Textos com assunto: crescimento

Comportamento das atividades econômicas no RS a partir da crise de 2008

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Edição: Ano 26 nº 11 – 2017

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Passados nove anos da eclosão da crise em 2008, seus efeitos ainda são sentidos na economia mundial. Iniciada no setor financeiro dos Estados Unidos ainda em 2007, difundiu-se pelo mundo, afetando o crescimento das economias, retraindo o comércio, provocando recessões e aumento do desemprego em diversos países. A forte queda atividade, que parecia estar desvanecendo-se em 2010, voltou a recrudescer, na Europa, em 2011, passando a impactar mais fortemente os países em desenvolvimento, através de uma redução ainda mais significativa dos fluxos de comércio internacional.

O papel do cenário internacional no desempenho econômico do Brasil a partir de 2008 é matéria controversa. Entretanto, independentemente do maior ou menor peso atribuído aos erros de política para explicar a atividade econômica nos últimos anos, é inegável que as próprias políticas surgiram como resposta ao seu impacto e aos seus desdobramentos no País. Nesse sentido, a ideia deste artigo é descrever o comportamento das principais atividades econômicas no Rio Grande do Sul a partir da eclosão da crise, cotejando-as com o desempenho no Brasil, e apresentar algumas sugestões de interpretação para os fenômenos observados.

Será analisada a produção das atividades da agropecuária, das indústrias de transformação, da construção e do comércio. A indústria extrativa, apesar de importante no plano nacional, é pouco expressiva no Estado e não possui encadeamentos produtivos significativos, e por isso não será analisada. As duas primeiras atividades, sendo fortemente tradables (comercializáveis), são a base exportadora do Estado, e as últimas, sendo tipicamente no tradables (não comercializáveis), respondem às condições do mercado local.
A produção da agropecuária, tanto a nacional quanto a do Estado, não foi atingida pela crise de 2008. A demanda, principalmente a chinesa por soja, continuou crescendo durante todo o período. Os preços em dólares da soja continuaram elevados, tendo alcançado seu ápice em 2013 e retraindo-se a partir daí. As condições para a expansão do setor propiciaram crescimento da produtividade e expansão de área plantada, o que, no caso do Estado, resultou em um crescimento em volume maior que o do País, o maior entre todas as atividades econômicas no RS.

O volume do Valor Adicionado Bruto (VAB) da indústria de transformação brasileira não voltou a recuperar o nível anterior à sua queda, passando, nos últimos três anos, a recuar fortemente, estando atualmente em um nível 20% inferior ao do pico em 2008. A indústria gaúcha apresentou um movimento similar. O volume exportado pela indústria de transformação mantém o mesmo nível nos últimos 10 anos, tanto no Estado quanto no País. Já no plano internacional, considerando-se as economias industriais mais importantes, a produção industrial nos EUA vem recuperando-se lentamente desde 2009, a da Europa estabilizou-se em um nível inferior ao anterior da crise, e a China, depois de uma recuperação rápida, passou a ter taxas de crescimento inferiores às alcançadas antes da crise.

A construção é a atividade que liderou o crescimento nacional no período imediatamente pós-crise, crescendo mais que o Produto Interno Bruto (PIB) em quase todo o período que vai até o terceiro trimestre de 2014. A expansão do crédito imobiliário e o crescimento do investimento público, principalmente no período imediatamente após 2009 e em 2013, são as principais explicações para esse desempenho do setor. Contribuíram para a expansão do crédito o crescimento dos rendimentos reais e a queda da taxa de juros. No Rio Grande do Sul, a construção ficou atrás da agropecuária na liderança do crescimento pós 2008. No Estado, o desempenho da construção foi influenciado por fatores similares ao nacional, mas com uma menor participação das obras públicas.
O comércio seguiu de perto o crescimento da construção no País, mantendo-se no período pós-crise acima do nível PIB até o primeiro trimestre de 2015. Contribuíram para o desempenho da atividade o crescimento da renda familiar (incluídas as transferências governamentais), impulsionada pela elevação do salário mínimo, a redução do desemprego e os reajustes reais, um mercado de crédito mais acessível e a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para bens duráveis. O comércio no Estado cresceu mais que no País inteiro, provavelmente beneficiado pelo melhor desempenho de seu mercado de trabalho e pela renda agrícola.

