Textos com assunto: desenvolvimento econômico

Perspectivas para a agricultura gaúcha em 2017

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Edição: Ano 25 nº 11 – 2016

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A importância da agricultura para o desempenho da economia gaúcha é amplamente reconhecida. Há quatro safras, a produção de grãos no RS mantém-se em patamares historicamente elevados, apesar da ocorrência de adversidades climáticas localizadas. No momento em que se inicia a colheita do trigo e avança o plantio das principais culturas temporárias de verão, intensificam-se os questionamentos acerca da dimensão e da rentabilidade da próxima safra no Estado (2016/17).

Em termos mundiais, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projeta que o próximo ano comercial será marcado por um crescimento da oferta de grãos superior ao da demanda. Além da soja, principal produto agrícola do RS, há expectativa de elevação nos estoques mundiais de milho, arroz e trigo. Atualmente, as safras norte-americanas de soja e milho estão em fase final de colheita, e as estimativas apontam recordes de produção (116 e 382 milhões de toneladas respectivamente, segundo o USDA). Até o momento, o esperado crescimento da produção e dos estoques mundiais não gerou quedas expressivas nos preços da soja, no mercado futuro.

Algumas características do mercado da soja podem ser destacadas para explicar essa sustentação dos preços. Nos Estados Unidos, a infraestrutura de armazenagem e transporte permite um melhor planejamento das estratégias de comercialização. Isso implica dizer que a decisão de venda se subordina mais às percepções de mercado dos agentes (oportunidades de negócios) do que às condições logísticas (restrições de infraestrutura). Outro aspecto a se destacar é que a safra sul-americana ainda não está “precificada” pelo mercado, pois se encontra em fase de plantio. Não obstante também se espere um recorde de produção na América do Sul, alguns meses separam a previsão do início da colheita nos países sul-americanos (janeiro de 2017). Nesse intervalo, o risco climático permanece, o que constitui fonte de incerteza para os preços. Quanto mais provável se tornar a confirmação de uma supersafra mundial de soja, maiores serão as pressões para a queda dos preços futuros e vice-versa. Esses são fatores elementares para a formação do preço recebido pelos sojicultores gaúchos na próxima safra, que também dependerá da taxa de câmbio e das condições de demanda.

Os fundamentos que sustentam o crescimento da demanda externa da soja são mais concretos e sujeitos a um grau menor de imprevisibilidade. A expectativa do USDA é de que as importações mundiais continuem crescendo (3,5%). Mesmo com a desaceleração econômica, a demanda chinesa pela soja continua grande em função da necessidade de converter uma quantidade crescente de proteína vegetal em proteína animal para atender a uma população com hábitos mais urbanos.

Em se tratando da próxima safra no RS, a Emater-RS e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) foram as primeiras instituições a divulgar estimativas de produção e área plantada para os principais grãos de verão (soja, arroz, milho e feijão). Apesar das diferenças metodológicas e da grandeza dos números, as projeções convergem para um cenário de menor expansão e/ou estabilidade da área plantada de soja e de ampliação do cultivo de milho e de arroz (ver tabela). A expansão da área de milho deve ocorrer principalmente em substituição a áreas de soja na mesorregião Noroeste. Talvez a principal explicação para esse movimento, não observado há quatro safras, seja a lembrança de preços altamente remuneradores aos produtores de milho no primeiro semestre de 2016. Contudo, é pouco provável que em 2017 se repita um quadro similar ao observado no último ano. Com a confirmação da supersafra norte-americana e a recomposição dos estoques mundiais, tende a haver menor pressão externa para a aquisição da primeira safra brasileira de milho. Além disso, o fim das retenciones argentinas à exportação de milho tornou o produto do país vizinho uma alternativa mais barata de abastecimento em momentos de restrição temporária da oferta. A Emater-RS e a Conab também convergem ao projetar uma redução da produtividade das culturas da soja, do milho e do feijão e uma alta na do arroz. No entanto, não há sintonia na determinação da variação da produção de milho.

É importante ressalvar que nesse momento qualquer estimativa de produtividade e produção agrícola está sujeita a uma ampla margem de erro, dados o estágio inicial do ciclo produtivo das culturas analisadas e o risco climático envolvido. Apesar do crescimento relativo dos últimos anos, a área irrigada de grãos de sequeiro no Rio Grande do Sul ainda é pequena, o que torna o desenvolvimento dessas culturas extremamente vulnerável à falta de chuvas por períodos prolongados. Os efeitos das estiagens de 2004/05 e 2011/12 na produtividade agrícola e suas repercussões econômicas são provas disso e permanecem na memória dos gaúchos. Isso evidencia a necessidade de incentivo à redução dos riscos inerentes à atividade agropecuária por meio da irrigação, da adoção de práticas conservacionistas ou da melhoria dos instrumentos financeiros de proteção à renda agrícola.

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Como citar:

FEIX, Rodrigo Daniel. "Perspectivas para a agricultura gaúcha em 2017," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 24 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/perspectivas-para-a-agricultura-gaucha-em-2017/>.

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O modelo de crescimento em xeque

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Edição: Ano 22 nº 12 – 2013

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A dinâmica do PIB em 2013, alternando períodos de crescimento e queda, trouxe novamente à tona o debate sobre o esgotamento do modelo de crescimento que vigorou entre 2004 e 2010, assim como as dificuldades associadas à consolidação de um novo modelo que permita a retomada do crescimento em ritmo mais elevado. Pelo menos três pilares do modelo anterior não estão mais presentes no contexto atual: o crescimento do consumo via crédito encontra limites no endividamento das famílias, deixando de ser um elemento impulsionador do crescimento e do investimento privado; a elevada liquidez mundial começa a escassear e traz incertezas aos mercados financeiros, limitando o papel da taxa de câmbio como âncora para os preços; e o ciclo de elevação dos preços das commodities mostra reversão, o que piora o déficit em transações correntes e ressuscita o risco de desequilíbrio externo e choque cambial.

