Textos com assunto: Estados unidos

Quem elabora as estatísticas e as análises socioeconômicas nos Estados Unidos?

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Edição: Ano 26 nº 12 – 2017

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Com o avanço dos debates sobre modernização do Estado tanto no Brasil como no Rio Grande do Sul, é salutar o interesse em conhecer a política nacional para estatística nos Estados Unidos da América (EUA). O País destaca-se por sua extensa e complexa rede de coleta, catalogação e análise de dados em diversas subáreas das ciências sociais aplicadas, e, consequentemente, a experiência norte-americana é usada como padrão para diversos outros países do mundo, com a existência de 13 agências governamentais de estatísticas na esfera federal. Entende-se a necessidade de apreender o modelo norte-americano em toda sua completude para o desenho das políticas nacionais de estatística em outras partes do mundo, considerando-se, evidentemente, as especificidades e as demandas locais.

A manutenção de um órgão governamental dedicado à produção e à disseminação de estatísticas oficiais é expressamente recomendada pela Divisão de Estatísticas da Organização das Nações Unidas (DE-ONU) Ademais, essas agências devem ser responsáveis pela manutenção e pelo aprimoramento das classificações estatísticas nacionais, cuja finalidade é fornecer suporte a diversas políticas públicas, tais como educação, trabalho, contas nacionais e segurança, e, também, pela provisão de recursos para financiar essas tarefas. As classificações nacionais, por sua vez, coexistem e devem observar as classificações internacionais; as últimas, que são tuteladas por diversas organizações internacionais, configuram-se como um conjunto de melhores práticas para as primeiras.

No caso norte-americano, a elaboração de estatísticas governamentais remonta a própria formação do Estado nacional. Alguns anos após a independência dos EUA, ainda em 1790, organizou-se o primeiro censo nacional. No século seguinte, à medida que viam sua economia e sociedade prosperarem e tornarem-se mais complexas, a produção de dados passou a incorporar novos temas, como as receitas tributárias, a pesca comercial, e até as informações sobre ocorrências de crimes. Ao longo do século XX, a complexificação das classificações estatísticas nos EUA resultou na descentralização e na compartimentalização temática na produção de informações oficiais. A maior parte das atuais 13 agências que fornecem estatísticas socioeconômicas vincula-se a determinado departamento de Estado1, como se pode observar no quadro adiante.

Em paralelo às agências federais, diversos estados norte-americanos apresentam instituições que coletam e disseminam informações sobre temas variados, ainda que essas estruturas se diferenciem significativamente em termos de tamanho, escopo e ordenamento legal em cada estado federado. No caso da Califórnia, por exemplo, alguns departamentos estaduais apresentam divisões específicas que se dedicam à elaboração e à divulgação de estatísticas. Cabe destacar, ainda, que quase todos os estados mantêm bases de dados sobre saúde pública.

A maior parte desses órgãos federais também elabora estudos analíticos regulares de amplo acesso com base nos dados que divulgam. Naturalmente, essa prerrogativa não é exclusiva dessas organizações, e é também realizada em uma diversidade de centros de pesquisa norte-americanos, como em universidades e, inclusive, nos chamados think tanks (literalmente, tanques de pensamento), os quais são financiados tanto por instituições privadas quanto pelo governo central e por autoridades estaduais ou locais, e, claro, por partidos políticos. O papel dos think tanks em relação ao dos órgãos federais, contudo, não deve ser confundido: enquanto os primeiros se inclinam a desenvolver análises com intuito de promover determinada agenda política, os últimos apresentam preocupação em oferecer, nas palavras da própria página do Census Bureau, uma “análise confiável, oportuna, e precisa sobre os dados”.

Como ressaltam as próprias recomendações da própria DE-ONU, a construção de um sistema nacional de estatística deve respeitar as singularidades locais. No caso brasileiro, tanto o exemplo norte-americano como o conjunto das denominadas boas práticas internacionais chanceladas pela referida agência internacional devem submeter-se ao crivo das especificidades sociais, econômicas e mesmo culturais do País. Ainda assim, o estudo de experiências estrangeiras, tanto as de países desenvolvidos como as de demais países em desenvolvimento, pode oferecer inspiração para o constante refinamento das políticas públicas na produção de estatística e na análise de dados.


1 Designação que corresponde aos ministérios no Brasil.

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Aumento dos juros e risco de desaceleração nos EUA

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Edição: Ano 24 nº 07 - 2015

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Apesar de estarem no epicentro da crise financeira de 2007, os EUA cresceram a uma média de cerca de 2% nos últimos três anos. Embora possa parecer pouco para a economia mais poderosa do mundo, está entre as taxas de crescimento mais elevadas entre os países desenvolvidos no período. Em outubro de 2014, o Federal Reserve (FED) encerrou a terceira rodada do quantitative easing (QE), e, hoje, há uma grande aposta de que, em 2015, os juros irão subir em linha com a “normalização” da política monetária. O Banco afirma que o fará, quando o mercado de trabalho estiver suficientemente sólido e se elevarem as expectativas de inflação, afastando o temor deflacionário. Essa ação trará profundas implicações para as economias norte-americana e mundial, podendo prejudicar a recuperação dos EUA, que não se mostra consistente.

