Textos com assunto: economia regional

O desenvolvimento na encruzilhada

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Edição: Ano 23 nº 10 – 2014

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Durante as duas últimas décadas do século passado, o Brasil viveu uma longa crise, que interrompeu o processo de desenvolvimento levado adiante entre os anos 1933 e 1980. Seguindo um padrão da época, o crescimento, à expressiva taxa média anual de 6,8%, bem superior aos 4,2% de 1901 a 1932, foi voltado para o mercado interno, então em expansão via urbanização e extensão do regime de trabalho assalariado. No período seguinte, os piores sintomas da crise — alta inflação, endividamento público, dívida externa e déficit no balanço de pagamentos — ocuparam a agenda da política econômica. Ao mesmo tempo, discutia-se que rumo deveria seguir uma desejada retomada do desenvolvimento.

Entrementes, e no que se pode identificar como uma das causas da crise brasileira, a cena internacional mudara radicalmente. Na esteira do processo de internacionalização das finanças, a pauta neoliberal impusera-se por todo o mundo, sob a pressão dos Estados Unidos e de seus aliados europeus, desde o começo dos anos 80. Disso, resultou uma transformação radical do padrão de desenvolvimento socioeconômico vigente até então e que dera aos países desenvolvidos o período de maior crescimento do século XX, não por acaso chamado “Anos Dourados”, entre 1945 e 1973, e do qual o desenvolvimentismo brasileiro foi um modelo próximo, mas com uma grande diferença, a exclusão social e a desigualdade. A alternativa elegida produziu uma enorme concentração da renda, reduziu direitos sociais, congelou salários e provocou uma queda substancial do crescimento econômico. No plano político, elevou o capital financeiro ao cimo das relações de poder.

Por aqui, foi tentado algo semelhante nos anos 90, quando a estabilidade passou a ser a única prioridade da política econômica e foi tida como condição suficiente para a retomada do desenvolvimento. Após a década perdida, entre 1981 e 1989, em que a taxa média de crescimento fora de 2,34% a.a., os novos governos, adeptos do neoliberalismo, alcançaram uma redução substancial da inflação. Entretanto seu desempenho em termos de crescimento foi ainda pior, apenas 1,9% a.a. entre 1990 e 2002. O uso de medidas sociais compensatórias logrou a melhora de alguns indicadores sociais, especialmente por uma pequena redução da pobreza e avanços em saúde e educação.

No plano econômico, os juros elevados, a abertura comercial, o aumento da carga tributária, para fazer frente aos pesados gastos do Estado com a dívida pública, as privatizações e a desregulação e a redução de direitos sociais e trabalhistas produziram um aumento da desigualdade. Os salários reais declinaram, e a esperada retomada do desenvolvimento em novas bases, alicerçado em uma inserção externa ainda mais subalterna aos EUA, não aconteceu. A balança comercial teve um desempenho medíocre, o que está na raiz das recorrentes crises cambiais do período; o investimento permaneceu baixo; o crescimento, pífio; e o tão esperado capital estrangeiro veio apenas para comprar ativos já existentes ou fazer aplicações no mercado financeiro.

Desde 2002, no entanto, muita coisa mudou. Pode-se dizer que um novo padrão de desenvolvimento foi iniciado e com uma novidade histórica, a inclusão social. De forma semelhante ao que vem passando-se em muitos países latino-americanos, além da valorização dos produtos primários a impulsionar as exportações, um aumento substancial do salário mínimo, a elevação do emprego e dos salários por efeito deste, a universalização de políticas sociais de complementação de renda, a retomada do planejamento e de uma sinalização mais vigorosa do Estado sobre a condução da economia e a consideração da estabilidade macroeconômica como meio e não fim trouxeram um novo patamar de crescimento. O Produto Interno Bruto (PIB) variou 3,52% a.a. entre 2003 e 2013. O baixo desemprego, a substancial redução da pobreza, a retirada do País do mapa da fome pela Organização das Nações Unidas Para Alimentação e Agricultura (FAO), a ascensão de cerca de 50 milhões de brasileiros a um padrão de consumo mais elevado são alguns resultados desse novo modelo.

