Textos com assunto: Crise econômica

Crise e estagnação da produção industrial brasileira

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Edição: Ano 26 nº 9 – 2017

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Apesar do otimismo presente em algumas análises sobre o desempenho industrial brasileiro de 2017 — as quais identificam o início da recuperação da produção e a saída da crise brasileira —, o que os dados mostram para os seis primeiros meses do ano é um modesto crescimento da produção industrial de 0,5% em relação ao mesmo período de 2016. Segundo os dados da Produção Industrial Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse desempenho foi resultado de um crescimento de 6,0% na produção da indústria extrativa mineral, enquanto o conjunto da indústria de transformação (IT) apresentou uma queda de 0,3%.

Essa aparente recuperação precisa ser interpretada dentro do contexto da produção industrial dos últimos anos, bem como dos demais condicionantes da atual conjuntura econômica nacional. Assim, quando se analisa o comportamento da indústria no período 2014-16, verifica-se que a IT acumulou uma queda de 18,8% no seu volume de produção. Tal queda colocou o nível da produção brasileira abaixo do verificado em 2004. Assim, se, por um lado, é verdadeiro que o desempenho industrial em 2017 não está demonstrando a mesma queda na produção que as verificadas nos anos anteriores, seria impreciso considerar que esse fenômeno estaria caracterizando uma recuperação da indústria. O que se tem verificado, nesse primeiro semestre de 2017, é que a produção industrial se encontra estagnada em um patamar extremamente baixo, quando comparada com o volume alcançado em anos anteriores.

Outro aspecto relativo ao desempenho industrial em 2017 é que, conforme pode ser observado no gráfico, as taxas de variação da produção tem sido muito desiguais entre os diversos setores que compõem a IT. As principais atividades da IT que apresentaram desempenho positivo no primeiro semestre de 2017 foram aquelas com forte relações comerciais com o mercado externo, ou que tiveram um crescimento no quantum das exportações, no primeiro semestre do ano. Esses são os casos, por exemplo, de fabricação de celulose e produtos de papel (2,2%), fabricação de produtos de couro e calçados (2,6%), produtos do fumo (15,6%), fabricação de veículos automotores (11,7%), máquinas e equipamentos (2,4%) e produtos de borracha e plástico (1,7%). Segundo os dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), embora o quantum do total das exportações no primeiro semestre do ano tenha crescido apenas 1,7%, para o caso dos setores produtores de bens de consumo duráveis essa taxa foi de 41,1%. Cabe destaque, também, à fabricação de equipamentos de informática e produtos eletrônicos, que, embora tenha pequena participação no Valor da Transformação Industrial (VTI), apresentou um crescimento de 18,6%.

Por outro lado, observa-se que alguns setores que já vinham de quedas acentuadas no período 2014-16 continuam apresentando a mesma tendência em 2017. Esses são os casos de fabricação de produtos alimentícios (-2,2%), fabricação de coque, derivados do petróleo e biocombustíveis (-7,6%), produtos farmacêuticos (-6,8%), fabricação de outros produtos químicos (-3,7%), produtos de minerais não metálicos (-3,9%), fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-7,4%), outros equipamentos de transporte (-11,6%) e fabricação de móveis (-4,4%). Em conjunto, esses setores representam mais de 50,0% do VTI da IT brasileira.

Em função dos níveis extremamente baixos de produção, uma plena recuperação da indústria brasileira somente ficará caracterizada quando os setores apresentarem uma tendência de crescimento que inclua os setores vinculados tanto ao mercado externo quanto ao interno e que abarquem um percentual substancial do VTI. No entanto, isso também não tem sido observado. Quando se analisam as taxas mensais de variação da produção, observa-se que as mesmas têm apresentado oscilações positivas e negativas ao longo do ano. Assim, embora, do ponto de vista estatístico, já se possa observar algumas taxas positivas de crescimento, localizadas em alguns setores, a indústria de transformação precisaria crescer cerca de 20,0% para retomar a produção de 2008, ou seja, de oito anos atrás.

