Textos com assunto: aspectos econômicos

O petróleo e a balança comercial

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Edição: Ano 22 nº 11 - 2013

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A diferença entre exportações e importações brasileiras tem sido positiva desde o ano 2000. O saldo, porém, obteve seu auge em 2006 e, desde então, vem caindo. De janeiro a setembro de 2013, a diferença entre exportações e importações foi negativa em US$ 1,6 bilhão. Alguns elementos explicam esse fenômeno, tais como a redução dos preços de nossas exportações no mercado internacional, o contínuo aumento de importações, a manutenção do crescimento da demanda interna, a crise no front externo e uma taxa cambial valorizada, a despeito da recente depreciação. Ao se analisar as contas deste ano com mais profundidade, entretanto, é notório o saldo negativo na conta petróleo.

Considerando-se o petróleo e todos os seus derivados, o déficit comercial acumulado até setembro foi de US$ 15,1 bilhões. Segmentando os principais produtos dessa conta, têm-se os déficits de US$ 3,5 bilhões em petróleo bruto, de US$ 3,5 bilhões em nafta, de US$ 1,8 bilhão em gasolina, de US$ 1,1 bilhão em querosene e de US$ 1,0 bilhão em gás liquefeito de petróleo. Em fuel-oil, há superávit de US$ 2,6 bilhões. Parte dessa monta justifica-se na contabilização defasada de importações realizadas em 2012, US$ 4,6 bilhões, além da redução planejada da produção da Petrobras para manutenção de plataformas. Entretanto, o aumento da demanda de gasolina nos últimos anos é expressivo, derivado da elevação no preço do etanol e do crescimento na frota de veículos automotores.

Além do incremento no consumo, um elemento mais estrutural pode ser identificado. Em que pese à distinta caracterização de 2013, o País costuma ser um exportador líquido de petróleo bruto e importador de derivados. O saldo comercial de petróleo bruto, por exemplo, foi de US$ 6,9 bilhões em 2012 e de US$ 7,5 bilhões em 2011. Tal situação indica que não se consegue processar internamente todo o petróleo necessário para atender à necessidade do mercado. Desse modo, o País envia para o exterior a agregação de valor do processamento de petróleo. Esse fator é explicado pelos anos em que o Brasil ficou sem investir em refino — o País conta com 12 refinarias, sendo a mais recente de 1980.

No entanto, o alento para os anos vindouros está nas cinco novas edificações de refinarias. A primeira delas está prevista para ficar pronta em 2014, e a última, em 2018. Duas delas ainda estão em planejamento, incluindo a do Maranhão, que será uma das maiores do mundo. O processamento do petróleo ocorre também nos polos petroquímicos. Desses, o Brasil possui três, e mais dois estão em construção, um deles já parcialmente em operação, em Pernambuco, e o outro, no Rio de Janeiro, estará em funcionamento em 2014.

A exploração do pré-sal vai movimentar ainda mais a cadeia do petróleo. A depender da confirmação das reservas potenciais, o Brasil pode figurar entre as 10 maiores reservas de petróleo do planeta. Os investimentos já estão sendo efetuados e dinamizam a economia brasileira. O setor naval e o de navipeças obtiveram um crescimento significativo. No Rio Grande do Sul, o polo naval de Rio Grande revitalizou aquela região, e os rebatimentos já são sentidos nos números da cidade, que passou de sexto maior PIB municipal do Estado para o quarto em 10 anos.

Entre os anos de 2014 e de 2016, 11 novas plataformas entrarão em operação apenas nos blocos do pré-sal. De toda sorte, mais investimentos no setor fazem-se necessários. O campo de Libra, que pode ter 12 bilhões de barris recuperáveis, exigirá investimentos na ordem de US$ 180 bilhões, principalmente em plataformas e embarcações. Serão necessárias, aproximadamente, 12 plataformas e quatro embarcações para cada plataforma. O pré-sal como um todo exigirá mais de US$ 500 bilhões em investimento. Esse campo é o primeiro com o novo marco regulatório de partilha, em que as empresas dividem com o Governo o que for explorado, cedendo, no mínimo, 41,7% do que excede o custo. A mudança do marco regulatório visa ampliar a participação do Estado nos recursos advindos da exploração do petróleo.

Todos esses movimentos levarão o setor de petróleo e o naval a corresponderem a, aproximadamente, 20% da indústria de transformação nacional, segundo a revista Valor Econômico. Quando essas operações estiverem em plena maturidade, a conta do petróleo na balança comercial tenderá a apresentar um comportamento bastante distinto do de 2013.

O petróleo e a balança comercial

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O que podem os governos estaduais no Brasil?

