Textos com assunto: calçado

Exportações gaúchas de couro superam as de calçados

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Edição: Ano 24 nº 03 - 2015

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O segmento coureiro-calçadista revela-se fundamental na história do desenvolvimento da economia gaúcha, a qual sempre se destacou nas exportações brasileiras de couro e calçados. Entretanto sua dinâmica vem sofrendo modificações ao longo do tempo.

Analisando-se dados para a economia do Rio Grande do Sul a partir de 2003, observa-se que as exportações de calçados e suas partes vêm apresentando forte tendência de redução. As vendas externas atingiram um pico de US$ 1,4 bilhão em 2005, passando para US$ 516,4 milhões em 2014, uma expressiva queda de 56,5%. Nesse contexto, a participação relativa do setor de calçados na pauta exportadora gaúcha rumou de 14,8% em 2003 para 2,8% em 2014 (chegando a representar 2% em 2013).

Tal retração está fortemente atrelada à queda nas vendas de calçados de couro. O total de pares de calçados embarcados (desconsiderando-se as partes de calçados) caiu de 119,9 milhões em 2004 para 18 milhões em 2014, sendo que os calçados de couro foram responsáveis por 86,4% dessa queda. Dentre os motivos para a forte redução das exportações de calçados do Estado, pode-se mencionar: a ascensão da China e de outros países asiáticos nesse setor (vantagens de custo em mão de obra), o deslocamento de fábricas para outras regiões brasileiras (sobretudo, Nordeste), a valorização cambial ocorrida a partir de meados da década de 2001-10, o aumento nos custos de produção e a substituição do couro por materiais sintéticos.

Por outro lado, as exportações gaúchas de couro curtido cresceram substancialmente nos dois últimos anos avaliados, a despeito de se manterem relativamente estáveis entre 2003 e 2012. A média do valor exportado do produto pelo RS entre 2003 e 2012 ficou na casa dos US$ 439,5 milhões, enquanto em 2013 esse valor passou para US$ 498,7 milhões e, em 2014, para US$ 598,5 milhões. Por sua vez, a quantidade exportada de couro apresentou leve tendência de queda no período analisado, caindo de 44,6 milhões de m² em 2003 para 41,1 milhões de m² em 2014. Contudo o preço médio do couro apresentou elevação, subindo de US$ 8,20/m² para US$ 14,56/m² — o que explica o comportamento do valor exportado.

Em virtude da forte elevação das vendas de couro em 2014 e da tendência de queda das exportações de calçados em todo o período estudado, as exportações de couro do Estado ultrapassaram as de calçados em 2014. Explicam esse resultado os aumentos nas vendas de couro em 2014, principalmente, para os Estados Unidos (que se elevaram de      US$ 76,4 milhões em 2013 para US$ 101 milhões em 2014), China (de US$ 71,4 milhões para US$ 83 milhões) e Vietnã (de US$ 7 milhões para US$ 30,5 milhões). Além disso, observou-se uma grande queda nas exportações de calçados entre 2003 e 2014 para os Estados Unidos (de US$ 789,5 milhões em 2003 para US$ 79,6 milhões em 2014) e Reino Unido (de US$ 93 milhões para US$ 16,6 milhões).

Assim sendo, constata-se que o RS vem experimentando uma contração em suas exportações de um produto com maior valor agregado, o calçado, e aumentando as exportações de um produto de menor valor agregado, o couro; em outras palavras, vem deixando de exportar um bem manufaturado para exportar diretamente o seu insumo. Esse fenômeno implica impactos negativos para a economia gaúcha, dado vincular-se a questões pertinentes à reprimarização de sua pauta exportadora, gerando consequências perversas tanto no curto prazo (menor entrada de divisas) quanto no longo prazo (reflexos sobre a estrutura produtiva).