Quanto ao fator taxa de inflação, segue bem abaixo da meta de 2%. Em maio, acelerou para 0,4%, fechando em 0%, em 12 meses. Mesmo assim, há quem acredite que a atual política monetária tem potencial para desencadear forte crescimento no nível de preços. A previsão do FMI para 2015 é de subida de 0,1%.

Para muitos analistas, os dados do mercado de trabalho já justificariam uma elevação do juro básico. Após alcançar seu mínimo de sete anos em abril, a taxa de desemprego subiu 0,1% e chegou a 5,5% em maio, mantendo-se dentro do intervalo que o FED estima como desemprego de longo prazo, que, hoje, é de 5,2% a 5,5%, o que provaria solidez do mercado de trabalho.

Porém ainda restam aspectos preocupantes. Repetindo padrão iniciado nos anos 90 do século passado, a recuperação é do tipo jobless recovery, ou seja, o equilíbrio do mercado de trabalho dá-se em um patamar no qual pioram as condições da maioria dos trabalhadores. Conforme mostram dados do Bureau of Labour Statistics, a maior parte da criação de empregos tem-se concentrado em serviços de baixa remuneração. A vislumbrada reindustrialização, iniciada a partir de um boom na extração do óleo e gás do shale, não se mostrou sustentável. A atividade fomentada pela nova alternativa de fonte energética — que diminui a necessidade de importação de petróleo — arrefeceu-se, com queda de quase 20% dos empregos do setor, impactando os investimentos e sendo mais uma força para a expansão modesta do investimento em 2015. Além disso, o percentual de participação da população na força de trabalho ficou em 62,9% em maio, níveis baixos semelhantes aos dos anos 70 do século passado.

A renda do trabalho mantém-se praticamente estagnada, tanto que o aumento de US$ 0,08 na média salarial, em abril, foi comemorado. Há também um processo de concentração de renda em curso. Isso impacta o consumo das famílias, que corresponde a cerca de dois terços do PIB dos EUA. O ritmo de crescimento do consumo após a crise de 2007 é o mais lento, quando comparado às recuperações de recessão no período pós Segunda Guerra. Tal fato é mais um fator a dificultar uma recuperação mais consistente da economia dos EUA. Além disso, acreditava-se que a queda no preço do petróleo abriria espaço para uma robusta expansão do consumo, porém, devido à atual valorização do dólar, ampliam-se as importações, diminuindo o impacto do consumo no PIB.

Quanto ao produto, retraiu-se 0,2% no primeiro trimestre de 2015, em relação ao mesmo período anterior. O FED, porém, acredita ser essa uma queda momentânea, devido a fatores sazonais, como o inverno rigoroso. Havia grande otimismo com o PIB de 2015, principalmente após a aceleração da expansão do produto, no final de 2014. O FMI inicialmente previa uma expansão anual de 3,1% para 2015, revista para baixo, projetando agora um avanço de 2,5%, seguindo o mesmo padrão das previsões nos anos anteriores: otimistas no início e posteriormente rebaixadas.

A aceleração do déficit comercial é mais um empecilho ao crescimento do produto. A estratégia da manutenção de déficits externos atuando como “importador de última instância” foi a política utilizada pelos EUA neste século, até a crise. Após sua eclosão, os déficits foram reduzidos, incentivados tanto pelo efeito recessivo sobre o consumo de importados como pela melhora no saldo comercial, com um dólar mais fraco. Porém a recente valorização do dólar fez com que o resultado da balança comercial novamente acelerasse sua deterioração, e o resultado só não foi pior devido ao saldo positivo na balança de derivados de petróleo. O aumento dos juros e um consequente fortalecimento da moeda norte-americana pode tornar esse quadro ainda mais dramático. Dólar forte, somado à fraca recuperação dos desenvolvidos e à desaceleração dos emergentes, inviabilizaria uma retomada robusta de seu setor externo.

Em um cenário em que grande parte do mundo desenvolvido apresenta as mínimas históricas de suas taxas de juros, a alta da taxa dos EUA dos atuais 0,25% aumenta o potencial de valorização do dólar, com o estímulo dado pelo diferencial de juros perante seus principais parceiros e/ou competidores. Esse novo impulso de valorização do dólar ocorreria em um momento de expansão monetária na Europa e no Japão, que vêm obtendo ganhos nas exportações, com a depreciação de suas moedas frente à dos EUA. Estimativas de cenários alternativos do Levy Institute preveem que o impacto negativo no produto de uma desaceleração pronunciada dos principais parceiros comerciais norte-americanos e do fortalecimento do dólar frente às principais divisas seria de 0,5% e 1,0% respectivamente, sendo o dólar forte o maior risco ao crescimento dos EUA.

O cenário mundial é delicado, e a valorização do dólar é o maior desafio a uma retomada robusta do crescimento norte-americano. Os infundados temores de uma disparada inflacionária e as pressões políticas para uma maior remuneração do capital financeiro trazem o risco de ampliar o fortalecimento do dólar e prejudicar os planos da nação hegemônica de voltar a crescer em um patamar de 3%.