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Edição: Ano 22 nº 03 - 2013

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Há pelo menos 80 anos que os economistas se dedicam à compreensão do desenvolvimento econômico e da responsabilidade do Estado na sua promoção. No entanto, um ponto que parece obscuro quando se discute o “dever” do Estado desenvolvimentista é o “poder” que ele, de fato, possui, para elaborar e implementar políticas públicas eficazes no propósito de melhoria do bem-estar da população. Esse quadro se torna ainda mais dramático, quando o Estado ao qual nos referimos é um ente federado, em um sistema de descentralização parcial e imprecisa das capacidades e deveres do poder público no Brasil, fato que se acirrou com a Constituição de 1988.

Em primeiro lugar, na finalidade de orientar e promover melhorias estruturais, a expansão econômica e a estabilidade, o governo subnacional não possui nenhum controle sobre a política monetária e cambial, o que restringe, fortemente, seus instrumentos de atuação na promoção do desenvolvimento estadual.

Por outro lado, a Constituição de 1988 procurou promover o federalismo brasileiro segundo os princípios clássicos da autonomia e da participação, apresentando uma agenda fortemente descentralizadora. Na busca do equilíbrio federativo e da redução das disparidades regionais e setoriais, deu competência aos estados para tributar e legislar em diversos temas. Desde então, cerca de um terço da arrecadação direta brasileira ocorre nos níveis subnacionais, o que, somado às transferências constitucionais, representa uma receita disponível de mais de 40% do total arrecadado no País em mãos dos governantes federados.

Tal cenário, no entanto, não é tão favorável aos estados como pode parecer. Dentre as funções da política fiscal, as instâncias subnacionais possuem alguma capacidade alocativa e distributiva, mas não estabilizadora. Embora haja um grau de autonomia que permita complementar a ação do mercado e promover alguma redução de desigualdades, não existe potência fiscal para regular, por exemplo, o nível de atividade econômica estadual em torno do pleno emprego. Apesar de administrarem uma grande fatia da arrecadação, a utilização desses recursos está subordinada à sobreposição da legislação federal à subnacional.

No Rio Grande do Sul, o peso do funcionalismo público, entre ativos e inativos, ultrapassa os 70% da Receita Corrente Líquida. A rigidez no orçamento estadual torna-se ainda maior, com os limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal fazendo dos governadores, em alguns casos, meros administradores do caixa. Outra restrição importante origina-se da renegociação das dívidas estaduais com base na Lei nº 9.496 de 1997, que impôs limites para o pagamento dos serviços sobre a receita, resultando em permanente refinanciamento do saldo devedor dos estados. Com isso, na última década, a amortização junto à União foi de pouco mais de um décimo da dívida total do RS.

Do lado das receitas tributárias estaduais gaúchas, o ICMS representa quase 90% do montante arrecadado nos últimos anos, mas vem crescendo em proporção menor do que o PIB estadual, devido tanto à isenção das atividades de exportação, criada pela Lei Kandir (LC nº 87/1996), como ao expressivo volume de renúncia fiscal concedido na guerra pela atração de investimentos.

A contribuição do ICMS para a autonomia subnacional deve reduzir-se ainda mais nos próximos anos. O Projeto de Resolução PRS 1/2013 propõe a unificação em 4%, até 2025, das alíquotas no País para as operações e prestações interestaduais, que hoje variam entre 7% e 12%. Como mecanismo compensatório, a MP 599/2012 cria um fundo de compensação e outro de desenvolvimento regional, ampliando o volume de repasses como proporção da receita dos estados. O Governo Federal busca acabar com a guerra fiscal, mas reduzirá ainda mais a autonomia dos entes subnacionais em relação às suas receitas e despesas, uma das condições necessárias para a realização das políticas estaduais autônomas.

Uma forma de verificar isso será através do índice de autonomia subnacional de Anwar Shah (The Reform of Intergovernmental Fiscal Relations in Developing and Emerging Market Economies, 1994). Esse indicador computa qual a proporção das despesas correntes subnacionais que são oriundas de transferências federais, em que 1 representa o financiamento integral das despesas estaduais com receita própria, enquanto zero expõe a total dependência de transferências e fundos da União. A nova legislação deverá derrubar esses índices no futuro.

Historicamente, o Brasil passou por ciclos de centralização (1930-46 e 1964-87) e descentralização (1891-1930, 1946-64 e 1988-96). Desde as privatizações e a austeridade promovidas na segunda metade dos anos 90 do século passado, a capacidade de planejamento e execução de políticas autônomas de desenvolvimento estadual está em xeque, o que se agravou com a evolução das dívidas estaduais. Fica evidente a necessidade de reforçar as condições de participação e cooperação federativa, harmonizando os interesses regionais em um verdadeiro pacto nacional pelo desenvolvimento, no qual a autonomia não seja um fim em si mesma.