Os dados já disponíveis para 2015 revelam um quadro desfavorável em relação ao ano anterior. Confrontando-se os meses de janeiro desses anos, verifica-se uma queda das vendas externas tanto de couro quanto de calçados (-4,6% e -27,2% respectivamente), a qual se mostra ainda maior quando se contrastam os meses de fevereiro de 2014 e de 2015 (-26% e -27,7%). Esses resultados vêm na esteira dos ajustes recessivos promovidos atualmente na esfera federal, bem como do cenário de demanda externa desaquecida, sinalizando perspectivas de dificuldade para o ano corrente. Todavia a desvalorização cambial que vem sendo observada pode significar um alento para a competitividade das exportações gaúchas.

Carta de Conjuntura FEE – Tomás Torezani

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Exportações gaúchas de calçados para a Argentina em debate

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Edição: Ano 22 nº 12 – 2013

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A Argentina é um importante destino do calçado gaúcho, tendo seguidamente ocupado o segundo e o terceiro lugar no ranking de principais mercados de exportação. Nos primeiros 10 meses de 2013, esse país foi o terceiro destino das vendas externas de calçados do RS, absorvendo 8,72% do valor e 17,52% do volume exportado. Quando comparadas com as de 2011, contudo, as exportações de 1,54 milhão de pares, no valor de US$ 26,90 milhões, mostram um desempenho muito fraco, com variações percentuais negativas beirando os 50% em ambas as variáveis.

Nos últimos anos, o comércio bilateral com a Argentina tem sido marcado por entraves decorrentes de uma postura protecionista adotada pelo país vizinho. Em 2013, após alguns meses de um fluxo de vendas relativamente normalizado, repete-se uma sequência de negativas ou atrasos nas liberações das autorizações para as importações. O resultado dessas ações é o acúmulo de dezenas de milhares de pares de calçados retidos nas fronteiras, reproduzindo o cenário de anos anteriores. Em outubro, um mês sazonalmente de exportações elevadas, por conta do dia das mães na Argentina e da proximidade das festas de final de ano, as vendas externas gaúchas de calçados para esse país restringiram-se a cerca de 10% do que foi exportado no mesmo mês em 2011 e 2012, em valor e número de pares. Ressalte-se que as medidas protecionistas vêm sendo vistas como excessivas e discriminatórias pelo setor calçadista brasileiro e gaúcho, pois, além de afetarem a entrada do produto nacional, não inibem a entrada do produto chinês no mercado argentino.

Recente pesquisa efetuada pela Abicalçados apontou que parcela expressiva de exportadores já deixou de vender para a Argentina, em virtude da imprevisibilidade desse mercado. Para os fabricantes do RS, a perda total ou parcial do mercado argentino pode ser mais um incentivo para a manutenção da estratégia de diversificação de mercados e dos esforços de agregação de valor ao produto. Destacam-se investimentos em diferenciação de produtos, estilo e design, que têm permitido recompor a sua rentabilidade. Os calçadistas do RS têm conquistado expressivo aumento do preço médio de exportação como resultado da estratégia de fabricação de produtos de maior valor agregado e da segmentação de produtos de moda, que abriram novos nichos de mercado e ampliaram as faixas de preços mesmo nos mercados já tradicionais. O preço médio das vendas externas de calçados para a Argentina ainda se situa abaixo do preço médio de exportação total de calçados gaúchos, que foi de US$ 25,00 o par em 2012.

Exportações gaúchas de calçados para a Argentina em debate

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O declínio do setor calçadista gaúcho

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Edição: Ano 20 nº 06 - 2011

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Segundo a Pesquisa Industrial Anual (PIA) do IBGE, o setor calçadista gaúcho representava, em 2000, 10,6% do valor da transformação industrial do Estado. Em 2008, essa participação caiu para 5,6%. A redução do tamanho do setor seguiu-se à queda nas exportações. Os Estados Unidos sempre foram o principal comprador dos calçados gaúchos. Ao longo dos anos, entretanto, o menor preço do calçado chinês fez com que as vendas do Estado para aquele mercadocaíssem significativamente. De US$ 931,7 milhões em 2000, as exportações do RS para os EUA caíram para US$ 181,0 milhões em 2010. À perda de competitividade em função dos menores custos de mão de obra dos chineses somaram-se as decorrentes da valorização cambial. Entre 2003 e 2010, a taxa de câmbio real/dólar caiu 42,8%; no mesmo período, o valor das exportações gaúchas de calçados reduziu 29,8%.

