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A expansão do crédito às famílias e a estrutura financeira no Brasil

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Edição: Ano 24 nº 01 - 2015

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A expansão do crédito a partir de 2004 foi um dos principais canais que permitiram o crescimento do consumo das famílias, o que, por sua vez, ajudou a fomentar o investimento nos anos seguintes. O processo foi acompanhado por contínua ampliação da massa salarial, mas não evitou o maior endividamento das famílias, que, após partir de um nível baixo internacionalmente, ainda se mantém moderado como proporção do Produto Interno Bruto (PIB). Tal nível de endividamento, por sua vez, resulta em um fluxo de pagamentos em juros e amortização, comprometendo uma parcela da renda familiar.

O gráfico mostra dois indicadores relativos a uma série de países selecionados: endividamento, medido pelo total da dívida das famílias em relação ao PIB; e comprometimento da renda, percentual da renda corrente das famílias destinado ao pagamento do serviço da dívida (juros e amortização). Nota-se que, no Brasil, o endividamento é menor do que nos países desenvolvidos, bem como na média dos demais. Contudo o comprometimento da renda é superior, principalmente quando relativizado pelo tamanho da dívida, o que incita a se questionarem as causas e consequências de tal perfil.

No País, o endividamento encontra-se em 21% do PIB. Se medido em relação à renda das famílias acumulada em 12 meses, esse número chegou a 46% em outubro de 2014. Já o serviço da dívida consome 22% da renda mensal das famílias. O endividamento é modesto, quando comparado ao que prevalece em outros países. Contudo, ao se analisarem outros atributos, percebe-se que há uma diferença qualitativa no endividamento, representada por duas características do endividamento familiar brasileiro: (a) a parcela do serviço da dívida comprometida com o pagamento de juros, desconsiderando-se a amortização, é excessivamente maior; e (b) o prazo médio da dívida demasiadamente curto eleva o comprometimento da renda corrente.

A concentração do endividamento em linhas de curto prazo, como cheque especial e cartão de crédito, eleva o peso dos juros no serviço da dívida. Além disso, a predominante utilização de taxas de juros pós-fixadas nessas linhas aumenta o impacto de variações na taxa básica e no spread bancário sobre o comprometimento da renda.

Nesse sentido, um eventual novo ciclo de expansão do consumo, baseado no crédito, assim como a sua sustentabilidade, passaria, necessariamente, pela revisão dos termos nos quais esse endividamento ocorre.

A experiência recente do Banco Central do Brasil (BCB) e dos bancos públicos demonstra que não será fácil mudar esses padrões. Dois momentos revelam a rigidez da estrutura sobre a qual se assenta o Sistema Financeiro Nacional: (a) a tentativa do BCB de reduzir a taxa básica de juros foi abandonada e revertida assim que a inflação se aproximou do topo da meta; e (b) a tentativa de reduzir o spread bancário utilizando os bancos públicos encontrou forte resistência nos bancos privados, que acabaram por assumir uma perda no market share, em vez de reduzir suas margens.

A alteração dessa estrutura resulta difícil, devido ao seu enraizamento no comportamento tanto das instituições financeiras quanto das famílias. Se a tentativa não surtiu efeitos duradouros, pode-se indicar que não é no futuro próximo que ocorrerá alguma mudança. É difícil projetar-se qualquer alteração, tendo em vista a perspectiva de manutenção da taxa básica em níveis altos e a já anunciada gradual diminuição dos empréstimos oriundos nos bancos públicos. Ao que tudo indica, as instituições financeiras continuarão buscando a rentabilidade com baixa exposição ao risco de crédito. De outro lado, a expansão do crédito deve seguir o passo lento da expansão da renda. A exceção constitui-se no crédito imobiliário, cujo comportamento tem-se mostrado diferente dos demais, devido tanto às políticas específicas para habitação quanto às características particulares de prazos longos e de juros baixos, o que dilui o serviço da dívida e torna menor o impacto sobre o comprometimento da renda.

Em suma, a expansão do crédito ocorrida a partir de 2004 foi um fenômeno único, que possibilitou o ingresso de diversas famílias no sistema financeiro. A partir desse momento, qualquer expansão tende a ser lenta e gradual, a fim de manter a sustentabilidade tanto das famílias quanto das instituições financeiras. Além disso, para que a expansão do crédito se reverta em maior atividade econômica, e não apenas na transferência de renda das famílias para as instituições financeiras, na forma de juros e encargos, uma mudança sustentada nas condições e na qualidade dos empréstimos tomados torna-se cada vez mais necessária.