Ao longo dos últimos anos, esse desempenho tem-se refletido no aumento do desemprego industrial, no reduzido nível de utilização da capacidade industrial e na consequente queda nos investimentos. Elevada capacidade ociosa, baixos níveis de investimento e depreciação de máquinas, equipamentos e instalações e quebra nas cadeias de relações interindustriais deverão ter impacto negativo no crescimento da produtividade industrial e, consequentemente, da sua inserção internacional. Esse conjunto de fatores poderá comprometer o desempenho do setor no longo prazo.

A análise precedente, portanto, parece sinalizar um agravamento da estrutura industrial no País. A profunda recessão, o fechamento de empresas e a quebra de cadeias domésticas de produção industrial, associadas com a ascensão das economias asiáticas e o surgimento de importantes inovações, acabam deixando o parque industrial brasileiro na retaguarda em termos tecnológicos, além de aumentar a sua dependência de produtos importados, tanto de matérias-primas como de produtos para o consumo final.

Em um contexto de elevadas taxas de desemprego, queda no rendimento médio real do trabalhador, crise fiscal com redução dos investimentos públicos e programas sociais, com baixos incentivos aos investimentos privados, a única possível fonte de demanda capaz de oxigenar a produção industrial serão as exportações. No entanto, esta última ainda depende da conquista e da manutenção de mercados, da existência de uma taxa de câmbio favorável e do crescimento da demanda externa. Portanto, não existem, em um horizonte próximo, motivos para estabelecer uma sólida recuperação da produção industrial. Esses são alguns dos desafios para o desenvolvimento industrial brasileiro, os quais vão muito além da atual estagnação.

Gráfico do drope 3

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EUA: caminhando sobre o abismo

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Edição: Ano 22 nº 02 - 2013

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Desde o estouro da “bolha financeira”, iniciada no mercado imobiliário residencial norte-americano em 2007 e que gerou a maior crise no sistema capitalista desde a Grande Depressão, os países desenvolvidos apresentam performances econômicas decepcionantes. A recuperação é adiada semestre após semestre, e nem mesmo as maciças injeções de recursos realizadas pelos bancos centrais ao redor do globo, combinadas com outras medidas de salvamento dos governos, foram suficientes para uma recuperação consistente, com retomada de crescimento do PIB e do emprego, principais problemas advindos da estagnação econômica do período.

E 2013 não começou fácil para a maior economia do mundo, com o debate sobre a renovação, ou não, de diversos benefícios fiscais e isenções de impostos que, caso expirassem, fariam com que o produto da economia norte-americana caísse cerca de 2,0% rumo ao chamado “abismo fiscal”. A soma dos montantes em risco de vencer era de mais de US$ 600 bilhões entre isenções fiscais e benefícios a empresas e indivíduos.

Houve certo temor sobre a possibilidade de republicanos e democratas não chegarem a acordo. Porém, como esperado, na última hora, os partidos selaram um acordo temporário, que incluiu aumento de impostos para as classes abastadas e adiamento da expiração de alguns benefícios — notadamente, os que incidiam sobre a contratação de empregados e a extensão do seguro-desemprego. Porém, como parte da negociação, deixou-se que alguns benefícios expirassem, o que, em parte, agradou aos republicanos, que mantêm sua convicção na necessidade de equilibrar o orçamento. Mesmo assim, uma nova rodada de debates já é esperada, pois o limite de endividamento logo será alcançado, e um novo aumento terá de ser votado.

Para a sociedade norte-americana, a mais benéfica dessas medidas foi o aumento da alíquota mais elevada do imposto de renda, que foi de 34% para 39,5% para rendas acima de US$ 400.000 anuais, e da alíquota de impostos sobre os ganhos de capital e dividendos, que foi de 15% para 20%. Porém tais medidas são apenas um retorno à realidade pré-George W. Bush, onde já se verificava um crescimento na desigualdade de renda nos EUA, processo acentuado com sua chegada ao Governo. Já o fim da isenção de 2% em impostos que incidem sobre os trabalhadores significará, segundo a The Economist, uma redução de poder de compra de US$ 115 bilhões, ou US$ 1.000 anuais por família atingida por tal medida. Segundo a publicação, deverá haver uma compressão de gastos federais de 1% a 1,5% do PIB, a maior parte deles ocorrendo no primeiro semestre de 2013.