A preocupação com a transição para um novo modelo de crescimento — com menor dependência do crescimento do crédito e do consumo e maior equilíbrio externo — já estava presente em 2011, quando ficou claro que a crise internacional se estenderia por mais alguns anos. Naquele período, o Governo buscou produzir uma depreciação cambial não inflacionária (isto é, combinada com medidas de contenção da demanda), com o objetivo de aumentar a proteção à indústria, tendo em vista a perda de competitividade acumulada ao longo dos anos e o acirramento da competição mundial. Porém, essas medidas, acrescidas do agravamento da crise internacional, provocaram a desaceleração no ritmo de crescimento. Em resposta a isso, o Governo retomou os incentivos ao consumo, dando reforço também às medidas de estímulo ao investimento e à recuperação da competitividade — dentre as quais se destacam o crédito a custos baixos do BNDES, a redução do preço da energia elétrica e a redução de impostos sobre a folha de salários. Ao longo de 2012, o consumo cresceu, mas esse crescimento foi, em sua maioria, atendido pela redução de estoques e pelas importações. Ou seja, não induziu a um aumento da produção. Por outro lado, os investimentos também ficaram estagnados, dado que havia capacidade ociosa, gerada no ciclo de investimentos de 2010, ainda a ocupar ao longo de 2012. Como resultado, a economia cresceu apenas 1,0%.

O problema é que o baixo crescimento do PIB e o cenário internacional adverso aceleraram a piora dos fundamentos macro. O volume de exportações tem oscilado em torno do mesmo nível desde meados de 2006, mas, até o ano passado, ainda havia crescimento das receitas em dólares, devido à elevação dos preços. Em 2013, os preços das exportações caíram, o que reduziu o saldo comercial e ampliou o déficit em transações correntes. Como agravante, a balança do petróleo apresentou piora considerável, por questões pontuais ligadas à produção da Petrobras e ao registro atrasado de importações. A queda do superávit primário, por seu turno, decorre menos de uma mudança na dinâmica dos gastos do que de uma redução nas receitas. Isso mostra que o custo-benefício dos estímulos já não compensa: eles não têm gerado crescimento suficiente para contrapor a renúncia das receitas. Finalmente, a taxa de câmbio deixa de ser um contrapeso no controle dos preços, o que torna a inflação mais resistente à queda em um cenário de manutenção do emprego e mudança estrutural no setor de serviços.

A novidade é que, em 2013, os investimentos mostram recuperação, com crescimento de 6,5% no ano. Essa recuperação pode ser explicada pela ocupação da capacidade gerada no ciclo de investimentos anterior, pelas medidas do Governo para a sua ampliação, incluindo as concessões em infraestrutura, e pela retomada das compras de veículos pesados. Os dados do PIB de 2013 não mostram uma economia estagnada ou em recessão. O que se observa é muita volatilidade na comparação trimestre contra trimestre imediatamente anterior. Esta pode ser atribuída, dentre outras razões, ao comportamento atípico da produção de petróleo e da agricultura no primeiro semestre deste ano. Ademais, toda comparação trimestral, mesmo que ajustada sazonalmente, está sujeita a uma maior oscilação, devido aos ciclos de estoque. A queda de 0,5% do PIB no terceiro trimestre insere-se também nesse contexto, uma vez que sucedeu um crescimento de 1,8% no trimestre anterior (o que equivale a uma expansão anualizada de 7,2%). No acumulado do ano, o crescimento é de 2,4%, e, no acumulado em quatro trimestres, a taxa tem aumentado, de 0,9% no terceiro trimestre do ano passado para 2,3% neste ano. Ainda que não possa ser considerado um desempenho espetacular, esse crescimento tem sido suficiente para manter o nível de emprego.

De toda forma, fica claro que a aceleração do crescimento não poderá ser alcançada com uma política de mais do mesmo. De um lado, não se pode contar com maiores estímulos vindos do consumo e da demanda externa. De outro, o mercado de trabalho segue aquecido, e o cenário externo não permite que a apreciação cambial seja acionada para compensar pressões inflacionárias. Nesse contexto, crescer mais sem inflação depende, cada vez mais, do aumento da produtividade.

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A economia gaúcha no primeiro semestre de 2003

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Edição: Ano 12 nº 08 - 2003

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A economia brasileira, nos primeiros seis meses de 2003, caracterizou-se por apresentar fortes constrangimentos à retomada do crescimento econômico, num contexto de elevado patamar da taxa de juros, associado a uma aceleração da inflação e à redução do poder de compra de grande parte da população. Ao final do período, constata-se um recuo do nível de preços e dos juros, embora ainda permaneçam obstáculos à retomada do crescimento econômico. Dentro desse contexto, inserem-se as perspectivas de desempenho dos estados.

Ao se examinarem os resultados observados para o primeiro semestre do ano no Rio Grande do Sul, constata-se um crescimento na produção de grãos (soja, arroz, feijão e milho) de 30,7%, que injetou, aproximadamente, R$ 11 bilhões na economia a preços de março de 2003, quantia 2,17 vezes maior que a observada no ano anterior. Esse acréscimo de recursos resultou, além do aumento na produção, de um incremento nos preços recebidos pelos produtores de 53,3% entre março de 2002 e março de 2003, segundo a FGV.

