Textos com assunto: capital

Das marolas ao tsunami

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Edição: Ano 17 nº 12 - 2008

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O exuberante crescimento dos mercados financeiros, espraiado mundo afora desde o começo dos anos 90, terminou exatamente como esperado, num crash de desvalorizações. Iniciada no pólo mais avançado desse processo, o mercado de títulos imobiliários dos EUA, a desinflação de ativos financeiros muito rapidamente veio contaminando todos os demais mercados de crédito, numa onda ainda não terminada. Seus efeitos sobre o setor produtivo já se fazem sentir e, dependendo da capacidade de os governos envolvidos coordenarem respostas eficazes e a tempo, podem adquirir as sinistras proporções da Grande Depressão de 1929. O que chegou a ser designado como uma marola adquiriu a terrível forma de um tsunami, cujas conseqüências devastadoras recém começam a ser percebidas.

Tudo teve início no começo dos anos 80, quando os Governos britânico e norte-americano adotaram políticas de desregulação e liberalização das suas praças financeiras. Além das convicções ideológicas, logo apelidadas de neoliberais, e dos interesses econômicos que visavam beneficiar, essas iniciativas receberam elogios de boa parte dos economistas de suas mais respeitadas instituições universitárias. A expectativa era de que a “desrepressão” financeira, com a retirada dos controles estabelecidos pelo acordo de Bretton Woods, inauguraria uma fase longa de prosperidade, garantida pelo livre funcionamento dos mercados financeiros “eficientes”. Nessa mesma época, tanto o keynesiano Minsky como os regulacionistas Aglietta e Orléan criticavam a teoria econômica convencional exatamente no seu pressuposto de uma tendência ao equilíbrio do mercado financeiro. Sua audiência foi exígua até há uns meses atrás

O centro de sua crítica apontava para o equívoco da visão que então predominava. Os resultados mais certos do funcionamento do mercado financeiro são justamente as bolhas de inflação de preços e suas decorrentes crises de desvalorização abrupta. Se, nos mercados de, por exemplo, automóveis, os excessos de produção são recorrentes e visíveis na forma de pátios lotados de carros zero-quilômetro, também podem, na maior parte das vezes, ser corrigidos pelas próprias empresas, com uma reprogramação de suas metas de produção. No mercado financeiro, entretanto, não é possível nenhum tipo de planejamento. Todas as decisões relevantes são tomadas no curto prazo, levando-se em consideração unicamente o que os outros estão fazendo. Só esse padrão de comportamento imitativo pode julgar razoável que um banco de investimento multiplique 30 vezes seus depósitos iniciais para financiar a compra de títulos que todos estão comprando sob a convicção absurda de que o movimento de valorização não só nunca vai parar como renderá ganhos sempre crescentes

Nesse processo, a pirâmide de papéis de capital fictício cresce a um ritmo vertiginosamente superior ao do capital real, os ativos produtivos. Sua natureza, entretanto, permanece. Esses títulos representam unicamente um direito sobre a renda gerada pelo trabalho comandado pelo capital produtivo. A trajetória de valorização é sempre interrompida quando algum episódio, muitas vezes dos mais corriqueiros, demonstra o tamanho da distância entre os direitos assim multiplicados e a possibilidade de a economia real realizá-los.

Foi justamente essa aposta no irrealizável que causou a presente crise. Desde meados dos anos 90, na medida em que esses movimentos altistas de preços de papéis portadores de alguma forma de renda financeira atingiram proporções muito elevadas, bolhas de inflação de ativos e colapsos de deflação vêm ocorrendo. As sucessivas crises em mercados periféricos da América Latina, da Ásia e da Europa Oriental foram minimizadas pelos economistas defensores da tese dos mercados eficientes e creditadas a equívocos da política econômica ou à falta de “bons fundamentos” nesses países. A receita terapêutica foi sempre a mesma: faltava dar mais liberdade aos agentes financeiros, já que acreditavam ser a causa desses colapsos não a especulação, mas, sim, a persistência de práticas e regras que a pudessem coibir.