Dito isso, é infactível uma recuperação consistente dos EUA no curto prazo. O cenário é de esgotamento do modelo de crescimento neoliberal, marcado por compressão salarial e concentração de renda, pela diminuição da atuação do Estado e pelo outsourcing advindo da globalização. Isso tornou o crescimento da economia norte-americana cada vez mais dependente de estímulos ao consumo advindos de surtos de endividamento e da especulação em ativos financeiros. As contrações vindouras de um estouro de bolha de ativos eram “corrigidas” com a formação de novas bolhas em setores diferentes. Como resultado, ocorreram aumento na participação dos lucros no PIB e enormes déficits em transações correntes, além da concentração dos ganhos para os 1% mais ricos, com as camadas mais baixas recorrendo ao endividamento para manter seu padrão de compra.

Após 2007, tal lógica deixou de funcionar: o Estado buscou “apagar o incêndio” da crise com compras de ativos e quantitative easing. As empresas melhoraram sua posição patrimonial e inclusive voltaram a contratar, estimuladas por diversas isenções. Porém não houve expansão autônoma puxada pelo setor privado. Ao invés disso, são necessárias injeções cada vez maiores de recursos por parte do FED para resultados cada vez menores em termos de expansão do produto, do investimento e do emprego. A cada ano, é necessário um novo pacote de estímulo, o endividamento governamental aumenta, e a solução através de um ajuste profundo na estrutura social norte-americana, capaz de brecar a tendência à concentração da renda, aumentando salários e, assim, estimulando a demanda da parcela mais endividada de sua população, é postergada.

Mesmo tendo impedido momentaneamente sua queda no abismo, os EUA seguem caminhando sobre ele ao estilo do cartoon Willye Coyote: andando sobre o nada até olhar para baixo e experimentar uma gigantesca queda. No caso norte-americano, o que tem impedido essa queda são injeções de dólares, o que deixou os EUA entre os governos mais endividados do mundo, sem conseguir obter a reativação autônoma de seu mercado interno e a retomada do seu papel como locomotiva do crescimento mundial. Resta aguardar o que virá primeiro: a mudança do saturado modelo neoliberal norte-americano, ou a queda da nação hegemônica mundial em seu próprio “abismo”, com um pouso forçado advindo da necessidade de cobrir o déficit fiscal com uma severa recessão.

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Rumo à recessão global

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Edição: Ano 17 nº 10 - 2008

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A crise das finanças desreguladas vem trazendo uma enorme dose de preocupação ao mundo: qual a profundidade de seus efeitos sobre a “economia real” e qual a possível extensão geográfica do contágio produzido pelo derretimento do sistema financeiro dos EUA?

O sistema financeiro global encolhe. O crédito ao consumidor e o acesso aos mercados de capitais tornam-se mais difíceis. A incerteza contamina a confiança dos consumidores e das empresas. O crescimento diminui. Esses efeitos, embora em escala limitada frente ao potencial arrasador do desastre, já estão acontecendo nos países desenvolvidos.

Nos EUA, a procura pelo seguro-desemprego atingiu 440.000 pedidos na segunda semana de setembro, frente a 320.000 há um ano atrás. Na Europa, bancos de diversas nacionalidades apresentaram perdas expressivas, ao comprarem o “lixo tóxico” espalhado pelos bancos de investimento dos EUA, totalizando US$ 228,9 bilhões até 15.09.08, estando 75% do total concentrados em 13 bancos, o que dá conta da amplitude mundial da débâcle financeira. O PIB do segundo trimestre, conforme dados do Banco Central europeu, mostrou uma retração de 0,2% frente ao trimestre anterior, o que não ocorria desde o início dos anos 90. Diversos países apresentaram desempenho negativo na mesma comparação: Alemanha (-0,5%), França (-0,3%) e Itália (-0,3%). Na Inglaterra, o Bank of England estima que dois milhões de pessoas correm risco de estar desempregadas até o Natal, enquanto o Ministro das Finanças, Alistair Darling, afirmou, no finalde agosto, que a economia do País enfrenta seu momento mais difícil em 60 anos. No Japão, o PIB caiu 0,6% no segundo trimestre. A redução da demanda externa aparece entre os fatores que golpearam o crescimento do País

E o Brasil? Uma das questões-chave está nos preços das commodities, fortemente influenciados pela instabilidade do dólar e pela demanda chinesa, que deve manter-se elevada. O Banco Central vem elevando os juros aceleradamente, buscando evitar que o desequilíbrio externo, aparente no déficit corrente superior a US$ 30 bilhões em 2008, se torne insustentável em 2009. O financiamento externo das empresas brasileiras também irá reduzir-se devido à crise global, enquanto o risco de fuga de capitais aumenta. Isso implica desaquecimento da economia, tanto maior quanto menos favoravelmente esses indicadores evoluírem para o País.