Esses resultados obtidos pelo setor agrícola muito contribuíram para o desempenho das exportações de produtos básicos, que cresceram 53,3% neste primeiro semestre de 2003, seguidos dos semimanufaturados (39,7%). Com isso, as exportações gaúchas tiveram expansão de 32,6% com relação a igual período de 2002.

O setor industrial também apresentou desempenho positivo, embora em níveis mais modestos que o setor agrícola, registrando crescimento na produção física de 3,3% no acumulado até maio de 2003, resultado substancialmente maior do que o da indústria brasileira (0,6%). Esse crescimento da produção industrial foi determinado principalmente pela performance de setores ligados à agricultura e ao mercado externo, destacando-se as indústrias mecânica; de couros e peles; papel e papelão; material elétrico e de comunicações; metalúrgica; e fumo. A indústria da construção civil também apresentou resultado positivo no primeiro semestre deste ano, considerando-se o crescimento de 2,6% no consumo de cimento no RS em relação ao primeiro semestre do ano anterior.

Se os segmentos da economia gaúcha ligados à agricultura e ao comércio exterior vêm mostrando crescimento, o mesmo não se observa nos demais. O comércio varejista, no Estado, experimentou uma queda de 1,0% nas vendas, nos primeiros cinco meses do ano. Essa redução foi provocada pela retração de 4,6% ocorrida na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), uma vez que, no Interior do Estado, se registrou crescimento de 2,6%. A queda nas vendas do comércio varejista, especialmente de bens não duráveis, deve-se, fundamentalmente, à redução da renda real dos consumidores, aliada ao baixo crescimento da ocupação. Segundo a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), a massa de rendimentos médios reais dos ocupados na RMPA em maio de 2003 era 10,4% menor do que em maio de 2002.

O crescimento da ocupação na RMPA mostrou-se modesto, não sendo suficiente para absorver o contingente de trabalhadores que ingressou no mercado de trabalho, observando–se crescimento da taxa de desemprego, que atingiu 17,6% da População Economicamente Ativa (PEA) em junho.

Pelo exposto, percebe-se que a economia gaúcha, no primeiro semestre de 2003, apresentou um desempenho apenas razoável, marcado por diferentes desempenhos entre os diversos setores, fato que se mostrou insuficiente para sequer manter o nível de arrecadação do ano anterior, assinalando-se uma queda de 2,0% no ICMS total. No geral, a economia estadual foi impulsionada pelo setor agrícola e pelas exportações, aparecendo a economia metropolitana como aquela de menor nível de atividade.

A economia gaúcha no primeiro semestre de 2003

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Passados os efeitos da estiagem, a recuperação do PIB concentra-se nos serviços

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Edição: Ano 22 nº 02 - 2013

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Após dois períodos seguidos apresentando queda, a economia gaúcha voltou a crescer no terceiro trimestre de 2012. De acordo com as informações do PIB trimestral, divulgado pela FEE em dezembro, o aumento foi de 7,6% na passagem do segundo para o terceiro trimestre. Dados mensais já mostravam a volta do crescimento ainda em maio. O Índice de Atividade Econômica Regional do Rio Grande do Sul (IBCR-RS), calculado pelo Banco Central, indicou crescimento de 9,5% naquele mês, após uma sucessão de quatro quedas. Essa retomada do crescimento, entretanto, possui certas especificidades, que serão melhor entendidas com a análise desagregada dos três setores

Os serviços mantiveram sua rota de crescimento, sem grandes alterações. O principal destaque seguiu sendo o comércio. Ao contrário de outros anos, a influência negativa da estiagem de 2012 não foi sentida no desempenho da atividade. A sequência dos estímulos vindos da maior oferta de crédito, dos juros mais baixos, da expansão contínua da massa salarial, e, contrabalançando a queda da produção primária, do aumento dos preços agrícolas acabou por sustentar o crescimento do consumo no Estado, inclusive a taxas superiores à nacional.

Na indústria, o destaque positivo continuou a ser a atividade da construção civil, que manteve o ritmo de crescimento verificado ao longo dos períodos anteriores. A indústria de transformação, por outro lado, apresentou queda pelo terceiro trimestre seguido, na série com ajuste sazonal da FEE. A retomada tão aguardada da atividade, alvo de incentivos por parte do Governo Federal, não se confirmou. Da mesma forma que a indústria nacional, a do Rio Grande do Sul manteve-se em queda ao longo de todo o ano. Dados da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE mostram perda de fôlego de setores importantes no Estado. As atividades de alimentos e fumo aceleraram suas perdas, diretamente impactadas pela menor oferta de produtos primários; as atividades ligadas ao setor automotivo, embora tenham apresentado certa recuperação, ainda mostraram sinais negativos, em linha com a menor produção nacional; calçados e produtos químicos enfrentaram problemas com as restrições impostas pela Argentina às exportações gaúchas. Das 14 atividades pesquisadas pelo IBGE, apenas quatro, com destaque para refino de petróleo e máquinas e equipamentos, expandiram-se no terceiro trimestre do ano.