Parte das perdas com o mercado norte-americano foi compensada pelo aumento das exportações para outros mercados, notadamente União Europeia e Mercosul. Em 2010, esses dois mercados já respondiam por 56,4% das vendas do Estado. Outra providência adotada pelos empresários foi transferir a produção — total ou parcialmente — para estados da Região Nordeste, de mão de obra mais barata. O resultado foi a perda de participação do Rio Grande do Sul na produção (de 56,8% 2000 para 33,5% em 2008) e nas exportações nacionais (de 81,1% em 2000 para 50,6% em 2010).

O declínio do setor calçadista gaúcho

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Proteção e exportação de calçados gaúchos

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Edição: Ano 19 nº 05 - 2010

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Diante da constatação de dumping nas vendas chinesas de calçados para o Brasil, em setembro de 2009, o Governo autorizou a cobrança de uma taxa “antidumping” provisória de US$ 12,47, por um período de seis meses, para cada par de calçado importado da China. No final do período, a medida foi renovada por cinco anos, e a taxa, aumentada para US$ 13,85 por par. A imposição de direitos “antidumping” atende às reclamações do setor calçadista, que enfrenta a concorrência chinesa nos mercados interno e externo, e, desse modo, favorece a preservação do mercado nacional e dos empregos. Corroborando essa expectativa, várias empresas do setor manifestaram que a medida já teve reflexos no aumento da demanda interna.

A recuperação do mercado externo, no entanto, apresenta obstáculos de outra natureza, pois não é tão simples brecar o avanço chinês nos mercados tradicionalmente atendidos pelo Brasil. Dada a crise internacional que estourou em setembro de 2008 e que atingiu fortemente os países desenvolvidos, onde se encontram os principais compradores de calçados gaúchos, a concorrência tornou-se mais acirrada, e a vantagem em preço favorece os produtos chineses naqueles mercados. Além disso, a taxa de câmbio brasileira, sobrevalorizada, afeta profundamente a exportação de produtos intensivos em trabalho, como é o caso dos calçados. Assim, observou-se um recuo de 6% nas exportações gaúchas de calçados — Capítulo 64 da Nomenclatura Comum do Mercosul, calçados, polainas e artefatos semelhantes e suas partes —, em 2008, em relação a 2007, e de 29,9% de 2008 para 2009. Neste último ano, o valor do Capítulo atingiu US$ 846 milhões, enquanto, no ano anterior, foi de US$ 1,2 bilhão. As exportações de calçados de couro natural, que, em 2008, representaram 78% do total do Capítulo, em 2009 sofreram uma queda ainda superior, de 31,6%. Os principais compradores de todos os tipos de calçados e suas partes, nos três primeiros meses de 2010, foram a União Europeia (53%), os Estados Unidos (19%) e a Argentina (7%).

Algumas tendências mais estruturais estão surgindo na comercialização do Capítulo 64. Em primeiro lugar, há vários anos, verifica-se a elevação do preço médio, em dólares, do calçado de couro natural, que compensa, parcialmente, a queda no número de pares embarcados. Isso pode ser atribuído não só à própria valorização do real, mas, também, aos esforços para agregar valor ao produto. Assim, por exemplo, o preço médio do par exportado pelo RS, que era de US$ 21,62 no primeiro trimestre de 2009, passou para US$ 24,25 em igual período de 2010. Outra tendência é o crescimento acelerado das exportações de partes de calçados, que, no período 2001-08, se elevaram 18,1% ao ano, enquanto a taxa de crescimento mundial anual, para esse produto, no mesmo período, foi de apenas 4,0%. Já entre janeiro e março de 2009 e em igual trimestre de 2010, as vendas desse item pelo RS aumentaram 71,9%, passando a representar 10,3% do total do capítulo.