Nos últimos dois anos, todavia, o ritmo desacelerou, o que é visto por muitos como esgotamento de um padrão de crescimento impelido pelo consumo. Primeiro, isso não é verdade, pois, entre 2005 e 2013, o crescimento do consumo foi 61%; e o do investimento, 89%. Segundo, a elevação da renda dos trabalhadores acima da média, impulsionadora do mercado interno, tem espaço para seguir adiante. Da mesma forma, o investimento tem novos horizontes de ampliação nas áreas de infraestrutura, do Pré-Sal, de habitação, saneamento, transporte e urbanismo. Por suposto, o cenário internacional adverso pela estagnação nos países desenvolvidos, pela pressão sobre o balanço de pagamentos e pela coação das finanças especulativas gera um constrangimento que só será superado com o amadurecimento de projetos ainda em formação, principalmente o Pré-Sal.

O debate eleitoral é revelador de uma encruzilhada entre dois projetos, um deles apostando na continuidade do caminho iniciado em 2002, do desenvolvimento com inclusão social, e o outro tentando a volta ao modelo dos anos 90, de redução do Estado, empoderamento da finança e expectativa de solução do crescimento pelo mercado, a partir da maior credibilidade dos agentes políticos. A decisão de qual rumo tomar virá da manifestação da soberania popular nas urnas.

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O impacto dos eventos de estiagem na economia dos municípios do RS

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Edição: Ano 22 nº 12 – 2013

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Um dos temas atuais e centrais que emergem da análise da economia gaúcha é o impacto da estiagem sobre a economia local. Sabe-se, pela estrutura de seu setor produtivo — baseado, em grande medida, no Setor Primário e em seus encadeamentos —, que os efeitos desses eventos são bastante acentuados. Além dos diretos, ocorrem também os chamados efeitos indiretos, que incluem aqueles sobre as indústrias de beneficiamento de grãos, alimentos e bebidas, máquinas e equipamentos agrícolas, além do comércio e os serviços em geral. É imperioso, pois, que se relacione a estiagem não apenas com o Valor Adicionado Bruto (VAB) do setor agropecuário, mas também com o VAB dos outros setores produtivos.

Nos últimos anos, tem aumentado significativamente o número de ocorrências registradas pela Defesa Civil do Rio Grande do Sul por municípios que sofreram algum tipo de impacto negativo em consequência da falta de chuva. Entre 2003 e 2012, 160 municípios comunicaram à Defesa Civil a ocorrência de estiagem em pelo menos quatro anos, com destaque para o Município de Bagé, que teve registros em oito dos 10 anos analisados.

Tendo em vista esses aspectos, objetiva-se relacionar a ocorrência de eventos de estiagem com o PIB total dos municípios gaúchos, visando incluir na análise todos os possíveis desdobramentos da escassez de chuva sobre as economias locais.

Os resultados principais do estudo são expostos na tabela abaixo. A variação nominal do PIB do RS foi decomposta em dois grandes grupos: municípios atingidos pelo evento estiagem (grupo de tratamento, A) e municípios não atingidos (grupo de controle, B). Também é evidenciado o número de municípios que declararam ou não estiagem em cada ano. A última coluna torna explícita a diferença de crescimento do PIB entre os dois grupos, em cada ano, em pontos percentuais.

Observa-se que, especialmente nos anos em que um número substancial de municípios registrou ocorrência de estiagem (2004, 2005 e 2009), o Grupo A apresentou crescimento do PIB menor. Em 2005, inclusive, a taxa de crescimento foi negativa (-3,8%), em face de taxas positivas do Grupo B (6,0%) e do RS (4,6%). Como síntese, os dados mostram que, em anos em que há mais registros de ocorrência de estiagem, os municípios atingidos tendem a perder participação econômica.