Os impactos das decisões norte-americanas invariavelmente irão afetar o Brasil. Como a manutenção no atual patamar do câmbio não resolve o problema nas transações correntes e uma desvalorização pode levar a inflação de 2015 a dois dígitos, o Brasil tem complicados desafios pela frente, seja qual for a ação do FED.

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EUA: austeridade — e estagnação — à vista?

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Edição: Ano 22 nº 11 - 2013

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Assim como não anda fácil a vida para os milhares de norte-americanos, que após os efeitos da crise de 2007 passaram pelo maior declínio nas condições financeiras desde 1929, o mesmo pode ser dito sobre o governo de Barack Obama. As recentes discussões acerca do orçamento governamental e de uma nova elevação no teto da dívida federal são mais um tempestuoso ingrediente político a se adicionar às infindáveis dificuldades enfrentadas pelo País para a manutenção de sua atividade econômica sem o auxílio dos trilionários pacotes de estímulo postos em prática pelo Governo e o FED. Ao indicar que a austeridade é assunto predominante na agenda política de ambos os partidos, tal recuperação mostra-se mais distante.

O ano de 2013 realmente foi duro para o governo democrata. Logo em janeiro, predominaram as discussões sobre as nefastas consequências de a economia norte-americana cair no chamado “abismo fiscal”, ou seja, uma forte contração no produto, derivada do corte de diversas medidas de estímulo fiscal e de alívios aos contribuintes. Como na discussão atual, a solução foi costurada em cima da hora e envolveu o cancelamento de alguns benefícios e a postergação no corte de outros, além de um aumento na alíquota mais elevada do imposto de renda norte-americano. Discussões acerca da inevitável necessidade de elevação do teto da dívida foram deixadas para outubro, mês em que ele novamente seria atingido.

Porém, mesmo com todas as dificuldades apresentadas, a economia norte-americana obteve alguns dados positivos. A taxa de desemprego caiu constantemente, embora tal fato venha acompanhado de aumento no subemprego e da precarização das condições de trabalho, além da diminuição na População Economicamente Ativa e na renda média do trabalho. A desalavancagem dos orçamentos familiares perdeu um pouco de intensidade, embora as famílias ainda apresentem um grande nível de endividamento. A indústria manufatureira, pela primeira vez em anos, teve aumento na participação relativa do emprego e, juntamente com a possibilidade da instalação de uma indústria de extração em massa do gás do xisto, alimentou sonhos de uma reindustrialização, o que também colaboraria para diminuir a dependência de importação de petróleo e para aliviar o déficit em transações correntes. Somado a isso, a situação das grandes corporações norteamericanas é boa, com aumento nos lucros — embora com grande parte advinda do exterior e resultado de contrações nos custos salariais — e reservas em caixa.

Nesse contexto, verificou-se uma tendência otimista entre diversos analistas, inclusive com o FMI revisando para cima as previsões para o PIB. O clima contagiou o FED, que já sinalizava, em maio, a possibilidade de, em setembro, iniciar a retirada gradual de seu programa mensal de recompras de títulos — o Quantitative Easing —, o que foi suficiente para um verdadeiro alvoroço nos mercados de câmbio internacionais.

Porém, novamente, as previsões otimistas quanto ao crescimento no produto e a intensidade na diminuição do desemprego não se concretizaram. Em outubro, o FED anunciou a manutenção de seu programa de estímulo e o Congresso, ao não aprovar a tempo o seu orçamento, trouxe uma paralisia parcial ao Governo Federal, algo que não acontecia há 15 anos. Quase um milhão de funcionários públicos foram temporariamente dispensados, em direito à remuneração, e até mesmo a Estátua da Liberdade foi fechada aos turistas. O “obamacare”, ambicioso projeto de implantação de um sistema público de saúde e uma das principais bandeiras democratas, ficou ainda mais distante de sua aprovação no atual cenário político. Contraditoriamente, poucas semanas antes da paralisia governamental discutia-se uma ação militar dos EUA na Síria, que, por pouco, não saiu do papel. Para um governo com imensas dificuldades em aprovar seu orçamento pela suposta necessidade de cortar gastos, uma incursão militar seria uma prioridade, no mínimo, discutível.

Após duas semanas de paralisia e incerteza, o acordo foi costurado, o orçamento foi aprovado, e o limite da dívida ganhou sobrevida de mais alguns meses. Porém, há a promessa de cortes de gastos no futuro. Dentro dessa perspectiva, alguns pontos preocupantes vieram à tona.

O primeiro é que os EUA parecem fadados a rumar para um período de austeridade. Se, nos primeiros anos após a crise, o gasto do Governo foi fortemente ampliado, transformando-se no principal estímulo ao crescimento, desde 2012 a diminuição de sua atuação contribuiu para o arrefecimento do produto. Logo, para acelerar a recuperação da economia, seria necessária uma ampliação da ação estatal, e não os cortes que têm sido feitos, que atingem inclusive áreas prioritárias como infraestrutura e P&D — em que o gasto estatal correspondia a cerca de 60% do total, mas vem declinando —, o que pode vir a prejudicar a competividade da economia. Segundo o último relatório do Levy Institute, a redução no déficit fiscal do Governo Federal já impediu que a economia dos EUA alcançasse as previsões de crescimento e emprego do Governo, e o prosseguimento em sua redução poderá fazer com que o PIB caia em 2014. Segundo recente matéria da The Economist, a paralisia do Governo trouxe um efeito imediato de queda de 0,4% no PIB trimestral, conta que deve ampliar-se com a mensuração total dos seus efeitos.

