Textos com assunto: economia gaúcha

Mercado formal de trabalho do RS estagna após forte retração

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Edição: Ano 26 nº 9 – 2017

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Os primeiros sete meses deste ano tiveram um saldo de apenas 262 empregos adicionais no mercado de trabalho formal do Rio Grande do Sul, de acordo com o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho. Essa virtual estagnação representa o prolongamento — vale dizer, a incapacidade de reação — frente à severa crise econômica, cujos efeitos eclodiram, na esfera ocupacional, no ano de 2015. Nesse ano, segundo a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), também do Ministério do Trabalho, 103,3 mil postos de trabalho com registro formal foram eliminados no Estado — redução de 3,3%, que interrompeu uma trajetória de mais de 10 anos de crescimento. Entre o final de 2004 e o de 2014, o estoque de empregos formais no mercado gaúcho havia-se elevado 41,8%, com uma expansão de 916 mil postos de trabalho.

Dados da RAIS para 2016 ainda não estão disponíveis. O Caged — que guarda algumas diferenças metodológicas e não alcança a mesma cobertura, mas cujo valor como base de dados para o estudo da conjuntura do mercado formal de trabalho é consagrado — aponta que outros 53,6 mil empregos com registro formal desapareceram, no Estado, em 2016 (o que representaria cerca de 2,1% de retração, em um cálculo aproximativo que parte da RAIS do ano anterior, com algumas compatibilizações ao Caged).

É com esse pano de fundo que se aquilata o desempenho do emprego nesses primeiros sete meses de 2017: de um lado, há a frustração por ainda não haver qualquer sinal de recuperação das intensas perdas recentes; de outro, esse resultado, que beira o zero, mas se situa no lado positivo, contrasta com as retrações acumuladas, entre janeiro e julho, nos últimos dois anos: -24,4 mil em 2016 e -29,2 mil em 2015. Nos cinco anos anteriores, para que fique bem circunscrita a reversão da tendência, os saldos haviam sido largamente positivos — sempre nesse recorte dos primeiros sete meses do ano —, vindo desde os 129,2 mil de 2010 até os mais modestos 45,6 mil de 2014.

Como em qualquer totalização de frações do ciclo anual, há que se ter cuidado com os efeitos da sazonalidade, que incide de forma particular em cada atividade econômica e em cada porção do território, desaconselhando a que se tomem os resultados obtidos como tendências seguras para o médio prazo (ou para o fechamento do período). Feita essa advertência, examinam-se algumas evidências que surgem da análise do Caged para esses sete primeiros meses deste ano, no Estado. Ainda que o resultado agregado tenha sido inexpressivo, setorialmente, merece destaque a indústria de transformação (IT), que teve um saldo de 11 mil empregos adicionais no período. Nos dois anos anteriores, ela havia sido responsável por mais da metade dos saldos negativos. Essa expansão da IT em 2017 foi neutralizada por retrações em praticamente todos os outros setores, destacando-se o comércio (-6,9 mil postos) e a agropecuária (-2 mil) no período.

Dentro da IT, as atividades (Divisões CNAE) que apresentaram maior geração de ocupações formais foram a fabricação de produtos do fumo (8,4 mil) e a preparação de couros e fabricação de artefatos de couro, artigos para viagem e calçados (2,7 mil). A primeira dessas atividades exemplifica bem a referida problemática da sazonalidade: a produção de fumo e seus derivados, no Estado, concentra-se no segundo trimestre. Ainda com variações positivas significativas, podem-se citar fabricação de produtos de borracha e de material plástico e fabricação de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (cerca de 1,2 mil cada). Embora os serviços tenham tido resultado agregado negativo (-953 empregos), duas Divisões CNAE que integram o setor apresentaram expansão digna de nota: educação (1,7 mil) e atividades de atenção à saúde humana (1,6 mil).

A análise do número de vínculos por faixa de remuneração também chama atenção, embora se trate de um dado incompleto (nessa variável específica, diferentemente das demais, não havia, na base do Ministério, a totalização das movimentações de mão de obra informadas fora do prazo pelos estabelecimentos). A fonte indica que houve expansão relevante do número de vínculos de trabalho com remunerações na faixa de 1,01 a 1,5 salário mínimo (SM); em menor intensidade, mas também com aumento, na faixa de 0,5 a 1 SM; e ainda um pequeno aumento no contingente com rendimento até 0,5 SM. O pessoal formalmente empregado em todas as demais faixas de salário retraiu-se. Um cruzamento com a escolaridade dos trabalhadores aponta que essa tendência de retração nos estratos de remuneração mais elevada e de expansão nos de mais baixo rendimento é reconhecível independentemente do nível de instrução do indivíduo — embora a distribuição por faixa, evidentemente, se altere, à medida que avança o número de anos de estudo concluídos. Esses dados merecem maior aprofundamento analítico, mas indicam que, além do escasso fôlego para gerar saldos ocupacionais positivos, o mercado de trabalho está passando por uma forte pressão de compressão salarial, o que amplifica os efeitos adversos da recessão.

O que está claro é que o mercado formal de trabalho vive, no Estado, assim como no País, um momento de muito baixo dinamismo, na sequência de uma continuada e profunda retração do emprego, a qual, no entanto, dá sinais de ter arrefecido. Se a economia e a ocupação se preparam para iniciar proximamente um esforço de retomada; se vão permanecer por mais algum tempo derreadas e estáveis, na precária posição em que se encontram; ou se, desafortunadamente, mais perdas podem sobrevir, ainda não é seguro afirmar.

