Textos com assunto: emprego

Evolução recente da desocupação e estagnação salarial no RS e no Brasil

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Edição: Ano 26 nº 7 – 2017

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3O Rio Grande do Sul não ficou imune ao processo recessivo vivenciado pela economia brasileira a partir de meados de 2014. Os dados disponibilizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mediante a Pesquisa Nacional de Amostragem de Domicílios Contínua trimestral, permitem situar a trajetória do mercado de trabalho do Estado em relação ao que é observado na economia brasileira nos últimos anos.

Nesta análise, destacam-se três grupos de ocupação: os empregadores, os empregados com carteira de trabalho assinada e os sem carteira assinada. Os trabalhadores domésticos não estão incluídos nesta discussão. De modo geral, esses grupos podem ser divididos em dois conjuntos, de acordo com os papéis funcionais desempenhados na economia. O primeiro conjunto, o dos empregadores, efetua a alocação dos diversos recursos produtivos (trabalho e capital) na produção, ao decidir o montante de investimentos, o nível de utilização da capacidade instalada (dadas as condições da demanda por bens e serviços) e, por extensão, a quantidade de trabalhadores a serem empregados. O segundo conjunto é composto pelos empregados, os responsáveis pelo fornecimento de trabalho aos processos produtivos, sejam eles com ou sem carteira assinada. O comportamento das remunerações desses dois conjuntos de trabalhadores apresentam dinâmicas distintas.

O Gráfico 1 apresenta a remuneração mensal habitual do trabalho principal dos empregadores do Brasil e do Rio Grande do Sul, em valores reais, entre o primeiro trimestre de 2013 e o primeiro trimestre de 2017. Os empregadores apresentam maior rendimento mensal habitual quando comparado aos demais grupos de ocupação, tanto para o Brasil como para o RS. Observa-se, para o Brasil, que a queda dos rendimentos reais dos empregadores inicia-se no terceiro trimestre de 2013, no início suave, mas acelerando-se posteriormente. Os indícios demonstram que, a partir do terceiro trimestre de 2016, os rendimentos dos empregadores entraram em uma trajetória de recuperação.

Para o RS, constata-se que a redução dos rendimentos dos empregadores foi mais acentuada ao longo do período. Em linhas gerais, constata-se que, para o Brasil, não há correspondência direta entre a recessão de 2014 e a queda dos rendimentos dos empregadores. Esses rendimentos começaram a cair antes da crise. Cabe assinalar que, no caso do RS, os rendimentos dos empregadores aparentaram maior sensibilidade aos efeitos da contração da economia brasileira. Por um lado existe a possibilidade de que esse comportamento derive de efeito estatístico oriundo do menor tamanho da amostra para o Estado. Entretanto, a comparação entre a taxa de variação anual do segundo trimestre de 2016 em relação ao mesmo trimestre do ano anterior, que é estatisticamente significativa tanto para a amostra estadual como para a nacional, indica queda mais acentuada dos rendimentos dos empregadores do RS. O comportamento peculiar dos rendimentos dos empregadores gaúchos pode estar associado à existência de atividades empresariais de menor escala, especialmente as ligadas à pequena propriedade rural.

Para os empregados com e sem carteira de trabalho assinada, a primeira constatação é o crescimento da taxa de desocupação. Tanto para o Brasil como para o RS, esse processo se iniciou a partir do último trimestre de 2014. Até o primeiro trimestre de 2017, os níveis de desocupação continuaram crescendo, como pode ser visto no Gráfico 2. Para o RS, as indicações são de que o nível de desocupação se estabilizou em um patamar entre 8% e 9% a partir do segundo trimestre de 2016, o que equivale a quase o dobro da taxa de desocupação observada no segundo trimestre de 2014.