O segundo ponto é que, não sendo possível para os EUA alcançarem uma rota de crescimento robusto, o País não terá como exercer a função de locomotiva mundial. A necessidade de recuperação dos EUA, para que o mundo volte a crescer no padrão do início do século XXI, parece contaminar diversos analistas, que veem com otimismo os resultados mais modestos que a economia apresenta. A atual onda de incerteza trazida pelos recentes eventos conduz as previsões econômicas para mais perto da realidade. Dificilmente uma expansão em curto prazo do produto global será puxada pela nação mais poderosa do mundo.

E, em meio a brigas políticas, o principal problema a retardar a recuperação da economia dos EUA é deixado de lado: as famílias seguem muito endividadas e veem suas perspectivas para o futuro piorarem com os diversos cortes nos programas de assistência social, reduções salariais e precarização no emprego, o que faz com que o consumo não se amplie e o PIB apresente padrão estagnante. A austeridade vem como mais uma força a intensificar tal padrão.

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Mudanças na política do FED, incertezas globais

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Edição: Ano 22 nº 07 - 2013

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Em maio, uma nota técnica divulgada pelo presidente do Federal Reserve (FED, Banco Central dos EUA), Ben Bernanke, causou alvoroço nos mercados financeiros internacionais. Na nota, ele afirmou que o FED está próximo de reduzir a intensidade de suas compras de títulos, parte dos pacotes de salvamento utilizados pelo Governo norte-americano após a crise financeira de 2007-08, porém sem data definida para tal redução. Quanto às taxas de juros, manter-se-ão próximas a zero, enquanto a taxa de desemprego se mantiver acima de 6,5%. Foi o suficiente para uma “fuga para qualidade” de somas vultosas de dólares, que migraram novamente para os EUA e ampliaram o processo de valorização de sua moeda perante as demais, fenômeno que já ocorria neste ano, porém em ritmo mais lento.

Tal compra de títulos, conhecida como Quantitative Easing, chegou a um montante atual de US$ 85 bilhões ao mês. Foi a medida mais amplamente utilizada desde o início da crise, e representa uma ação não convencional do FED, que passou a comprar, no mercado secundário, uma miríade de títulos privados, incluindo ativos lastreados por hipotecas — os quais hoje representam cerca de 25% dos títulos negociados no mercado secundário, foco inicial da crise financeira.

As principais motivações do FED eram a manutenção do valor patrimonial dos títulos privados e a reativação do mercado de crédito. Pode-se dizer que a primeira missão obteve sucesso, tendo como provas a recuperação do Índice Dow Jones e a interrupção do processo de queda do valor dos imóveis. Já a segunda tem resultados mais controversos. O FED levou a cabo uma política de compras robusta, que resultou em um aumento de seu passivo com o Tesouro dos EUA, de US$ 839 bilhões antes da crise para mais de US$ 3,4 trilhões. Porém, os resultados em termos de ativação de crédito foram modestos, uma vez que grande parte dos recursos injetados a partir da compra de títulos pelo FED acabou retida pelos bancos privados, na forma de reservas não requeridas. As empresas não financeiras, setor que apresentou maior retomada na retirada de crédito, utilizaram parte expressiva desses recursos — mais de US$ 4 trilhões desde a crise — em investimento externo direto (IED), o que desvalorizou a moeda norte-americana. Em 2013, vê-se um movimento contrário, de redução de IED e recuperação do dólar.

As principais motivações do FED eram a manutenção do valor patrimonial dos títulos privados e a reativação do mercado de crédito. Pode-se dizer que a primeira missão obteve sucesso, tendo como provas a recuperação do Índice Dow Jones e a interrupção do processo de queda do valor dos imóveis. Já a segunda tem resultados mais controversos. O FED levou a cabo uma política de compras robusta, que resultou em um aumento de seu passivo com o Tesouro dos EUA, de US$ 839 bilhões antes da crise para mais de US$ 3,4 trilhões. Porém, os resultados em termos de ativação de crédito foram modestos, uma vez que grande parte dos recursos injetados a partir da compra de títulos pelo FED acabou retida pelos bancos privados, na forma de reservas não requeridas. As empresas não financeiras, setor que apresentou maior retomada na retirada de crédito, utilizaram parte expressiva desses recursos — mais de US$ 4 trilhões desde a crise — em investimento externo direto (IED), o que desvalorizou a moeda norte-americana. Em 2013, vê-se um movimento contrário, de redução de IED e recuperação do dólar.

Esse processo abre margem para especulações com diferenciais de taxa de câmbio e juros, e, sem surpresas, as moedas de países emergentes foram as mais afetadas pelo overshooting. As taxas de juros futuras desses países mostram-se pressionadas, principalmente as das nações que necessitam de hot money para equilibrar as suas contas externas e aquelas com maiores déficits em transações correntes como proporção do PIB.