Há ainda outros aspectos interessantes que podem ser extraídos da análise realizada. Os municípios que registraram estiagem no período selecionado são, geralmente, os mesmos: os eventos são concentrados nas regiões noroeste, oeste e sul do Estado. Logo, eventos recorrentes de estiagem podem estar contribuindo para um aumento da disparidade econômica entre as regiões geográficas do Estado.

Um terceiro aspecto diz respeito ao fato de que a variação registrada no PIB dos municípios é nominal, ou seja, carrega consigo, além da variação de volume de produção, os preços. Em geral, quando há restrição na oferta de bens   agropecuários — situação típica de períodos de estiagem —, os preços sobem. Logo, se fosse registrada apenas a variação de volume de bens e serviços produzidos, a diferença entre o grupo de controle e o grupo de tratamento poderia ser ainda maior. Esse raciocínio vale, especialmente, para produtos nos quais a produção local tem capacidade de influenciar o seu preço, como são os casos do arroz e do milho.

Em quarto lugar, constatou-se que a diferença de desempenho econômico entre os municípios com e sem estiagem é maior no ano em que o evento ocorre do que em períodos maiores de análise. Em outras palavras, essa queda de participação econômica tende a ser parcialmente compensada nos anos seguintes. A razão é simples: com o aumento do preço relativo de alguns produtos agropecuários, há um incentivo para que haja uma maior oferta desses bens nos períodos seguintes. Do ponto de vista dos ofertantes, ocorre um efeito substituição positivo para os bens que ficaram relativamente mais caros, sejam esses preços determinados localmente ou mesmo no mercado internacional.

Os eventos de estiagem estão, portanto, cada vez mais frequentes, e vêm causando impactos visíveis no PIB dos municípios. Além disso, a recorrência desses eventos em algumas regiões geográficas específicas tende a intensificar as disparidades regionais no RS. Os resultados indicam a necessidade de manutenção e incremento de políticas públicas que tornem a economia gaúcha menos vulnerável às oscilações climáticas, agenda esta que deve ser prioritária para o desenvolvimento do RS.

O impacto dos eventos de estiagem na economia dos municípios do RS

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As contas gaúchas apresentam sinais preocupantes

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Edição: Ano 21 nº 01 - 2012

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A execução do orçamento da Administração Pública Estadual consolidada (Direta e Indireta) tem sido difícil. Nos últimos anos, a receita consolidada (a preços de dezembro de 2011) cresceu, ajudada tanto pelo desempenho da economia quanto pelas medidas tributárias da Secretaria da Fazenda, tais como a fiscalização eletrônica e a prática de substituição tributária. A receita passou de R$ 29 bilhões em 2008 para R$ 33,3 bilhões em 2009 e para R$ 38,3 bilhões em 2010. A despesa consolidada também aumentou de R$ 28,4 bilhões em 2008 para R$ 33,3 bilhões em 2009 e, finalmente, para R$ 38,5 bilhões em 2010. Em consequência, a situação das contas foi superavitária até o ano de 2009.

Porém os resultados orçamentários pioraram desde então, com déficits de R$ 1,3 bilhão e de R$ 732 milhões no acumulado de janeiro a novembro de 2010 e 2011 respectivamente. Essa situação financeira apresenta, pelo menos, dois desafios: o primeiro deles é manter a arrecadação do ICMS superior à do ano anterior, como foi de julho até novembro de 2011; o segundo é dar continuidade ao processo de ajuste verificado nos anos anteriores, adequando as despesas aos níveis das receitas, para minimizar o atual déficit público.

As contas gaúchas apresentam sinais preocupantes

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A participação de Porto Alegre na economia do RS

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Edição: Ano 20 nº 11 - 2011

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Há pelo menos 150 anos, com o fim do apogeu das atividades econômicas ligadas ao charque no sul do Estado, o Município de Porto Alegre passou a protagonizar a produção econômica no Rio Grande do Sul. Paulatinamente, a Capital passou a concentrar as atividades que mais geram renda e que mais empregam mão de obra qualificada dentro do Estado. Do PIB total de R$ 199,5 bilhões do RS em 2008, R$ 36,8 bilhões (18,4%) advieram exclusivamente de Porto Alegre. Pela sua abrangência e relevância, a região e seu entorno caracterizam-se, atualmente, como um importante centro econômico da Região Sul do Brasil.

