Textos com assunto: economia criativa

Agregação de valor como estratégia de competitividade na cadeia têxtil-vestuário do RS

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Edição: Ano 27 nº 03 – 2018

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A cadeia produtiva têxtil-vestuário foi um dos históricos pilares da industrialização do RS. Desde o final do século XIX, o Estado caracterizou-se por um significativo parque industrial têxtil, baseado em capitais locais e tendo como matéria-prima, inicialmente, a lã e o algodão. É uma cadeia que se caracteriza por uma grande heterogeneidade do ponto de vista do tamanho das unidades produtivas, assim como de sua intensidade tecnológica. O setor do vestuário, especialmente, caracteriza-se por um grande número de empresas de micro e pequeno porte convivendo com empresas médias e grandes. Segundo o Sindicato das Indústrias do Vestuário do RS, 91,2% do setor é composto por microempresas, 8,1% por empresas de pequeno porte, 0,7% por empresas de médio porte e apenas uma empresa de grande porte. No RS, de acordo com os dados do Cadastro Central de Empresas do IBGE (Cempre), há mais de 30.000 empresas que geram 233.000 postos de trabalho e quase R$ 4 bilhões em salários e remunerações.

Trata-se de uma cadeia intensiva em mão de obra, que gera uma quantidade grande de empregos por unidade de capital aplicado. Do ponto de vista do perfil dessa mão de obra, o quadro de funcionários abrange profissionais de todos os níveis de qualificação: de trabalhadores não especializados a profissionais de nível superior, incluídos costureiros(as), supervisores, especialistas em passadoria e acabamento, operadores de computer aided design e/ou computer aided manufacturing, especialistas em corte e modelagem, engenheiros de produção, estilistas, designers e outros.

A composição dessa cadeia, em termos de sua composição setorial, pode ser analisada na tabela, onde se pode identificar o número de empresas e empregos em cada um dos seus segmentos, assim como o volume de salários e remunerações gerados anualmente em cada um. Para efeitos da análise do papel da moda e do design como elementos de agregação de valor na cadeia, incorporamos também, nesta análise, a cadeia calçadista, que, ainda que se constitua em um segmento distinto, também apresenta a mesma dinâmica relacionada com a agregação de valor a partir de elementos imateriais, relacionados com a criação, o gosto do público, a criação de marcas e o marketing.

Essa cadeia é relativamente bem disseminada do ponto de vista territorial, tendo uma presença relevante em muitas regiões do Estado. Em alguns casos, o processo de evolução do setor têxtil-vestuário resultou na formação de clusters setoriais com impacto territorial, como no caso da indústria calçadista no Vale do Rio dos Sinos, das malharias na Serra Gaúcha (Farroupilha, Caxias e Nova Petrópolis), chegando mesmo a se consolidar em regiões de menor tradição industrial, como o norte e o noroeste do Estado. Portanto, além de seu papel em termos de geração de emprego, o setor pode ser considerado importante também do ponto de vista do desenvolvimento regional, a partir da especialização e formação de clusters nos territórios.

Além disso, a cadeia têxtil-vestuário demonstra resiliência e capacidade de adaptação a choques externos. O setor sofreu o impacto da abertura econômica dos anos 90, recompôs-se e voltou a crescer no início do século, sendo atingido pela crise de 2015-16, mas os dados mais recentes mostram sua capacidade de recuperação. Dados da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) indicam que o setor têxtil e de confecção brasileiro deve fechar o ano de 2017 com faturamento de R$ 144 bilhões, um crescimento de 5,6% em relação a 2016, acima da média da economia nacional.

O processo de recuperação do setor vem acompanhado de uma mudança do ponto de vista das estratégias empresariais, que tem um grande potencial de transformação. Historicamente, o setor sempre se beneficiou da disponibilidade de um amplo mercado interno, fechado para a concorrência externa. Além disso, caracterizava-se por uma produção de baixo valor agregado, cuja competitividade baseava-se, sobretudo, no baixo custo da mão de obra. Além disso, a heterogeneidade e a baixa integração entre os atores da cadeia produtiva dificultavam o aprendizado coletivo e o desenvolvimento de estratégias setoriais.

O padrão de ação dos atores econômicos do setor passou a ser modificado a partir do início do século, momento em que emergiram novas abordagens para o problema da competitividade da cadeia. A adoção de um padrão de competitividade baseado na agregação de valor, nos novos processos produtivos e no uso mais intensivo de tecnologia transformou-se em um dos elementos centrais de uma nova postura, que foi além das estratégias anteriores, assentada por muito tempo em um mercado fechado e na disponibilidade de mão de obra barata e abundante. Além disso, passaram a ser incorporados o design, o marketing estratégico e os novos modelos de negócio. Um dos aspectos decisivos foi a maior integração da moda ao mercado, que incorporou valores imateriais, criatividade e inovação. A isso se associa um esforço de construção de marcas e a busca mais agressiva de novos mercados.