Pelo gráfico abaixo, que apresenta as séries dessazonalizadas das atividades analisadas e do PIB no RS, a partir de 2008 observa-se uma maior dispersão. O desempenho do PIB no RS foi sustentando pela construção e o comércio até 2014. A transformação ficou estagnada em um nível inferior ao pico pré-crise até 2014, caindo a partir daí. A agropecuária manteve tendência de crescimento. A deterioração do saldo de transações correntes em 2013, fruto principalmente da queda dos preços das commodities e do aumento das importações, e as respostas de política a partir disso podem explicar a reversão dos fatores que sustentaram o PIB até 2014, tanto no Brasil quanto no Estado. Fica claro que, independentemente das políticas adotadas no período, o comportamento da indústria de transformação nacional e os determinantes da formação dos preços internacionais são elementos estruturais para o entendimento dos impactos da crise no Brasil e no RS.

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Desempenho da indústria no Rio Grande do Sul e no Brasil, em 2015

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Edição: Ano 24 nº 08 – 2015

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De acordo com os dados da Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a produção física da indústria gaúcha decresceu 11,5% no acumulado de janeiro a maio de 2015, comparada com a do mesmo período do ano anterior. No Brasil, o decréscimo foi inferior (-6,9%).

Vale destacar que a PIM divulga dados de produção tanto da indústria de transformação quanto da extrativa mineral. Contudo a pesquisa da extrativa não é realizada nos estados em que ela é pouco expressiva. Isso acontece com o RS, SC, o PR e SP, por exemplo. Já em outros estados, como MG e RJ, possuidores de uma indústria extrativa mineral significativa, a pesquisa é realizada também com a indústria extrativa.

A queda na indústria brasileira só não foi maior devido ao incremento da indústria extrativa no período (9,9%), visto que a indústria de transformação decaiu 9,0%. O mesmo fato ocorreu nos Estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. A indústria extrativa do RJ obteve incremento de 9,6%, enquanto, em MG, houve uma pequena queda (-0,1%), mas muito inferior àquela obtida pela indústria de transformação.

Entre os estados selecionados, o RS é o que possui o pior desempenho industrial no período analisado. Isso deve-se, principalmente, ao fato de possuir uma atividade extrativa mineral muito pouco desenvolvida, além de a queda na sua indústria de transformação ser ainda superior à dos outros estados analisados. O decréscimo na atividade de máquinas e equipamentos (-24,8%) colabora sensivelmente nesse sentido. Essa atividade é bastante relevante para o Estado, e sua queda é muito superior às observadas nos outros estados analisados. No Brasil, essa atividade decaiu 11,0%.

O desempenho da atividade de veículos automotores também serve como justificava para a baixa performance da indústria gaúcha em 2015. Essa atividade apresentou redução de 29,3% em sua produção física, no período considerado. Contudo essa queda é semelhante à ocorrida no Brasil, que obteve decréscimo de 22,3%. Portanto, o desempenho muito ruim dessa atividade pode ser considerado generalizado no País.

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As exportações e o espaço para o crescimento

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Edição: Ano 22 nº 06 - 2013

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Assim como os demais países da América Latina, o Brasil tem apresentado uma situação relativamente confortável do ponto de vista de suas contas externas, mesmo após a crise financeira de 2008. As reservas cambiais, que, atualmente, ultrapassam US$ 370 bilhões (montante 11 vezes superior ao estoque de dívida externa de curto prazo), configuram uma robusta posição em termos de liquidez externa. Apesar de registrar déficits em transações correntes (TC) desde o final de 2007, até meados de 2012 estes vinham oscilando em torno de 20% do valor das exportações de bens e serviços, caracterizando uma posição relativamente tranquila também sob o ponto de vista das condições de solvência externa. Pelo lado do movimento de capitais, desde o terceiro trimestre de 2010, a entrada de investimento direto externo (IDE) vinha sendo suficiente para financiar sozinha o déficit em transações correntes.

Os dados relativos ao primeiro trimestre de 2013 mostram, entretanto, uma deterioração relativamente rápida do saldo em transações correntes. O déficit próximo a US$ 25 bilhões implicou uma piora significativa na posição de solvência, uma vez que corresponde a cerca de 40% das exportações de bens e serviços. Nesse mesmo trimestre, o saldo positivo do IDE financiou apenas 40% do saldo negativo em TC. No imediato, essa modificação não implicou maiores problemas, visto que o restante do déficit foi financiado pela entrada líquida de investimento em carteira e pelo saldo positivo na conta “outros investimentos”, resultando em um saldo positivo de aproximadamente US$ 6 bilhões no balanço de pagamentos global.