Inicialmente, o Brasil foi um dos países que tiveram a moeda mais desvalorizada. Porém, dados o grande volume de nossas reservas internacionais e a relação déficit em transações correntes como proporção do PIB menor do que a maioria dos países emergentes, não parece ser candidato forte a um ataque especulativo e crise cambial no presente momento. Mas tal mudança no fluxo de recursos poderá amplificar a intensidade de mudanças já posta em curso na politica monetária.

A nossa moeda apresentou um padrão de desvalorização frente ao dólar maior do que a dos demais emergentes, o que culminou na retirada do IOF para todo o tipo de aplicações de estrangeiros. A medida havia sido posta em prática, em 2011, para funcionar como um “filtro” para o capital volátil, que, devido aos grandes diferenciais de juros pagos no Brasil, combinados com nossa livre mobilidade de capitais, fizeram com que o País se tornasse um grande centro de valorização financeira internacional durante a maior parte da ultima década — e ajuda a explicar a sobrevalorização do real verificada durante esses anos. Segundo o Ministro da Fazenda, Guido Mantega, tais medidas eram pontuais, pois, na época, uma enxurrada de dólares migrava para mercados emergentes, o “tsunami” monetário causado pelo Quantitative Easing. Tal fala denota que a velha lógica deve voltar a ocorrer.

A depreciação cambial deverá impactar também as próximas decisões do Copom, em uma intensidade que irá depender dos movimentos do real frente ao dólar. É certo que haverá um cuidado para que a depreciação cambial não acelere o nível de preços internos. Devido ao momento político delicado por que passa o Governo a quase um ano das eleições, o excesso de zelo deve prevalecer no controle da inflação.

Mudanças na política do FED, incertezas globais

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A retomada da importância dos EUA para as exportações do RS

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Edição: Ano 21 nº 09 - 2012

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Os Estados Unidos foram, nos últimos 10 anos, o principal país consumidor das exportações gaúchas. Entre 2003 e junho de 2012, o Rio Grande do Sul exportou, a preços correntes, US$ 16,2 bilhões para os EUA, seguido por China, com US$ 15,6 bilhões, e Argentina, com US$ 13,3 bilhões. Em 2003, os Estados Unidos representavam 22,25% das exportações do RS. Desde então, entre 2003 e 2011, os EUA perderam relevância de forma persistente, devido a alguns fatores que serão explorados no que segue. A retomada do crescimento argentino, pós-crise de 2001, aumentou a participação das exportações para esse país, de 7,57% em 2003 para 13,96% em 2009. A competição chinesa reduziu as exportações gaúchas de calçados para os EUA, então principal destino das exportações da indústria calçadista. Além disso, a China surgiu como um importante destino das exportações de soja gaúcha a partir de 2001, quando a sua participação nasexportações do Estado era de apenas 3,2%. A partir de então, a elevação do volume produzido de soja aumentou a participação chinesa, tornando-se, a partir de 2009, o principal destino das exportações do RS. Por fim, a crise financeira afetou o desempenho econômico dos EUA, reduzindo, a partir de 2009, as exportações gaúchas para esse país. Assim, em 2011, os Estados Unidos representaram somente 7,1% do valor exportado gaúcho, atrás de
China e Argentina.

Já em 2012, as exportações totais do RS caíram, em valor, 8,1%, mas, para os EUA, cresceram 10,8% e alcançaram US$ 712,7 milhões. Com isso, a participação dos EUA, após nove anos em queda, voltou a subir e alcançou 8,37% entre janeiro e junho de 2012, ante 6,95% o mesmo período de 2011. Esse desempenho decorre da leve melhora econômica nos EUA, que aumentou as importações de fumo, armas e químicos produzidos no RS. Com as barreiras protecionistas argentinas e com a quebra desafra da soja prejudicando as exportações para a China, os EUA devem recuperar, pelo menos, neste ano, parte daimportância perdida na última década. Em suma, apesar da recuperação lenta dos Estados Unidos, o crescimento das exportações para esse país deve compensar, ainda que parcialmente, a queda das exportações para a China e para a Argentina.

A retomada da importância dos EUA para as exportações do RS

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Crédito ao consumidor nos EUA: ainda abalado

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Edição: Ano 18 nº 12 - 2009

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O capitalismo é crédito. Acreditar é necessário, para que as promessas de ontem se tornem a realidade de hoje, e novas promessas possam ser contratadas, gestando a realidade de amanhã. Assim roda a criação de riqueza (tanto real quanto fictícia), indefinidamente, até que o ciclo de confiança no futuro se rompa. De alguma forma, a crise financeira que se abateu sobre os Estados Unidos ainda em agosto de 2007 e que se tornou crise econômica no segundo semestre de 2008 destruiu a confiança necessária para a continuidade do ciclo econômico ascensional dinamizado pela expansão do crédito.

