Textos com assunto: crescimento econômico

Ruptura na relação entre os termos de troca e o crescimento econômico no Brasil, em 2016

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Edição: Ano 26 nº 5 – 2017

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O ano de 2016 foi marcado por uma retomada no crescimento dos termos de troca de comércio do Brasil — os quais medem a razão entre os preços dos produtos exportados em relação aos produtos importados —, que tiveram uma valorização média de 3,04% no ano. A tendência de crescimento desse indicador pode ser verificada a partir do mês de maio, e, em dezembro, a valorização em relação ao mesmo mês do ano anterior atingiu 16,4%.

Em geral, períodos de melhoria nos termos de troca estão associados à valorização dos preços das commodities para países exportadores desses produtos, como o Brasil. Dentre as principais commodities exportadas pelo País, destacam-se a soja e o minério de ferro, cujos preços internacionais em dólares, em 2016, se elevaram, em média, 8,1% e 8,9% respectivamente, em relação à média de preços de 2015. Já em dezembro de 2016, a elevação atingiu 12,9% para o preço da soja e quase dobrou (95,1%) para o minério de ferro, em comparação com as cotações de dezembro de 2015.

Evidências empíricas sinalizam uma relação positiva entre o crescimento econômico e as variações nos preços de commodities para os países exportadores desses produtos, cuja relação é permeada pelo crescimento dos termos de troca. O último período de notável crescimento dos preços de commodities — em magnitude, abrangência e duração — foi 2003-11, com breve intervalo na crise financeira internacional de 2008-09. Nesse período, os termos de troca do Brasil valorizaram-se, em média, 1,9% a.a. entre 2003 e 2008 e, após a crise financeira, 11,8% a.a. no intervalo 2010-11. Esse movimento esteve relacionado a um crescimento robusto da economia brasileira, em média 4,0% a.a., no intervalo 2003-11.

Entretanto, em 2016, foi observada uma ruptura na relação positiva entre variações nos termos de troca e no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, o qual teve uma queda de 3,6%, após uma retração de 3,8% no ano anterior. Essa dissociação entre as variáveis pode ser verificada nos pontos em destaque (em vermelho) no gráfico abaixo.

Esses três pontos referem-se ao segundo, ao terceiro e ao quarto trimestre de 2016. Desde o início da série histórica das contas nacionais trimestrais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), estes são os únicos pontos situados no quadrante sudeste, no qual o crescimento dos termos de troca está relacionado a uma variação negativa no PIB. Esse resultado ocorre no contexto das crises gêmeas — econômica e política — no País e remete a outra indagação: por que o crescimento dos termos de troca não resultou em um crescimento econômico positivo no Brasil, em 2016?

A primeira hipótese é a de que, mesmo com uma variação importante dos termos de troca e dos preços das principais commodities exportadas pelo Brasil, eles estariam ainda em um nível muito aquém dos anos anteriores, e, por isso, os preços e os termos de troca não teriam um impacto positivo no crescimento. Por outro lado, estudos do Fundo Monetário Internacional (FMI) demonstram que é mais relevante para o crescimento econômico não o nível dos preços de commodities e dos termos de troca, mas sim a sua variação. Diante disso, torna-se importante buscar outras explicações.

Uma segunda proposição é a de que não apenas mudam as condições externas, mas também o seu impacto sobre determinada economia ao longo do tempo. Esse assunto é tratado no último World Economic Outlook do FMI, o qual demonstra que não apenas as condições externas variam, mas também a sua importância. O estudo aponta para uma variação na magnitude dos coeficientes ao longo do tempo — conforme alterações no grau de integração comercial e financeira de determinada economia, por exemplo —, mas não no seu sentido. Em outras palavras, mesmo que se altere o grau de impacto dos termos de troca no crescimento econômico, espera-se que a relação entre as variáveis permaneça positiva.

Por sua vez, a hipótese adotada neste texto para a inversão da relação entre os termos de troca e o crescimento econômico do Brasil em 2016 é a interrupção dos canais de transmissão das commodities e dos termos de troca para o crescimento econômico, uma vez que essa relação não é automática. Essa ausência de automatismo reforça a importância das políticas de estímulo à renda, as quais foram fundamentais para o crescimento brasileiro em 2003-11 e estiveram ausentes em 2016. Portanto, a ruptura a que se refere o título deste texto é dada, por hipótese, pela redução da renda e pela inexistência de qualquer medida de estímulo ao crescimento econômico, especialmente políticas de incentivo ao investimento.