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A produção industrial no RS, em 2016, e suas perspectivas de crescimento

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

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A indústria de transformação (IT), no Rio Grande do Sul, apresentou, no período de janeiro a novembro de 2016, uma queda acumulada de 4,3% na produção física em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com a Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No acumulado do ano, esse desempenho esteve ligeiramente acima da sua congênere nacional, a qual apresentou uma diminuição de 6,9% no volume de produção.

Em 2016, apenas quatro atividades industriais, no RS, apresentaram taxas positivas de crescimento, a saber: Fabricação de celulose e produtos de papel (36,9%), Metalurgia (2,7%), Artefatos de couro e calçados (2,4%) e Produtos alimentícios (1,0%). As demais atividades apresentaram queda na produção física. Esse fraco desempenho veio a se somar às quedas ocorridas em anos anteriores. Assim, quando se observam as taxas médias anuais de variação da produção física no período 2011-15, verifica-se que apenas três atividades apresentaram taxas positivas de crescimento. Como resultado, ao longo desses cinco anos, a taxa média de variação da IT foi de -2,7% a.a. (Gráfico), valor muito próximo ao da sua similar nacional (-2,8% a.a.). Essas sucessivas quedas da produção física fizeram com que a produção industrial, no Rio Grande do Sul, encerrasse 2016 cerca de 9,5% abaixo do nível de 2002.

Em virtude de o parque industrial do RS representar segmentos da indústria nacional, não há como dissociar o desempenho do primeiro em relação ao segundo. Assim, a análise da evolução da produção física ao longo de uma série de tempo mais longa demonstra que os ciclos de crescimento e queda da produção industrial do Estado seguem os ciclos da indústria nacional. Em função de algumas especificidades do parque industrial instalado no RS, como, por exemplo, a elevada participação da indústria de produtos alimentícios, de máquinas e equipamentos, da fabricação de veículos automotores e também da fabricação de produtos químicos, as quais, em conjunto, representam aproximadamente 47,0% do valor da transformação industrial, os ciclos da indústria, no Estado, tendem a apresentar maiores oscilações do que a média nacional. Portanto, é no desempenho da economia nacional que se devem buscar os principais determinantes das oscilações da produção industrial do Estado.

Em que pese o fato de que as menores taxas de queda na produção verificadas em 2016 já sinalizem para uma reversão do ciclo — em 2015, a queda na produção foi de 11,5% — e na possibilidade de que ocorra algum crescimento em 2017, convém destacar que o fraco desempenho dos últimos anos acaba retirando mercados das indústrias instaladas, bem como promovendo a saída de tantas outras que não foram capazes de enfrentar a crise. Tal fato cria fissuras na estrutura industrial através da quebra de relações de encadeamento industrial, cuja superação somente se dará no longo prazo, em um novo ciclo de crescimento. Por outro lado, uma vez retomado o crescimento, tais fissuras podem gerar gargalos que venham a comprometê-lo, originando a possibilidade de se ter que substituir por importações o que antes era produzido no mercado doméstico.
Em função da elevada participação da produção industrial no PIB estadual e também pelos seus efeitos multiplicadores, a retomada do crescimento da economia do Estado passa, necessariamente, pelo retorno do seu crescimento. Essa retomada, por sua vez, irá depender da reversão do cenário recessivo que se tem apresentado na economia brasileira nos últimos dois anos. De forma semelhante ao que ocorre em nível nacional, até mesmo a melhora das contas públicas do Estado irá depender muito mais da retomada da atividade econômica do que de políticas de corte nos gastos públicos. Estas últimas contribuem para a redução da demanda e, consequentemente, também para a queda na arrecadação tributária, o que pode acabar acarretando uma deterioração ainda maior da situação fiscal do RS.

A reversão cíclica que possa recolocar o Brasil em uma trajetória de crescimento de longo prazo irá depender, no entanto, de um conjunto de elementos que vão desde a solução dos graves problemas políticos que assolam o País, a retomada dos investimentos em infraestrutura nacional e o reajuste do câmbio e dos juros, de forma a favorecer uma maior competitividade industrial. Concomitantemente, fazem-se necessárias medidas que possibilitem o reaquecimento do mercado interno e do consumo das famílias. Somente após a correção dessa trajetória, que leve a um aumento do uso da capacidade instalada e gere perspectivas de rentabilidade futura, pode-se esperar um retorno dos investimentos que estejam acima do nível de depreciação do capital existente. Por fim, convém destacar que muitas das decisões de investimentos dependem de empresas que têm seu centro de decisão fora do País, as quais, portanto, irão avaliar não apenas a estabilidade econômica nacional e o potencial de crescimento do mercado doméstico, como também as alternativas que se colocam no cenário internacional.

Esse conjunto de elementos faz com que a retomada da atividade econômica do Estado, a melhora nas condições sociais e a solução para a crise das finanças públicas estejam, em grande parte, fora do alcance das autoridades estaduais. De qualquer forma, cabe aos gestores públicos atuarem no sentido de preservar e aprimorar as áreas de educação, pesquisa, saúde, social e de infraestrutura, para que, uma vez retomado o crescimento, coloquem a economia do RS em condições competitivas no cenário nacional. Tais medidas, associadas à existência de um parque industrial diversificado e às vantagens associadas à condição de fronteira, podem favorecer a economia do Estado em um novo ciclo de crescimento.

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Como citar:

CONTRI, André Luis. A produção industrial no RS, em 2016, e suas perspectivas de crescimento Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/a-producao-industrial-no-rs-em-2016-e-suas-perspectivas-de-crescimento/>. Acesso em: 21 de outubro de 2017.

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