É importante ressaltar-se que as fusões de bancos criaram um sistema financeiro ainda mais concentrado e, portanto, com prevalência ainda maior do adágio too big to fail. Ainda que o dinheiro esteja disponível para as instituições financeiras praticamente sem custo, que o Estado norte-americano tenha injetado o capital necessário para a sobrevivência “comercial” de instituições tecnicamente insolventes, o crédito ao consumidor não tem mostrado sinais de recuperação, apesar de a economia dar mostras de estancamento do agravamento do quadro depressivo. Em setembro de 2009, o crédito total ao consumidor apresentou uma queda de 7,2% frente ao mês anterior (taxa anualizada e dessazonalizada). E, o que é ainda pior, o chamado crédito de “rolagem” (revolving), que inclui essencialmente as despesas com cartões de crédito, é aquele que tem apresentado o pior resultado (queda de 13,2% em setembro frente a agosto). As taxas de juros aos consumidores não têm apresentado a queda que poderia ser esperada, em função do reduzido custo do dinheiro às instituições financeiras, e o consumo de bens duráveis e de imóveis tem sido estimulado apenas por programas especiais de curta duração e de elevado custo fiscal, do qual são exemplos os programas implementados e já terminados que concediam incentivos à troca de automóveis antigos por novos e à compra de imóveis por famílias que ainda não tivessem sido proprietárias.

Mesmo os agentes que possuem bons credit ratings parecem pouco dispostos a gastar em um momento em que a taxa de desemprego da economia norte-americana se encontra em 10,2%, a mais elevada desde 1983. Uma economia onde a riqueza financeira declinou a partir da queda nos preços dos imóveis e onde grande parte das necessidades da população se encontra atendida pelo estoque de bens disponível não tem parecido o melhor ambiente ao consumidor mais abastado para iniciar um novo ciclo de endividamento.

A não retomada do crédito é um dos principais indicadores quanto às perspectivas de uma economia onde 70% do produto é consumo. Não surpreendentemente, houve uma revisão das perspectivas de crescimento do PIB no terceiro trimestre de 3,5% para 2,8% (taxa anualizada frente ao trimestre anterior). Pode ser que o pior tenha passado (embora a lista de instituições financeiras com problemas já atinja mais de 552 bancos de pequeno ou médio portes, com 124 falências no ano), mas, ao menos para os Estados Unidos, ainda não há uma perspectiva de retomada consistente da atividade econômica.

Crédito ao consumidor nos EUA ainda abalado

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A nova matriz energética americana poderá gerar um novo ciclo de expansão?

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Edição: Ano 18 nº 04 - 2009

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O Governo Obama propõe: (a) até 2020, criar cinco milhões de empregos verdes, investindo US$150 bilhões, poupar petróleo em quantidade equivalente à importação do Oriente Médio e da Venezuela juntos e incrementar, estrategicamente, a produção doméstica de petróleo e gás; (b) contar, em 2015, com um milhão de carros elétricos híbridos, perfazendo 60km/l de combustível; (c) assegurar insumos renováveis para a geração de eletricidade – 10% para 2012 e 25% para 2025 -; (d) reduzir as emissões do efeito estufa, até 2050, em 80% do nível alcançado em 1990; e (e) tornar a América líder nas questões climáticas.

O orçamento para 2010 e o pacote em C&T reforçam a proposta (ver tabela).

Se a crise financeira marcar o fim de um grande ciclo produtivo, o da era do petróleo, poderá significar, também, o prenúncio de um novo grande ciclo de lucratividade de oportunidades em gestação. Nesse caso, o Governo e os setores financeiro e produtivo norte-americanos deverão fazer essas mudanças a partir de uma nova concepção da matriz energética, inicialmente por motivos de segurança, mas que poderão vir a atender às preocupações relativas às questões climáticas e ambientais.

O perfil mundial da nova matriz ainda é uma incógnita, embora a maioria dos centros de pesquisa apontem uma grande participação dos não-renováveis até 2030. Mas isso, antes do anúncio presidencial. É possível que os perfis sejam regionalizados, bem como a própria matriz de insumo-produto, que deverá acompanhar as novas imposições do novo modelo energético, quer em processos, quer em produto.

Finda a gestação, será iniciado um novo e promissor ciclo de desenvolvimento, resultante da percepção e da canaliza- ção de recursos em pesquisa, em meio à vitória política das novas idéias sobre as velhas, fazendo valer a destruição criadora como nunca se viu.

A nova matriz energética americana poderá gerar um novo ciclo de expansão

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Finanças: o infinito que desaba

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Edição: Ano 17 nº 10 - 2008

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Está-se no meio da “crise norte-americana”, que é uma crise longa, severa, de extensão mundial e que tem a forma de uma escada. Vai-se de degrau em degrau, em sentido descendente. E a pergunta explode no coração das pessoas: até onde? Esta é a primeira lição da crise: está-se num nevoeiro onde não se sabe o fim. E, depois de cada etapa, há outra a cumprir. E, ao mesmo tempo, um rastilho de pólvora está sempre presente, são os títulos oriundos das hipotecas imobiliárias, onde tudo começou. Eles continuam aí, levando incômodo a todos. Mas essa crise financeira foi uma esbórnia, porque o crédito, sem critério, foi usado como promessa de compra e de pagamento para tudo – moradias, casas de verão, carro, viagens, empréstimos educacionais, etc. – no nível dos consumidores e foi também o que permitiu, a partir dos bancos comerciais e dos bancos de investimento, a invenção de uma verdadeira salada de títulos (desde títulos baseados nas hipotecas das casas até títulos que sustentam o default de outros títulos, como o Credit Default Swaps (CDS). Desde logo, nunca foi só uma crise das hipotecas imobiliárias, mas, desde sempre, uma crise do sistema financeiro.