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Fim do bônus demográfico. E agora?

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Edição: Ano 26 nº 4 – 2017

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O bônus demográfico (ou janela de oportunidade demográfica) é o período em que a dinâmica da estrutura etária da população contribui para o crescimento da economia da região. O bônus ocorre durante o intervalo em que, em relação ao ano anterior, há um aumento do percentual da População Potencialmente Ativa (PPA).1

Fundamentalmente, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) per capita pode ser decomposto em três partes: a variação da produtividade média por trabalhador, o crescimento da proporção da PPA na população e o aumento do percentual de ocupados na PPA. Assim, mantendo constantes a produtividade por trabalhador e o percentual de ocupados na PPA, o crescimento do PIB per capita é equivalente ao crescimento da proporção da PPA na população.

Quando a taxa de fecundidade brasileira ainda estava em patamares acima de cinco filhos por mulher, crescia acentuadamente o percentual de crianças no País, e, por consequência, reduzia a participação da PPA (considerando como PPA a população de 15 a 59 anos). No entanto, com a queda da taxa de fecundidade a partir dos anos 60, o crescimento do número de crianças na população passou a ser menor do que o crescimento da PPA, dando origem ao bônus demográfico.

No entanto, o bônus possui prazo de validade. Dentro do processo de transição demográfica, a janela de oportunidade termina após algumas décadas, quando o elevado contingente de pessoas que, no passado, se encontrava na PPA ingressa na fase idosa e a reposição de novos entrantes na PPA não ocorre na mesma proporção, devido ao baixo número de jovens, o que faz aumentar o percentual de dependentes na população.

Dessa forma, o bônus demográfico brasileiro, que iniciou lentamente na década de 60 e se intensificou na década de 70, contribuiu com 0,73% ao ano para o crescimento do País no período 1990-2000 e com 0,32% ao ano entre 2000 e 2010. Em contrapartida, a contribuição deverá reduzir-se para 0,13% ao ano no período 2010-20, ocorrendo, em 2019, o fechamento da janela, conforme as projeções populacionais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além do mais, o ponto de inflexão não é simultâneo para todo o território nacional. Enquanto estados das Regiões Norte e Nordeste ainda terão alguns anos da janela, no RS, estado com maior proporção de idosos, o bônus já se encerrou em 2011.

Posteriormente, a partir de 2020, a participação da PPA entrará em processo de redução no Brasil. Já no ano de 2030, a demografia deverá contribuir negativamente com 0,33%. Sendo assim, para que o PIB per capita cresça, será primordial o aumento da produtividade média por trabalhador ou da proporção de ocupados na PPA. Esta última, no entanto, só pode aumentar até o limite do pleno emprego.

Ainda que a reforma previdenciária, que está em discussão no Congresso, viesse a ampliar a idade mínima de aposentadoria para 65 anos e considerássemos como PPA a população entre 15 e 64 anos, o fim da janela de oportunidade se estenderia apenas até 2022, e, já em 2030, a contribuição demográfica seria de -0,24%, ou seja, o intervalo do bônus demográfico se expandiria suavemente, mas o aumento da produtividade do trabalho permaneceria sendo necessário. Nesse cenário para o RS, o bônus teria se encerrado em 2016.

Esse desafio se intensifica se avaliarmos o crescimento histórico da produtividade média por trabalhador brasileiro, que, após o elevado aumento nas décadas de 50, 60 e 70, foi negativo nas décadas de 80 e 90, com -1,97% e -0,40% respectivamente, e positivo na primeira década dos anos 2000, em 1,15%, conforme dados do Federal Reserve Economic Data (FRED). Em outras palavras, mesmo na primeira década dos anos 2000, em que a economia brasileira obteve um desempenho positivo de 2,5% ao ano em seu PIB per capita, menos da metade desse crescimento deveu-se ao aumento da produtividade do trabalho.

Apesar das dificuldades expostas, muitos países têm mostrado que é possível crescer mesmo após o fim do bônus demográfico. O maior exemplo disso é o Japão, que apresentou, conforme dados da Organização das Nações Unidas (ONU), a variação anual mais negativa da participação da PPA na primeira década dos anos 2000: -1,02%. Em contrapartida, concomitantemente, sua renda per capita cresceu 0,7%, principalmente devido à produtividade do trabalho, que aumentou 0,97% ao ano.