Apesar da alta representatividade em termos produtivos, os dados do PIB dos Municípios gaúchos, trabalho realizado anualmente pela FEE em conjunto com o IBGE, apontam uma perda sistemática de participação da economia porto-alegrense no total do Estado. Em outras palavras, apesar de permanecer sendo o município de maior PIB no RS, a sua participação em relação à produção total de bens e serviços vem caindo ano após ano. Entre 1999 e 2008, a média do crescimento nominal foi de 9,0% em Porto Alegre, inferior aos 10,4% registrados pelo RS. Com isso, a participação do Município no total da economia do RS caiu de 21,1% em 1999 para 18,4% em 2008 (gráfico).

Diante desse cenário, a questão central é: quais são os motivos que levam Porto Alegre a perder participação econômica dentro do Estado? A resposta reside em alguns fatores importantes. O primeiro deles advém da sua própria estrutura econômica: Porto Alegre caracteriza-se por ter uma economia baseada amplamente em serviços (86,1%), ao passo que a indústria (14,7%) e, especialmente, a agropecuária (0,1%) são menos representativas na sua produção. Como o desempenho nominal médio dos últimos 10 anos foi maior na agropecuária (12,1%) do que na indústria (10,0%) e nos serviços (10,0%), os municípios cuja economia depende majoritariamente dos dois últimos setores reduziram sua participação, em média.

No que se refere à importância do Setor Terciário em Porto Alegre, destacam-se as atividades ligadas ao comércio, à intermediação financeira e à administração pública, que, juntas, correspondem a, aproximadamente, 56,4% dos serviços totais do Município. Já em relação ao total do Estado, as atividades de serviços que estão mais concentradas em Porto Alegre são saúde mercantil (46,9%), intermediação financeira (45,4%) e serviços de informação (34,5%). Do outro lado, administração pública (15,4%), demais serviços (17,0%) e atividades imobiliárias e aluguéis (18,6%) são as atividades mais desconcentradas.

Além das questões específicas à estrutura produtiva de Porto Alegre, pode-se atribuir sua desconcentração econômica ao surgimento de novos polos de crescimento, que vão além do eixo existente entre a Região Metropolitana de Porto Alegre e a Serra gaúcha. Mais recentemente, destacam-se os investimentos no polo naval de Rio Grande e o ressurgimento da Região Sul do RS no cenário do desenvolvimento econômico do Estado, o que contribui efetivamente para uma maior pulverização da riqueza gerada no RS.

Por fim, um terceiro ponto sobre a questão da concentração é que ela não é específica do RS, mas um fenômeno generalizado e recorrente em outras unidades da Federação. Em 1999, os seis municípios de maior PIB no Brasil (São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Curitiba, Belo Horizonte e Manaus) contribuíram com 29,4% da produção total nacional. Em 2008, esses mesmos seis maiores municípios reduziram sua participação para 24,8% do PIB.

Em suma, o fenômeno da perda de participação econômica não é exclusividade de Porto Alegre, mas, sim, comum a outros importantes centros urbanos e econômicos do País.

A participação de Porto Alegre na economia do RS

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A economia gaúcha e os desafios do novo Governo

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Edição: Ano 20 nº 02 - 2011

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A FEE acabou de lançar sua análise das últimas Três Décadas de Economia Gaúcha. Nesse trabalho, lê-se: “[…] depois do Plano Real, o RS diminuiu seu ritmo de crescimento, ao passo que a economia brasileira […] aumentou o seu”. E como na década de 80 a dinâmica já era discreta, entre 1986 e 2007, “[…] na ordenação pelo critério de crescimento do PIB, o RS ocupa a 26ª colocação entre as 27 unidades da Federação”. Por que tivemos um desempenho tão insatisfatório? Por dois motivos.