Esse novo padrão também tem como base algumas mudanças de natureza institucional, que incidiram de forma significativa sobre a cadeia. A presença de instituições educativas formadoras de mão de obra qualificada é um elemento. O RS dispõe, hoje, de um número significativo de cursos de nível técnico e superior que formam profissionais de moda e design.

Os próprios atores econômicos alteraram seus padrões de atuação, abrindo caminho para ganhos de produtividade. As entidades representativas do setor começaram a operar no sentido de uma ação mais coletiva e coordenada a partir de novos conceitos de integração da cadeia produtiva. Em março de 2017, a Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande do Sul (FIERGS), representante do setor industrial, e a Federação do Comércio de Bens e de Serviços do Estado do Rio Grande do Sul (Fecomércio-RS), do setor varejista, iniciaram um processo de aproximação. Em julho daquele ano, foi realizado o RS Moda — Varejo & Indústria Conectados, evento que reuniu fabricantes e varejistas, e que, além da realização de negócios, buscou promover debates onde se disseminaram conceitos de construção de marca, estratégias digitais e sustentabilidade, com o objetivo de fortalecer a conexão entre as pontas da cadeia têxtil e do vestuário do Estado e valorizar a produção regional.

Cabe observar que os dois movimentos descritos acima estão associados à implementação de políticas de natureza setorial e territorial, como a constituição de arranjos produtivos articulados a partir dos atores locais, em distintas regiões do Estado. As entidades representativas do setor privado, as instituições de ensino e pesquisa e o poder público começam a articular estratégias conjuntas de atuação voltadas para potencializar a competitividade do setor. Já existem em operação os Arranjos Produtivos Locais (APLs) Coureiro-Calçadista do Vale do Rio dos Sinos, o Polo de Moda da Serra Gaúcha, o do Setor Têxtil-Vestuário do Alto Uruguai e o APL Polo de Moda do Norte Gaúcho.

Essa evolução mostra que a incorporação de noções que se articulam em torno do conceito de economia criativa pode ser um caminho relevante para o desenvolvimento da cadeia têxtil-vestuário. Criatividade, inovação e conhecimento agregam valor e têm sido fundamentais para a evolução do setor.

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O mercado da música e o seu significado para a economia do Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 26 nº 7 – 2017

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A cadeia de produção musical é linear, com o produto final resultando de uma série de atividades interligadas que vão adicionando valor ao produto final que é comercializado. Esse produto final pode ser um objeto, um suporte físico de conteúdo musical (CD ou LP), um evento (show ou apresentação) ou mesmo, atualmente, um mecanismo de copyright (um fonograma registrado para efeitos de direito autoral). Em todos esses casos, o caminho que vai da criação artística até a sua realização enquanto valor monetário é longo e passa por múltiplos estágios que envolvem diferentes processos econômicos. A literatura divide as atividades de produção e comercialização dos produtos musicais em quatro etapas principais: criação, produção, divulgação e distribuição.

Até a década de 90, essa cadeia estruturava-se em torno da indústria fonográfica. As grandes gravadoras, companhias que faziam a mediação entre a produção dos artistas e o grande público, eram o ator central de um processo industrial altamente verticalizado. A partir da criação, praticamente todo o resto da cadeia dependia dessas empresas. Esse foi o modelo predominante desde a década de 40 até o final do século passado. As mudanças tecnológicas do final do século XX impactaram de forma profunda e irreversível a indústria fonográfica, abrindo caminho para um novo modelo de mercado musical.

Dois fatores foram essenciais nesse processo: o primeiro foi a redução dos custos dos equipamentos de gravação, que permitiu que o registro das músicas fosse realizado de maneira muito mais descentralizada, tornando a criação e a produção mais autônomas. O segundo foi a emergência das novas tecnologias de informação e comunicação, que abriram novos caminhos para a divulgação e a distribuição. A oferta de produtos diretamente pela internet, mediante download ou streaming, cresce no mundo inteiro. Segundo a Federação Internacional da Indústria Fonográfica (IFPI), o mercado global da indústria relacionado à reprodução digital vem crescendo em uma média de 6% ao ano desde 2009, atingindo os US$ 6,9 bilhões em 2014.