Outros países também poderiam ser citados, como Finlândia, Dinamarca e Holanda, que obtiveram crescimentos anuais do PIB per capita de 2,4%, 1,9% e 2,3% na mesma década, apesar da participação da sua PPA variar em -0,54%, -0,49% e -0,48% respectivamente. No entanto, é importante ressaltar que os exemplos disponíveis são predominantemente de países desenvolvidos, que já apresentavam elevados níveis de educação e de capital físico no momento do término do bônus demográfico.

O Brasil faz parte de um novo grupo, que reduziu seus patamares de fecundidade muito rapidamente e que experimentará decréscimos da participação da PPA ainda enfrentando dificuldades típicas de países em desenvolvimento. Dessa forma, o desafio é criar meios que possibilitem contornar esse processo, ampliando os investimentos em infraestrutura e educação, além de aumentar a retenção de mão de obra qualificada. No caso específico do RS, onde a participação da PPA na população já está diminuindo há mais tempo, o aumento da produtividade do trabalho se torna ainda mais essencial.

Contudo os desafios do fim do bônus demográfico são acentuados para um horizonte de longo prazo, tendo em vista que a atual crise econômica brasileira gerou um elevado número de desempregados, criando uma oferta reprimida de mão de obra. Assim, para o crescimento de curto prazo, o fim do bônus demográfico não é um entrave.


1Mais comumente, a literatura define o bônus demográfico como o intervalo em que decresce a razão de dependência, o que é equivalente ao período em que aumenta a proporção da PPA.

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A persistência dos efeitos da queda da indústria de transformação no RS

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

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Na nova série de Contas Regionais do IBGE e da FEE, o crescimento acumulado do PIB do Rio Grande do Sul entre 2003 e 2014 foi maior apenas que o do Estado do Rio de Janeiro, ocupando a 26.ª posição entre os estados brasileiros. Em uma primeira observação, esse resultado pode indicar que o nosso estado passa por uma crise crônica que o faz ser incapaz de acompanhar o ritmo da economia nacional. Entretanto, uma análise mais acurada mostra que se olharmos a série a partir de 2006, configura-se outro resultado, com o RS apresentando um desempenho melhor (21.º) e mais próximo à média nacional, com um crescimento acumulado maior que o dos outros estados da Região Sul (Santa Catarina e Paraná) e de outras duas grandes economias estaduais (Minas Gerais e Rio de Janeiro). Entre os grandes Estados, o RS ficou atrás apenas de São Paulo. Compreender o que ocorreu no RS, tanto nos anos iniciais da série quanto na sua persistência no tempo é importante, principalmente devido aos seus efeitos sobre o PIB per capita, sobre a participação do Estado na economia nacional e sobre a arrecadação de impostos.

A primeira suspeita obviamente recai sobre a estiagem que se abateu sobre o Estado em 2004 e 2005, provocando severas perdas para a agropecuária. Entretanto, ela recuperou essas perdas em 2006 e exibiu um crescimento acumulado superior ao brasileiro de 2003 a 2014, mesmo com outra estiagem severa em 2012. Dessa forma, as perdas agrícolas decorrentes de problemas climáticos não podem explicar diretamente o desempenho gaúcho durante todo o período.

No gráfico, podemos ver que a indústria de transformação gaúcha teve desempenhos negativos em 2005 e 2006, enquanto o desempenho brasileiro, apesar de pequeno, foi positivo. Como o diferencial observado com o desempenho nacional não foi recuperado nos anos subsequentes, e, a partir de 2007, a indústria de transformação do RS e do Brasil tiveram desempenhos bastante similares, é na queda especificamente local da indústria de transformação desses anos que se encontra a maior diferença acumulada no PIB para o conjunto da série. Por que, nestes dois anos (2005 e 2006) especificamente, as atividades industriais se descolaram do desempenho do restante do País? Apesar de ser comum a ideia de que a valorização da taxa de câmbio está associada ao desempenho negativo da indústria gaúcha, ela não explica o porquê da retomada industrial a partir de 2007, mesmo com o câmbio valorizando-se até a crise de 2008 e em 2010 e 2011.

Se, além da seca e do câmbio, observarmos a redução da taxa de formação bruta de capital fixo nacional e o comportamento dos preços agropecuários, principalmente o da soja, nos anos de 2005 e 2006, poderemos acrescentar uma hipótese multicausal para o que aconteceu nesses anos e, assim, compreender melhor a dinâmica interna da nossa economia. A indústria de transformação é impactada diretamente de duas formas pela produção agropecuária: a montante, acarretando uma redução de demanda por insumos, e a jusante, provocando uma redução de oferta agrícola. A valorização da taxa de câmbio aumenta a concorrência externa aos produtos industriais, prejudicando tanto suas vendas internas quanto suas exportações. A redução do investimento nacional diminui a demanda por bens de capital e sua cadeia de fornecedores. A queda dos preços internacionais, combinada com a valorização do real, reduz a renda agrícola mediante a queda do valor da produção.