Chega-se à segunda lição: por que aconteceu tudo isso? O sistema financeiro é um universo em expansão que tende ao infinito. Só que o infinito econômico é um infinito que acaba, que morre e que desaba. E, quando os capitais respondiam que o sistema era auto-regulado, sua resposta era falsa, os capitais não têm a capacidade de se controlar. A concorrência introduz um conflito que rompe inexoravelmente a trajetória do infinito. Dessa forma, pôde-se ver, o Banco Central só regulava os bancos comerciais. E, com manobras jurídicas e contábeis, esses bancos estavam separados dos bancos de investimento, que por sua vez, estavam separados dos hedge funds. Auto-regulação. Autodestruição.

Ora, veja o leitor: o sistema financeiro era como um balão que estava cheio, que a gente ia e ia assoprando e que, de repente, escapava da mão e subia para tombar, vomitando o ar que estava dentro. O sistema funcionava assim: o ar é a especulação que vai ampliando-se, que vai inflacionando o valor dos títulos. A euforia e a alegria correndo loucas, todo mundo com a sensação de vencedor. Mas é um mercado de fina sensibilidade, precificado minuto a minuto, um mercado instável, um mercado de tiro instantâneo. Um dia, alguém desconfia que o castelo de cartas chegou ao limite. Se botar ou tirar uma carta, o todo desaba. E foi isso que aconteceu: um problema nas hipotecas, e elas passaram a ter um odor fétido, “títulos podres”.

Instaurou-se, então, a dinâmica da crise com a desconfiança no mercado. A desconfiança é o vírus do sistema financeiro e passa pela fonte de irrigação que são os bancos comerciais com o seu mercado interbancário, com o seu mercado de empréstimos, etc. Chega o temor das perdas, e os bancos fecham a sua torneira. O nome técnico disso é credit crunch, que, no popular, quer dizer: ninguém empresta para ninguém. Aparece, então, a hora do Banco Central, o FED. Mas a sua intervenção só anima os bancos a não emprestarem, pois Keynes já dizia que, na crise, há uma preferência absoluta, a “preferência pela liquidez”. E assim foi. Daí o Bearn Stearns exibiu suas entranhas malditas, e o FED ajeitou sua compra pelo JP Morgan. Depois, tudo foi um escorrer de água: veio a bancarrota do Lehman Brothers; a compra do Merril Lynch pelo Bank of América; a necessidade de intervir na Fanny Mae e no Freddy Mac; a intervenção na seguradora AIG; a transformação do Morgan Stanley e do Goldman Sachs em bank holding companies, as compras do Washington Mutual pelo JP Morgan e do Wachovia pelo Citigroup, etc. E o incêndio espalhou-se por toda parte, atingindo primeiramente a Europa.

E quando a coisa chega nesse ponto – “vamos passar o mico adiante”-, o sistema sabe que desabou: regulação, securitização, fatiamento dos títulos, produtos, etc. Vem a principal lição: a necessidade da intervenção do Estado e, claro, do endividamento público, para salvar a convulsão dos capitais. Na seqüência, nasce um plano para sustentar o sistema financeiro e recolher os títulos tóxicos – uma espécie de Resolution Trust Corporation (RTC). E, por outro lado, há que se pensar na criação de um Home Owner´s Loan Corporation (HOLC), para solucionar o problema das dívidas dos compradores de casa. Com as tarefas aumentando, o precipício abre-se e chama-se hedge funds; sua queda tem uma dinamite poderosa, pode levar de arrasto os fundos de pensão. E, aí, acaba a previdência dos norte-americanos. Por isso, já se vê, a crise econômica puxa sua solução para a política. Dela, virão as proposições imprescindíveis à regulação, ao salvamento do sistema financeiro e ao dólar, atravessando o Congresso e o futuro Executivo com Obama ou McCain. Para encontrá-las, todos terão que aprender a lidar com a queda do infinito, outro modo de dizer, com o fim do neoliberalismo.

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Titanic sem Leonardo Di Caprio

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Edição: Ano 16 nº 10 - 2007

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Parece claro: o comando financeiro da economia norte-americana está envolvido numa vasta crise, que, ao contrário de ser abrupta (sempre temos a imagem de uma crise bursátil, mas esta não é uma crise da bolsa), vai se prolongar por meses. O seu ritmo é de fortes momentos de febre, contrapostos a momentos de calmaria. E, como a crise vai levar tempo para se dissolver, muitas famílias e empresas ficarão aliviadas. Mas é como num filme de catástrofe: o pior ainda não passou. Vejamos o cenário. Em primeiro lugar, há a necessidade de superar a crise de liquidez e a crise de crédito. Elas paralisaram por extenso todo o sistema financeiro, culminando na desconfiança generalizada de todos contra todos, expressa no interbancário e na entrada em campo do Fed, funcionando como o emprestador em última instância. Foi nessa função que o Banco Central baixou em 50 pontos a sua taxa básica e a própria taxa de redesconto. As finanças armaram a confusão, com uma inflação de títulos, e ganharam; ganharam, no mínimo, tempo.

