Textos com assunto: câmbio

Alguns dos efeitos da valorização cambial

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Edição: Ano 15 nº 05 - 2006

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Uma das mais importantes variáveis macroeconômicas — a taxa de câmbio — vem-se valorizando nos últimos dois anos, no Brasil, não só frente ao dólar, mas também em relação às moedas dos 16 países com maior participação nas exportações brasileiras, como pode ser visto no gráfico.

De modo geral, a atenção dada ao comportamento atual do câmbio trata de suas conseqüências diretas sobre a balança comercial do País. Entretanto outros efeitos dessa valorização sobre a economia também merecem destaque, como é o caso de sua influência sobre as cadeias produtivas, os investimentos e a concentração de empresas exportadoras.

Em relação à produção nacional, é importante destacar que não só o setor exportador sofre algum tipo de desestruturação, mas outros elos da corrente produtiva podem ser afetados. Bens finais, antes produzidos internamente, vêm sendo substituídos por similares importados, favorecidos pelo câmbio barato, o mesmo ocorrendo com insumos e matérias-primas. Dados da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex) mostram que, em 2005, os bens de capital, os intermediários e os de consumo duráveis e não duráveis tiveram aumento nas quantidades importadas, ou seja, por categoria de uso, apenas os combustíveis reduziram seu volume de importação. Inclusive muitos exportadores passaram a adquirir mais insumos e matérias-primas no exterior, beneficiados pelo drawback, na tentativa de segurar sua queda de rentabilidade. No caso de mercadorias exportáveis, cuja produção é intensiva em mão-de-obra (como ocorre com os calçados do RS por exemplo) ou que dependem fundamentalmente de fornecedores nacionais, o efeito negativo de uma moeda nacional valorizada é mais imediato.

Já para setores com maior vantagem competitiva em relação aos seus concorrentes internacionais ou capazes de aumentar sua parcela de componentes importados, esse efeito é menor. Mas, assim como ocorreu no período 1995-98 — quando o real também se manteve valorizado e as cadeias produtivas foram afetadas com o rompimento de alguns de seus elos —, corre-se o risco de repetir-se o quadro, apesar de o cenário internacional atual ser diferente. Em contrapartida, o câmbio valorizado estimula a modernização do parque produtivo nacional via importação de máquinas e equipamentos mais avançados tecnologicamente, contribuindo para acréscimos de produtividade.

Outro efeito negativo da valorização do real é o aumento da concentração de empresas exportadoras via saída do mercado daquelas mais fracas e de menor porte, por terem maior custo de produção e maior fragilidade financeira para continuar exportando. E, uma vez perdidos os mercados já conquistados, sua retomada geralmente é bem mais difícil e onerosa. Dentre essas empresas que se estão retirando do mercado exportador, cabe destacar o predomínio daquelas de capital nacional, como é o caso das ligadas às vendas externas de calçados, confecções e móveis. Tal fato, ao concentrar ainda mais as exportações nas mãos de poucas e grandes empresas, muitas delas multinacionais, também aumenta a vulnerabilidade. Isto porque as decisões sobre o que, quanto, para quem e como exportar, muitas vezes, fazem parte de uma estratégia global dessas empresas, desconsiderando os interesses nacionais nas suas tomadas de decisão.

Alguns dos efeitos da valorização cambial

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Especulação e ganhos financeiros

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Edição: Ano 12 nº 12 - 2003

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O senso comum diz que, se o índice Dow Jones subiu 15,43% e o Euro Stox 50 (índice composto por 50 grandes
companhias européias) valorizou 9,55% entre janeiro e novembro, as aplicações em papéis nos Estados Unidos continuaram sendo mais rentáveis do que os investimentos na Europa, em 2003. Certo? Não necessariamente. Suponhamos um aplicador que tenha convertido um euro em um dólar no início desse ano e aplicado em um fundo indiciário de ações nos Estados Unidos. Até novembro, sua aposta teria obtido um ganho de pouco mais de 1% em euros. Já um aplicador que tivesse feito o caminho inverso teria alcançado, em dólares, um rendimento aproximado de 25% na Bolsa de Paris (índice CAC) e de 45% na Bolsa de Frankfurt (índice Dax).

Por trás dessa aparente contradição encontra-se a forte volatilidade cambial, presente mesmo entre as principais divisas mundiais, a qual resulta da lucrativa desorganização do sistema financeiro internacional. Desde o início do ano, o euro já contabiliza uma valorização aproximada de 15%, e muitos analistas estimam que a relação entre as divisas possa atingir até mesmo a marca de US$ 1,30 por um euro ainda nesse ano. Mesmo que, conjunturalmente, a economia norte-americana tenha reencontrado o caminho do crescimento, a própria desvalorização do dólar, que aumenta a competitividade dos produtos norte-americanos sem, contudo, eliminar seus elevadíssimos déficits comerciais até o momento, aponta os limites estratégicos desse caminho.