O efeito da estiagem é local, e sua duração por dois anos amplificou o impacto da demanda sobre o setor de insumos. Os efeitos do câmbio e do investimento nacional impactaram toda a indústria nacional, mas, ainda mais, a indústria gaúcha devido à especificidade de sua estrutura. O efeito da queda de preços da soja, apesar de atingir todo o País, atingiu mais o Estado porque esta veio combinada com a redução da quantidade, causada pela estiagem. Ao atingir um contingente significativo de ocupados no RS, a queda de renda reduziu a demanda por bens locais, e, mais fortemente, por bens de capital (máquinas e implementos agrícolas). A importância do efeito-renda é corroborada pelo desempenho inferior do comércio gaúcho comparado ao nacional até 2009. Outra forma de vermos a questão é compararmos o que acorreu depois da seca de 2012 com a rápida recuperação decorrente da elevada capitalização do setor agrícola e do nível alto de preços da soja em 2012.

Entre os resultados do menor nível no volume do PIB do RS no período, a partir da queda da indústria de transformação gaúcha, a diminuição da arrecadação de impostos é que tem um significado mais direto para a atual situação fiscal do Estado. Como mais de 45% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é arrecadado pela indústria de transformação, o fato de a taxa acumulada pela indústria estar 70% inferior à brasileira ao longo do período de 2003 a 2014 indica uma potencial perda de arrecadação que poderia minorar as dificuldades fiscais do Estado e dos municípios. O efeito estrutural das consequências dessa queda e o caráter exógeno das causas do problema revelam a dificuldade de os governos estaduais e municipais mitigarem sozinhos suas consequências. Problemas como esses deveriam receber um tratamento diferente da Federação, sendo um dos objetos de um redesenho do pacto federativo.

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Como citar:

ROCHA, Roberto. A persistência dos efeitos da queda da indústria de transformação no RS Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/a-persistencia-dos-efeitos-da-queda-da-industria-de-transformacao-no-rs/>. Acesso em: 24 de outubro de 2017.

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A produção industrial no RS, em 2016, e suas perspectivas de crescimento

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

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A indústria de transformação (IT), no Rio Grande do Sul, apresentou, no período de janeiro a novembro de 2016, uma queda acumulada de 4,3% na produção física em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com a Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No acumulado do ano, esse desempenho esteve ligeiramente acima da sua congênere nacional, a qual apresentou uma diminuição de 6,9% no volume de produção.

Em 2016, apenas quatro atividades industriais, no RS, apresentaram taxas positivas de crescimento, a saber: Fabricação de celulose e produtos de papel (36,9%), Metalurgia (2,7%), Artefatos de couro e calçados (2,4%) e Produtos alimentícios (1,0%). As demais atividades apresentaram queda na produção física. Esse fraco desempenho veio a se somar às quedas ocorridas em anos anteriores. Assim, quando se observam as taxas médias anuais de variação da produção física no período 2011-15, verifica-se que apenas três atividades apresentaram taxas positivas de crescimento. Como resultado, ao longo desses cinco anos, a taxa média de variação da IT foi de -2,7% a.a. (Gráfico), valor muito próximo ao da sua similar nacional (-2,8% a.a.). Essas sucessivas quedas da produção física fizeram com que a produção industrial, no Rio Grande do Sul, encerrasse 2016 cerca de 9,5% abaixo do nível de 2002.

Em virtude de o parque industrial do RS representar segmentos da indústria nacional, não há como dissociar o desempenho do primeiro em relação ao segundo. Assim, a análise da evolução da produção física ao longo de uma série de tempo mais longa demonstra que os ciclos de crescimento e queda da produção industrial do Estado seguem os ciclos da indústria nacional. Em função de algumas especificidades do parque industrial instalado no RS, como, por exemplo, a elevada participação da indústria de produtos alimentícios, de máquinas e equipamentos, da fabricação de veículos automotores e também da fabricação de produtos químicos, as quais, em conjunto, representam aproximadamente 47,0% do valor da transformação industrial, os ciclos da indústria, no Estado, tendem a apresentar maiores oscilações do que a média nacional. Portanto, é no desempenho da economia nacional que se devem buscar os principais determinantes das oscilações da produção industrial do Estado.