Em 2001, pela primeira vez, um cataclismo instalou-se no centro do sistema, o estouro da bolha da “nova economia” em Nova Iorque. À época, algumas vozes bem situadas em Wall Street e na academia falavam de uma certa “exuberância irracional” nesses mercados. Como a valorização fictícia foi retomada, o assunto foi logo esquecido. Isso até meados do ano passado, quando o ciclo de mais de uma década de inflação de preços de imóveis e de endividamento das famílias norte-americanas se encerrou. O ano e pouco que se sucedeu foi o tempo necessário para os contratos de dívidas que alavancavam as ousadas operações especulativas começarem a vencer sem poderem ser honrados. Sucederam-se as falências, por enquanto poucas, e as operações salvadoras dos Estados, muitas e bilionárias, intervindo, nacionalizando e recomprando créditos “envenenados”.

Os últimos 30 anos viram desenvolver-se e dominar-se a economia mundial um regime de acumulação dominado pelas finanças. Como em outros momentos similares na história, foi a fase precursora de uma grande crise. Não apenas porque o mundo do trabalho encontrou uma crescente dificuldade em suportar o peso do rentismo improdutivo, mas também porque a lógica desse regime de valorização interminável é contraditória com os limites da vida material. Aristóteles já dizia que o infinito não pertence ao mundo natural, lição que banqueiros e especuladores estão a aprender, sufocados por seus prejuízos bilionários.

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Política industrial: divergências com a política macroeconômica?

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Edição: Ano 17 nº 08 - 2008

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No mês de maio, foi lançada a Política de Desenvolvimento Produtivo, onde se insere a nova política industrial. Esse conjunto de medidas define como principais metas para 2010 os pontos que seguem: ampliação do investimento produtivo, medido pela participação da formação bruta de capital fixo (FBCF) sobre o PIB, de 18,29% para 21% e crescimento do investimento privado em pesquisa e desenvolvimento para 0,65% do PIB (atualmente em 0,5%) e da participação das exportações brasileiras no comércio mundial de 1,18% para 1,25%.

As ações propostas fundamentam-se na renúncia fiscal de R$ 21,4 bilhões até 2011, na redução do prazo para devolução dos tributos recolhidos na compra de bens de capital, no aumento da dotação orçamentária do Proex para R$ 150 milhões e na ampliação do limite de faturamento anual das empresas habilitadas a captar recursos. O BNDES deve disponibilizar R$ 210,4 bilhões para projetos de ampliação, modernização e inovação, com custos reduzidos e prazos ampliados para a compra de bens de capital e linhas especiais de crédito para comercialização doméstica de insumos, matérias-primas e componentes de informática.

Dentre as áreas e os setores priorizados, destacam-se saúde, tecnologias de informação e comunicação, complexo industrial de defesa, nanotecnologia e biotecnologia, complexo aeronáutico, petróleo, gás e petroquímica, bioetanol, mineração, siderurgia, celulose e papel e carnes. Também as indústrias de calçados e couro, têxtil e confecções, madeira e móveis foram contempladas com o alargamento do prazo de financiamento.

Com essas propostas, o Governo brasileiro tenta superar importantes fragilidades da economia brasileira, como a estagnação do investimento tecnológico e a ampliação do déficit comercial, sem alterar a política macroeconômica. Entretanto a manutenção dos juros altos e do câmbio valorizado, bem como a crescente “commoditização” dos bens produzidos, é um limite de difícil transposição, pois torna a economia vulnerável às freqüentes oscilações internacionais e esteriliza as ações de políticas públicas.