Um aprofundamento desse movimento poderia levar a uma mudança no portfólio dos investidores internacionais de graves conseqüências para o financiamento externo da economia norte-americana. Escândalos recentes quanto à gestão dos mutual funds, pressões protecionistas sobre o Governo chinês e a crescente desafecção dos investidores pelos títulos do Governo norte-americano podem reforçar esse movimento de desvalorização e levar o Governo a uma elevação de suas taxas de juros. Se isso demonstra que o Fed tem instrumentos eficazes para reverter esse processo, não deixa de ser relevante que o euro já se apresente como um ator capaz de jogar um papel ativo na especulação com divisas em nível mundial, representando mais um elemento de instabilidade nesse já fragilizado sistema e, portanto, mais uma fonte para ganhos fáceis em arbitragens e apostas as mais diversas.

Especulação e ganhos financeiros

Esses movimentos internacionais são importantes também para as economias latino-americanas e suas perspectivas. Com uma valorização de 62% na Bolsa de São Paulo, um aplicador que tivesse investido um dólar em papéis representativos do índice Bovespa teria obtido um rendimento nessa divisa de mais de 90% graças à valorização cambial no Brasil, no ano, até novembro de 2003. Esse ganho se reduz para expressivos 75% em euros. Valorizações tão expressivas aumentam a fragilidade da economia brasileira face ao comportamento dos juros no Exterior, onde uma tendência altista pode precipitar um movimento de realização de lucros. É importante salientar que aproximadamente R$ 6 bilhões já foram aplicados por estrangeiros em ações no Brasil, em 2003. Essas aplicações podem querer retornar, bem mais robustas, à relativa segurança que oferecem países e divisas economicamente mais fortes, reforçando nossa fragilidade externa e impedindo uma recuperação mais ampla da atividade no Brasil, em 2004.

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Por que o real se desvaloriza e o Risco-Brasil cresce?

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Edição: Ano 11 nº 07 - 2002

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Entre meados de abril e início de julho último, o real perdeu cerca de um quarto de seu valor diante do dólar. A desvalorização resultou do súbito crescimento das probabilidades de perdas de capital atribuídas às operações de financiamento externo do País. Denominadas de Risco-Brasil, as mesmas probabilidades atribuídas expressam-se no diferencial de taxas de juros, que pagam, de um lado, os títulos da dívida externa brasileira e, de outro, os oriundos do Tesouro americano. Desde abril deste ano, o Risco-Brasil mais do que dobrou, alcançando cerca de 16% ao ano, o que corresponde a 1.600 pontos-base.

Entre meados de abril e início de julho último, o real perdeu cerca de um quarto de seu valor diante do dólar. A desvalorização resultou do súbito crescimento das probabilidades de perdas de capital atribuídas às operações de financiamento externo do País. Denominadas de Risco-Brasil, as mesmas probabilidades atribuídas expressam-se no diferencial de taxas de juros, que pagam, de um lado, os títulos da dívida externa brasileira e, de outro, os oriundos do Tesouro americano. Desde abril deste ano, o Risco-Brasil mais do que dobrou, alcançando cerca de 16% ao ano, o que corresponde a 1.600 pontos-base.

A atual política econômica brasileira objetivava superar os desequilíbrios externos gerados pelo País na década de 90. Para tanto, adotou-se a liberdade de flutuação cambial. Visando conter os impulsos de aceleração inflacionária derivados de tal liberdade, impôs-se a política monetária submetida ao Regime de Metas para a Inflação, implementado em junho de 1999. Contudo a aludida política monetária, ao promover crescente endividamento estatal, tenderia a esgotar-se no decorrer do tempo. Para evitá-lo, a política fiscal foi posta a gerar superávits primários suficientes para estabilizar a dívida pública medida como proporção do PIB do País. Os mesmos superávits seriam obtidos pela imposição do Regime de Metas Fiscais adotado ao final de 1998.

Por fim, sob a estabilidade monetária provida pela política econômica, manter-se-ia o vigor do processo de reestruturação do aparato produtivo do País iniciado no princípio da década passada, com conseqüências positivas sobre a competitividade externa e os saldos comerciais brasileiros. Dessa forma, as necessidades de financiamento externo iriam, progressivamente, diminuindo, viabilizando-se o abrandamento das políticas fiscal e monetária, em ambiente de duradouro crescimento econômico.

No terreno dos fatos, os superávits primários previstos foram gerados, e as metas para a inflação implementadas. Contudo a redução das necessidades de financiamento externo provinda da flutuação cambial, embora importante, ficou muito aquém do esperado. Além disso, não há evidência de que a reestruturação produtiva empreendida até o momento tenha produzido qualquer diminuição líquida das necessidades em questão. A frustração das expectativas a esse respeito teve como efeitos a continuada desvalorização do câmbio, a manutenção de elevadas taxas internas de juros e a reduzida velocidade do crescimento econômico. Em conjunto, os três efeitos citados conduziram a relação dívida pública/PIB brasileiro a renitente crescimento.

Em vista do descrito e do recente agravamento das tensões internacionais nos últimos meses, ganhou terreno a opinião de que o endividamento público pode estar escapando ao controle das autoridades brasileiras, o que poderia causar prejuízos àqueles comprometidos com o financiamento externo do País. A difusão da mesma opinião já foi longe o suficiente para impor o crescimento do Risco-Brasil e a aceleração da desvalorização cambial.

Por que o real se desvaloriza e o Risco-Brasil cresce

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