Em que pese o fato de que as menores taxas de queda na produção verificadas em 2016 já sinalizem para uma reversão do ciclo — em 2015, a queda na produção foi de 11,5% — e na possibilidade de que ocorra algum crescimento em 2017, convém destacar que o fraco desempenho dos últimos anos acaba retirando mercados das indústrias instaladas, bem como promovendo a saída de tantas outras que não foram capazes de enfrentar a crise. Tal fato cria fissuras na estrutura industrial através da quebra de relações de encadeamento industrial, cuja superação somente se dará no longo prazo, em um novo ciclo de crescimento. Por outro lado, uma vez retomado o crescimento, tais fissuras podem gerar gargalos que venham a comprometê-lo, originando a possibilidade de se ter que substituir por importações o que antes era produzido no mercado doméstico.
Em função da elevada participação da produção industrial no PIB estadual e também pelos seus efeitos multiplicadores, a retomada do crescimento da economia do Estado passa, necessariamente, pelo retorno do seu crescimento. Essa retomada, por sua vez, irá depender da reversão do cenário recessivo que se tem apresentado na economia brasileira nos últimos dois anos. De forma semelhante ao que ocorre em nível nacional, até mesmo a melhora das contas públicas do Estado irá depender muito mais da retomada da atividade econômica do que de políticas de corte nos gastos públicos. Estas últimas contribuem para a redução da demanda e, consequentemente, também para a queda na arrecadação tributária, o que pode acabar acarretando uma deterioração ainda maior da situação fiscal do RS.

A reversão cíclica que possa recolocar o Brasil em uma trajetória de crescimento de longo prazo irá depender, no entanto, de um conjunto de elementos que vão desde a solução dos graves problemas políticos que assolam o País, a retomada dos investimentos em infraestrutura nacional e o reajuste do câmbio e dos juros, de forma a favorecer uma maior competitividade industrial. Concomitantemente, fazem-se necessárias medidas que possibilitem o reaquecimento do mercado interno e do consumo das famílias. Somente após a correção dessa trajetória, que leve a um aumento do uso da capacidade instalada e gere perspectivas de rentabilidade futura, pode-se esperar um retorno dos investimentos que estejam acima do nível de depreciação do capital existente. Por fim, convém destacar que muitas das decisões de investimentos dependem de empresas que têm seu centro de decisão fora do País, as quais, portanto, irão avaliar não apenas a estabilidade econômica nacional e o potencial de crescimento do mercado doméstico, como também as alternativas que se colocam no cenário internacional.

Esse conjunto de elementos faz com que a retomada da atividade econômica do Estado, a melhora nas condições sociais e a solução para a crise das finanças públicas estejam, em grande parte, fora do alcance das autoridades estaduais. De qualquer forma, cabe aos gestores públicos atuarem no sentido de preservar e aprimorar as áreas de educação, pesquisa, saúde, social e de infraestrutura, para que, uma vez retomado o crescimento, coloquem a economia do RS em condições competitivas no cenário nacional. Tais medidas, associadas à existência de um parque industrial diversificado e às vantagens associadas à condição de fronteira, podem favorecer a economia do Estado em um novo ciclo de crescimento.

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Como citar:

CONTRI, André Luis. A produção industrial no RS, em 2016, e suas perspectivas de crescimento Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/a-producao-industrial-no-rs-em-2016-e-suas-perspectivas-de-crescimento/>. Acesso em: 24 de outubro de 2017.

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O impacto dos termos de troca no crescimento econômico

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Edição: Ano 23 nº 09 – 2014

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No período 2003-11, de valorização expressiva dos preços internacionais de commodities, melhoraram os termos de intercâmbio e abriu-se espaço para o crescimento econômico dos países exportadores desses produtos, como o Brasil e os demais países da América Latina. Após os preços nominais das commodities agrícolas e metálicas atingirem o pico em abril de 2011 — os combustíveis tiveram seu auge em 2008 —, surgiu a discussão sobre se esse período seria sucedido por uma queda repentina desses preços — seguindo a dinâmica boom-bust —, ou por um período de estabilidade, ou, ainda, por uma leve redução.
Não parece haver discordância, no debate recente, com relação ao fim desse movimento de valorização. Se, por um lado, a taxa de crescimento desses preços desacelerou desde 2011, por outro, o nível médio do período maio/2011-jul./2014 é superior ao da média dos anos de boom.