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Consequências preocupantes da expansão acelerada da soja

Por: e

Edição: Ano 23 nº 11 - 2014

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Atualmente, a soja (apenas em grão e triturada) representa o principal item das exportações brasileiras, tendo contribuído com US$ 22,7 bilhões no acumulado de janeiro a setembro de 2014. Esse valor corresponde a 13,11% do total das vendas externas, segundo a Secretaria de Comércio Exterior, do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

Entre 1990 e 2012, a produção média anual desse grão registrou uma expansão de 6,35%, aumentando de cerca de 20 milhões de toneladas em 1990 para quase 66 milhões de toneladas em 2012, segundo a pesquisa Produção Agrícola Municipal (PAM), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) prevê um crescimento ainda mais intenso, projetando, para a safra 2014/2015, resultados entre 88 milhões e 92 milhões de toneladas.

Esse crescimento se deve, principalmente, à ampliação da área plantada, ainda que os incrementos da produtividade por hectare não sejam desprezíveis. Tal desempenho concentrou-se, sobretudo, na região compreendida entre o sul dos Estados do Piauí e do Maranhão, o norte de Tocantins e o oeste da Bahia, conhecida como Mapitoba ou Matopiba. Essa região, em 1990, respondia por 1,30% da produção nacional, segundo dados da PAM. O Levantamento Sistemático de Produção Agrícola, com dados de setembro de 2014, já apresenta 10,06% de participação da mesma na produção nacional. Essa nova regionalização foi possível graças ao desenvolvimento de novas variedades, o que permitiu sua produção em regiões de condições edafoclimáticas distintas do clima temperado, original desse grão.

Quanto à produtividade, desde meados da primeira década deste século, a produção por hectare dessa região vem sendo superior à média nacional. Na média nacional, no entanto, o incremento da produção está mais correlacionado com a expansão da área plantada do que com os aumentos da produtividade por hectare colhido. Os dados da PAM mostram um crescimento médio anual da área destinada à lavoura de soja de 3,96 % entre 1990 e 2012, enquanto a produtividade apresentou um crescimento médio de 2,45% ao ano. Segundo o IBGE, o Brasil incorporou 17 milhões de hectares à área plantada de lavouras temporárias entre 1990 e 2012. Desse montante, 79% do total de novas áreas foram destinados ao cultivo dessa oleaginosa líder nas exportações. Os dados recentemente divulgados pela Conab estimam que a área plantada de soja, na safra 2013/2014, foi superior a 30 milhões de hectares, ou seja, aproximadamente, 3,5% do território brasileiro.

Entretanto essa expansão implicou diversos problemas nas áreas social e ambiental. De acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o crescimento médio anual do número de conflitos no campo foi de 7,64% entre 1990 e 2013. A tendência de incremento dos conflitos fundiários coincide com a incorporação de terras destinadas ao plantio de soja e de outros monocultivos extensivos à fronteira agrícola brasileira. De fato, a ocupação desses territórios para o cultivo da soja pressiona as reservas florestais, bem como as áreas destinadas à agricultura de pequeno porte e à extração vegetal, ocupadas por agricultores familiares, povos indígenas e outros povos tradicionais.

Às questões fundiárias somam-se outros efeitos decorrentes da especialização produtiva na soja, tais como a diminuição da biodiversidade, o desmatamento, a contaminação por agroquímicos do ambiente e das populações rurais, a excessiva dependência das exportações de um produto com reduzido valor agregado a jusante na cadeia agroindustrial, a elevação do custo dos alimentos atribuída ao uso das terras agricultáveis para a produção de commodities agrícolas e o reduzido nível de emprego na produção da soja.

A demanda mundial por soja crescerá no próximo período, se confirmada a projeção de consumo do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) para a safra 2014/2015, de 284,3 milhões de toneladas, representando uma elevação de 5% relativamente à safra anterior. O USDA também estima que o Brasil continue como o maior exportador mundial do grão, com 46,7 milhões de toneladas exportadas em 2014-15, e como o segundo maior produtor mundial, atrás apenas dos EUA. Dessa forma, vislumbram-se enormes desafios para a administração dos problemas apontados, que crescem com a expansão da produção e da área plantada de soja. O sucesso econômico do agronegócio exportador é indiscutível, resta saber como administrar os efeitos nefastos dessa expansão.

drope6

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