O aumento da desocupação articula-se com quedas moderadas e posterior estagnação dos salários reais médios no RS (Gráfico 3). Para o Brasil, observa-se uma tendência de estagnação dos salários reais dos empregados. No caso do RS, o tamanho da amostra não permite discernir se a volatilidade observada nos salários é decorrente de efeitos estatísticos ou de maior sensibilidade às condições recessivas do mercado de trabalho.

Em uma visão geral, constata-se a relativa estabilização dos salários reais e o arrefecimento, no caso gaúcho, do crescimento dos níveis de desocupação. Ao se observar o mercado de trabalho em uma perspectiva um pouco mais ampla no tempo, constata-se que inexiste tendência de recuperação do emprego para os níveis anteriores à crise. Até o momento, o único indício de recuperação de rendimentos situa-se na remuneração dos empregadores do RS. Ocorre crescimento estatisticamente significativo da ordem de 13,3% dessa categoria de rendimentos no último trimestre de 2016 em relação ao trimestre anterior. As limitações estatísticas dos dados não permitem comparações quantitativas com trimestres dos anos anteriores, o que não permite isolar efeitos sazonais. Para o Brasil, inexistem evidências estatisticamente significativas de recuperação dos rendimentos, mesmo para o caso dos empregadores. O retorno a um processo socioeconômico inclusivo, como o observado ao longo da primeira década do século XX, não é visível no futuro próximo.

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Produção, salário, emprego e produtividade na indústria do RS

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Edição: Ano 24 nº 05 - 2015

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A produção da indústria de transformação instalada no Rio Grande do Sul, seguindo a trajetória do que aconteceu com o parque industrial brasileiro, apresentou uma queda de 4,3% em 2014. Essa trajetória de queda manteve-se nos dois primeiros meses do corrente ano, e, até o momento, não existem indicadores que sinalizem uma recuperação em 2015.

A performance do setor industrial brasileiro e, por decorrência, do gaúcho, ao longo do último decênio,  pode ser caracterizada por alguns fatos estilizados. Em primeiro lugar, desde o início da crise econômica em 2008, a indústria de transformação brasileira entrou em um processo de estagnação da produção. Com a queda observada em 2014, o nível da produção dos respectivos parques industriais situou-se abaixo do observado em 2008.  Assim, a atividade industrial do Estado tem, no desempenho nacional, o seu principal determinante. No entanto, por ter uma grande participação das atividades vinculadas ao agronegócio, o desempenho industrial do RS também mantém estreita dependência da agropecuária. Esta última, no entanto, atua no sentido de amenizar ou fortalecer os períodos de queda ou crescimento da produção, mas não no sentido de definir a sua tendência. Assim, enquanto, no período 2003-08, a indústria de transformação brasileira cresceu a uma taxa média anual de 3,7%, a sua correspondente instalada no território gaúcho cresceu apenas 1,4%. Esse diferencial de crescimento pode ser atribuído, em grande parte, ao fraco desempenho da agropecuária no biênio 2004-05. Para o período 2009-14, essa taxa de variação na produção foi negativa, tanto para o caso brasileiro (-0,25% a.a) como para o gaúcho (-0,35% a.a).

Em segundo lugar, verifica-se que a indústria de transformação deixou de ser um importante gerador de empregos diretos. Assim, mesmo durante o período de crescimento da produção (2003-08), o emprego na indústria de transformação brasileira cresceu a uma taxa média anual de 1,1%. No caso do parque industrial gaúcho, verifica-se uma trajetória constante de redução do emprego ao longo de toda a série. Nos últimos três anos, a indústria vem sistematicamente reduzindo o número do pessoal ocupado, tendência essa que deverá acentuar-se em 2015.