O retorno da expansão econômica esteve, portanto, diretamente relacionado ao desempenho da agropecuária, uma vez que a indústria e os serviços não alteraram profundamente seus ritmos de crescimento ao longo dos meses de 2012. O desempenho negativo da agricultura, que freou a economia gaúcha durante os primeiros meses do ano, perdeu força a partir de maio. Como a colheita da safra degrãos do Estado concentra-se temporalmente nos primeiros meses do ano, especificamente entre janeiro e abril, já eraesperado que, passada a colheita desses produtos, a economia gaúcha voltasse a crescer, já praticamente livre do peso dasperdas com a agropecuária. Diminuída a importância do Setor Primário no cálculo do PIB trimestral e do IBCR-RS, o desempenho da economia gaúcha passa a depender mais do comportamento da indústria e dos serviços.

Dado o maior peso que os serviços têm no PIB do Estado, na comparação com a indústria, a agregação das taxas de variação dos setores resultou na volta do crescimento. Tal retomada, como já salientado, possui especificidades que devem ser ressaltadas. Em primeiro lugar, porque é consequência da concentração das perdas da agricultura no começo do ano, não significando que esse setor se tenha recuperado nos últimos meses, até porque sua produção só voltará a ser contabilizada com significância em 2013. E, em segundo lugar, porque não representa uma recuperação mais abrangente. Se, por um lado, o comércio e a construção civil continuam a expandir-se, a indústria de transformação ainda não deu sinais consistentes de retomada.

Passados os efeitos da estiagem, a recuperação do PIB

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A resistência do emprego formal e o baixo crescimento econômico

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Edição: Ano 22 nº 01 - 2013

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A economia brasileira parece viver uma contradição evidenciada pelo descolamento entre o comportamento da atividade econômica e o do mercado de trabalho. Enquanto o crescimento do PIB no Brasil foi de 2,7% no ano passado e de 0,7% no acumulado de 2012 até setembro frente a igual período de 2011, o emprego formal cresceu 5,5% em 2011 e 4,5% em 2012 até outubro. Embora o desempenho recente do mercado de trabalho já apresente uma significativa inflexão em relação a 2010, ano recorde na geração de empregos formais no País, está bem acima do que se esperaria em umaconjuntura de acentuada desaceleração da atividade econômica. Mesmo que a geração líquida de postos de trabalho em 2012 (1.688.845) seja o segundo pior resultado desde 2006, o número ainda é promissor. O resultado do mês de outubro desse ano, no entanto, já desperta preocupação, com um saldo apenas 0,2% maior do que o de setembro equase 50% menor do que o do mesmo mês do ano anterior, observando-se expansão do emprego em relação ao mês anterior em três setores — Comércio, Serviços e Indústria de Transformação.

No Rio Grande do Sul, os desempenhos, que são muito próximos em 2011 — o PIB cresceu 5,7%, e o emprego formal, 5,2% —, distanciam-se em 2012 — o PIB teve uma redução de 2,1% no acumulado até setembro, e o nível de emprego, um incremento de 3,6% até outubro. A expansão do mercado de trabalho em 2012 também fica aquém à do mesmo período de 2011 (-30%), observando-se, no mês de outubro, uma variação de 0,4% frente a setembro e de -32,2% na comparação com o mesmo mês de 2011.

Dentre as várias interpretações que vêm sendo debatidas acerca desse contraste entre nível de atividade e nível de emprego, uma é especialmente delicada: a de que, diante dos altos custos de demissão e de contratação, as empresas estariam retendo os empregados, acreditando que a desaceleração seja temporária. Se isso se confirmar, o risco é o de uma reversão rápida e brusca, caso as empresas desistam de esperar pela recuperação da economia.

A resistência do emprego formal e o baixo crescimento econômico

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Desenvolvimento no RS: além da zona de conforto

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Edição: Ano 21 nº 11 - 2012

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Desde que o Brasil conseguiu controlar o intenso pro-cesso inflacionário, que sabotava os mais criativos planeja-mentos para melhorar os seus indicadores sociais, há muito que se comemorar. E isso também é verdade para o Rio Grande do Sul. No entanto, após quase duas décadas viven-ciando uma realidade diferente, é razoável fazer um retros-pecto e avaliar o quanto é possível comemorar e também verificar quando a euforia atrapalha ações para o futuro.

Um aspecto de destaque é o incremento na renda. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), a renda média do gaúcho, em 2011, era de R$ 1.042,00 ― um aumento real de, aproximadamente, 13,4% frente a 2001. O salário mínimo real apresentou um incremento consideravelmente maior nesse mesmo período: 55,9%. Essas informações são coerentes com a melhoria da distribuição de renda no RS e no Brasil. O índice de Gini para o Estado atingiu 0,500 em 2009, quando, em 2001, estava em 0,554.

Ao melhorarem os níveis de renda e sua distribuição, uma importante fatia da população é alçada ao mundo do consumo, beneficiando-se inclusive da própria estabilidade econômica e do crédito facilitado. Esse fenômeno está sendo denominado pelas associações comerciais, e pelo Governo Federal, de “a ascensão da nova classe média”. Independentemente do nome que se dê, esse é um fato a ser comemorado: as pessoas conquistaram maior capacidade de consumo, o que tem impacto positivo sobre sua qualidade de vida.

Ainda com relação à renda, é importante mencionar a redução da pobreza extrema. Com base na definição adotada pelo Governo Federal (R$ 70,00 per capita por domicílio), o RS contava com 4,69% da população em situação de extrema pobreza, segundo a PNAD 2001. Em 2009, esse número era de 2,1% ― menos da metade. Os fatores que ajudam a explicar essa melhoria incluem desde os pro-gramas de transferência de renda (Bolsa Família, por exemplo) até o perfil do crescimento econômico brasileiro, que foi capaz de absorver mão de obra (menos qualificada) desocupada até então.

