Textos com assunto: ciclos econômicos

Inflação, juros e desindustrialização

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Edição: Ano 26 nº 7 – 2017

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Na década de 80 e no início da de 90, as mais distintas escolas de Economia mantinham um diálogo rico sobre os determinantes da nossa hiperinflação, diferenciando sua inércia dos seus componentes de aceleração. O Plano Real foi concebido nessa interlocução. Hoje, por oposição, a efetividade e a produtividade do debate econômico são mínimas. De um lado, os ortodoxos pretendem que a determinação nuclear do fraco dinamismo da economia nacional se encontre na irresponsabilidade fiscal. Do lado diametralmente oposto, a heterodoxia pretende que a elevação dos dispêndios e investimentos públicos seja condição necessária e suficiente para voltarmos a crescer de forma sustentável. A oposição entre as correntes parece ser absoluta, mas a identidade dialética dos contrários revela-se no fato de ambas reduzirem nossos problemas a equívocos na condução da política econômica. Equívocos que os gestores incorreriam por não terem lido os manuais corretos.

Na contramão desse não debate, alguns economistas vêm buscando entender os determinantes estruturais da perda de dinamismo da economia nacional. O que fica cada vez mais claro é que a crise reflete o processo de desindustrialização inaugurado com o padrão monetário-cambial de controle da inflação adotado em 1994 com o Plano Real. O Plano Real mostrou-se viável em função da emergência da China como motor industrial do mundo, no início da década de 90. Altamente dependente de matérias-primas agrícolas e minerais, a China recolocou o Brasil no circuito financeiro internacional. Os superávits comerciais que nosso país passou a obter no comércio mundial geraram as reservas necessárias ao enfrentamento da componente inercial-expectacional da inflação via estabilização da taxa de câmbio entre a moeda de circulação interna e o dólar (que se tornou a verdadeira unidade de conta e base de todos os preços no Brasil).

Mas se o Plano Real controlou a inércia, ele não enfrentou a componente aceleracionista da inflação. O que ficou evidente já no segundo semestre de 1994: a despeito da estabilidade cambial, a inflação foi de 18,75% no período. Para frear a inflação, exorbitaram do remédio, elevando a taxa de juros interna a níveis usurários para atrair capitais especulativos. O resultado foi a sobrevalorização crônica do real e,  por extensão, um choque competitivo sobre a indústria de transformação (IT).

Por que apenas sobre a IT? Porque esse é o único setor “duplamente tradable”. Explicamo-nos: quando o dólar fica mais barato, caem os preços de todos os tradables (bens e serviços importáveis e exportáveis) em moeda nacional, ampliando o salário real e a demanda sobre todos os setores, inclusive sobre os não tradables. Ora, os bens e serviços não tradables (comércio, educação, construção civil, etc.) são intensivos em trabalho, de sorte que o aumento persistente da demanda se desdobra em elevação do salário nominal e dos custos de produção. A ampliação simultânea da demanda e dos custos nos setores não submetidos à concorrência externa resulta em aceleração inflacionária nos não tradables, que é controlada com nova elevação de juros, valorização do real e depressão da margem de lucro nos tradables. O desdobramento é uma pesada assimetria das taxas de inflação setoriais: entre julho de 1994 e dezembro de 2016, a inflação acumulada em tradables foi de 292%, a metade da inflação em não tradables (572%) e em monitorados pelo Governo (696%), de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Banco Central (Bacen).

Mas se a pressão competitiva incide sobre todos os tradables, os desdobramentos são distintos. A agropecuária e a mineração são intensivas em recursos naturais “inamovíveis”. Seus produtos são tradables, mas sua produção não é. E a demanda chinesa emprestou dinamismo e sustentou seus preços em dólares. Já a IT assenta-se quase que exclusivamente em recursos não naturais: tecnologia, qualificação da mão de obra, escala, capital social, impostos e serviços públicos, etc. E, ao longo do Real, a China contribuiu com uma forte pressão de oferta no segmento. Ora, o Brasil é riquíssimo em recursos naturais, mas seus recursos artificiais são de qualidade mediana ou inferior. Com a crescente valorização real da moeda nacional, a aquisição e/ou produção de insumos e bens industriais no exterior tornou-se cada vez mais rentável, estimulando a ampliação das importações e a extroversão do capital nacional, e o resultado expressa-se na tabela abaixo. Para não nos iludirmos com anos atípicos, tomamos médias trienais. A taxa de crescimento real (em volume) do Valor Adicionado Bruto (VAB) entre 1995-97 e 2014-16 foi 62,96%, mas a IT cresceu apenas 17,43%, contra 95,44% da agropecuária e 70,81% no total dos serviços. Todavia, é a Intermediação Financeira (IF) a grande beneficiada pela política anti-inflacionária do Real: em termos reais, a IF cresceu 108,53% no período. Finalmente, as duas últimas linhas apresentam o crescimento da participação dos importados no consumo intermediário. A despeito de parecer discreto (três pontos percentuais no VAB), o impacto da ampliação da propensão a importar é muito elevado sobre a IT. A abertura comercial incide quase que exclusivamente sobre esta última e não sobre a agropecuária e extrativa (onde somos altamente competitivos) ou sobre os serviços (por natureza, não importáveis). Aqui, parece encontrar-se o cerne da nossa desindustrialização e, por extensão, da perda “lenta, gradual e segura” de dinamismo da economia nacional nos últimos anos.

