Textos com assunto: EUA

O novo Federal Reserve de Trump e a indicação de Jerome Powell

Por:

Edição: Ano 26 nº 11 – 2017

Área temática:

Assunto(s): , ,

O Presidente Donald Trump tem cumprido um mandato controverso até o momento. Ainda que, por ora, nem todas suas polêmicas promessas de campanha tenham sido levadas a efeito, seu estilo pouco afeito às formalidades inerentes ao cargo que ocupa, a presença constante de familiares na tomada de decisões e suas dificuldades na escolha de assessores têm feito de Trump e sua presidência elementos estranhos ao etos político tradicional dos EUA. Afora a política doméstica e suas dificuldades com o Congresso — apesar da maioria republicana nas duas casas legislativas —, Trump tem tido, na política externa e em suas tentativas de afastar os EUA de acordos previamente acertados (como no caso dos rompimentos do Acordo Transpacífico e do Protocolo de Paris), os movimentos com maior grau de controvérsia, embora ainda não tenha concretizado suas ameaças protecionistas mais importantes, as quais atingiriam as relações comerciais com a China e o México.

Nessa virada de ano em direção a 2018, Trump tem a possibilidade de vir a tomar para si as rédeas do Federal Reserve (Fed), o banco central dos EUA, incontestavelmente a instituição mais poderosa do planeta no que tange às finanças. O potencial de estragos de uma política monetária norte-americana realizada de forma isolada e que não leve em conta a interconexão entre os sistemas financeiros e o papel do dólar como unidade de conta e de reserva de valor globais é praticamente imensurável. Assim, chama atenção a oportunidade aberta para que Trump influencie diretamente os rumos do Fed. A decisão do vice-Presidente Stanley Fischer de deixar seu assento no board de diretores oito meses antes da expiração do seu mandato deixou o comitê diretivo com apenas quatro das sete cadeiras preenchidas. Randal Quarles, atual encarregado da diretoria de supervisão financeira, deve também deixar o cargo em direção ao Senado. Conjuntamente a esse grande número de indicações de diretores, Trump tem a chance de apontar o próximo chairman do Fed, uma vez que o mandato da atual presidente, Janet Yellen, terminará em fevereiro de 2018. O fato de o presidente ter possibilidade de apontar até cinco novos membros em cadeiras vagas na diretoria do Fed, incluindo seu novo presidente, poderá dar à política monetária norte-americana as feições de Trump, a partir de meados de 2018.

Essa conjunção de fatores colocou os holofotes midiáticos sobre a forma da condução que o Presidente dará a essas indicações e os próprios nomes a serem indicados. Trump deu sinais de estar consciente dos riscos envolvidos, além da necessidade política de preservar aquilo que vai bem em seu mandato, que é a situação da economia. O fato de Janet Yellen ter cumprido um mandato sem sobressaltos, com baixa inflação, queda no desemprego e relativo crescimento econômico, orientou Trump a tomar cuidados durante o processo sucessório que ele, provavelmente, não teria caso o percurso dela tivesse se mostrado mais acidentado. Ainda que os ritos de indicação do novo presidente do Fed tenham seguido procedimentos pouco convencionais da parte de Trump, o Presidente realizou longo e cuidadoso processo de escuta aos políticos do Partido Republicano e aos possíveis candidatos ao posto, o que incluía a própria possibilidade de recondução da atual presidente. Pesaram contra Yellen sua indicação inicial por Obama, sua afinidade ao Partido Democrata e sua inflexibilidade na defesa da regulação financeira mais estreita adotada pelo Fed após a crise de 2007-08. Trump foi crítico contumaz das regulações que exigem maior reserva em capital próprio de parte das instituições financeiras, as quais, supostamente, estariam limitando a concorrência, em especial no setor bancário. De outra parte, o Presidente apoiava a condução de Yellen quanto à política monetária, que, ao preservar os juros reais negativos e promover lenta e cuidadosamente o retono à normalidade, estaria possibilitando o gradual aquecimento que caracteriza a economia norte-americana atual.