Embora os desempenhos de China e Índia devam sofrer apenas leve desaceleração em 2009, é impossível deixar-se de notar que a recessão global é quase uma certeza, dada a virulência e a profundidade da crise financeira. A idéia de que um desastre das proporções daquele que se abateu sobre o centro da globalização financeira (Wall Street e seus finados bancos de investimento) possa ter seus efeitos sobre o crescimento econômico facilmente controlado é tão ilusória quanto aquela que dizia ser essa uma “crise da parte subprime do sistema imobiliário norte-americano” em agosto de 2007. Pensar assim, embora possa ser reconfortante, é errar uma vez mais.

Rumo à recessão global

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Finanças: o infinito que desaba

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Edição: Ano 17 nº 10 - 2008

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Está-se no meio da “crise norte-americana”, que é uma crise longa, severa, de extensão mundial e que tem a forma de uma escada. Vai-se de degrau em degrau, em sentido descendente. E a pergunta explode no coração das pessoas: até onde? Esta é a primeira lição da crise: está-se num nevoeiro onde não se sabe o fim. E, depois de cada etapa, há outra a cumprir. E, ao mesmo tempo, um rastilho de pólvora está sempre presente, são os títulos oriundos das hipotecas imobiliárias, onde tudo começou. Eles continuam aí, levando incômodo a todos. Mas essa crise financeira foi uma esbórnia, porque o crédito, sem critério, foi usado como promessa de compra e de pagamento para tudo – moradias, casas de verão, carro, viagens, empréstimos educacionais, etc. – no nível dos consumidores e foi também o que permitiu, a partir dos bancos comerciais e dos bancos de investimento, a invenção de uma verdadeira salada de títulos (desde títulos baseados nas hipotecas das casas até títulos que sustentam o default de outros títulos, como o Credit Default Swaps (CDS). Desde logo, nunca foi só uma crise das hipotecas imobiliárias, mas, desde sempre, uma crise do sistema financeiro.

Chega-se à segunda lição: por que aconteceu tudo isso? O sistema financeiro é um universo em expansão que tende ao infinito. Só que o infinito econômico é um infinito que acaba, que morre e que desaba. E, quando os capitais respondiam que o sistema era auto-regulado, sua resposta era falsa, os capitais não têm a capacidade de se controlar. A concorrência introduz um conflito que rompe inexoravelmente a trajetória do infinito. Dessa forma, pôde-se ver, o Banco Central só regulava os bancos comerciais. E, com manobras jurídicas e contábeis, esses bancos estavam separados dos bancos de investimento, que por sua vez, estavam separados dos hedge funds. Auto-regulação. Autodestruição.

Ora, veja o leitor: o sistema financeiro era como um balão que estava cheio, que a gente ia e ia assoprando e que, de repente, escapava da mão e subia para tombar, vomitando o ar que estava dentro. O sistema funcionava assim: o ar é a especulação que vai ampliando-se, que vai inflacionando o valor dos títulos. A euforia e a alegria correndo loucas, todo mundo com a sensação de vencedor. Mas é um mercado de fina sensibilidade, precificado minuto a minuto, um mercado instável, um mercado de tiro instantâneo. Um dia, alguém desconfia que o castelo de cartas chegou ao limite. Se botar ou tirar uma carta, o todo desaba. E foi isso que aconteceu: um problema nas hipotecas, e elas passaram a ter um odor fétido, “títulos podres”.

