de algo entre 1,8% e 3,1% em 2017. Adicionalmente, o comércio, que crescia, na média, o dobro da taxa do produto global desde os anos 80 até a crise financeira, desacelerou pela metade e passou a acompanhar a taxa média de crescimento da atividade econômica no período recente, com possibilidade de crescer menos que o produto em 2016, algo inédito há 15 anos. Mesmo com uma possível melhora da demanda externa em 2017, os riscos continuam sendo altos.

Em relação ao principal item da pauta de exportação gaúcha, a soja em grão, a Emater-RS projeta uma redução na produção de 2,1%. Apesar de uma possível retração da quantidade exportada em 2017, o preço do grão vem revertendo a trajetória baixista desde o fim do boom das commodities. De forma mais geral, a intensa retração dos preços dos bens exportados iniciada em meados de 2014 começa a dar sinais de desaceleração, embora incipientes, sobretudo os preços dos produtos básicos, que já registram uma trajetória ascendente desde abril de 2016, no acumulado em 12 meses, no Estado. Nesse tocante, os preços das commodities, que atingiram o seu menor valor no início de 2016 desde o fim do boom, agora exibem certa valorização — em grande parte, pela dinâmica das commodities energéticas. Já a projeção para os preços de produtos relevantes na pauta exportadora do Estado, como os do complexo soja, as carnes e o fumo, é de ligeira redução, embora o cenário ainda seja incerto.

Em relação à produção industrial, o Estado acumula um recuo de 5,2% nos primeiros oito meses do ano, e de 8,8% nos últimos 12 meses. Apesar da desaceleração das quedas, uma retomada sustentada já para 2017 mostra-se difícil, mesmo que exista grande capacidade ociosa na indústria. Ademais, a taxa de câmbio nominal, que vinha em forte depreciação desde o início de 2015 — alcançando R$/US$ 4,04 no final de janeiro de 2016 —, fechou outubro a 3,18. A expectativa do mercado financeiro para 2017, segundo o Relatório Focus, é de uma taxa a 3,33.

Dessa forma, o atual cenário, caracterizado pelo baixo crescimento do comércio e do produto globais e pela elevação de práticas protecionistas, impõe o acirramento da concorrência aos produtos gaúchos no exterior e lança mais desafios para as exportações em 2017. Todavia, por apresentar uma pauta exportadora concentrada em poucos produtos e destinos, uma recuperação de parceiros comerciais relevantes e uma evolução mais favorável dos preços dos bens exportados podem reverter um cenário ainda pior para as vendas externas gaúchas.

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Como citar:

TOREZANI, Tomás Amaral. "O que esperar para as exportações gaúchas em 2017?," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 28 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/o-que-esperar-para-as-exportacoes-gauchas-em-2017/>.

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O embargo agrícola russo e seus efeitos nas exportações gaúchas

Por: e

Edição: Ano 24 nº 11 – 2015

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A Rússia tem sido uma importante parceira no comércio exterior do Rio Grande do Sul, sobretudo como compradora de tabaco e, principalmente, carne suína, produtos que concentram quase a totalidade da pauta para esse país. Apesar de relevante, essa interação tem sido irregular, intercalando momentos de abrupta expansão, assim como de arrefecimento, principalmente devido à imposição de barreiras sanitárias e cotas de importação e à instabilidade econômica do lado russo. Essa irregularidade no comércio é explicada pelas exportações de carne de porco. Dessa forma, a presente análise dará especial atenção a esse produto.

Um dos desdobramentos mais recentes dessa atividade ocorreu em 6 de agosto de 2014, quando, em resposta às sanções impostas por diversos países, o presidente russo, Vladimir V. Putin, assinou um decreto que embarga a importação de bens agrícolas produzidos nos Estados Unidos, no Canadá e em todos os membros da União Europeia — notadamente grandes exportadores agrícolas. A retaliação russa, no momento de sua publicação, criou um potencial de comércio agrícola para os países não atingidos diretamente pelo embargo, inclusive para o Brasil, dada a sua reconhecida competitividade global no setor agrícola.

No entanto, em virtude dos problemas econômicos por que o país eurasiano passa, como a atual recessão e a significativa desvalorização de sua moeda, sobretudo a partir do final de 2014, faz-se o seguinte questionamento geral: como têm-se saído as exportações do Rio Grande do Sul para a Rússia após um ano de vigência do decreto?