Proteção e exportação de calçados gaúchos

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O câmbio e a China modelam estratégias dos calçadistas gaúchos

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Edição: Ano 16 nº 01 - 2007

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Os dois últimos anos caracterizaram-se por quedas acentuadas de produção nas empresas gaúchas de calçados (-3,2% e -8,3% no período jan.-out.). Além do câmbio valorizado, que reduz a competitividade do produto local, a opção pelo mercado interno não se tem constituído em alternativa para esses fabricantes. O aumento de consumo de bens não duráveis vem-se dando nos segmentos de produtos mais baratos, que, no caso de calçados, ou são fabricados em outros arranjos produtivos brasileiros, ou são importados da China.

As dificuldades iniciaram nos anos 90, após a abertura da economia, que expôs as empresas calçadistas à concorrência internacional. Com mão-de-obra barata e custos de transação reduzidos, a China dominou rapidamente os segmentos de calçados de menor preço e, paulatinamente, passou a ocupar faixas de preços mais elevados, deslocando fabricantes gaúchos de mercados tradicionais. Exemplo disso é o caso do mercado norte-americano, que já representou 80% das exportações gaúchas e, hoje, absorve menos de 50%.

Ademais, a manutenção do real valorizado ampliou as dificuldades do pólo gaúcho produtor de calçados, que exporta parcela elevada da produção e agrega um grande número de empresas que realizam vendas sob encomenda, ou seja, com design e preço definidos pelo comprador. Isto porque é justamente no segmento de calçados de menor preço que os chineses são imbatíveis.

Nesse cenário adverso, os fabricantes gaúchos procuram adaptar-se, seja buscando menores custos de produção, seja investindo em design e em tecnologia. Uma saída, já utilizada em meados da década de 90, é o deslocamento de plantas para regiões com menores custos (mão-de-obra barata e incentivos fiscais). A outra, mais difícil, é o reposicionamento do produto: sair do segmento de calçados padronizados e de preços baixos para a produção especializada em calçados de maior valor agregado, vendidos em nichos de mercado e em volumes menores. Para tanto, as empresas buscam construir uma identidade, agregar valor, enfim, criar um diferencial competitivo. Esses esforços envolvem a contratação de estilistas, o investimento em modelagem e estudos de tendências, a abertura de lojas em shoppings e no exterior, de modo a tornar a marca conhecida.

O resultado dessa estratégia pode ser constatado pela análise dos dados de exportação, que mostram uma elevação continuada no preço médio dos calçados exportados, ao mesmo tempo em que se observa uma retração na quantidade de pares vendidos. No período jan.-out./05, o aumento do preço dos calçados exportados (24,2%) compensou a retração no número de pares vendidos (-16,2%), mas, em 2006, essa queda foi tão acentuada que a elevação do preço (17,0%) não conseguiu contrabalançar a redução na quantidade (-17,4%), ocorrendo queda nos valores exportados (-3,3%). Tal fato pode estar indicando dificuldades na manutenção das estratégias de agregação de valor e de diversificação de mercados, mas, sobretudo, a perda de competitividade decorrente da valorização do real.

O câmbio e a China modelam estratégias dos calçadistas gaúchos

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Mudanças estruturais e exportações gaúchas de calçados

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Edição: Ano 14 nº 10 - 2005

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As mudanças estruturais ocorridas na indústria calçadista internacional — induzidas pelo ajuste da esfera produtiva às novas condições de produção e pela alteração nas formas de comercialização —, por um lado, e a manutenção de taxas de juros elevadas e câmbio apreciado — para atender ao objetivo de estabilidade macroeconômica no País —, por outro, vêm colocando desafios continuados para os produtores brasileiros de calçados.