A cadeia da música não se restringe à relação entre o artista e o público. Ela tem como ponto de partida o processo de produção industrial dos insumos para a produção musical (instrumentos, equipamentos de amplificação e gravação, mídias virgens, etc.). Além disso, essa cadeia tem como pressuposto a formação de um mercado musical que envolve tanto a formação de músicos como a do público (escolas de música, cursos universitários, publicações especializadas, mídia, etc.), e também toda uma rede de espaços nos quais a música é: (a) apresentada ao vivo (teatros, casas de espetáculos ou clubes), (b) transmitida (via rádio, internet ou TV) ou (c) parte do contexto de outras atividades, sejam elas artísticas ou não (trilhas musicais de publicidade ou de outras produções audiovisuais e música ambiente em espaços públicos).

Entre esses dois extremos, artista e público, há todo um encadeamento de atividades econômicas relacionado ao processo de produção (estúdios de gravação, equipes técnicas, atividades de produção de espetáculos), à divulgação (assessorias de imprensa, publicações especializadas, rádios e programas de TV), à execução (teatros, casas de espetáculos, clubes, bares) e também ao processo de comercialização de produtos vinculados à música. Em torno dessas atividades identificam-se impactos adicionais em termos de suporte, como a contratação de serviços de logística (transporte, alojamento e alimentação) e de divulgação (design e produção gráfica). É, portanto, uma cadeia longa e complexa de atividades econômicas, envolvendo uma grande quantidade de empreendimentos tanto no campo industrial como de serviços.

No Rio Grande do Sul, a cadeia da música, identificada a partir dos critérios estabelecidos pela literatura nacional e internacional existente sobre o setor, envolve um conjunto de empreendimentos extenso, com a presença de praticamente todos os elos da cadeia. Uma primeira aproximação, ainda que limitada, ao peso dessa cadeia pode ser feita a partir dos dados disponíveis no Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os dados do Cadastro Central de Empresas (CEMPRE), relativos ao ano de 2015, apontam a existência de 3.982 empresas formais, envolvendo um contingente de mais de 16 mil postos de trabalho, movimentando em salários e outras remunerações mais de R$ 240 milhões por ano. Isso se refere apenas a uma parte do mercado real, uma vez que no âmbito da música, mais do que em outras atividades da chamada economia criativa, o grau de informalidade das atividades é muito alto. Grande parte das atividades musicais realizadas, como as performances ao vivo, dá-se sem qualquer contratação formal ou registro de transação monetária. Além disso, para grande parte dos músicos daqui, viver exclusivamente de sua atividade artística é difícil, o que implica no exercício de outras atividades remuneradas. Além disso, parte significativa das atividades deste campo está relacionada a outras atividades econômicas, o que dificulta sua identificação. Um músico que faz jingles é encontrado nas estatísticas relativas à publicidade, um músico que dá aulas é encontrado nas estatísticas das atividades educacionais, entre tantos outros casos.

As estatísticas existentes, portanto, permitem identificar apenas de uma forma muito limitada o impacto da cadeia da música na economia do Estado. No entanto, a Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) do IBGE, cuja última versão é de 2008-09, permite fazer uma aproximação do potencial de mercado das atividades relacionadas à música. Segundo a POF, os gastos com cultura representam 5% dos gastos das famílias. Tomando-se como base os dados relativos ao Produto Interno Bruto (PIB) do Rio Grande do Sul, é possível fazer uma aproximação do peso do consumo da música das famílias no Estado. De acordo com os últimos dados disponíveis, o consumo das famílias representa 58,1% do PIB do RS (FEE, 2013). Considerando-se que o PIB do RS, neste ano, foi da ordem de R$ 331 bilhões, é possível projetar que, em nosso estado, os gastos com atividades culturais são da ordem de R$ 9,6 bilhões por ano. Visto que os gastos diretamente com o consumo de música representam 6,9% dos gastos com cultura, pode-se estimar que o mercado da música movimenta, anualmente, pelo menos R$ 660 milhões no Estado.

Esses dados mostram apenas uma parte da realidade do mercado da música, e os seus limites apontam para a importância do aprofundamento dos estudos sobre essa cadeia produtiva. O setor é parte de uma tendência global de importância crescente do setor de serviços na economia. Mais do que isso, a economia criativa é cada vez mais um campo em expansão que tem um potencial de integração importante em cadeias globais de valor. Conhecer melhor o setor, identificar suas potencialidades e pensar políticas públicas que contribuam para potencializar seu impacto na economia gaúcha é um grande desafio.

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A relevância da economia criativa no setor de serviços gaúcho

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Edição: Ano 25 nº 08 – 2016

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A economia criativa vem conquistando cada vez mais protagonismo na estrutura econômica mundial. A definição do segmento ainda está em evolução, o que permitiu a criação de vários conceitos análogos por diferentes países e instituições. Contudo, os principais situam o setor de serviços como núcleo principal desse segmento, o qual abrange, também, a indústria e o comércio. Dados recentes da United Nations Conference on Trade and Development (UNCTAD) indicam que a economia criativa tem crescido a taxas anuais de duas a três vezes maiores em comparação à indústria de serviços em geral.