Mas outros aspectos, além dos monetários, precisam ser considerados. Em termos de educação, o percentual de analfabetos entre a população gaúcha de mais de 10 anos de idade, que era de 5,0% em 2001, passou para 3,4% em 2011, segundo dados da PNAD. Segundo a mesma fonte, 9,1% da população maior de 10 anos contavam com 12 ou mais anos de estudo em 2001, contra 13,4% em 2011. Cabe reforçar esse número pela observação de que 8,6% da população gaúcha, em 2010, possuíam ensino superior ― sendo que, no Brasil, esse patamar era de 8,3%.

Porém a qualidade do ensino é o aspecto que está en-trando em pauta, de forma mais incisiva, atualmente. Se-gundo o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB), o RS tem registrado melhorias no desempenho até a 4ª série, certa estabilidade (em patamares baixos) nos resultados do teste da 8ª série e retração no último IDEB (2011) para o ensino médio. É importante enfatizar, ainda, que os resultados das escolas públicas são piores do que os das escolas privadas. Dessa forma, comemoram-se melho-rias no atendimento, mas com alerta para a questão da qualidade do ensino básico ― sem esquecer que analfa-betismo, por menor que seja, continua sendo inaceitável no século XXI.

No que toca à saúde, o Estado tem a segunda menor taxa de mortalidade infantil do País (11,2 por mil nascidos vivos), tendo reduzido esse número em 26,0% entre 2000 e 2010 (dados do Datasus). Porém a taxa de mortalidade por causas evitáveis, que é uma boa maneira de inferir a disponibilidade e a qualidade do serviço de saúde oferecido à população, não demonstrou comportamento tão positivo. A taxa de mortalidade geral, no RS, para a faixa etária de 5 a 74 anos, consideradas apenas as causas “reduzíveis por ações adequadas de promoção à saúde, prevenção, controle e atenção às doenças de causas infecciosas”, foi de 0,41 mortes por mil habitantes em 2010, frente a 0,31 em 2000. Ou seja, o número de mortes por essas causas aumentou à taxa superior ao crescimento da população.

Apesar dos incrementos em termos de expectativa de vida da população total, há que se verificar que as mortes por causas evitáveis, especialmente aquelas relacionadas às causas infecciosas, atacam de forma mais severa a popula-ção em situação de maior vulnerabilidade. Isso implica con-cluir que é fundamental avaliar a cobertura e a qualidade do atendimento de saúde não apenas na sua totalidade, mas também em termos de distribuição na população. Quanto a esse aspecto, então, comemoram-se progressos importan-tes do ponto de vista de atenção à gestante e à criança, mas a qualidade do atendimento e sua malha de atuação ainda precisam ser melhor avaliadas, pois os indicadores não parecem satisfatórios.

O intuito desta reflexão é questionar a percepção que temos sobre o desenvolvimento do RS a partir de um conjunto de informações que nos deixam em uma zona de conforto: renda aumentando, analfabetismo caindo (mas longe de zerar), mais pessoas no ensino superior e expecta-tiva de vida em elevação. Porém é necessário que se rom-pa essa zona de conforto, para compreender que preci-samos fazer mais em termos de qualidade da educação e da saúde do que aqueles indicadores básicos (e incom-pletos) sugerem ― especialmente do ponto de vista da distribuição desses serviços à população. E isso só será possível com ajustes nas políticas públicas.

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Sinal de alerta para o crescimento

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Edição: Ano 21 nº 10 - 2012

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O PIB brasileiro vem desacelerando desde 2010, indicando a possibilidade de o ciclo de crescimento iniciado em 2004 estar se esgotando. Em todo esse período, a economia brasileira experimentou uma expansão às taxas mais elevadas dos últimos 30 anos. Apenas em 2009, o efeito combinado da crise financeira internacional e da rigidez monetarista que dirigia a política do Banco Central, então com sua obsessão em reduzir a inflação a qualquer preço, produziu uma breve interrupção dessa trajetória.

Hoje, diferentemente, há uma maior sintonia entre todos os órgãos definidores da política econômica, de que é testemunha a inédita redução da taxa de juros real para cerca de 3%. Por sua vez, a crise internacional é a mesma, inclusive com alguns sinais de recuperação da economia, especialmente nos EUA, mas com expectativa de agravamento para os próximos anos. Isso leva a que se busquem as causas dessa desaceleração em outra direção.

A tabela mostra o desdobramento do PIB trimestral em seus principais elementos. O dado mais significativo é a evidência de que o setor que mais contribuiu para a desaceleração foi o da indústria de transformação. Quando se dirige o olhar para os componentes do gasto, é o investimento — a formação bruta de capital fixo — o responsável maior pela queda da economia. Essa constatação é preocupante por duas razões, que têm a ver tanto com o esgotamento das fontes do crescimento do período anterior, como com a perspectiva de sua continuidade no futuro.

Desde 2004, uma série de ações que estimularam o consumo das famílias respondeu pelo principal impulso à atividade produtiva, embora o papel do mercado externo também não tenha sido pequeno. Os programas sociais transferiram renda para dezenas de milhões de pessoas, a elevação do salário mínimo e o aquecimento do mercado de trabalho fizeram crescer a remuneração dos empregados, a expansão do crédito veio agregar uma maior capacidade de gasto aos consumidores e, também, a partir de 2009, a reação da política econômica via bancos públicos e redução do superávit primário contribuiu para minimizar os efeitos da crise e da queda das exportações.