Na primeira metade da década de 90, a maior exposição da economia brasileira à concorrência externa, ao mesmo tempo em que se processavam alterações substanciais nas estruturas produtivas, comerciais e financeiras, na maioria dos países, forçou as empresas calçadistas a implantarem programas de ajuste às novas regras de concorrência internacional. Nesse processo, as empresas procuraram reduzir custos e racionalizar a produção, mediante investimentos em processos e produtos. Outra estratégia adotada pelos fabricantes de calçados do RS, que é o principal estado produtor e exportador, foi o deslocamento de plantas para a Região Nordeste do País, em busca de mão-de-obra mais barata. Desse esforço de reestruturação, aliado aos impactos positivos gerados pela estabilização monetária, resultou uma breve fase de recuperação da produção, sem, contudo, atingir os níveis observados no início da década de 90. A continuidade dessa retomada após o ajuste estrutural da indústria foi comprometida, contudo, pela manutenção da taxa de câmbio valorizada por um longo período. Como conseqüência, observaram-se quedas acentuadas na produção e nas exportações, tanto em valores  quanto em número de pares, acarretando perda de participação dos calçados gaúchos no mercado internacional e um aumento das importações de produtos de menor preço, originadas no Sudoeste Asiático. Ao longo da década de 90, esses países ampliaram substancialmente sua representatividade no mercado externo, especialmente a China, beneficiados pelo deslocamento da produção de países e regiões desenvolvidos para locais com disponibilidade de matérias-primas e mão-de-obra abundante.

A desvalorização do real em janeiro de 1999 possibilitou a retomada das exportações, que, no entanto, teve fôlego curto, visto que foi interrompida pela crise argentina e pela desaceleração da economia norte-americana, principais compradores dos calçados gaúchos. A implementação de uma estratégia de diversificação e ampliação do mercado externo em um contexto de encolhimento da demanda interna explica o crescimento das exportações em 2004, favorecido pela melhoria do preço médio do calçado. Tal situação se mantém em 2005, compensando a queda nos volumes exportados.

Os dados de exportações brasileiras de calçados em 2005 registram os efeitos do acirramento da concorrência com a  China e do real sobrevalorizado. A conjugação desses dois fatores vem amplificando as dificuldades encontradas pelos fabricantes brasileiros, que estão perdendo espaço sobretudo no segmento de calçados de preços mais baixos. As perdas são menores no segmento de preços mais elevado, como é o caso dos calçados gaúchos, cujos dados de exportação mostram um pequeno aumento em termos de valor, apesar da queda expressiva no número de pares exportados. Esse comportamento é explicado pelo aumento do preço médio do calçado comercializado, obtido pela fabricação de produtos de maior valor agregado destinados a nichos de mercado. Ou seja, o desempenho das exportações gaúchas nesse cenário desfavorável vem sendo sustentado pela diversificação de mercados e por esforços de fabricação de calçados de maior valor agregado.

Mudanças estruturais e exportações gaúchas de calçados

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Indústria calçadista gaúcha: os riscos da determinação externa

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Edição: Ano 13 nº 08 - 2004

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Os diversos estudos sobre o Arranjo Produtivo Local (APL) coureiro-calçadista do Rio Grande do Sul são unânimes em afirmar que essa cadeia produtiva passou por um importante processo de reestruturação organizacional que a tornou mais competitiva. Apesar disso, os números referentes ao período jan./01-maio/04 revelam sucessivas quedas da produção física de calçados (IBGE), indicando que os avanços obtidos por esse APL, embora sejam importantes para participar da concorrência internacional, não são suficientes para garantir a manutenção de taxas crescentes de produção física. De fato, a profunda determinação exercida pelas exportações sobre os índices de produção física de calçados (IBGE/MDIC) faz crer que a gradual redução da produção dessa cadeia produtiva deve ser procurada na atual
lógica que move o comércio internacional de mercadorias, bem como nos fatores macroeconômicos que controlam a atividade produtiva no Brasil. As informações sobre a evolução da produção e das exportações também chamam atenção e demonstram os pontos frágeis do setor coureiro-calçadista. No período jan./03-maio/04, excluídas as oscilações sazonais, observa-se uma queda da faixa onde oscilam as exportações, com reflexos sobre a produção, podendo indicar uma tendência pouco favorável (IBGE/MDIC).