Porém não se tem clareza do que vai acontecer nesses “caóticos tempos financeiros”, como disse Robert Lucas. Por quê? A razão fundamental é a forma como é construído todo o sistema. Sendo de natureza especulativa, a operação financeira esconde um logro (no sentido de engano e de sucesso) que impede que haja transparência para a supervisão do Banco Central. E podemos perceber nitidamente que o Fed não tem controle sobre muitas partes do mercado. Porque este, por sua vez, desenvolveu inúmeros produtos, amparados pela securitização, que é juntar títulos para fazer um novo título (quem sabe em que composições estão os títulos “podres”?). E, para ajudar os negócios, as agências de ratings (pagas pelas instituições que lançam ativos que elas avaliam) falharam de novo, escandalosamente, como em 2001.

Mas essa crise mostra um lado diferente. Embora tenha partido da “bolha” imobiliária, envolveu todos os mercados financeiros. O Fed tenta dar liquidez ao sistema e, ao mesmo tempo, isolar, se possível, ou até minimizar, se puder, a questão da crise das moradias. Só que existe algo mais no “Reino da Dinamarca”. Houve, no processo produtivo, uma excessiva oferta de casas. Assim, além das hipotecas e da repactuação de antigas dívidas, o que emergiu no “desenrolar” da carruagem foi uma superacumulação de capital na economia, que produziu a quebra da construção civil, a falência de imobiliárias e ações judiciais contra consumidores inadimplentes. Mas a ação do Fed não deve conter a volúpia financeira, pois, de agora até dezembro de 2008, existem ainda inúmeras hipotecas que serão vencidas e que têm taxa de juros variável — e variável para cima.

Sintetizando, temos uma crise financeira que é inicial, tanto mais que não são apenas as hipotecas de casas que entraram na securitização; contam-se também títulos sobre automóveis, sobre outros bens duráveis e sobre cartões de créditos, sem considerar o capítulo dos commercial papers, que reforçará a crise produtiva, onde o emprego começa a cair, a renda vai descer e o consumo desabará. Tinha e tem medo da recessão o Fed, porque precisa salvar as finanças e não derrubar a produção, tanto a norte-americana como, por extensão, a mundial. Só que a crise dos Estados Unidos, via a globalização dos ativos, já repercutiu, financeiramente, na Alemanha, na França, na Inglaterra, etc. E, em seguida, vai conectar-se com a produção da China e de todo o mundo, embora a enfermidade esteja concentrada na terra de Tio Sam. A correia de transmissão será a queda do dólar e a recessão. O modelo liberal que se distribui por todo o planeta não está mais dando certo. O Titanic bateu. O que será necessário depois do socorro do Fed? Política monetária mais política fiscal; mas o decisivo começa a partir da eleição norte-americana do ano que vem. E, para o Brasil, uma palavra: a ação do Fed foi boa; defasou a crise, e, com o mercado interno em alta, o ano está salvo. Mas 2008, sim, será un altro giorno!

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Uma “bolha imobiliária” ameaça a economia norte-americana?

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Edição: Ano 14 nº 06 - 2005

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Após a queda do preço das ações nas principais bolsas norte-americanas, nos anos 2000 e 2001, a retomada do crescimento da economia dos EUA, a partir de 2002, foi marcada por um fenômeno peculiar de aumentos do investimento na construção e no valor dos imóveis (32% até abril de 2005). Uma “bolha” especulativa no setor imobiliário teria substituído a especulação com as ações das empresas de alta tecnologia. Um indicador desse comportamento é o fato de 23% dos imóveis adquiridos naquele país, em 2004, estarem ligados à motivação “investimento”, conforme pesquisa da associação de corretores dos EUA.

Esse movimento altista tem sido impulsionado pelas baixas taxas de juros, que deram liquidez à economia após o choque nas bolsas, e por novas modalidades de financiamento, que permitem o início do pagamento da amortização dos valores devidos apenas cinco anos após a assinatura do contrato (durante esse período, apenas os juros são pagos). Além disso, o refinanciamento dos imóveis a juros menores, bem como a elevação dos seus preços, possibilitou novo endividamento das famílias com base em hipotecas (cerca de US$ 200 bilhões em 2004). Esse é um dos elementos essenciais para o aumento do consumo das famílias que marca a débil retomada do crescimento nos EUA.

Nesse contexto, uma reversão cíclica que levasse à queda abrupta dos preços dos imóveis atingiria tanto a capacidade de consumo como a de endividamento das famílias. Isso seria tanto mais grave quanto maiores fossem as pressões concomitantes para o aumento das taxas de juros, sendo que grande parte dos novos contratos foram estabelecidos com base em taxas flutuantes de remuneração.

Uma “bolha imobiliária” ameaça a economia norte-americana

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