Em terceiro, e como decorrência dos dois movimentos descritos acima, verifica-se que a produtividade da indústria de transformação tem-se mantido praticamente estagnada desde 2008. No caso do RS, a exceção foi o ano de 2013, o qual combinou crescimento da produção com redução do emprego. No entanto, já em 2014, a produtividade novamente se manteve estacionada.  Por fim, uma das mais significativas características do cenário industrial foi a trajetória ascendente do salário real, mesmo após o início da crise. Embora o aumento real do salário seja um importante estímulo ao crescimento da demanda agregada, do ponto de vista empresarial, a sua associação com a estagnação da produtividade tem gerado grandes pressões de custos e um estreitamento da margem de lucro. Setores industriais com maior poder de mercado acabam repassando tais pressões aos preços, o que resulta na dificuldade em se reduzirem os patamares inflacionários da economia brasileira.

A similaridade de comportamento do parque industrial gaúcho e do restante do Brasil não é mera coincidência, mas, sim, uma evidência do fato de que as atividades industriais instaladas no território gaúcho constituem-se em segmentos da indústria nacional. A compreensão da sua dinâmica de crescimento, portanto, implica contextualizá-lo nos cenários nacional e internacional. Assim, a recuperação da produção industrial no RS somente irá acontecer com a recuperação do crescimento econômico nacional.

A superação desse quadro adverso para a indústria implica, em primeiro lugar, a retomada da produção, a qual permitiria um retorno do crescimento da produtividade compatível com o crescimento do salário real. No entanto, esse cenário dificilmente irá ocorrer enquanto a economia mundial não voltar a crescer de uma forma mais robusta. Até mesmo a depreciação do real, embora necessária, constitui-se em uma medida insuficiente, uma vez que outras moedas também têm-se desvalorizado em relação ao dólar. Adicionem-se a isso as dificuldades criadas pela forte concorrência dos produtos asiáticos, não apenas em termos da disputa por mercados, mas também como ponto privilegiado de localização industrial.

Do ponto de vista doméstico, as elevadas taxas de juros e a busca por ajustes fiscais, tanto do Governo Federal como dos estaduais, são medidas que dificultarão uma retomada da produção industrial. Com o crescimento do desemprego, não é de se esperar que o consumo das famílias volte a crescer. Os limites ao crescimento não residem, portanto, nas dificuldades de ordem burocrática ou tributária. Essas dificuldades já existiam no período 2003-08 e não impediram o crescimento. Uma redução da carga tributária poderia aumentar a lucratividade do setor no curto prazo, mas dificilmente ocasionaria a retomada da produção industrial.

Em seu conjunto, os fatores descritos acima acabam por reduzir a competitividade industrial brasileira, a qual impede não apenas a sua inserção externa, como também leva a uma perda do mercado interno. Nesse cenário, os governos estaduais, que dependem fortemente da retomada da arrecadação para fazer frente às necessidades de ajuste das contas públicas, veem reduzida a sua capacidade de fazer políticas públicas, ficando à mercê desses determinantes nacionais e internacionais.

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Produção, emprego e salário na indústria brasileira e na gaúcha

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Edição: Ano 23 nº 11 - 2014

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A crise econômica que teve início em 2008 e que levou a economia mundial a um processo de estagnação ao longo dos últimos seis anos continua a ter impactos negativos sobre a economia brasileira e, em especial, sobre o setor industrial. Uma análise do comportamento da produção e do emprego nos períodos pré e pós-crise basta para perceber a quebra estrutural que ocorreu, no comportamento dessas variáveis, com o início da crise. Por outro lado, a indústria brasileira também tem sido afetada por alguns condicionantes internos, a saber, o baixo nível do desemprego e o elevado patamar inflacionário, os quais acabam influindo diretamente nos salários e nos custos empresariais. Do lado da demanda, a indústria vem sofrendo as consequências da redução do crescimento do consumo das famílias e da forte concorrência internacional.