“Os dados mostraram que a economia gaúcha é fortemente dependente dos desempenhos da agropecuária e das exportações industriais.” Ora, a política anti-inflacionária está assentada na equação “juros altos real forte”. E o real forte leva à depressão da renda das exportações e do preço interno das commodities agrícolas. Vale dizer: a política macroeconômica em curso afeta negativamente a economia gaúcha.

Mas isso não é tudo. Afinal, Mato Grosso e Santa Catarina também são dependentes das exportações agroindustriais. Mas SC ultrapassou a renda per capita do RS, e MT passou da 16ª para a oitava posição no mesmo quesito desde 1986, enquanto o RS caía para o sexto lugar. Por quê?

A resposta parece estar na forma como o RS tentou enfrentar os desafios da globalização a partir dos anos 90: alterando radicalmente sua matriz produtiva. Nesse processo, abriu mão de fazer o mais simples e mais eficaz: enfrentar os gargalos da matriz consolidada, apoiando o aumento da produtividade das cadeias em que era mais competitivo. Ao invés disso, adotou uma política de renúncia fiscal com vistas à atração de novas empresas.

O resultado foi, de acordo com Três Décadas de Economia Gaúcha, que “[…] o desempenho do ICMS, nos últimos 25 anos, ficou muito aquém do desejável […] devido basicamente ao volume excessivo de desonerações fiscais”, o que inviabilizou os investimentos públicos e impôs a diminuição do funcionalismo ativo alocado em educação, saúde e segurança. O esforço de inflexão do Governo Olívio (gráfico) foi abortado pela dura realidade fiscal, pois a “modernização” não conseguiu dinamizar a economia.

Retomar o desenvolvimento envolve resgatar educação, saúde e segurança públicas. Para tanto, é preciso enfrentar a crise fiscal. Como não há espaço para “tarifaços”, há que se apelar para o crescimento da base contributiva. A economia tem que voltar a crescer aceleradamente, o que será possível com uma inflexão da política econômica regional.

A primeira tarefa é enfrentar o senso comum que tem orientado os esforços de “modernização” da matriz produtiva gaúcha. Afinal, o RS é um dos poucos estados brasileiros que conta com uma Matriz de Insumo-Produto (outro produto da FEE). Que políticas econômicas foram baseadas na mesma? Creio que nenhuma, a despeito de ela informar quais são os setores mais dependentes de importações e quais os de maior multiplicador interno; quais os setores que podem gerar mais tributos direta e indiretamente para o Estado; quais os que geram mais emprego e mais renda para a população.

É preciso, sim, dar um salto de eficiência na administração pública. E, felizmente, pode-se dá-lo, pois, quanto mais distantes da fronteira, do ideal, maior pode ser o progresso. Definir as políticas econômicas com apoio em avaliações técnicas dos impactos projetados para distintas alternativas pode ser uma boa forma de dar início à tão necessária revolução.

A economia gaúcha e os desafios do novo Governo

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Despesas com funções urbanas nos municípios da RMPA – 2007

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Edição: Ano 18 nº 12 - 2009

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As grandes aglomerações urbanas são, reconhecidamente, áreas concentradoras de problemas, cuja solução depende de ações coordenadas entre União, estados e municípios. Porém, frequentemente, tais ações ficam limitadas às fronteiras legais de cada unidade territorial, o que tem reflexos diretos na qualidade de vida dos cidadãos urbanos. Isso se deve, em grande medida, à condição autárquica dos municípios, elevados à condição de entes federados pela Constituição de 1988. A capacidade fiscal dos municípios é, pois, fator fundamental para dimensionar a capacidade de ação conjunta com as demais esferas de governo.

Conforme dados do Banco de Indicadores Fiscais Metropolitanos (Fismet) do Observatório das Metrópoles, os gastos com as chamadas “funções urbanas” – transportes, saneamento, gestão ambiental, urbanismo e habitação – constituem parcela importante das despesas dos municípios. Na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), observa-se um desnível entre o polo metropolitano, em que esses gastos representaram 26,8% da despesa total, e os demais municípios, que gastaram 11,7%, em média, em 2007. Agrupando-se por faixa de população urbana, nota-se que não há grande diferença entre o que despenderam os oito maiores municípios (12,6%), os cinco intermediários (14,0%), os 14 pequenos (10,2%) e os três menos populosos (13,1%).

