Textos com assunto: comércio

Crise na indústria automobilística: saída via exportações?

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Edição: Ano 25 nº 01 – 2016

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Após o robusto crescimento de 2003 a 2012, desde set./13 o setor automotivo brasileiro tem apresentado queda, podendo qualificar-se o período como de crise. Considerando-se jan.-nov., frente a igual período do ano anterior, as vendas de autoveículos reduziram-se 0,8% em 2013, 8,4% em 2014 e 25,2% em 2015 (Anfavea). Entre os fatores que explicam a queda, estão a crise política, a desaceleração da economia, o aumento do desemprego, as restrições ao crédito e a elevação nos preços dos autoveículos. Em paralelo, as exportações caíram de set./13 a nov./15, retraindo-se 38,3% em quantidade e 44,7% em valor (MDIC). Esse desempenho teve influência da Argentina, que respondeu por cerca de 70% das exportações brasileiras na média de 2011 a 2014. Soma-se, ainda, o baixo dinamismo do comércio internacional na América Latina desde 2009 (CEPAL). Devido aos quadros interno e externo, o acúmulo de estoques de auto-veículos levou os segmentos do setor automotivo a promover ajustes nos níveis de produção e de emprego. Com isso, o índice de produção com ajuste sazonal do setor automotivo encolheu 50% de set./13 a out./15 (IBGE), enquanto o emprego formal foi reduzido em 107.967 postos (Caged) no período, além de terem sido adotadas outras medidas de adaptação, como lay-offs, férias coletivas, etc.

Em face à desaceleração da economia brasileira, foi lançado, em jun./15, o Plano Nacional de Exportações (PNE), objetivando a retomada do crescimento econômico e maiores agregação de valor, intensidade tecnológica e diversificação da pauta de exportações. Nesse contexto, o setor automotivo é um dos alvos preferenciais do PNE. Para ampliar as exportações de autoveículos, o Governo Federal renovou os Acordos Comerciais de Complementaridade Econômica existentes com Argentina, México, Uruguai e Colômbia, e está negociando com o Paraguai. Nessa direção, as montadoras estão pleiteando a abertura de negociações com o Peru e o Equador, que possuem potencial de crescimento da demanda por autoveículos (tabela).

Para avaliar o efeito potencial do PNE sobre a indústria automobilística, é necessário entender sua organização internacional. Desde os anos 90, com a crescente saturação do mercado e a demanda mais fragmentada nos países avançados, acirra-se a competição entre as montadoras, levando à aceleração no ritmo de desenvolvimento tecnológico dos autoveículos. Para sustentar o maior esforço tecnológico, estabelece-se como paradigma tecnológico a produção enxuta modular, consistindo em um amplo conjunto de mudanças.  Dentre elas, para elevar as vendas, as montadoras fizeram um movimento agressivo de inserção nos principais blocos econômicos, que passaram a se constituir nos anos 90, e nos maiores países emergentes, os BRICS. Assim, o Brasil foi escolhido como base de produção para atender a demanda do Mercosul e da América do Sul, bem como de outras nações emergentes em patamar similar na América Latina e na África. Assim, o País deteve 79,3% da produção do continente sul-americano em 2012, e a Argentina, 17,8% (OICA). Logo, as possibilidades de exportação de autoveículos e autopeças do Brasil tendem a serem direcionadas para essas regiões.

Assim, o esforço do PNE está correto ao buscar estabelecer acordos comerciais com os países da América do Sul com maior potencial para o crescimento de sua demanda por autoveículos. Inclusive, isso será importante no longo prazo, para consolidar ainda mais a posição do Brasil como plataforma de produção regional, dada a concorrência com aquelas oriundas da China e da Índia. Contudo, ainda que o efeito positivo dos acordos comerciais estabelecidos e da desvalorização cambial sobre as exportações possam contribuir para a recuperação do dinamismo do setor automotivo, no curto prazo o resultado tende a ser limitado para tirá-lo da crise. Isso porque, de 2011 a 2013, o volume de vendas de auto-veículos oscilou em torno de 85% para o mercado nacional e 15% para exportações (Anfavea). Além disso, os estoques de produtos prontos ainda estão elevados, o que dificulta a retomada da produção. Ademais, a projeção para o desempenho da América do Sul em 2016 é de baixo crescimento econômico, sobretudo nos principais mercados. Logo, a saída da crise no setor automotivo tende a passar mais pela retomada do crescimento do mercado nacional, mediante estabilização política e ajuste fiscal, seguido de retomada das políticas de desenvolvimento econômico e social.