O Governo vinha, ainda nesse período, buscando estimular o investimento e a produção industrial, através de algumas políticas setoriais e do PAC. Essas iniciativas, no entanto, foram contrabalançadas pela valorização do câmbio, que provocou crescimento das importações de produtos industrializados, não só reduzindo o mercado da indústria nacional de bens manufaturados como também de bens de capital, máquinas e equipamentos. Assim, em função do real valorizado, uma parte dos estímulos acabou vazando para o exterior. Como se vê na tabela, as importações são o segmento mais resistente à desaceleração. Mas sua contribuição para o PIB é negativa.

Se as políticas setoriais não alcançaram superar o obstáculo do câmbio, os investimentos do PAC claudicam sob o efeito da legislação herdada das reformas dos anos 90. Buscando conter o gasto público, as reformas geraram uma série de novas exigências e condicionalidades para projetos e licitações, que levam, frequentemente, à paralisia de obras em razão de manobras recursais e fiscalizatórias. Apesar das melhores intenções, os gestores públicos não conseguem cumprir os cronogramas dos investimentos programados.

Ao mesmo tempo, as transferências de renda, os aumentos salariais e o endividamento das famílias atingiram limites que reduzem seu papel na expansão da demanda efetiva. A possibilidade de o consumo continuar, de forma isolada, sustentando a expansão do produto se esgotou. No que respeita aos investimentos do setor privado, o pessimismo criado pela seca do crédito em 2009, pelo câmbio valorizado e pelas adversidades do setor manufatureiro gerou um ambiente de expectativas negativas, grande responsável pelo mau desempenho do PIB e que encontra dificuldades para ser superado.

A retomada do desenvolvimento vai exigir ações mais eficazes do Estado no estímulo ao investimento e no fomento à indústria de transformação. Para crescer, a economia brasileira precisa dos ganhos de produtividade que são gerados no setor manufatureiro, especialmente na produção de máquinas e equipamentos de alta tecnologia. O desafio do momento é curar a “doença pessimista dos homens de negócio”, para conseguir uma retomada dos investimentos e da inovação, elevando a produtividade.

Sinal de alerta para o crescimento

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Investimentos: a hora e a vez do Brasil

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Edição: Ano 21 nº 05 - 2012

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Ampliação do mercado consumidor, incremento da renda, crescimento econômico, redução da taxa de juros, descoberta de recursos naturais, organização de eventos esportivos e visibilidade externa, esses são alguns dos elementos que descortinam a atração de capital e a edificação de inúmeros investimentos produtivos no País. Em meio a discussões sobre a fragilidade da indústria face à concorrência externa e a consequente penetração dos importados na cadeia produtiva, setores ganham musculatura, alentando, em certa medida, as perdas advindas da valorização cambial. Esse movimento consolida o Brasil como o quarto maior receptor de capital, rumando à segunda colocação.

Serão construídas, nos próximos anos, 12 novas montadoras de carros, e cinco das já existentes ampliarão sua capacidade produtiva. Três outras estudam uma eventual instalação. Erguem-se três fábricas de motores e/ou de transmissão. Tais empreendimentos representam mais de R$ 22 bilhões. Há, ainda, cinco novas fábricas de motos, sete de caminhões e três ampliações. No segmento de ônibus, surgem mais três parques fabris, e ocorre uma expansão. Quase em operação está uma montadora de carros militares. Em decorrência desses empreendimentos, o setor de autopeças investirá R$ 4,6 bilhões por ano até 2015.

O segmento petrolífero expande-se de uma forma sem precedentes. Estão sendo construídos dois novos complexos petroquímicos, duas refinarias de petróleo no Rio de Janeiro, uma em Pernambuco, uma no Ceará e uma no Maranhão, esta última será a maior da América Latina e a quinta maior do mundo. Está em negociação, ainda, outra refinaria também no Estado do Maranhão. Com o Pré-Sal, as grandes petrolíferas do mundo estão atentas à prospecção de petróleo brasileiro. Além dos encadeamentos nos estados citados, Bahia e São Paulo recebem novas empresas de derivados do petróleo. Os investimentos em toda a cadeia do petróleo podem passar de R$ 1,8 trilhão nos próximos anos.

Aliada à expansão petrolífera, a cadeia naval ganhou articulação e representatividade. Ainda nessa década, o setor aproximar-se-á da relevância atual das montadoras de veículos em termos de número de empregos. Além dos novos estaleiros em funcionamento, outros nove estão em vias de implantação. Como apêndice dos estaleiros, o setor de navipeças assiste a proliferação de seus negócios. Esse ramo produtivo movimenta as economias de Pernambuco, do Rio de Janeiro e do Rio Grande do Sul. Neste último estado, além de duas plantas inauguradas há pouco, três novos estaleiros estão em marcha.

Também no Rio de Janeiro, edifica-se o Complexo Industrial do Superporto do Açu. Nele, erguem-se um estaleiro, duas usinas termoelétricas, uma unidade de tratamento de petróleo, duas siderúrgicas e duas cimenteiras. Há previsão de se instalarem lá indústrias de autopeças, de cerâmicas e do setor automotivo. No total, o complexo representa mais de R$ 40 bilhões, consolidando-se como o maior investimento em infraestrutura portuária das Américas. Tal monta desencadeou o planejamento de uma nova cidade na região norte fluminense, objetivando acolher os trabalhadores que para lá migrarão. Outros portos também se desenvolvem, o de Santos mais do que duplicará sua capacidade até 2013.