Ao final de outubro, Trump decidiu-se pelo nome de Jerome Powell como o próximo chairman. Frente ao exposto anteriormente como os critérios para a escolha de Trump, é perfeitamente compreensível que esse tenha sido o nome escolhido. Powell tem ligações históricas com o Partido Republicano e é diretor do Fed desde 2012. Sua atuação na determinação dos juros tem sido a de suportar a atual condução da política monetária capitaneada por Yellen. Nesse sentido, representa uma continuidade da atual política. De outro lado, é favorável a um maior relaxamento das imposições regulatórias sobre o sistema financeiro. Ou seja, é uma escolha em consonância com as preocupações de Trump, que agrada seu partido e que não suscita críticas maiores da oposição. A única restrição ao seu nome adviria do fato de não ser um teórico com trabalhos reconhecidos em política monetária, sendo o primeiro não Phd em economia a ocupar o cargo na contemporaneidade.

Uma primeira avaliação dá conta de que isso poderia ser importante no caso de uma crise mais profunda, que exigisse soluções criativas e não convencionais, como ocorreu na crise de 2007-08. Os dilemas da política monetária do momento nos EUA dizem respeito ao ritmo de aumento da taxa de juros que possa, ao mesmo tempo, impedir a explosão das novas bolhas que se formam nos mercados acionário e imobiliário norte-americanos e manter o aquecimento da economia sem recrudescimento da inflação. Outra questão mais recente no debate sobre a política monetária dos EUA, mas que recrudesceu sob a gestão de Yellen, diz respeito ao fato de o Fed considerar ou não o impacto global de suas decisões. Além disso, os críticos apontam a inexistência de um modelo explicativo para a situação atual, de relativo crescimento e de baixo desemprego, sem aceleração inflacionária. A essa conjuntura, Trump tenta acrescentar um estímulo fiscal importante, com a redução dos impostos sobre lucros empresariais. Powell representa a manutenção do atual status quo, com uma condução empirista e cautelosa das altas dos juros. Ao mesmo tempo, um possível laxismo regulatório pode implicar crescimento do risco sistêmico, caso a inflação avance e seja necessária uma reversão mais rápida da política de juros baixos, com repercussões sobre os preços dos ativos financeiros. De todo modo, Powell assumirá a presidência do Fed, após o referendo de seu nome pelo Senado dos EUA, em situação bastante menos turbulenta que sua antecessora. Resta acompanhar sua influência no preenchimento dos demais cargos vagos na diretoria da principal instituição de governança da economia mundial.

Compartilhe

A nova política dos EUA para a América Latina

Por:

Edição: Ano 25 nº 05 – 2016

Área temática:

Assunto(s): ,

Em 21 e 22 de março de 2016, o Presidente Barack Obama realizou uma visita a Cuba, a primeira de um chefe de Estado norte-americano após quase 90 anos, e, nos dois dias seguintes, à Argentina. De acordo com o discurso oficial da Casa Branca, a viagem a Cuba visou à “normalização das relações”, ao “avanço dos laços comerciais e entre os povos”, e ao “apoio aos direitos humanos”. No caso argentino, o intuito foi de “[…] aumentar a cooperação em diversas áreas, incluindo comércio e investimentos, energia renovável e mudança climática e segurança cidadã”.

Além dos aspectos simbólicos, amplamente difundidos na imprensa e nos discursos oficiais, cabe compreender o significado político dessas atividades do Governo norte-americano na América Latina e explorar possíveis desdobramentos para o Brasil. Entende-se que essas visitas evidenciam uma releitura da forma pela qual o Governo norte-americano busca inserir-se no Hemisfério Ocidental, sobretudo durante o segundo mandato presidencial de Obama (2013-16), que tem registrado algumas diferenças significativas em relação aos períodos anteriores, inclusive a seu primeiro mandato (2009-12).

Até o final do primeiro mandato de Obama, tinha-se a imagem de que os EUA se encontravam em um lento e paulatino processo de perda de influência na América Latina, ao mesmo tempo em que outros atores globais pareciam avançar, sobretudo a China, que se havia tornado a principal parceira comercial para muitos países (Brasil, Chile, Peru, entre outros), ou ainda, uma relevante fonte de investimentos (sobretudo para a Argentina). Em 2011, após a primeira viagem de Obama pela América Latina, passando pelo Rio de Janeiro e por Brasília, a maior parte dos analistas concordava que a iniciativa não lograra resultados significativos para as relações regionais. No ano seguinte, durante o VI Encontro das Américas em Cartagena (Colômbia), muitos líderes latino-americanos não escondiam sua insatisfação com a continuidade do embargo econômico a Cuba e com a promoção da guerra às drogas. Ademais, a Venezuela encontrava-se em seu apogeu na oposição a Washington, graças, em boa medida, aos altos níveis do preço do petróleo no mercado internacional, sua principal fonte de divisas externas.