Assim, o Economista Bertrand Gruss publicou um estudo, no Fundo Monetário Internacional (FMI), em agosto deste ano, com o seguinte questionamento: o que foi mais relevante para o crescimento econômico dos países exportadores de commodities no intervalo 1970-2013, o nível dos preços reais de commodities ou a sua taxa de crescimento? O estudo conclui que o crescimento do PIB não mostra associação com o nível destes preços relativos, mas apresenta relação com a sua taxa de crescimento.
No entanto, é importante ressaltar que essa relação não é automática. Para se compreender a dinâmica de ligação entre uma variação dos termos de troca e o crescimento econômico, é necessário averiguar quais são os seus canais de transmissão. Para fins metodológicos, separaram-se três canais principais: um “direto”, um “indireto” e outro “subordinado”. Os três caminhos exigem condicionantes para que um choque favorável dos termos de troca afete o crescimento econômico positivamente.

O primeiro canal de transmissão é o efeito-preço nas exportações de commodities. Isso impacta a renda e o produto, pois as exportações são fonte de demanda. No Brasil, a participação das exportações desses produtos no Produto Interno Bruto (PIB), em 2013, foi de 6,65%. O condicionante é que não ocorra efeito negativo sobre o quantum exportado — é razoável esperar, inclusive, um aumento nas quantidades, estimulado pela maior rentabilidade. Não se pode deixar de mencionar os efeitos multiplicadores sobre o consumo e o investimento.

O segundo canal é o efeito-quantum nas exportações de manufaturados para parceiros comerciais exportadores de commodities, principalmente para os vizinhos latino-americanos. Ele é “indireto”, pois depende do impacto da variação dos termos de troca no PIB desses parceiros.

Apesar de as vendas externas brasileiras para a América do Sul representarem apenas 1,84% do PIB do Brasil, a participação das exportações de commodities no PIB dessa região alcançou 15,39% em 2013. Esse percentual é superior aos 6,65% do Brasil, haja vista suas economias domésticas serem menos robustas e diversificadas que a economia brasileira. O seu condicionante é a existência de relações comerciais consolidadas com esses parceiros.

Nos últimos anos, apesar da inserção das exportações chinesas na América do Sul — a qual se intensificou no período pós-crise —, foi possível aumentar as vendas externas brasileiras para essa região.

Por fim, o terceiro canal é a melhora do balanço de pagamentos e a possibilidade de aumentar as importações, para dar suporte a uma política de estímulo ao crescimento. O condicionante são as condições financeiras globais favoráveis. Denomina-se esse canal de “subordinado”, pois o seu impacto no crescimento econômico depende da decisão governamental de estimular a demanda interna.

Uma breve análise da performance econômica do Brasil nos períodos de Lula e Dilma corrobora a análise anterior, tendo em vista que a média dos termos de troca no Governo Lula (101,68) é menor que a média do Governo Dilma (123,08), mas o primeiro ocorreu em período de boom nos preços de commodities. Por sua vez, o Governo Dilma, apesar da média superior dos termos de intercâmbio, acontece em um momento de desaceleração do crescimento desses preços. Isso, entre outras coisas, se reflete na taxa média de crescimento do PIB de 4,03% a.a. para o primeiro e de 2,08% a.a. para o segundo.

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Recuperação adiada para 2013

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Edição: Ano 22 nº 01 - 2013

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A passagem de ano sempre inspira reflexões: de um lado, repassamos o que foi realizado ao longo do ano anterior e, de outro, projetamos o que deve ser feito no ano que se inicia. Seguindo essa perspectiva, 2012 pode ser considerado o ano em que a recuperação econômica não ocorreu. Isto porque a desaceleração, que se apresentava já em 2011, tomou contornos mais expressivos ao longo doúltimo ano. Aguardamos uma recuperação econômica que, de acordo com o que mostram os dados divulgados até o momento, ainda não tomou forma. Contudo, ainda mais importante que analisar esse comportamento será avaliar a sua possível projeção sobre o ano de 2013.

Conforme podemos acompanhar na tabela, o consumo das famílias, que apresentou seu 36º crescimento consecutivo, continua sendo o principal componente a contribuir para o PIB. Esse resultado reflete a manutenção do emprego durante o período, bem como o contínuo crescimento do crédito, mesmo que arrefecido. O consumo do Governo, após reduzir sua contribuição ao fim de 2011, voltou a crescer em 2012, mantendo uma contribuição média de 0,6 p.p. para o crescimento total do PIB em cada trimestre. Esses dois componentes mantêm-se positivos e, apesar de apresentarem alguma flutuação, são relativamente estáveis ao longo do tempo.