Instaurou-se, então, a dinâmica da crise com a desconfiança no mercado. A desconfiança é o vírus do sistema financeiro e passa pela fonte de irrigação que são os bancos comerciais com o seu mercado interbancário, com o seu mercado de empréstimos, etc. Chega o temor das perdas, e os bancos fecham a sua torneira. O nome técnico disso é credit crunch, que, no popular, quer dizer: ninguém empresta para ninguém. Aparece, então, a hora do Banco Central, o FED. Mas a sua intervenção só anima os bancos a não emprestarem, pois Keynes já dizia que, na crise, há uma preferência absoluta, a “preferência pela liquidez”. E assim foi. Daí o Bearn Stearns exibiu suas entranhas malditas, e o FED ajeitou sua compra pelo JP Morgan. Depois, tudo foi um escorrer de água: veio a bancarrota do Lehman Brothers; a compra do Merril Lynch pelo Bank of América; a necessidade de intervir na Fanny Mae e no Freddy Mac; a intervenção na seguradora AIG; a transformação do Morgan Stanley e do Goldman Sachs em bank holding companies, as compras do Washington Mutual pelo JP Morgan e do Wachovia pelo Citigroup, etc. E o incêndio espalhou-se por toda parte, atingindo primeiramente a Europa.

E quando a coisa chega nesse ponto – “vamos passar o mico adiante”-, o sistema sabe que desabou: regulação, securitização, fatiamento dos títulos, produtos, etc. Vem a principal lição: a necessidade da intervenção do Estado e, claro, do endividamento público, para salvar a convulsão dos capitais. Na seqüência, nasce um plano para sustentar o sistema financeiro e recolher os títulos tóxicos – uma espécie de Resolution Trust Corporation (RTC). E, por outro lado, há que se pensar na criação de um Home Owner´s Loan Corporation (HOLC), para solucionar o problema das dívidas dos compradores de casa. Com as tarefas aumentando, o precipício abre-se e chama-se hedge funds; sua queda tem uma dinamite poderosa, pode levar de arrasto os fundos de pensão. E, aí, acaba a previdência dos norte-americanos. Por isso, já se vê, a crise econômica puxa sua solução para a política. Dela, virão as proposições imprescindíveis à regulação, ao salvamento do sistema financeiro e ao dólar, atravessando o Congresso e o futuro Executivo com Obama ou McCain. Para encontrá-las, todos terão que aprender a lidar com a queda do infinito, outro modo de dizer, com o fim do neoliberalismo.

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Produção e emprego: os primeiros sinais da crise

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Edição: Ano 18 nº 01 - 2009

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O impacto da crise internacional sobre a indústria brasileira já se tornou perceptível no mês de outubro, tanto no âmbito da produção quanto no do mercado de trabalho. A produção física da indústria (IBGE), descontados os efeitos sazonais, recuou 1,7% em outubro frente ao mês anterior, uma retração generalizada que atingiu todas as quatro categorias de uso – bens duráveis (-4,7%), bens semiduráveis e não duráveis (-2,2%), bens intermediários (-3,0%) e, em menor escala, bens de capital (-0,5%). O RS alcançou o segundo pior desempenho entre os estados pesquisados – -5,5%.

A geração de empregos com carteira assinada (saldo da relação entre admissões e desligamentos), que vinha crescendo a taxas vigorosas em setores que estavam dinamizados por conta do crédito abundante, experimentou uma forte desaceleração em outubro frente a setembro, com um crescimento de apenas 0,2% no Brasil (CAGED/MTE), enquanto a indústria de transformação exibiu o pior resultado para o mês de outubro nos últimos 10 anos (adição de 8.730 empregos ou 0,1% em relação a setembro), com quatro segmentos relevantes apresentando taxas negativas. No RS, o nível do emprego celetista cresceu um pouco acima (0,4%), todavia a indústria de transformação suprimiu 1.169 postos (-0,2% frente a setembro), em decorrência, principalmente, dos cortes nas indústrias de calçados (-1,5%), borracha, fumo e couros (-0,8%) e mecânica (-0,8%).

Os dados sobre o emprego são um sinal de alerta para a crise, pois os rebatimentos no mercado de trabalho não costumam ser imediatos, como está acontecendo agora. Até esse momento, os indicadores são de desaceleração da economia, mas a ameaça de uma recessão técnica (dois trimestres consecutivos de crescimento econômico negativo) paira no ar.