Essa situação, comum às demais metrópoles do País, indica a necessidade de um debate mais amplo sobre o padrão atual de gestão das áreas metropolitanas.

Despesas com funções urbanas nos municípios da RMPA  2007

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Impactos intra-urbanos de grandes empreendimentos

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Edição: Ano 18 nº 06 - 2009

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Os problemas dos grandes empreendimentos (GEs) emergiram com o avanço da urbanização e das aglomerações metropolitanas. Do ponto de vista da territorialidade, essas atividades apontam a formação de padrões adensados de ocupação de população, produção e consumo. Em Porto Alegre, a indústria praticamente se evadiu para o resto da formação metropolitana, deixando de exercer pressão relevante por ocupação. A reestruturação produtiva não só alçou os serviços à condição de carro-chefe da economia da Cidade, como estabeleceu escalas ampliadas para os mesmos. As escalas aumentaram tanto em nível do estabelecimento de um subsetor (super e hipermercados, hospitais, etc.) quanto na combinação de atividades com mais de um segmento de serviços (hotéis com centro de convenções, shopping centers com hotelaria, hospitais com hotelaria para acompanhantes de pacientes, etc.), formando verdadeiros complexos de serviços. A questão é onde localizar esse tipo de empreendimento numa cidade já construída, mas que ainda dispõe de alguns espaços disponíveis?

Todos os GEs têm algo em comum, na medida em que atraem grande quantidade de população (moradores, clientes e usuários), mercadorias e serviços, o que significa que são grandes geradores de viagens, além de elevarem substantivamente as densidades e o valor do solo no seu entorno. Isso tende a esgotar a capacidade das redes de infra-estrutura, criando demanda por redimensionamento das mesmas. Ainda que os investimentos adicionais em infra-estrutura venham sendo, de uma forma ou de outra, compartilhados entre o setor público e os GEs, um avanço inegável, não têm sido capazes de compensar o aumento da demanda que daí decorre. Há itens de infra-estrutura, como o sistema viário, que, em muitos casos, têm capacidade finita de expansão, o que desemboca, inevitavelmente, nos conhecidos congestionamentos e na conseqüente elevação dos custos de circulação.

É inegável a enorme sedução exercida pelos GEs sobre o imaginário social a partir de bem-concebidas campanhas de marketing, nas quais são realçadas a geração de renda e empregos, a revitalização de áreas livres e/ou degradadas da cidade e também os efeitos sobre as finanças locais. Cidades dinâmicas, como Porto Alegre, por exemplo, estão permanentemente discutindo projetos de grande escala, cuja preferência locacional são áreas relativamente ocupadas, próximas desítios nobres e frágeis ambientalmente, como a orla do Guaíba. Somente na faixa da orla que vai de Estação Rodoviária até o Hipódromo do Cristal (em torno de 8km) estão ou virão a ser implementados a Rodoviária, a revitalização do Cais do Porto, a complementação do Shopping Praia de Belas, a reforma do Complexo Beira Rio, o Pontal do Estaleiro e o Barrashoppingsul. Todos esses empreendimentos têm algum grau de importância para a economia da Cidade, todavia, se associarmos os GEs ao privilégio concedido ao transporte individual em detrimento do transporte coletivo, podemos imaginar os reflexos disso tudo sobre os custos de circulação.

Numa perspectiva de médio e longo prazos, somente no trecho acima referido, serão formados pontos de estrangulamento que causarão custos adicionais, generalizados, de congestionamento, que serão pagos pela população e pelas atividades econômicas que funcionam nessa parte da Capital. Significa uma elevação dos custos urbanos de Porto Alegre.