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Petrobras: uma empresa estratégica para a economia brasileira

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Edição: Ano 24 nº 05 - 2015

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A operação Lava Jato, que atingiu vários partidos políticos e importantes empresas nacionais, gerou muitas preocupações quanto aos resultados relativos a 2014. Segundo o relatório da Petrobras, a empresa sofreu um prejuízo de R$ 21,6 bilhões no ano de 2014; desse montante, R$ 6,2 bilhões deveram-se aos desvios de recursos. Cabe agregar o provisionamento de perdas com recebíveis do setor elétrico, as baixas relacionadas à construção das refinarias Premium I e II e o provisionamento do Programa de Incentivo ao Desligamento Voluntário. Porém o fator determinante do prejuízo foi a queda do preço internacional do petróleo, entre 2012 e 2014, devido à desaceleração das economias europeia e chinesa e à resistência da Arábia Saudita em reduzir seu volume de produção. Essa situação foi agravada pela manutenção das tarifas dos combustíveis, no período pré-eleitoral.

Isso posto, faz-se necessário enfatizar que a Petrobras se constitui em um dos principais trunfos que o Governo possui para a elaboração e a execução de uma política industrial de crescimento e inovação. Essa empresa, uma das maiores do mundo no domínio de prospecção e extração de petróleo, registrou, em 2014, mais de 90.000 empregos diretos e 300.000 indiretos, tendo respondido por mais de 10% do total de investimentos feitos no País. A Petrobras situa-se no centro do complexo petroquímico brasileiro, formado pelas unidades de primeira geração (insumos básicos) e de segunda geração (resinas termoplásticas). A terceira geração — indústrias de plásticos, farmacêutica, dentre outras, que utilizam os insumos petroquímicos — é fornecedora dos produtores de embalagens, construção civil, elétrico e eletrônico, dentre outros.  A atual rede de fornecedores da Petrobras é constituída por 20.000 empresas, sendo que esse número deve aumentar em 2015, com uma previsão de investimentos de US$ 224 bilhões (Plano de Negócios). No primeiro trimestre de 2015, a produção da Petrobras posicionou-a como a maior petrolífera de capital aberto do mundo.

Do ponto de vista tecnológico, a empresa é historicamente a principal investidora em pesquisa entre as empresas brasileiras e possui uma política de priorização de fornecedores nacionais, que recebem seu apoio para se adequarem às suas exigências de excelência tecnológica e produtiva. A partir da descoberta das reservas do Pré-Sal, em 2006, vem desenvolvendo pesquisas que a posicionam como líder mundial na tecnologia de extração de petróleo em águas profundas. Esse fato induziu a um novo sistema de partilha (Lei 12.351/2010), que estabelece o Governo brasileiro como principal proprietário do petróleo extraído e não mais a empresa que executa a extração.

Por essas razões, a Petrobras atrai o interesse dos grandes grupos internacionais, sendo preocupante que os desvios de recursos tenham aberto brechas para as tentativas de introdução de mudanças no sistema de partilha. De fato, já tramitam no Congresso propostas de alteração desse sistema. Assim, é preciso refletir além da operação Lava Jato, uma vez que a perspectiva de desnacionalização dessa empresa envolve muitos riscos: a perda de poder do Estado no uso dos recursos da exploração do petróleo, a redução de seu efeito multiplicador sobre a economia brasileira e o desperdício do patrimônio tecnológico construído na sua trajetória histórica.

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Origem dos insumos e destino das vendas da indústria gaúcha em 2008

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Edição: Ano 22 nº 10 - 2013

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No próximo ano, a Fundação de Economia e Estatística divulgará a Matriz de Insumo-Produto de 2008 do Rio Grande do Sul. Esse trabalho dará continuidade às outras duas matrizes do Estado já feitas — 1998 e 2003. A escolha pelo ano de 2008 deu-se em função de este respeitar dois requisitos: ajuste das contas regionais do RS às nacionais e pelo fato de ser um ano sem a incidência de crises que pudessem alterar substancialmente as interpretações econômicas do período. Contudo, nesses estudos busca-se analisar resultados estruturais, que não se alteram tanto de um ano para o outro.

Mesmo antes da divulgação final, algumas informações preliminares da Matriz podem ser utilizadas, com parcimônia, para o entendimento da economia gaúcha. Dentre elas, este texto tratará de duas: a origem dos insumos da indústria e o destino dos seus produtos, classificando-os entre Rio Grande do Sul, resto do Brasil e resto do mundo.

Setores que demandam uma proporção maior de insumos gaúchos impulsionam mais os outros setores do RS, quando deparados com um aumento da demanda por seus produtos, já que uma parcela maior da sua demanda por insumos ficará no Estado. Já setores que vendem mais para o resto do Brasil e do mundo estão menos suscetíveis a crises internas à economia do Estado.

Em 2008, 59% dos insumos utilizados pela indústria de transformação gaúcha foram originários do próprio RS; 24% vieram do resto do Brasil, e 17% vieram do resto do mundo.

