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A nova política dos EUA para a América Latina

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Edição: Ano 25 nº 05 – 2016

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Em 21 e 22 de março de 2016, o Presidente Barack Obama realizou uma visita a Cuba, a primeira de um chefe de Estado norte-americano após quase 90 anos, e, nos dois dias seguintes, à Argentina. De acordo com o discurso oficial da Casa Branca, a viagem a Cuba visou à “normalização das relações”, ao “avanço dos laços comerciais e entre os povos”, e ao “apoio aos direitos humanos”. No caso argentino, o intuito foi de “[…] aumentar a cooperação em diversas áreas, incluindo comércio e investimentos, energia renovável e mudança climática e segurança cidadã”.

Além dos aspectos simbólicos, amplamente difundidos na imprensa e nos discursos oficiais, cabe compreender o significado político dessas atividades do Governo norte-americano na América Latina e explorar possíveis desdobramentos para o Brasil. Entende-se que essas visitas evidenciam uma releitura da forma pela qual o Governo norte-americano busca inserir-se no Hemisfério Ocidental, sobretudo durante o segundo mandato presidencial de Obama (2013-16), que tem registrado algumas diferenças significativas em relação aos períodos anteriores, inclusive a seu primeiro mandato (2009-12).

Até o final do primeiro mandato de Obama, tinha-se a imagem de que os EUA se encontravam em um lento e paulatino processo de perda de influência na América Latina, ao mesmo tempo em que outros atores globais pareciam avançar, sobretudo a China, que se havia tornado a principal parceira comercial para muitos países (Brasil, Chile, Peru, entre outros), ou ainda, uma relevante fonte de investimentos (sobretudo para a Argentina). Em 2011, após a primeira viagem de Obama pela América Latina, passando pelo Rio de Janeiro e por Brasília, a maior parte dos analistas concordava que a iniciativa não lograra resultados significativos para as relações regionais. No ano seguinte, durante o VI Encontro das Américas em Cartagena (Colômbia), muitos líderes latino-americanos não escondiam sua insatisfação com a continuidade do embargo econômico a Cuba e com a promoção da guerra às drogas. Ademais, a Venezuela encontrava-se em seu apogeu na oposição a Washington, graças, em boa medida, aos altos níveis do preço do petróleo no mercado internacional, sua principal fonte de divisas externas.

Desde o princípio do segundo mandato de Obama, os EUA passaram a atuar com maior ênfase em recursos de soft power, inclusive reconhecendo erros e excessos cometidos no passado, mas sem modificar a grande estratégia de buscar aumentar sua influência na região. Em um discurso ainda no primeiro ano como Secretário de Estado, John Kerry, por ocasião da abertura da Organização dos Estados Americanos, bradou que “a era da Doutrina Monroe acabou”, isto é, que os Estados Unidos cessariam de “intervir nos assuntos internos dos países americanos”, os quais passariam, sob a nova orientação, a “[…] verem-se como iguais, que compartilham responsabilidades, cooperam em temas de segurança e aderem não a doutrinas, mas a decisões que são tomadas entre parceiros”. Essa mudança tática, contudo, não significou uma reviravolta nas posições políticas de Washington: incisiva oposição aos governos de Hugo Chávez e de Nicolás Maduro na Venezuela, interesse em avançar na negociação e na assinatura de acordos de livre comércio, como a Parceria Transpacífico, inclusive apoiando explicitamente a Aliança do Pacífico, além do combate ao terrorismo e ao crime organizado na região. Mesmo a retomada do diálogo direto com Cuba em 2014, seguida pelo restabelecimento das relações diplomáticas no ano seguinte, não aliviou as críticas ao regime cubano em relação a diversos temas, como direitos humanos e liberdades individuais.

A mudança na forma de atuação dos EUA melhorou sensivelmente a imagem e a posição da superpotência em meio a diversos públicos latino-americanos. Em publicações divulgadas pelo Pew Research Center, uma instituição de pesquisa norte-americana, em 2015, a proporção de entrevistados que tinham uma imagem positiva dos EUA foi de 73% no Brasil e de 66% no México, que são os dois países mais populosos da região. Cabe ressaltar que, entre os países latino-americanos pesquisados, as maiores aprovações foram encontradas no Brasil. Em 2012, os índices referentes a esses dois países eram, respectivamente, 61% e 56%.

O esvaecimento do antiamericanismo na América Latina ocorre simultaneamente à mudança na orientação política de diversos países na região, ainda que seja arriscado estabelecer uma associação de causa e efeito nessa questão. Porém, o enfraquecimento de dirigentes críticos aos EUA, como Nicolás Maduro (Venezuela), Dilma Rousseff (Brasil) e até mesmo Michele Bachelet (Chile), e a ascensão de presidentes de viés mais liberal, como Mauricio Macri (Argentina) e Keiko Fujimori (Peru), poderão contribuir para a posição dos EUA na região.

No caso do Brasil, a revelação à imprensa do sistema norte-americano de espionagem em 2013 levou as relações bilaterais ao pior nível em décadas, motivando o cancelamento da visita pela mandatária brasileira naquele ano. As relações entre os dois países ficaram praticamente sem importantes novidades, até que, em junho de 2015, Rousseff embarcou para Washington. A ocasião foi interpretada como um reatamento informal do diálogo, ainda que as exigências brasileiras de desculpas pelos incidentes de espionagem não fossem atendidas pelo Governo Obama. Ademais, as incertezas na política interna brasileira contribuíram para a lentidão no entendimento. Um eventual governo de Michel Temer possibilitaria não apenas a continuidade do diálogo, mas o aprofundamento das relações comerciais e políticas entre os dois países.

Assim, o curto, mas significativo, giro latino-americano de Obama, além de lograr o restabelecimento dos laços econômicos e políticos com a Argentina e com Cuba, coroa a tática centrada na promoção do soft power norte-americano na região. Nesse sentido, o segundo mandato de Obama tem sido mais eficaz do que as administrações anteriores, excessivamente calcadas na agenda de segurança e no combate ao terrorismo. A retomada do diálogo com alguns países e o reconhecimento dos excessos passados não demonstram o enfraquecimento dos EUA na América Latina, como se queixa a crítica doméstica a Obama. Essa nova tática tem contribuído para o aumento do poder de barganha dos EUA e para a melhoria das relações bilaterais com diversos países da região.

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