O Rio Grande do Sul não fica de fora dessa tendência, de modo que atividades ligadas à cultura ganham cada vez mais relevância no Estado. Textos anteriores da Carta de Conjuntura difundem essa mesma ideia com dados de como o consumo de cultura por parte da população gaúcha é maior que a média brasileira e como o mercado de Jogos Digitais do RS, que já é o segundo polo de produção, é superado apenas pelo de São Paulo.

Considerando tanto o quadro nacional quanto o internacional, depreende-se a relevância dos estudos em torno do tema. Seguindo o conceito sugerido pela UNCTAD, a economia criativa é descrita como os ativos criativos que potencialmente geram crescimento e desenvolvimento econômico. No centro da economia criativa, localizam-se as indústrias criativas. A importância da economia criativa está ligada a alguns fatores, tais como: (a) estímulo à geração de renda, à criação de empregos e à exportação de ganhos, ao mesmo tempo em que promove a inclusão social, a diversidade cultural e o desenvolvimento humano; (b) aspectos econômicos, culturais e sociais que interagem com objetivos de tecnologia, propriedade intelectual e turismo; (c) configura-se um conjunto de atividades econômicas baseadas em conhecimento, com uma dimensão de desenvolvimento e interligações cruzadas em macro e micro níveis para a economia em geral; e (d) opção de desenvolvimento viável que demanda respostas de políticas inovadoras e multidisciplinares, além de ação interministerial.

A Fundação de Economia e Estatística (FEE) está atualizando a metodologia de uma pesquisa intitulada Indústria Criativa no Rio Grande do Sul, publicada em 2013, que tinha como objetivo identificar e comparar características dos setores de serviços, comércio e indústria da economia criativa no RS. Para tanto, foram consideradas como pertencentes à economia criativa as mesmas classes da Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) utilizadas na pesquisa. Os dados utilizados para a análise do setor de serviços são provenientes da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), fornecidos pelo Ministério do Trabalho.

Os resultados, obtidos através do número de vínculos empregatícios, evidenciam que o Conselho Regional de Desenvolvimento (Corede) Metropolitano Delta do Jacuí é o principal polo do Estado, concentrando 56,31% dos “serviços criativos” gaúchos. Apesar disso, outros Coredes apresentaram expressivo crescimento no período de 2010 a 2013, com destaque para o Corede Serra, que apresentou taxa de crescimento de 28,69%, mesmo sendo o terceiro maior Corede no segmento. Os dados também revelam que o segmento conseguiu se expandir dentro do setor de serviços, passando de 84.763 (1,99%) vínculos empregatícios no setor em 2010 para 99.929 (2,08%) em 2013.

Dentre as classes da CNAE, as que mais possuem vínculos empregatícios são (a) tratamento de dados, provedores de serviços de aplicação e serviços de hospedagem na Internet e (b) suporte técnico, manutenção e outros serviços em tecnologia da informação, o que indica uma forte concentração em torno de empresas relacionadas à Tecnologia da Informação.

Podem-se extrair outras informações importantes da base de dados da RAIS. A remuneração média dos trabalhadores dos “serviços criativos” foi maior que a do total do setor dos serviços nos quatro anos analisados (de 2010 a 2013). Além disso, o crescimento da remuneração média no segmento da economia criativa foi de 39,18%, também maior que os 31,71% do setor de serviços.

Percebe-se, ainda, que a escolaridade média em cada ano foi maior entre os trabalhadores do segmento em análise. Essa diferença foi de 1,33 ano (em média). Por outro lado, a idade média dos mesmos é quase dois anos inferior à dos que não trabalham no segmento.

Através da interpretação dos dados, pode-se constatar que o RS possui muito potencial para crescimento sustentado da economia criativa. A maioria dos Coredes gaúchos expandiu o número de vínculos empregatícios no período 2010-13, em consonância com a expansão apresentada pelo Estado. Essa expansão favorece o desenvolvimento tecnológico, já que o segmento está diretamente associado à inovação e ao desenvolvimento, fato esse evidenciado pelas classes da CNAE que mais apresentam vínculos empregatícios.

Ainda pode-se perceber que, nesse segmento, para todos os anos analisados, a mão de obra é mais qualificada e mais jovem, e que os empregos tendem a ter uma remuneração acima da média dos rendimentos do mercado tradicional, o que incentiva o aumento da qualificação profissional.

Participação percentual dos vínculos empregatícios da economia criativa dos Coredes — 2010-13

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