A indústria de celulose igualmente se amplifica. Há uma perspectiva de investimentos de R$ 36 bilhões até 2020. Nesse montante, estão quatro novas fábricas e extensões de três plantas existentes.

Não pouco significativo é o anúncio do investimento de R$ 21,6 bilhões, em cinco anos, na fabricação de componentes eletrônicos e montagens de tablets e celulares, que atenderá às demandas interna e externa. Serão gerados 100 mil novos empregos diretos com esse investimento. Em decorrência, estão em fase de estudos ou instalação empresas de equipamentos eletrônicos, placas de silício, equipamentos digitais e semicondutores, material este que ainda não é produzido no Brasil.

Em face dessa variação de oferta à frente, o setor da construção civil vivencia expressiva dinamização. Estão em construção ou reforma 16 estádios pelo País, estradas estão sendo duplicadas, 13 aeroportos serão construídos ou estendidos, linhas de metrôs ampliam-se, e os empreendimentos imobiliários crescem significativamente, desde os residenciais até os investimentos em hotéis, que são atraídos pelos eventos esportivos. Em 2012, o Brasil foi considerado o segundo país mais atrativo para investimentos imobiliários, atrás dos Estados Unidos. São estimadas para este ano 600 mil novas unidades habitacionais financiadas pelo programa Minha Casa, Minha Vida. Somem-se a isso, a construção da terceira maior hidrelétrica do mundo, a Belo Monte, além de outras quatro novas hidrelétricas, e os R$ 35 bilhões do trem-bala Rio de Janeiro-São Paulo. Em 2012, 43 shopping centers serão abertos no País. Esses empreendimentos trarão em torno de US$ 14 bilhões, em 2012, para o Brasil no setor de construção civil. Para atender a essa demanda, as construtoras e fabricantes de cimento estão estendendo sua capacidade de produção. Uma única empresa içará quatro novas fábricas de cimento.

Além dos investimentos de monta apresentados, outros de menor expressão estão sendo anunciados ou estão em análise, nos mais variados ramos. São exemplos de novos empreendimentos as inversões em biotecnologia, fármacos, energia nuclear, solar e eólica, mineração, fertilizantes, turbinas hidrelétricas, aerogeradores, elevadores, guindastes, pontes-rolantes, empilhadeiras, ferramentas, equipamentos médicos, equipamentos elétricos, telecomunicações, química, microesferas de vidro, embalagens, móveis, fibra de madeira, informática, lâmpadas LED, cosméticos, no setor financeiro, no setor de ensino, em centros de P&D, dentre outros.

Inequivocamente, a apreciação cambial dos últimos anos expõe a indústria brasileira, e diversos setores têm perdido espaço e representatividade, elemento que não pode ser ignorado. Contudo o cenário acima apresentado, somado à carência de crescimento dos países centrais, atrai inúmeras empresas. Em paralelo, a posição de destaque do Brasil na cena internacional e a sua consequente aparição geopolítica permitiram significativa visibilidade.

A despeito desses movimentos, três questões ficam no horizonte. Uma é se tais empreendimentos terão vigor suficiente para estender a participação do investimento no Produto e, ocorrendo isso, que componente do PIB reduzirá sua participação. A segunda é se esses investimentos serão capazes de dinamizar um crescimento robusto. E, por fim, como se dará a crescente penetração dos importados nessas inversões, particularmente nos setores mais expostos à concorrência advinda do câmbio, fator este limitador dos encadeamentos produtivos e dos efeitos sobre a renda.

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Algumas perspectivas para 2012

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Edição: Ano 21 nº 02 - 2012

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Os resultados apresentados, ao final do ano, pelas economias mundial e brasileira foram bem diferentes das expectativas que vigoravam no início de 2011. Em janeiro do ano passado, falava-se que a maioria dos países desenvolvidos iria obter um bom desempenho em termos de crescimento, recuperando os níveis pré-crise, enquanto, no front interno, havia certa preocupação quanto a um possível superaquecimento da economia, que vinha de uma variação robusta do PIB de 7,5% em 2010.

O que se viu, porém, foi um desempenho aquém do esperado. Os EUA atingiram o limite de endividamento de seu governo, sem uma recuperação consistente, sendo esperado que, em 2011, tenha apenas recuperado o nível de produto de 2007. A Zona do Euro apresentou resultadosassimétricos, com alguns países do norte da região, mais notadamente a Alemanha e a Holanda, apresentando bons resultados — mas ainda sem recuperarem o nível do PIB de 2007 —, enquanto a parte periférica do bloco, principalmente o grupo denominado PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), apresentou graves problemas fiscais, com a dívida elevando-se com relação ao produto, combinados com recessão e desemprego, o que colocou em xeque a participação desses países no bloco e a própria existência da moeda única europeia. A Ásia seguiu sendo a região que mais cresce no mundo, mas com o Japão apresentando uma retração significativa de sua atividade econômica, prejudicada por um grande desastre natural, seguido de um acidente atômico.

Se o cenário externo não parece apresentar grandes alternativas para alavancar o crescimento econômico brasileiro neste ano, restam ao País os fatores internos. O principal componente que promoveu o crescimento econômico dos últimos trimestres foi o consumo das famílias. Em 2012, com o aumento do salário mínimo em cerca de 14%, reforçado pela menor taxa de desemprego, medida pelo IBGE, desde a nova série histórica iniciada em 2002, é provável que isso se repita. A desaceleração que tem sido observada, atualmente, nos níveis de preços poderá amortecer as pressões inflacionárias decorrentes do novo piso, em especial, o possível repasse do aumento nos custos das empresas aos consumidores finais. De qualquer modo, o reforço na economia interna é base para o crescimento, e torna-se ainda mais importante na distribuição de renda, quando ocorre por meio do aumento real do salário mínimo.

