Textos com assunto: desenvolvimento

A Indústria de Jogos Digitais no Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 25 nº 02 – 2016

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A Indústria de Jogos Digitais (IJD) vem ganhando um impulso no mundo inteiro. O mercado de Jogos Digitais movimentou US$ 65,7 bilhões nominais em 2013 e deve chegar a US$ 89 bilhões em 2018, projetando uma taxa de crescimento de 6,3% ao ano. No Brasil, a estimativa é que o mercado de Jogos Digitais cresça de US$ 448 milhões em 2013 para US$ 844 milhões, com uma taxa de expansão de 13,5% ao ano[1]. É, portanto, um setor que vem crescendo, nacional e internacionalmente, mesmo em um ambiente econômico desfavorável. No setor de softwares do Rio Grande do Sul, uma parte crescente das empresas e dos empregos está associada com a IJD.

Essa indústria é importante não somente devido a sua capacidade de geração de emprego e renda, mas também pela vocação de promover a inovação tecnológica, que transborda para os mais diferentes setores da economia: arquitetura e construção civil, marketing e publicidade, áreas de saúde, educação, defesa, treinamento e capacitação. A variedade de possibilidades de inserção de mercado dos jogos, que vai desde a operação via os consoles como o Playstation, da Sony, ou o X-Box, da Microsoft, passando pelos jogos operados via PC, até chegar às mais recentes plataformas mobile, assegura uma multiplicidade de suportes possíveis para os desenvolvedores.

A produção de Jogos Digitais dá-se por meio de atividades criativas e técnicas, que demandam e produzem novas tecnologias. Tais atividades são responsáveis pela geração de novos produtos e serviços, processos produtivos e de distribuição para atividades em outras empresas e organizações dentro e fora do setor, produzindo, assim, externalidades para o conjunto da economia. Além disso, novas modalidades de utilização dos jogos, denominadas de “gamificação”, levam as possibilidades dessa indústria para além da sua dimensão de entretenimento. Os jogos digitais têm sido incorporados a atividades de educação, a pesquisas cientificas, a treinamentos (desde o âmbito corporativo até a Defesa Nacional), à publicidade (advergaming), além de terem utilização na capacitação relacionada ao atendimento de saúde, na escolha e no desenvolvimento de vocações, na arquitetura e na construção civil. Essa contínua evolução indica que o potencial de mercado da IJD ainda está muito distante de ter a totalidade dos seus impactos percebida no conjunto da economia.

No contexto nacional, o Rio Grande do Sul já é o segundo polo de produção, superado apenas por São Paulo. A Associação de Desenvolvedores de Jogos Digitais (ADJogos-RS), com 30 associados, já é a maior associação regional do País. O setor despertou a atenção das autoridades governamentais, que buscam formular políticas públicas para o setor. Em 2014, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) publicou um estudo, realizado pelo Núcleo de Política e Gestão Tecnológica da Universidade de São Paulo (USP), sinalizando o seu grande potencial em termos econômicos e tecnológicos.

Os estudos realizados sinalizam para as possibilidades de articulação de clusters de acordo com o modelo de Arranjos Produtivos Locais (APLs). A articulação dos empreendedores privados com o setor público, apoiados pelo conhecimento técnico desenvolvido nas universidades, potencializa o seu desempenho. No Rio Grande do Sul, a Feevale, a Unisinos, a UniRitter e a PUC têm cursos em nível de graduação e pós-graduação na área. E a ADJogos-RS, em parceria com as três esferas de governo, já implementa o seu Plano de Desenvolvimento do Arranjo Produtivo Local de Jogos Digitais.

Essa ação se articula com as políticas nacionais, materializadas em um plano[2] que estabelece uma estratégia baseada em cinco objetivos: (a) desenvolver, no Brasil, uma IJD que seja competitiva e inovadora; (b) capacitar recursos humanos para operar empresas de classe global; (c) promover acesso a financiamento; (d) gerar um ambiente de negócios que estimule o crescimento sustentado; e (e) estabelecer políticas de demanda que induzam o crescimento do setor.

É importante destacar que esse setor se desenvolve em uma dinâmica de inserção em cadeias internacionais de valor. Empresas gaúchas já trabalham em parceria com gigantes internacionais como Sony, Rovio, Cartoon Network, Nickelondeon e Warner. Em 2014, o primeiro jogo produzido no RS teve aprovada pela Sony a instalação no console do Playstation 4 e já vendeu 40.000 cópias. A Unisinos participa todos os anos em um evento internacional, o Global Game Jam, que em 2015 aconteceu em 518 locais, em 78 países. A edição do RS ficou em 33.º no mundo em número de participantes e foi a segunda maior do Brasil. Na edição de 2016 do Game Founder, o maior evento de aceleração de startups de games do mundo, que será realizado na Malásia, das três empresas brasileiras selecionadas, duas são do RS.

As empresas que compõem o setor no Rio Grande do Sul, assim como no resto do Brasil, tendem a ser fundamentalmente pequenas e médias empresas, sendo que mais de 70% delas têm ainda um faturamento inferior a R$ 240 mil por ano, mas 5% delas já atingiram um faturamento acima de R$ 2,4 milhões[3]. São também empresas com mão de obra altamente qualificada, conectadas com universidades e instituições de pesquisa, em processo de integração ao mercado nacional e internacional. Todo esse quadro sinaliza para a importância de um setor que é diretamente associado à inovação e ao desenvolvimento tecnológico, com um enorme potencial de crescimento que abre caminho para novas dimensões de desenvolvimento na economia gaúcha.