A atividade que mais consumiu proporcionalmente insumos internos é a “fabricação de resinas e elastômeros” (86%). Essa atividade é chamada de segunda geração do polo petroquímico gaúcho, tendo como insumos principais produtos do próprio polo.

As outras atividades que apresentaram um alto grau de consumo de insumos internos foram “produtos do fumo”, “artefatos de couro e calçados” e “alimentos e bebidas”, todos eles consumindo mais do que 79% de insumos internos. Essas atividades são marcadas por terem como insumo principal produtos da agropecuária gaúcha, o que explica este fato.

Entre as atividades representativas da economia gaúcha que tiveram uma proporção menor de insumos regionais estão “fabricação de aços e derivados” e “refino de petróleo e gás, álcool e produtos químicos”. O primeiro é explicado por sua matéria-prima principal ser o aço vindo das siderúrgicas do resto do País. Já o resultado do segundo é fortemente impactado pelo refino de petróleo. Como o Estado não extrai petróleo, todo esse insumo é importado. Além disso, essa atividade é a que mais importa insumos do resto do mundo (41%). Segundos dados da Agência Nacional do Petróleo, em 2008 a Refinaria Alberto Pasqualini (Refap) foi, dentre todas do País, a que processou a maior quantidade de petróleo importado do exterior, o que representou 64% do seu volume processado.

Já os destinos das vendas dos setores da transformação gaúcha apresentaram-se mais heterogêneos. Em 2008, 49% das vendas da transformação tiveram como destino o RS; 37%, o resto do Brasil; e 13%, o resto do mundo.

Dentre os setores que tiveram uma maior parcela das vendas direcionada para o mercado gaúcho, destaca-se o setor de “refino de petróleo e gás, álcool e produtos químicos”, com 79% das vendas para o RS. A razão principal desse índice é a Refap, que atende primariamente o próprio mercado do gaúcho. Dentre os maiores setores, outro que se destacou pela grande participação do RS nas suas vendas é o de “fabricação de aços e derivados”, que tem como principal função suprir a indústria metal-mecânica do RS, além da construção civil.

Na outra ponta, o setor que teve o menor percentual de vendas internas foi o de “outros equipamentos de transporte”, com 2% sendo vendidos para o RS, e 92%, para o resto do mundo. Esse setor é marcado pelo polo naval do Município de Rio Grande, onde a produção de plataformas de petróleo é exportada para o resto do mundo. Outro setor pouco dependente do mercado gaúcho foi o de “automóveis, caminhonetes, caminhões, ônibus e peças”, que vendeu, em 2008, 20% para o RS, 69% para o resto do Brasil e 11% para o resto do mundo. Esse é um resultado esperado, dadas as estratégias nacionais das montadoras de automóveis, que usam cada estado para fabricar um determinado modelo para vendê-lo no País inteiro. Outros setores representativos que se destacam com uma menor dependência do mercado gaúcho são “fabricação de resinas e elastômeros” (20%), “máquinas e equipamentos, inclusive manutenção e reparos” (27%) e “produtos do fumo”. Este último teve 40% de suas vendas direcionadas para o mercado gaúcho, e 43%, para o resto do mundo.

Origem dos insumos e destino das vendas da indústria gaúcha em 2008

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Trigo: apoio à comercialização

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Edição: Ano 19 nº 12 - 2010

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Encontram-se colhidos 63% da área da lavoura de trigo, relativa às safras de 2010 e 2011 no Rio Grande do Sul, segundo indica a Emater-RS no Informativo Conjuntural n. 1.110, de 11.11.10. Confirmando as expectativas no início do plantio, a área plantada com esse cereal foi reduzida em 8,1%, repetindo o comportamento da safra anterior, na qual já ocorrera uma redução de 6,7%; essa condição verificou-se também nos demais estados que cultivam o cereal no Brasil. A produção gaúcha, na atual safra, está estimada em 1.801,7 mil toneladas, sendo pouco menor (-0,2%) do que a obtida no ano anterior; a manutenção dos mesmos níveis de produção da safra anterior deve-se, principalmente, ao incremento no rendimento médio, no qual são esperados 2.280 kg/ha.

O preço de comercialização, na semana a que se refere o Informativo, é de R$ 21,92 para a saca de 60kg, o que significa uma diferença de 12,91% para menos em relação à média dos últimos anos, e a entrada da safra atual no mercado não contribui para a valorização do mesmo.

Persistem os problemas na comercialização, com preços internos baixos, estoques elevados e volumes expressivos de importações em outubro, no País. O Governo Federal sinalizou com a liberação de R$ 300 milhões, para apoiar a comercialização, tendo sido publicada a Portaria Interministerial MAPA/MF/ /MP nº 1.070, de 8 de novembro de 2010, que estabelece parâmetros para a concessão de subvenção econômica, na forma de equalização dos preços, por meio de leilões públicos.

Trigo apoio à comercialização

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