A Rússia, tradicionalmente, ocupa uma posição modesta no comércio exterior brasileiro, não obstante o crescimento em termos absolutos em quase toda a primeira década deste século. Porém sua relevância para o Rio Grande do Sul é sensivelmente maior. Atualmente, a Rússia é o 20.° principal destino das exportações brasileiras, ao passo que, para o RS, ela ocupa a sétima posição. Entre janeiro e setembro de 2015, comparando-se com o mesmo período de 2014, enquanto a Rússia teve a quarta maior queda nas exportações brasileiras (-32,8%), no caso gaúcho obteve o quarto melhor desempenho, registrando uma alta em valor de 19,7%.

O segmento que explica grande parte do crescimento das exportações gaúchas para a Federação Russa é o de carne suína, que apresentou uma alta, em valor, superior a 30% no período em análise. Essa informação é particularmente notável, tendo-se em mente que as exportações totais de carne suína produzida no Estado sofreram uma queda de 5%. Isso leva a concluir, em primeiro lugar, que a Rússia aumentou sua participação nas exportações gaúchas de carne suína, e, em segundo lugar, que o aumento das exportações para esse país não foi suficiente para sustentar o nível das exportações do RS nesse setor. Além disso, mesmo com o aumento, em 2015, nas exportações do Estado para a Rússia no setor de suínos, os volumes exportados e a participação da carne suína gaúcha no mercado russo ainda estão longe de recuperar os níveis observados entre 2005 e 2010, período em que se verificou o ápice da relação comercial do RS com a Rússia.

Dado que, em 2015, o valor exportado de carne suína do Estado para a Rússia cresceu substancialmente e as importações totais do mesmo produto pela Rússia caíram no mesmo período, pode-se dizer que o RS obteve vantagem na realocação geográfica dos fluxos comerciais ocasionada pelo decreto. Nesse sentido, observa-se que o Estado conseguiu elevar o valor das suas exportações, diferentemente do desempenho do Brasil nesse período. Uma possível explicação para esse movimento é o número significativamente maior de frigoríficos gaúchos autorizados pelo governo russo a exportar carne suína, comparativamente a outros estados brasileiros.

O avanço das exportações do Estado para a Rússia em 2015 pode parecer tímido, levando-se em consideração os níveis observados entre 2005 e 2010 e o potencial criado pelo decreto. No entanto, pode-se afirmar que o embargo russo evitou não somente uma queda das exportações do Estado para esse país, como também atenuou, mesmo que marginalmente, uma queda maior das exportações totais do RS no ano em questão.

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A balança comercial brasileira em 2013: resultado conjuntural ou estrutural?

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Edição: Ano 23 nº 01 – 2014

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O déficit comercial brasileiro em 2013, que atingiu US$ 5.155 milhões no primeiro trimestre, foi revertido nos meses subsequentes, e o saldo final acabou positivo em US$ 2.561 milhões, uma queda de 87% em relação a 2012. A explicação principal é conjuntural: a queda nas exportações de combustíveis, devido às paradas programadas na produção da Petrobras, e a elevação nas importações do mesmo produto, que foram realizadas em 2012, mas lançadas somente no ano seguinte, devido a mudanças em procedimentos contábeis.

Diante disso, é pertinente questionar se, além desse elemento circunstancial, há algum componente estrutural para explicar a performance da balança comercial brasileira em 2013. Ao estender a análise para os anos anteriores e considerar somente o desempenho dos combustíveis, percebe-se que o saldo foi crescentemente deficitário ao longo do período analisado, mas, em 2013, no acumulado até outubro, elevou-se abruptamente (161%) em relação ao ano anterior.

Ao se desconsiderarem os combustíveis, o saldo comercial até outubro de 2013 permaneceria positivo, com o valor de US$ 19.413 milhões, mas seria o menor valor desde 2005, com uma queda de 60% em relação àquele ano. Se o saldo negativo em combustíveis fosse semelhante ao de 2011, o saldo comercial brasileiro em 2013 seria de US$ 10.253 milhões, o que representaria apenas 34% do resultado total de 2011.

Portanto, constata-se que o resultado comercial decrescente não pode ser explicado somente por fatores conjunturais. O saldo no setor de bens de capital tem apresentado déficits crescentes — em 2013, o déficit seria ainda maior se desconsideradas as “exportações” de plataformas de petróleo no valor de US$ 7.733 milhões.