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Decomposição da mudança da taxa de desocupação no RS

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Edição: Ano 26 nº 7 – 2017

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Após 11 resultados negativos consecutivos da taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) gaúcho, o primeiro trimestre de 2017 foi o primeiro a não apresentar queda, amargurando, contudo, um crescimento nulo. Nesse contexto, a taxa de desocupação do Rio Grande do Sul saltou de 5,4%  no primeiro trimestre de 2014 para 9,1% no mesmo trimestre de 2017, de
acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Flutuações na taxa de desocupação podem ser causadas por mudanças na probabilidade de um ocupado perder a ocupação, de um desocupado encontrar uma ocupação ou de indivíduos saírem e entrarem na força de trabalho — a População Econômica Ativa (PEA). Hall (2005) e Shimer (2007) apresentam uma metodologia que permite utilizar dados longitudinais do mercado de trabalho para decompor variações na taxa de desocupação em dois grupos: inflows (ins) e outflows (outs). Ins representam a probabilidade de um indivíduo ocupado transitar da ocupação para a desocupação, enquanto os outs representam a probabilidade de um indivíduo desocupado flutuar da desocupação para a ocupação. A partir dessas probabilidades, os autores conseguem estimar taxas de desocupação contrafactuais, que simulam como seria a taxa de desocupação se um dos componentes se tivesse mantido constante e o outro tivesse variado. Com essas taxas de desocupação contrafactuais, é possível determinar quais dos componentes foi o mais relevante para a variação da desocupação verificada de fato.

Com o intuito de replicar o exercício para o Rio Grande do Sul, considera-se um modelo onde o indivíduo pode assumir três estados: ocupado, desocupado e fora da PEA. Nesse arcabouço, existem seis probabilidades de transição: (a) da desocupação para a ocupação; (b) da desocupação para fora da PEA; (c) da ocupação para a desocupação; (d) da ocupação para fora da
PEA; (e) de fora da PEA para a desocupação; e (f) de fora da PEA para a ocupação. Os dados utilizados foram obtidos a partir da PNAD contínua de 2012 até o último trimestre de 2016. A PNAD contínua, por se tratar de um painel rotativo, permite observar os domicílios por até cinco trimestres consecutivos.  Os indivíduos dentro dos domicílios foram identificados nos trimestres,
pela variável sexo e idade. A amostra considerada engloba a população de 15 a 70 anos de idade no RS, dividida em três subamostras: mulheres, homens e população total.

Uma vez estimadas as seis taxas de desocupação contrafactuais, estima-se quanto de sua variação está correlacionada com a taxa de desocupação real. Isso é feito dividindo-se a covariância de cada taxa contrafactual e a taxa de desocupação real pela variância da taxa contrafactual. Tal medida informa quais taxas contrafactuais apresentam um caráter cíclico e quais têm características acíclicas. Os coeficientes são apresentados na tabela abaixo, em valor absoluto e termos percentuais.

De acordo com a decomposição, o principal fator que explica o aumento da taxa de desocupação no Rio Grande do Sul entre o primeiro trimestre de 2012 e o mesmo período de 2017 é a taxa de separação (rompimento dos contratos de trabalho), responsável por 36,6% do avanço total. Isso porque a chance de um indivíduo perder ocupação no trimestre seguinte e virar desocupado avançou de 0,7% para 1,20% no período considerado.

O segundo componente mais representativo na explicação do movimento da taxa de desocupação foi a transição “de fora da PEA para a desocupação”, com 32,4%. A probabilidade de essa transição ocorrer de um trimestre para o outro era  relativamente estável até o último trimestre de 2014. A partir de então, a probabilidade passou de 1,4% no último trimestre de 2014 para 2,6% no segundo trimestre de 2016.
Intuitivamente, parece natural que a taxa de separação fosse a maior responsável pelo aumento da desocupação. Durante uma recessão, é esperado que as demissões aumentem. Surpreendente é que, em segundo lugar, esteja o componente associado à entrada das pessoas não economicamente ativas para a situação de desocupação.

Parte do fenômeno pode ser explicado, na medida em que, por exemplo, chefes de família perdem a ocupação, e outros membros que estavam fora da força de trabalho precisam, agora, ofertar sua mão de obra no mercado. De fato, a explicação parece plausível quando se observam as contribuições de cada componente para homens e para mulheres. O fator que mais contribuiu para a flutuação da desocupação dos homens foi a taxa de separação. O mesmo, no entanto, não pode ser dito para as mulheres. Para elas, o maior fator na variação da desocupação é a dinâmica “de fora da PEA para a desocupação”, com 32,6%. Tal diferença é um indício de que a crise pode ter mudado a alocação intrafamiliar da força de trabalho. No entanto, trata-se apenas de um indício, uma vez que as causas para tal fenômeno continuam elusivas e, por isso, exigem uma  investigação mais profunda.

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