De uma forma geral, pode-se considerar que as vantagens competitivas de um APL podem ser asseguradas pelo
funcionamento de redes regionais de cooperação, pelo desenvolvimento de produtos através da estrutura local de P&D e pela utilização coletiva de alguns equipamentos, de forma a facilitar a difusão mais homogênea da inovação. Essa dinâmica regional favorece também a geração de emprego e renda regionais, através da inserção competitiva das pequenas empresas e da participação dos trabalhadores nos ganhos e nas decisões da empresa. Esses seriam, basicamente, os fatores endógenos que fundamentariam o crescimento sustentado de um APL. Entretanto trata-se de um mundo que não considera os condicionantes da atual lógica de internacionalização do capital. No caso dos produtos de consumo de massa, a tendência que se impõe internacionalmente é a de “”commoditização””, com exceção de algumas marcas que dominam os mercados com elevados padrões de consumo, caso do calçado italiano. Os grandes distribuidores — que constituem o elo mais internacionalizado da cadeia calçadista — dominam o mercado mundial e conseguem, com isso, impor preços e modelos aos fabricantes. A padronização desses modelos, mesmo que apresente diferenças nacionais em termos de qualidade, restringe a inovação aos limites impostos pelas encomendas.

No caso do RS, deve-se também considerar o baixo nível do consumo interno no Brasil, o que torna a produção totalmente dependente das exportações. Efetivamente, o controle da comercialização externa por distribuidores globalizados impõe preços, quantidades e modelos, tornando a produção de calçados vulnerável às oscilações externas. Tal tendência poderia ser compensada pela ampliação do consumo interno, o que é incompatível com o atual quadro de políticas macroeconômicas inteiramente dedicadas ao controle da dívida pública e da inflação. Em suma, embora o reforço das diversas ligações que se estabelecem em um APL seja muito importante para a competitividade das empresas calçadistas, as novas condições internacionais de concorrência, aliadas às restrições internas à elevação do consumo, são elementos que podem comprometer o futuro dessa indústria.

Indústria calçadista gaúcha os riscos

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Produção de calçados em 2003: RS versus CE

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Edição: Ano 13 nº 04 - 2004

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Em 2003, o setor calçadista brasileiro continuou a apresentar resultados inexpressivos, explicados pelo prolongamento da retração econômica nos principais países importadores e no Brasil, com conseqüentes impactos negativos sobre a renda média da população e sobre o consumo doméstico.

Nesse ambiente deprimido, a produção de calçados, medida pelo índice de produção física do IBGE, registrou
taxas negativas em quase todos os pólos produtores de calçados. No Rio Grande do Sul, principal estado produtor, a queda foi bastante acentuada (-11,6%). Já no Ceará, último pólo calçadista a ser implantado, a redução foi bem menor (-2,5%), fato explicado pelo tipo de calçados ali produzidos.

O “encolhimento” do mercado interno observado nos últimos anos vem estimulando os fabricantes nacionais a intensificarem a adoção de estratégias de ampliação das vendas externas, com menos sucesso no RS do que no CE. Paralelamente, efetuam-se investimentos que visam aumentar o valor agregado e a qualidade do calçado nacional, e realizam- se esforços de diversificação de mercados. Em 2003, continuou-se a observar uma tendência à consolidação de mercados alternativos aos Estados Unidos — que perdeu representatividade — em ambos os estados considerados.

Destacam-se também a recuperação das vendas para a Argentina, que, em 2003, recuperou a posição de terceiro maior comprador de calçados brasileiros, e a notável expansão das exportações cearenses para o México, o que pode ser explicado pelo tipo de calçado exportado.

Produção de calçados em 2003 RS versus CE

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As exportações do RS para a Argentina

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Edição: Ano 13 nº 04 - 2004

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No primeiro bimestre de 2004, as exportações totais do RS cresceram 28,50% em relação a jan.-fev./03. No mesmo período, as exportações do Estado para a Argentina elevaram-se 116,42%, e a participação desse país foi de 10,16% na pauta exportadora gaúcha. O aumento das vendas para o país vizinho deveu-se principalmente à recuperação da sua economia após a crise de 2001/02. Saliente-se que esse crescimento já vem ocorrendo desde 2003, quando as exportações gaúchas para a Argentina registraram um incremento de 188,25% em relação ao ano de 2002. O mercado argentino é importante para as exportações do RS, porque se constitui, basicamente, de produtos industrializados.

Com a retomada de sua economia e os bons preços dos produtos agrícolas no mercado internacional, a Argentina aumentou a demanda por máquinas agrícolas (debulhadoras, tratores, colheitadeiras, etc.) e converteu-se, desde o ano passado, no maior mercado externo para as máquinas agrícolas do Estado.