Não fosse o aspecto conjuntural relacionado aos combustíveis, os aspectos estruturais do setor de bens de capital seriam o centro das preocupações do ponto de vista da sustentabilidade das contas externas, as quais podem significar mais um obstáculo para aumentar a relação investimento/PIB no Brasil.

A balança comercial brasileira em 2013 resultado conjuntural ou estrutural

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A participação da agricultura nas exportações do RS

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Edição: Ano 20 nº 12 - 2011

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No acumulado entre janeiro e outubro de 2011, as exportações da agricultura do Rio Grande do Sul cresceram 78% em valor, comparativamente com o mesmo período de 2010. Tal percentual pode ser dividido entre o crescimento do volume exportado e o dos preços obtidos pelos produtores. Assim, enquanto o volume exportado cresceu 33,7%, os preços variaram de modo similar, crescendo 33,1% no mesmo período.

O principal responsável por tal desempenho foram as exportações de grãos de soja, que alcançaram US$ 2,803 bilhões de dólares no acumulado entre janeiro e outubro de 2011, contra US$ 1,717 bilhão no mesmo período de 2010, um crescimento de 63,2%. Em volume, as exportações de grãos de soja passaram de 4,547 para 5,548 bilhões de quilos. Em consequência, as exportações de grãos de soja passaram a representar 81,5% do valor das exportações da agricultura, tendo um peso importante nas tendências das vendas do setor agropecuário para o exterior.

Já no que se refere ao trigo, segundo produto mais exportado pela agricultura gaúcha, verificou-se um crescimento no valor exportado de 594,3%. O aumento do volume exportado de trigo alcançou 267,8%, e o aumento dos preços foi de 88,8%. Enquanto as exportações do produto, ao longo de 2010, perfizeram um total de US$ 65 milhões, entre janeiro e outubro de 2011, o valor já alcançou US$ 451 milhões. Convém destacar, no entanto, o fato de este ser um ano atípico, devido à quebra de safra do trigo, em 2010 e em 2011, em países do Leste Europeu e na Rússia. Mesmo que tal desempenho não se repita em 2012, a inserção em novos mercados, ainda que temporária, pode criar laços mais permanentes de comércio, de modo a beneficiar a agricultura gaúcha.

Os dados da série histórica (http://www.fee.tche.br/exportacoes/serie-historica/) mostram que as exportações da agricultura, desde 2003, nunca alcançaram uma participação nas vendas do Rio Grande do Sul para o exterior tão elevadas como a atual, perfazendo 21,5% do total (gráfico). Em 2005, devido à quebra de safra da soja, elas representaram 1,67% do total exportado, sendo a menor participação desde 2003. Já em 2009, as exportações da agricultura contribuíram com 14,16% do total exportado, sendo a maior parcela já obtida pelas vendas agrícolas até 2010. Mesmo que ocorra uma redução na velocidade das exportações agrícolas em novembro e dezembro, provavelmente a agricultura fechará 2011 sendo responsável por mais de 20% das vendas de produtos do Rio Grande do Sul, um percentual recorde desde o início da compilação dos dados em 2003.

O aumento, tanto no volume exportado quanto nos preços, tem impactado positivamente a produção de soja e de trigo no Rio Grande do Sul. Entre janeiro e outubro de 2010, a China comprou US$ 1,463 bilhão em grãos de soja, representando 65% do total exportado pelo Rio Grande do Sul para aquele País. Em 2011, a demanda chinesa já chega a US$ 2,274 bilhões, um crescimento de 55,4%, representando 73,26% das exportações gaúchas para a China. Além disso, em 2011, ao contrário dos outros anos, novos destinos surgiram para as exportações de soja. Taiwan aumentou as importações de soja gaúcha em 308,69%, alcançando US$ 192 milhões, bem como a Tailândia, que comprou 65% a mais do que em 2011, totalizando, entre janeiro e outubro, US$ 74 milhões. Não há indicativo de que as vendas do complexo agropecuário da soja irão arrefecer nos próximos anos, sinalizando que a maior participação da agricultura nas exportações gaúchas é um movimento mais estrutural e permanente do que sazonal e temporário.

A participação da agricultura nas exportações do RS

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