Analisando-se a participação dos demais componentes, é válido observar a significativa alteração ocorrida ao longo de 2012. As exportações líquidas — que representam a soma das contribuições das exportações, descontadas as importações — reverteram sua influência para o crescimento do PIB no 3º trimestre de 2012, tornando positiva a sua contribuição. O que ocorreu, na verdade, foiuma retração no comércio com o exterior, sendo que a queda das importações foi maior que a queda dasexportações. No acumulado até o terceiro trimestre de 2012, a contribuição das exportações líquidas é nula.

Os componentes analisados até o momento acabaram sendo neutralizados pelo comportamento descendente da Formação Bruta de Capital Fixo, que, no acumulado do ano, contribuiu negativamente com 0,7 p.p. para o crescimento do PIB. O resultado inspira preocupações, mas também aponta os rumos para a correção no ano que se inicia. Algumas medidas nesse sentido já foram iniciadas. Devido ao mau resultado das Contas Nacionais, o Governo providenciou uma série de pacotes para incentivar o investimento no País: PAC 2, continuação do Programa Minha Casa Minha Vida, ‘PAC Logística’, aprofundamento do Programa de Sustentação do Investimento e redução da Taxa de Juros de Longo Prazo. O difícil, até o momento, tem sido instigar o setor privado a acompanhar o movimento do Governo, algo que tem sido buscado através de desonerações fiscais e, principalmente, da redução da taxa Selic, juntamente com uma pressão para a redução do spread bancário, o que reduziria o custo financeiro dos investimentos.

O fato é que essas medidas ainda não surtiram efeito, seja pelo tempo natural que exigem para ser maturadas, seja pela dificuldade do Governo em tocar seus projetos, ou pela perspectiva de que o consumo das famílias tenha chegado ao seu limite, representado pelo endividamento aliado ao crescimento da inadimplência. Não resta dúvida, no entanto, que o desempenho econômico no ano de 2013 dependerá da reação das empresas aos novos incentivos, uma vez que o Governo não poderá arcar sozinho com os investimentos necessários para a retomada do crescimento em um ritmo mais elevado.

Recuperação adiada para 2013

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Desaceleração da demanda doméstica

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Edição: Ano 21 nº 07 - 2012

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Os dados sobre o crescimento econômico demonstram que, no período 2000-10, a economia brasileira apresentou desempenho superior ao das décadas de 80 e 90. Os dados disponibilizados recentemente (referentes ao primeiro trimestre de 2012) reforçam, entretanto, as dúvidas sobre a possibilidade de se retomar um ciclo de crescimento com intensidade e duração semelhantes aos registrados antes dos eventos mais críticos da crise financeira internacional de 2008. Nas linhas que se seguem, analisa-se o crescimento da oferta agregada (PIB mais importações) nos últimos 10 anos, assumindo-se que este seja determinado pelo crescimento dos componentes da demanda agregada (doméstica mais exportações).

A taxa média de crescimento do PIB no período 2002-11 foi de 3,8%. Em termos acumulados, a oferta agregada cresceu 56% nesse mesmo período. A contribuição do PIB para esse crescimento foi de 39,3%, e a contribuição das importações foi de 16,7%. Pelo lado da demanda agregada, observa-se que a contribuição da demanda doméstica (47,7%) foi muito superior à contribuição das exportações (8,3%). Esses dados confirmam, portanto, a ideia corrente de que o crescimento da economia brasileira é liderado pelo mercado interno.

Esse padrão não é, entretanto, homogêneo ao longo de todo o período. Considerando-se apenas os dois primeiros anos (2002 e 2003), o dinamismo das exportações contribuiu mais intensamente para o crescimento da demanda agregada. Tal constatação levou alguns analistas a sugerirem que a economia brasileira teria “ensaiado” um crescimento liderado pelas exportações, posteriormente interrompido pelo processo de valorização cambial e cedendo lugar a um regime de crescimento liderado pelo mercado interno. A contribuição negativa da demanda doméstica para o crescimento da demanda agregada e o baixo crescimento do PIB no período sugerem, entretanto, que as exportações apenas compensaram uma demanda doméstica fortemente deprimida.