No caso da indústria gaúcha, medidas que visem contrabalançar os efeitos nefastos da sobrevalorização cambial são bem-vindas, principalmente para a indústria calçadista, cuja produção continuava em queda no mês de maio. Também o apoio à indústria de bens de capital e de softwares, áreas em que o Estado se destaca nacionalmente, poderia apresentar efeitos favoráveis à dinamização da indústria do RS. Em que pesem as divergências entre as políticas industrial e macroeconômica, algumas iniciativas poderiam contar com o reforço da administração estadual, pois, como revelam as informações relativas a 2008, o crescimento da indústria gaúcha já começou a perder o fôlego. Conforme informações do IBGE, verificaram-se resultados negativos nos meses de março (-1,07) e de maio (-4,73). Apostar apenas na atração de investimentos externos que atualmente se orientam basicamente para o agronegócio e para a silvicultura pode ser o abandono definitivo da possibilidade de crescer com sustentabilidade e eqüidade.

Política industrial divergências com a política

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A especialização das exportações gaúchas

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Edição: Ano 17 nº 08 - 2008

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A FEE vem estudando as alterações na pauta de exportação gaúcha e utilizou uma metodologia da OCDE para a classificação dos produtos exportados, que foram divididos em quatro grupos, a saber: os intensivos em recursos naturais, os intensivos em trabalho, os baseados em escala e os intensivos em tecnologia diferenciada e baseados em ciência. Foram selecionados, ano a ano, entre 1989 e 2007, os 20 principais capítulos da pauta exportadora do Rio Grande do Sul, que representaram cerca de 90% das exportações totais do Estado. Posteriormente, cada capítulo foi agrupado de acordo com a classificação acima exposta. Assim, por exemplo, os capítulos de complexo soja, fumo e carnes, dentre outros, foram classificados em recursos naturais; os de calçados, couros e móveis, em trabalho; os de plásticos, borracha e veículos, em escala; e os de máquinas e aparelhos elétricos e de armas e munições, em tecnologia diferenciada. O gráfico traz a participação percentual de cada grupo no valor total das exportações, em dólares, dos 20 principais capítulos de cada ano.

Os produtos intensivos em recursos naturais iniciaram o período com 48% e findaram com 54%, apresentando uma participação média anual de 45%. Já os intensivos em trabalho começaram com uma participação de 34% e terminaram com uma de 17% e uma média de 31%. O grupo de produtos intensivos em escala saltou de 12% para 20%, sendo sua média de 16%. A participação dos intensivos em tecnologia diferenciada começou com 5% e terminou com 9%, próximo à sua participação média, que alcançou 8%. A visualização do gráfico permite diversas ilações. Vamo-nos deter em uma: em 2000, os intensivos em recursos naturais e os intensivos em trabalho estavam virtualmente “empatados”. A partir daí, assumiram trajetórias diametralmente opostas. Essa tendência vai-se manter?

A redução da participação dos produtos intensivos em trabalho — basicamente calçados, a principal mercadoria desse grupo — iniciou com a perda de competitividade dos produtores locais, devido ao custo de sua mão-de-obra vis-à-vis ao de outros países emergentes. Essa perda se acelerou com a valorização continuada do real a partir do início de 2003. Esses problemas relativos à mão-de-obra e ao câmbio continuam presentes. O custo da mão-de-obra não pode ser revertido, mas, quem sabe, uma desvalorização cambial associada à agregação de valor ao produto final possa, ao menos, estancar a tendência de queda.

Quanto aos intensivos em recursos naturais, basicamente commodities agrícolas, a demanda da China e de outros emergentes, a alta do preço do petróleo, o crescimento da produção de biocombustíveis e a própria desvalorização do dólar são fatores que indicam, no mínimo, a manutenção de seus preços nos níveis atuais. Contra isso, estariam a desaceleração da economia norte-americana e, principalmente, seus reflexos sobre as demais economias do planeta. Resta ainda uma incógnita: os movimentos do capital financeiro. Nos últimos anos, diferentes fundos de investimento têm especulado no mercado futuro de commodities agrícolas, o que “inflou” sobremaneira seus preços. Uma retirada de recursos desse mercado, mesmo que parcial, causaria um impacto bastante forte nos preços dos produtos intensivos em recursos naturais.

A especialização das exportações gaúchas

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