Desde o princípio do segundo mandato de Obama, os EUA passaram a atuar com maior ênfase em recursos de soft power, inclusive reconhecendo erros e excessos cometidos no passado, mas sem modificar a grande estratégia de buscar aumentar sua influência na região. Em um discurso ainda no primeiro ano como Secretário de Estado, John Kerry, por ocasião da abertura da Organização dos Estados Americanos, bradou que “a era da Doutrina Monroe acabou”, isto é, que os Estados Unidos cessariam de “intervir nos assuntos internos dos países americanos”, os quais passariam, sob a nova orientação, a “[…] verem-se como iguais, que compartilham responsabilidades, cooperam em temas de segurança e aderem não a doutrinas, mas a decisões que são tomadas entre parceiros”. Essa mudança tática, contudo, não significou uma reviravolta nas posições políticas de Washington: incisiva oposição aos governos de Hugo Chávez e de Nicolás Maduro na Venezuela, interesse em avançar na negociação e na assinatura de acordos de livre comércio, como a Parceria Transpacífico, inclusive apoiando explicitamente a Aliança do Pacífico, além do combate ao terrorismo e ao crime organizado na região. Mesmo a retomada do diálogo direto com Cuba em 2014, seguida pelo restabelecimento das relações diplomáticas no ano seguinte, não aliviou as críticas ao regime cubano em relação a diversos temas, como direitos humanos e liberdades individuais.

A mudança na forma de atuação dos EUA melhorou sensivelmente a imagem e a posição da superpotência em meio a diversos públicos latino-americanos. Em publicações divulgadas pelo Pew Research Center, uma instituição de pesquisa norte-americana, em 2015, a proporção de entrevistados que tinham uma imagem positiva dos EUA foi de 73% no Brasil e de 66% no México, que são os dois países mais populosos da região. Cabe ressaltar que, entre os países latino-americanos pesquisados, as maiores aprovações foram encontradas no Brasil. Em 2012, os índices referentes a esses dois países eram, respectivamente, 61% e 56%.

O esvaecimento do antiamericanismo na América Latina ocorre simultaneamente à mudança na orientação política de diversos países na região, ainda que seja arriscado estabelecer uma associação de causa e efeito nessa questão. Porém, o enfraquecimento de dirigentes críticos aos EUA, como Nicolás Maduro (Venezuela), Dilma Rousseff (Brasil) e até mesmo Michele Bachelet (Chile), e a ascensão de presidentes de viés mais liberal, como Mauricio Macri (Argentina) e Keiko Fujimori (Peru), poderão contribuir para a posição dos EUA na região.

No caso do Brasil, a revelação à imprensa do sistema norte-americano de espionagem em 2013 levou as relações bilaterais ao pior nível em décadas, motivando o cancelamento da visita pela mandatária brasileira naquele ano. As relações entre os dois países ficaram praticamente sem importantes novidades, até que, em junho de 2015, Rousseff embarcou para Washington. A ocasião foi interpretada como um reatamento informal do diálogo, ainda que as exigências brasileiras de desculpas pelos incidentes de espionagem não fossem atendidas pelo Governo Obama. Ademais, as incertezas na política interna brasileira contribuíram para a lentidão no entendimento. Um eventual governo de Michel Temer possibilitaria não apenas a continuidade do diálogo, mas o aprofundamento das relações comerciais e políticas entre os dois países.

Assim, o curto, mas significativo, giro latino-americano de Obama, além de lograr o restabelecimento dos laços econômicos e políticos com a Argentina e com Cuba, coroa a tática centrada na promoção do soft power norte-americano na região. Nesse sentido, o segundo mandato de Obama tem sido mais eficaz do que as administrações anteriores, excessivamente calcadas na agenda de segurança e no combate ao terrorismo. A retomada do diálogo com alguns países e o reconhecimento dos excessos passados não demonstram o enfraquecimento dos EUA na América Latina, como se queixa a crítica doméstica a Obama. Essa nova tática tem contribuído para o aumento do poder de barganha dos EUA e para a melhoria das relações bilaterais com diversos países da região.

Compartilhe