Desde 1998, o Governo local estabeleceu uma política para aperfeiçoar o controle de implantação de Ges, obrigando a apresentação do Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima). Além disso, tem exigido, em alguns casos, o cumprimento de medidas compensatórias aos efeitos negativos dessas unidades. Certamente, esse procedimento tem contribuído para mitigar, parcialmente, os efeitos mais perversos dos GEs sobre o seu entorno. Todavia não é suficiente para assegurar um desenvolvimento urbano equilibrado e sustentável da Cidade. As propostas que têm surgido são na linha de mais investimento viário, mais garagens, para atender a mais automóveis. Nessa direção, lamentavelmente, somos obrigados a concluir que não teremos soluções duradouras.

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Perspectivas da economia gaúcha em 2004

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Edição: Ano 13 nº 06 - 2004

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Conforme foi divulgado por esta instituição ao final do ano, a economia gaúcha cresceu 4,7% em 2003, comparativamente ao ano anterior. Esse crescimento, o maior dos últimos seis anos e muito superior ao desempenho da própria economia brasileira (-0,2%), teve como principais impulsionadores, pelo lado da oferta, a agroindústria e, pelo lado da demanda, o setor exportador. A dinâmica da economia estadual tem vínculos estreitos com esses dois segmentos, mais estreitos que os da economia nacional. Isso pode ser explicado, no caso da agroindústria, pelas próprias raízes agrícolas do Estado e, no caso do setor exportador, pelo maior coeficiente de abertura externa da economia gaúcha que o da brasileira.

A atividade genuinamente agrícola do agronegócio, a agropecuária, que tem uma participação em torno de 15% no PIB gaúcho, destacou-se no ano passado pelo excepcional crescimento da produção da lavoura (23,7%). Pelos levantamentos atuais de projeção da safra agrícola para 2004 (IBGE/LSPA), observa-se queda nas safras de soja (-41%) e milho (-29%), devido à severa estiagem do verão. Compensando essa perda, verifica-se o crescimento do arroz (29%), do fumo (43%), da uva (36%) e do feijão (25%), que concorrem para a safra agrícola ser positiva em 2004, embora não repetindo o excelente desempenho do ano anterior. Ainda não se dispõe de previsão para o trigo, que poderá alterar o quadro. No Brasil, foi expressivo o crescimento de 6,4% da agropecuária no primeiro trimestre do ano, também alavancado pela lavoura.

A indústria de transformação, cerca de 33% do PIB gaúcho, cresceu 3,5% no ano passado, impulsionada por aqueles gêneros industriais que se articulam com o setor agrícola e/ou com o mercado externo. As informações até abril deste ano sobre o comportamento da indústria (IBGE, Pesquisa Industrial Mensal) apresentam um crescimento acumulado de 3,7% no Rio Grande do Sul, salientando-se as mesmas atividades referidas acima, reforçando aqueles vínculos. Destaca-se que o desempenho da indústria de transformação brasileira para esse mesmo período foi bem superior (6,5%).

Há indícios de aquecimento no mercado interno neste ano, atenuando o cenário deprimido do ano passado, conforme demonstra o crescimento de 14,4% do comércio varejista no Estado, até o primeiro trimestre de 2004 (FEE/IMCV). Esse crescimento é decorrente da trajetória positiva de taxas mensais crescentes desde dezembro último.

Por último, cabe referência ao desempenho recente das exportações gaúchas, que, no ano passado, alcançaram o montante de US$ 8 bilhões e o segundo lugar no País. Foi excepcional também o desempenho das exportações brasileiras, US$ 73 bilhões, a maior cifra registrada até então. As informações até abril deste ano atestam a continuidade desse excelente desempenho: crescimento real acumulado de 20,9% no RS e de 19,7% no Brasil, conforme a tabela.

Concluindo, as perspectivas da economia gaúcha em 2004 são otimistas no sentido de uma taxa positiva. Considerando os indicativos acima, essa taxa, entretanto, deverá situar-se abaixo da nacional, cujas estimativas recentes (IPEA) apontam um crescimento de 3,5% do PIB brasileiro para este ano. Esse crescimento provavelmente menor da economia gaúcha contraria a tendência dos últimos cinco anos de taxa média da economia do Estado maior que a brasileira.

Perspectivas da economia gaúcha em 2004

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