No período pré-crise (2004-08), a indústria de transformação nacional apresentava uma trajetória de crescimento tanto da produção como do emprego, refletindo-se na folha de pagamento e no salário real por trabalhador. O crescimento deste último não chegava a ser um problema para a indústria, uma vez que ele era acompanhado por ganhos de produtividade (Tabela 1). No entanto, a partir de 2009, tanto a produção como o emprego passaram a apresentar oscilações que, em seu conjunto, têm anulado os ganhos apresentados no período pré-crise. No caso específico do emprego, conforme demonstra a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a queda acumulada até agosto do corrente ano (2,7%) fez com que o seu nível recuasse ao patamar de 2004. Ou seja, o período pós-crise eliminou os ganhos de emprego que a indústria de transformação havia gerado entre 2004 e 2008, fazendo com que seu patamar tenha voltado ao nível de 10 anos atrás. Movimento semelhante ocorreu com a produção física. Neste último caso, porém, a queda apresentada em 2014 (4,0% até agosto) reduziu o nível da produção a um patamar inferior ao de 2008. Como consequência desses movimentos, a produtividade, que vinha crescendo a uma taxa média anual de 2,6% no período 2003-08, teve uma significativa desaceleração (1,3% a.a.) a partir de 2009, sendo que, no corrente ano, ela tem apresentado queda.

Comportamento diferenciado, no entanto, tem mostrado o montante dispendido pela indústria com a folha de pagamento. Com exceção de 2009, o valor real da mesma vem exibindo uma trajetória ascendente. Tal comportamento é resultado do contínuo crescimento do salário real por trabalhador, o qual não sofreu redução mesmo durante os anos mais críticos da crise. Esse comportamento dos salários reais, associado com a desaceleração do crescimento da produtividade, tem sido um importante elemento de pressão sobre os custos empresariais. Os setores com capacidade de repassar o aumento dos custos têm contribuído para manter a inflação em um patamar elevado. Por outro lado, setores mais expostos à concorrência internacional acabam por ter reduzidas as suas margens de lucro e, consequentemente, a sua disposição para realizar novos investimentos.

No que se refere ao segmento da indústria de transformação instalada no Rio Grande do Sul, sua dinâmica de crescimento reflete o desempenho da média nacional, adicionando-se que, em virtude do elevado peso do agronegócio na composição da produção industrial, o setor fica mais exposto aos períodos de estiagem. Mesmo no período pré-crise econômica mundial, a indústria, no RS, já vinha apresentando um crescimento abaixo do da média nacional. No entanto, como decorrência da elevada queda no emprego naqueles anos, a produtividade cresceu a taxas elevadas (4,0%), acima da taxa de crescimento do salário real (3,6%). Em contraposição, após 2009, a produção e a produtividade passaram a crescer a taxas inferiores à do salário real. Com a performance observada, até agosto de 2014, na produção física (-5,3%), o patamar da produção encontra-se abaixo dos níveis de 2007.

A superação desse quadro desfavorável ao setor industrial deverá, necessariamente, passar por uma retomada do crescimento da produção e, em decorrência disso, da produtividade. A redução do nível do desemprego verificada ao longo dos últimos anos e o crescimento real do salário são conquistas das quais o País não deve abdicar, sob pena de comprometer os avanços na inclusão social e de diminuição da pobreza. Nesse sentido, uma política de gradual desvalorização cambial pode contribuir para aumentar a inserção externa da indústria nacional e estimular o aumento da produção. No entanto, em um quadro de baixo crescimento mundial, a retomada do crescimento passa pelo estímulo ao mercado interno. Assim, a melhora na gestão das obras públicas em parceria com o setor privado, já iniciadas com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), teria por efeito apressar os investimentos e a produção. O Governo poderá, ainda, lançar mão de novas medidas de estímulo ao consumo através de seus programas de transferência. Ao contrário da falsa controvérsia entre crescimento puxado pelo consumo ou pelo investimento, a reativação do primeiro poderia ser um estímulo ao segundo. Por fim, dado o cenário traçado acima, fica difícil uma recuperação industrial, enquanto o País conviver com as taxas de juros reais mais elevadas do Mundo.

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