Desagregando o resultado das transações correntes, pode-se observar que a referida deterioração não resultou do movimento das importações de bens e serviços, nem do saldo do balanço de rendas, mas do comportamento das exportações. Após atingir um pico superior a US$ 80 bilhões no terceiro trimestre de 2011, a receita com bens e serviços exportados passou a apresentar uma tendência declinante, atingindo pouco mais de US$ 60 bilhões no primeiro trimestre de 2013. De acordo com os índices de preços e volumes exportados divulgados pela FEE, o movimento de redução do valor exportado pela economia brasileira deveu-se, sobretudo, à retração dos volumes exportados, ainda que tenha havido também um movimento desfavorável dos preços das exportações.

A análise dos componentes do crescimento da demanda agregada mostra que não se pode atribuir a este movimento das exportações o papel decisivo na desaceleração do crescimento do PIB, em curso desde 2011. Como é recorrente na economia brasileira, o desempenho medíocre do crescimento em 2012 deve-se fundamentalmente à dinâmica do mercado doméstico. No que diz respeito ao equacionamento das contas externas, entretanto, o movimento das exportações tem sempre um papel muito mais decisivo.

De um modo geral, esse desempenho recente das exportações e a deterioração das transações correntes não modificaram uma posição ainda robusta da economia brasileira com respeito às suas condições externas. Convém, entretanto, seguir acompanhando com muita atenção os resultados das contas externas, em conjunto com as medidas de política econômica. O cenário que se desenha no plano doméstico, associado a uma persistência desse desempenho ruim das exportações, poderá implicar um padrão de crescente fragilidade das contas externas.

Devido ao calendário eleitoral e aos grandes eventos esportivos programados, pode-se esperar uma retomada dos gastos públicos e um crescimento mais intenso do mercado doméstico ao longo de 2013 e 2014. Em conjunto com um recém iniciado ciclo de elevação da taxa básica de juros, que poderá resultar em alguma revalorização da taxa de câmbio, o aquecimento do mercado doméstico tenderia a pressionar o resultado em transações correntes também pela via de um maior crescimento das importações.

Ainda que persista a ampla disponibilidade de acesso aos capitais externos, permitindo o financiamento de um déficit em transações correntes ainda maior, as exportações são, em última instância, a fonte de divisas estrangeiras que permite a cobertura dos serviços futuros do passivo externo acumulado. Considerando um prazo mais longo, portanto, a própria capacidade de absorver o capital externo depende do desempenho das exportações.

A crítica que parece mais importante e central com respeito à orientação da política econômica do Governo Dilma Rousseff está relacionada com a constatação de que este não aproveitou adequadamente as boas condições externas dos dois primeiros anos do mandato, no que diz respeito ao crescimento econômico. Teria sido possível, com uma política fiscal mais expansionista, manter uma taxa de crescimento mais elevada sem problemas significativos no plano externo. Se o desempenho recente das exportações se revelar apenas conjuntural, essa opção permanecerá aberta. Caso contrário, o espaço para uma política econômica mais comprometida com o crescimento da demanda doméstica será progressivamente reduzido.

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Crescimento do PIB e poupança no BRIC

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Edição: Ano 19 nº 08 - 2010

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As expectativas de crescimento do PIB brasileiro têm sido revisadas para cima, sistematicamente, nos últimos meses, de acordo com as mais recentes estimativas do mercado. Segundo os dados divulgados pelo Relatório de Mercado Focus, do Banco Central, em 10.07.09, as estimativas iniciais eram de que o PIB se expandisse a uma taxa anual de 3,5% em 2010. O último Relatório Focus, divulgado em 09.07.10, estima o crescimento anualizado do PIB brasileiro em 7,2%. Assim, no prazo de um ano, a estimativa de crescimento do PIB mais do que duplicou. Isso aponta o aumento significativo da velocidade de expansão da atividade econômica no País.