No País, grande parte do debate em 2011 centrou-se nas possibilidades de descontrole inflacionário e de superaquecimento, o que levou o Governo a agir com medidas macroprudenciais e de política monetária contracionistas. Contudo, essas medidas, somadas à desaceleração econômica mundial, atingiram negativamente a economia brasileira, o que levou o Governo a alterar o mix de política econômica, aliando um maior controle fiscal à baixa da taxa de juros. Além disso, no momento em que reduziu a taxa Selic, o Banco Central agiu de forma antecipada à intensificação do declínio da atividade econômica, o que muitos consideraram como uma atitude irresponsável. Os medos não se concretizaram, a inflação ficou no limite superior da meta, e o mercado atualmente percebe o corte como tendo sido uma ação correta naquele momento. A resposta rápida do Governo ao contágio da economia brasileira, seja através das tradicionais políticas monetária e fiscal, seja por meio de medidas macroprudenciais, reforça a expectativa de que o País esteja melhor preparado para enfrentar um desaquecimento de tal magnitude.

Outro componente que se mostra importante, não só para este ano, mas também para sustentar o crescimento nos anos seguintes, é a formação bruta de capital fixo. Para a parcela privada desse tipo de investimento, a boa perspectiva advém da ação do BNDES, através da disponibilidade de crédito a custos baixos às empresas, e do incentivo resultante da expansão do mercado interno. Para a parcela pública dos investimentos, há que se notar certo paradoxo: se, por um lado, necessita-se acelerar as obras — sejam do PAC, sejam das demandadas para a realização da Copa do Mundo —, por outro, desde setembro do ano passado, há um compromisso do Ministério da Fazenda com o Bacen para alcançar o superávit primário “cheio” (ou seja, sem descontar os gastos com o PAC), o que permitiria ao Copom reduzir a taxa de juros. O equilíbrio dessa balança concentra-se, prioritariamente, no quanto o Governo Federal estará disposto a conter no custeio em prol dos investimentos, algo que tem sua dificuldade aumentada, se forem considerados a desaceleração econômica e o fato de 2012 ser um ano eleitoral. Caso o esforço fiscal não seja suficiente, será difícil convencer o mercado a aceitar uma queda da Selic, incompatibilidade que provocaria não só uma elevação nas expectativas de inflação, mas também um retrocesso na recente evolução da política econômica em busca de uma taxa de juros menor.

Dessa forma, os cenários nacional e internacional para 2012 apresentam tendências opostas. Externamente, não se avista solução rápida para a crise dos países avançados, pois é ano de eleições e definições de novos rumos nos EUA, bem como permanecem diversas as preocupações que chegam da Zona do Euro, com resultados ainda difíceis de prever, fazendo com que o crescimento chinês seja o único estímulo externo positivo. Internamente, indica-se que a manutenção do crescimento econômico com uma inflação estável dependerá da capacidade do Governo em cumprir suas obrigações fiscais, a despeito das pressões eleitorais. O amadurecimento da democracia e da economia brasileira depende das respostas governamentais às dificuldades impostas, e os agentes, sejam empresas ou indivíduos, estão ansiosos por uma reposta condizente com as promessas anunciadas na posse da Presidenta Dilma Roussef: “[…] garantir a estabilidade de preços e seguir eliminando as travas que ainda inibem o dinamismo de nossa economia”.

Taxas de inflação, variação do PIB e desemprego em países e regiões selecionados — 2011 e 2012

FONTE: The Economist (Jan 28th 2012).
(1) Estimativas. (2) IBGE. (3) FMI.

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RS deve crescer acima da média nacional em 2011

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Edição: Ano 20 nº 12 - 2011

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Os dados do Índice Trimestral da Atividade Produtiva (ITAP), calculados pela FEE para o terceiro trimestre de 2011, confirmam a tendência de desaceleração da economia gaúcha. Após crescer 7,7% no primeiro trimestre, contra igual período do ano anterior, a taxa acumulada até o terceiro trimestre caiu para 5,6%. Mantida a atual tendência, a taxa anual deve ficar abaixo dos 5,6% acumulados até setembro (ver Gráficos 5 e 6, na p. 5).

A desaceleração verificada no RS está alinhada com a conjuntura atual da economia brasileira. Influenciada pelos rumos da economia mundial e pelas medidas contracionistas de política econômica, adotadas ao final de 2010 e início de 2011, a atividade produtiva do Brasil, medida pelo Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), também mostrou sinais claros de diminuição do ritmo de crescimento. No acumulado do ano até o terceiro trimestre, a taxa brasileira ficou em 3,1%.

A comparação dos dados mostra que o RS deve fechar 2011 com crescimento superior ao nacional. E isso se deve principalmente ao desempenho da agropecuária. De acordo com o IBGE, a safra agrícola gaúcha de 2011 será 18,4% maior que a de 2010, enquanto a brasileira será apenas 5,0% superior. O bom resultado do Setor Primário influenciou positivamente a indústria de transformação, que, segundo o IBGE, acumulou crescimento de 1,9% até setembro, contra 1,0% do Brasil. Ainda conforme o mesmo Instituto, o comércio gaúcho cresceu 7,6% até o terceiro trimestre, ligeiramente abaixo do nacional (8,0%).

RS deve crescer acima da média nacional em 2011

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