 


[1]  FLEURY, Afonso; NAKANO, Davi; CORDEIRO, José H. D. Mapeamento da Indústria Brasileira de Jogos Digitais. Rio de Janeiro, BNDES, 2014. p. 32.

[2]  Proposições de Políticas Públicas Direcionadas à Indústria de Jogos Digitais (Rio de Janeiro, BNDES, 2014).

[3]  FLEURY, Afonso; NAKANO, Davi; CORDEIRO, José H. D. Mapeamento da Indústria Brasileira de Jogos Digitais. Rio de Janeiro, BNDES, 2014. p. 44.

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A educação gaúcha e os índices municipais de desenvolvimento

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Edição: Ano 22 nº 02 - 2013

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Recentemente, foram divulgados dois índices de desenvolvimento em nível municipal por instituições de pesquisa no País. No final do ano passado, a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan) atualizou o Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal (IFDM) para o ano de 2010. Em seguida, a Fundação Getúlio Vargas (FGV) lançou o Indicador Social de Desenvolvimento dos Municípios (ISDM), também referente a 2010. Ambos os índices têm alguma semelhança com o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das Nações Unidas: são índices compostos que agregam dimensões consideradas importantes para se avaliar desenvolvimento. No caso do IFDM, as três dimensões são: (a) renda e trabalho; (b) educação; e (c) saúde. O ISDM, por sua vez, apresenta cinco dimensões: (a) habitação; (b) renda; (c) trabalho; (d) saúde e segurança; e (e) educação.

Agregando-se os resultados municipais e ordenando o ranking por estados, o Rio Grande do Sul apresentou resultados pouco discrepantes, quando comparados os dois índices. No IFDM, o Rio Grande do Sul ficou na sexta posição em 2010, enquanto, no ISDM, o Estado foi classificado na quarta colocação entre os estados brasileiros.

No entanto, quando se observa apenas a dimensão referente à educação, os resultados são significativamente divergentes: no IFDM, o RS está na 11ª posição do ranking educacional (com índice 0,752). O resultado apresentado pela Firjan pode gerar alguma preocupação, uma vez que o RS está colocado atrás de todos os estados das Regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste (à exceção do Tocantins). Por outro lado, na classificação da dimensão Educação no ISDM da FGV- -SP, o RS encontra-se na quinta posição (com índice 5,56). Ao contrário do resultado da Firjan, os números da FGV-SP parecem ser pouco preocupantes, uma vez que o RS está atrás apenas de Distrito Federal, São Paulo, Santa Catarina e Paraná. Os distintos resultados apresentados pelos dois índices confundem o público e demandam explicações: afinal, a educação gaúcha é de boa qualidade ou deixa a desejar? Idealmente, não se espera que os resultados de uma mesma dimensão sejam tão distintos em dois índices que se propõem a medir desenvolvimento municipal.

As diferenças nos resultados devem-se principalmente às variáveis escolhidas para a composição da dimensão Educação em cada índice. No IFDM (Firjan), utilizam-se seis variáveis para compor essa dimensão: taxa de matrícula na educação infantil, taxa de abandono, taxa de distorção idade-série, percentual de docentes com ensino superior, média de horas-aula diárias e resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB). Dessas, apenas a primeira refere-se à educação infantil, todas as demais são variáveis do ensino fundamental. Por outro lado, 11 variáveis compõem a dimensão Educação no índice da FGV: duas variáveis referentes à educação infantil, seis relacionadas ao ensino fundamental e três referentes ao ensino médio e à taxa de analfabetismo adulto.

Uma diferença fundamental entre os dois índices na dimensão Educação são as variáveis relacionadas ao ensino médio. O índice da Firjan, deliberadamente, exclui variáveis referentes a esse nível de ensino, com a justificativa de que há muitos municípios que não oferecem, nem precisariam oferecer, escolas de ensino médio ou universidades. Em algumas cidades, os jovens passam a estudar em cidades vizinhas após a conclusão do ensino fundamental. Já o índice da FGV dá peso igual aos três níveis de ensino (um terço para cada nível). O problema dos alunos de ensino médio em cidades que não oferecem escolas desse nível de ensino é solucionado pelo fato de que o índice da FGV conta apenas com dados do Censo em algumas variáveis. No Censo, há informação acerca dos indivíduos que estão no ensino médio e do município em que residem. Evidentemente, a impossibilidade de atualização anual dos dados do Censo impede a publicação anual do índice. Não obstante isso, ainda é de causar surpresa a discrepância entre os rankings educacionais divulgados pelos dois órgãos.

Parte do problema desses indicadores deve-se à falta de um claro arcabouço teórico que justifique as variáveis escolhidas e os métodos de agregação. Não se sabe o que está sendo medido de fato por esses índices. Nas notas metodológicas de ambos os indicadores, os critérios de escolha das variáveis não são claros, em particular na dimensão Educação.Há poucas informações para se poder julgar qual índice é mais apropriado para medir desenvolvimento.

Apesar desses percalços, não se deve ignorar que, no índice da Firjan, que dá maior peso ao ensino fundamental, a dimensão Educação apresentou resultados ruins quando comparada com a do índice da FGV. A diferença entre os números apresentados pelos dois índices é um sinal amarelo para os responsáveis pelas políticas educacionais no Estado, principalmente no que se refere ao ensino fundamental.

A educação gaúcha e os índices municipais de desenvolvimento

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