Os polímeros em formas primárias (polietileno) também se destacaram na pauta de exportações do RS para a Argentina, embora tenham perdido participação em relação ao primeiro bimestre de 2003. Mesmo assim, a indústria de plástico espera recuperar o terreno perdido na Argentina em 2002 e voltar aos níveis exportados em 2001.

Motores a diesel; carrocerias para ônibus e caminhões; e óleo diesel, ausentes das exportações do RS para a Argentina nos primeiros dois meses de 2003, também ocuparam lugar de destaque no ranking dos produtos com maior participação nas vendas para esse país, no primeiro bimestre de 2004.

As exportações do RS para a Argentina

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Ambiente externo e indústria calçadista gaúcha

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Edição: Ano 11 nº 10 - 2002

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No período jan.-jul./02, o indicador acumulado de produção física do IBGE para a indústria gaúcha registrou crescimento de 3,7%, bem superior ao nacional (0,4%). O gênero vestuário, calçados e artefatos de tecidos, de expressiva participação na indústria do Rio Grande do Sul, apresentou uma taxa negativa de 3,1%, refletindo as dificuldades enfrentadas pelos produtores de calçados. O segmento calçadista ocupa uma posição de destaque na pauta de exportações gaúchas — cerca de 20% do valor total exportado.

O desempenho exportador é condicionado pela implementação de um amplo processo de reestruturação ocorrido na segunda metade da década de 90, que buscou trazer maior competitividade à indústria de calçados. Após a abertura da economia, a pressão da concorrência nos mercados interno e externo obrigou essas empresas a reduzirem custos de produção e a realizarem expressivos investimentos nos processos produtivos, através da terceirização de atividades e da incorporação de novos equipamentos e práticas modernas de gestão.

Ambiente externo e indústria calçadista gaúcha

A partir do segundo semestre de 2001, as exportações da indústria calçadista começaram a perder fôlego, em decorrência, sobretudo, da desaceleração da economia norte-americana e do aprofundamento da crise argentina. A queda de 12% no valor exportado, no período jan.-ago./02 em relação ao mesmo período do ano anterior, deve-se, principalmente, à forte contração das compras argentinas, que tiveram uma variação negativa de 92,4% no período considerado, e à redução de 10,1% das vendas para o Estados Unidos, juntas correspondendo a uma perda de US$ 124.833 mil no faturamento das empresas exportadoras gaúchas. Embora a diminuição das exportações de calçados para os Estados Unidos possa ser explicada pela retração da economia norte-americana, estudos realizados sobre a indústria calçadista brasileira identificaram, nos últimos anos, um crescimento apenas vegetativo das vendas brasileiras para aquele país em oposição à forte expansão das vendas de países asiáticos para esse mercado. Esses fatos recolocam a questão da concentração das vendas em poucos países, o que já é uma preocupação antiga das empresas desse setor.

No sentido de reduzir a dependência de poucos compradores, as empresas calçadistas vêm adotando dois tipos de estratégia: a primeira diz respeito à conquista de novos mercados, como a Nicarágua e a Romênia; a segunda busca aumentar as vendas para mercados ainda pouco explorados pela indústria gaúcha de calçados, como pode ser comprovado pelo expressivo crescimento das exportações direcionadas ao México (66,1%), à Holanda (30,0%), ao Canadá (26,5%) e à Alemanha (21,2%). Contudo a implementação da estratégia de diversificar mercados não conseguiu ainda compensar a queda nas compras dos dois principais países compradores.

As perspectivas do segmento calçadista para os últimos meses de 2002 não são muito favoráveis, quando se consideram a desaceleração da produção industrial e a instabilidade financeira da economia brasileira, o que compromete as vendas no mercado interno. O cenário externo, por sua vez, pode se agravar, dependendo dos desdobramentos do conflito Estados Unidos versus Iraque. A permanecer esse ambiente externo desfavorável, a indústria calçadista deverá encontrar dificuldades para atingir as metas de produção e de exportação previstas e já revistas ao longo do ano.

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