A análise do subperíodo seguinte (2004-08) mostra como foi decisivo o papel do mercado doméstico. Nesses cinco anos, a taxa de crescimento do PIB acelerou-se para uma média de 4,8% ao ano, e a demanda agregada cresceu 34,6% em termos acumulados. A contribuição das exportações para esse crescimento (5,5%) foi muito inferior à contribuição da demanda doméstica (29%). Observando-se os dados com periodicidade trimestral, percebe-se uma contribuição constante do consumo privado e uma contribuição crescente da formação bruta de capital fixo para o crescimento da demanda doméstica no período. Tal padrão sugere que a progressiva aceleração do crescimento induziu à ampliação da capacidade produtiva. Por fim, mas não menos importante, observa-se, no período 2004-08, uma significativa e crescente contribuição das importações para o crescimento da oferta agregada. A grande semelhança entre o comportamento da contribuição das importações para o crescimento da oferta agregada e a contribuição da formação bruta de capital fixo para o crescimento da demanda agregada indica que o conteúdo importado dos investimentos foi extremamente elevado na economia brasileira, nesse período.

Os efeitos da crise internacional do final de 2008 foram registrados em 2009. Nesse ano, houve retração do PIB de 0,3% e retração de 1,2% na oferta agregada e na demanda agregada. Do lado da demanda, as contribuições negativas das exportações (-1,1%) e da formação bruta de capital fixo (-1,1%) tiveram seus efeitos recessivos atenuados pela contribuição positiva do consumo privado (2,3%) e do consumo da administração pública (0,6%). Esses dados sugerem um resultado positivo das medidas anticíclicas de política econômica adotadas ao longo daquele ano, evitando-se uma queda mais intensa da atividade econômica.

Considerando-se os anos mais recentes, observou-se, em 2010, uma expressiva recuperação, com crescimento do PIB de 7,5%, seguida de nova desaceleração em 2011, ano em que o PIB cresceu apenas 2,7%. Novamente, as exportações contribuíram com uma parcela muito pequena para o crescimento da demanda agregada, e a desaceleração do último ano deriva, fundamentalmente, da menor taxa de crescimento do mercado doméstico em 2011 na comparação com 2010.

Nesse quadro, a orientação recente da política monetária, que parece buscar uma redução do diferencial de juros, poderá contribuir para a manutenção de uma taxa de câmbio mais competitiva e, por essa via, conter a perda de competitividade das exportações brasileiras. Caso prevaleça, entretanto, a concepção de que a redução da taxa básica de juros está condicionada à manutenção de uma política fiscal mais “austera”, então a política econômica estaria encaminhando a solução de um problema ao mesmo tempo em que cria outro. Ainda que o crescimento das exportações seja central do ponto de vista da sustentabilidade das condições externas (ver Carta de Conjuntura FEE, ano 20, n. 10), os dados aqui apresentados sugerem que, dificilmente, isso será suficiente para retomar o crescimento. Para tanto, será necessário retomar o crescimento da demanda doméstica e, nas atuais circunstâncias, isso parece depender, sobretudo, de uma orientação mais expansionista da política fiscal.

Desaceleração da demanda doméstica

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Economia gaúcha volta a se acelerar no final do ano

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Edição: Ano 21 nº 04 - 2012

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Embora a taxa de crescimento da economia do Rio Grande do Sul (5,7%) tenha sido superior à do Brasil (2,7%) em 2011, ambas apresentaram trajetórias muito semelhantes. Após um início muito promissor no primeiro trimestre, seguiu-se uma desaceleração nos dois seguintes, somente revertida ao final do ano, quando as duas economias voltaram a se acelerar. No caso do Estado, os dados do Índice Trimestral de Atividade Produtiva (ITAP) mostram uma expansão, livre das influências sazonais, de 3,2% no primeiro trimestre de 2011, contra o último de 2010.

A preocupação com a inflação resultou numa política econômica que elevou as taxas de juros e restringiu o crédito durante o primeiro semestre. Além disso, a taxa de câmbio valorizada e a diminuição da demanda da Europa pelas exportações nacionais desestimularam a expansão da indústria de transformação. O resultado foi o desaquecimento tanto da economia brasileira quanto da gaúcha nos meses seguintes. No caso do Rio Grande do Sul, o ITAP cresceu 0,2% no segundo trimestre e caiu 0,1% no terceiro, sempre na comparação com o trimestre imediatamente anterior.

A intensidade da desaceleração, no entanto, foi maior que a esperada pelo Banco Central, que, para reverter o quadro, começou a baixar os juros no início do segundo semestre. O estímulo foi sentido somente no último trimestre do ano, quando a economia voltou a se acelerar, tendo o ITAP se elevado em 1,2% no período.

Economia gaúcha volta a se acelerar no final do ano

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