Produção e emprego os primeiros sinais da crise

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Titanic sem Leonardo Di Caprio

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Edição: Ano 16 nº 10 - 2007

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Parece claro: o comando financeiro da economia norte-americana está envolvido numa vasta crise, que, ao contrário de ser abrupta (sempre temos a imagem de uma crise bursátil, mas esta não é uma crise da bolsa), vai se prolongar por meses. O seu ritmo é de fortes momentos de febre, contrapostos a momentos de calmaria. E, como a crise vai levar tempo para se dissolver, muitas famílias e empresas ficarão aliviadas. Mas é como num filme de catástrofe: o pior ainda não passou. Vejamos o cenário. Em primeiro lugar, há a necessidade de superar a crise de liquidez e a crise de crédito. Elas paralisaram por extenso todo o sistema financeiro, culminando na desconfiança generalizada de todos contra todos, expressa no interbancário e na entrada em campo do Fed, funcionando como o emprestador em última instância. Foi nessa função que o Banco Central baixou em 50 pontos a sua taxa básica e a própria taxa de redesconto. As finanças armaram a confusão, com uma inflação de títulos, e ganharam; ganharam, no mínimo, tempo.

Porém não se tem clareza do que vai acontecer nesses “caóticos tempos financeiros”, como disse Robert Lucas. Por quê? A razão fundamental é a forma como é construído todo o sistema. Sendo de natureza especulativa, a operação financeira esconde um logro (no sentido de engano e de sucesso) que impede que haja transparência para a supervisão do Banco Central. E podemos perceber nitidamente que o Fed não tem controle sobre muitas partes do mercado. Porque este, por sua vez, desenvolveu inúmeros produtos, amparados pela securitização, que é juntar títulos para fazer um novo título (quem sabe em que composições estão os títulos “podres”?). E, para ajudar os negócios, as agências de ratings (pagas pelas instituições que lançam ativos que elas avaliam) falharam de novo, escandalosamente, como em 2001.

Mas essa crise mostra um lado diferente. Embora tenha partido da “bolha” imobiliária, envolveu todos os mercados financeiros. O Fed tenta dar liquidez ao sistema e, ao mesmo tempo, isolar, se possível, ou até minimizar, se puder, a questão da crise das moradias. Só que existe algo mais no “Reino da Dinamarca”. Houve, no processo produtivo, uma excessiva oferta de casas. Assim, além das hipotecas e da repactuação de antigas dívidas, o que emergiu no “desenrolar” da carruagem foi uma superacumulação de capital na economia, que produziu a quebra da construção civil, a falência de imobiliárias e ações judiciais contra consumidores inadimplentes. Mas a ação do Fed não deve conter a volúpia financeira, pois, de agora até dezembro de 2008, existem ainda inúmeras hipotecas que serão vencidas e que têm taxa de juros variável — e variável para cima.

Sintetizando, temos uma crise financeira que é inicial, tanto mais que não são apenas as hipotecas de casas que entraram na securitização; contam-se também títulos sobre automóveis, sobre outros bens duráveis e sobre cartões de créditos, sem considerar o capítulo dos commercial papers, que reforçará a crise produtiva, onde o emprego começa a cair, a renda vai descer e o consumo desabará. Tinha e tem medo da recessão o Fed, porque precisa salvar as finanças e não derrubar a produção, tanto a norte-americana como, por extensão, a mundial. Só que a crise dos Estados Unidos, via a globalização dos ativos, já repercutiu, financeiramente, na Alemanha, na França, na Inglaterra, etc. E, em seguida, vai conectar-se com a produção da China e de todo o mundo, embora a enfermidade esteja concentrada na terra de Tio Sam. A correia de transmissão será a queda do dólar e a recessão. O modelo liberal que se distribui por todo o planeta não está mais dando certo. O Titanic bateu. O que será necessário depois do socorro do Fed? Política monetária mais política fiscal; mas o decisivo começa a partir da eleição norte-americana do ano que vem. E, para o Brasil, uma palavra: a ação do Fed foi boa; defasou a crise, e, com o mercado interno em alta, o ano está salvo. Mas 2008, sim, será un altro giorno!

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