O cerne da questão é que o Brasil possui uma relativa baixa taxa de poupança, como proporção do PIB: 16%, o que é pouco para as suas necessidades. Compare-se, por exemplo, a situação de Brasil, Rússia, Índia e China (BRIC). A China, que tem apresentado altas taxas de crescimento intertemporal, há cerca de mais de três décadas consecutivas, tem taxa média de poupança superior a 46% do PIB. A taxa de poupança da Índia é maior do que 31%. Mesmo a Rússia, que tem apresentado crescimento econômico inferior ao da China e da Índia, tem uma taxa de poupança em torno de 31% do PIB. Isso indica que, sem elevar a taxa de poupança, não há como se sustentarem altas taxas de crescimento econômico ao longo do tempo.

Crescimento do PIB e poupança no BRIC

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Crescem as importações

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Edição: Ano 14 nº 11 - 2005

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No Brasil, de janeiro a setembro de 2005, as exportações atingiram US$ 86,7 bilhões; e as importações, US$ 54,1 bilhões. No RS, nestes primeiros nove meses do ano, os valores foram, respectivamente, de US$ 7,8 bilhões e US$ 4,9 bilhões. No caso brasileiro, comparando-se com o mesmo período de 2004, o crescimento das exportações (23,9%) foi superior ao das importações (19,6%), a despeito da apreciação cambial. Já no Estado, os reflexos do câmbio apreciado, aliados principalmente aos problemas climáticos, proporcionaram um crescimento das exportações de apenas 4,5%, bem inferior ao das aquisições do exterior (28,6%). Tanto o incremento das exportações quanto o das importações nacionais e estaduais deveram-se, em especial, à elevação dos preços das mercadorias no mercado internacional, como foi o caso de algumas commodities.

Comparando-se os dados de importação das economias brasileira e gaúcha, percebe-se que esta última apresenta uma pauta mais concentrada em relação tanto aos produtos quanto à origem dos bens adquiridos no mercado externo. Os capítulos da Nomenclatura Comum do Mercosul (NCM) que registraram os maiores valores importados, de janeiro a setembro corrente, foram combustíveis e reatores, máquinas e mecânicos, que, juntos, participaram com 34% no Brasil e 57% no RS do total adquirido no exterior.

Analisando-se os dados do País por setores de contas nacionais, os mais representativos na pauta importadora foram: os bens intermediários (43,8%), com ênfase nos insumos industriais, seguidos das aquisições de bens de capital (29,5%) e de combustíveis e lubrificantes (18,1%). Já nas importações gaúchas, destacaram-se os combustíveis e lubrificantes (46,7%), seguidos dos bens intermediários (31,7%), em particular os insumos industriais, e dos bens de capital (17,3%). Com a valorização do real, as importações de bens de capital e de insumos industriais podem estar Contribuindo para explicar parte do acréscimo das exportações, tendo em vista o aumento da competitividade externa, graças aos menores custos de produção, à melhoria na qualidade dos produtos e a aumentos das operações de drawback, diminuindo o impacto da apreciação cambial nas exportações.

Argentina, Nigéria e Argélia representaram, juntos, 53% do valor importado pelo RS de janeiro a setembro, sendo esses países os principais fornecedores de combustíveis ao Estado. No nível nacional, as principais origens, por ordem decrescente de participação, foram: Estados Unidos, Alemanha, Argentina, China, Japão, Argélia e França, que, juntos, participaram com 57,3% das importações. A representatividade dos produtos argentinos na pauta gaúcha continua superior à nacional, fruto do grande crescimento das aquisições de veículos (625%) e de produtos químicos orgânicos (387%), como o etilbenzeno.

Ao se analisarem as importações tanto do País quanto do Estado, deve ser destacado o papel crescente que vem sendo desempenhado pela China, da qual, no Brasil, nos primeiros nove meses de 2005, salientaram-se, pelo seu valor, as aquisições de produtos eletrônicos e têxteis e, no RS, as de máquinas e aparelhos mecânicos e de calçados. Essa situação gerou um pedido de salvaguarda contra produtos chineses, em particular para os produtos têxteis e os calçados, os quais vêm entrando no mercado nacional com preços muito baixos, concorrendo diretamente com o produtor nacional. Destarte, os setores que se sentirem prejudicados pela alta das importações oriundas da China poderão manifestar-se, desde que comprovem o dano ou a ameaça de dano, uma vez que essas salvaguardas estão previstas na Organização Mundial de Comércio.

Crescem as importações

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