O que podem os governos estaduais no Brasil

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Canais de transmissão da agricultura para a economia

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Edição: Ano 22 nº 01 - 2013

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Historicamente, a agricultura tem uma grande importância na economia gaúcha, maior do que tem em outros estados industrializados e no Brasil como um todo. Entre 2002 e 2010, em média 9,9% do valor adicionado pela economia do RS veio da agropecuária, contra 6,1% no Brasil. Além disso, esse setor apresenta, em virtude de condições climáticas, uma variabilidade maior do que a indústria e os serviços. A média dos valores absolutos dos índices de volume da agropecuária entre 2003 e 2010 foi 15,8 p.p., bem maior do que a da indústria (4,5 p.p.) e a dos serviços (3,2 p.p.). Juntos, esses dois fatores — participação e variabilidade — fazem com que variações na agricultura sejam responsáveis por grande parte das variações no PIB do Estado.

Porém o senso comum atribui à agricultura uma causalidade ainda maior no comportamento da economia gaúcha, através da sua influência nos outros setores. Em que medida isso é verdade é uma questão que precisa ser estudada com mais atenção. Tendo isso em mente, este texto se propõe a discutir dois possíveis canais de transmissão da agricultura para o resto da economia.

Um primeiro canal é o efeito da renda gerada na lavoura no comércio dos municípios. Após uma boa safra, o agricultor poderia comprar mais, enquanto teria que reduzir seus gastos frente a uma safra ruim.

Para testar esse canal, estimou-se um modelo (mínimos quadrados ordinários) onde a variação do comércio de cada município é explicada pela variação em volume da sua agricultura, utilizando-se dados de 2003 a 2009 da Pesquisa Agrícola Municipal (PAM-IBGE) e do PIB Municipal (FEE/IBGE). O resultado mostrou que um crescimento de 1 p.p. da economia gerado pela agricultura faz com que, em média, o comércio do município cresça 0,3 p.p. acima da média do Estado. Assim, o aumento (ou diminuição) dos gastos com consumo é um canal significativo de transmissão da renda agrícola. Contudo, como pode ser visto no gráfico, a variabilidade dos resultados observados é grande, mostrando que o poder de explicação da agricultura no comércio municipal é pequeno, com outras variáveis sendo necessárias para explicá-lo propriamente.

Outro canal de transmissão é o efeito do desempenho da lavoura sobre a indústria do RS. Uma maior produção demandaria mais insumos, como defensivos agrícolas, e investimento em máquinas e equipamentos, além de significar uma maior oferta de matéria-prima para indústrias como as de alimentos e fumo.

Para testar essa hipótese, calculou-se a correlação entre a produção agrícola medida pela PAM e diversos setores da indústria de transformação medidos pela Pesquisa Industrial Mensal (IBGE), de 1995 a 2011. Nesse canal, as correlações não se mostraram tão significativas quanto se esperaria. A correlação entre a agricultura do ano t e o setor de máquinas e equipamentos do ano t+1 foi de 0,35; e de 0,14 com o setor de alimentos de t+1 (a correlação entre lavoura e indústria do mesmo ano foi ainda menor). Já utilizando o desempenho de produtos específicos, o fumo apresentou correlação de 0,51 com a indústria de fumo, e o arroz, correlação de 0,34 com a de alimentos, ambas dentro do mesmo ano.

Algumas hipóteses podem explicar, em parte, a ausência de correlações mais fortes. Pelo lado do consumo intermediário da lavoura, a explicação pode ser a compra de parte dos insumos fora do RS, assim como a venda de produtos da nossa indústria de fertilizantes e defensivos em outros mercados, especialmente em momentos de queda da lavoura gaúcha. Quanto ao investimento em máquinas e equipamentos, é de se esperar que ele tenha uma maior ligação com a expectativa dos resultados de safras futuras do que com safras passadas. Já a indústria de alimentos, que demanda bens agrícolas como insumos, responde não só à oferta destes como também à demanda por seus produtos. Assim, uma maior safra garante apenas um aumento no desejo de ofertar um bem alimentício a um dado preço; porém o aumento da quantidade produzida vai depender também da demanda por esse produto, que não depende do resultado da lavoura.

Concluindo, para se estudar o impacto da agricultura na economia gaúcha deve-se fazer um maior uso da ótica microeconômica, com foco nas relações entre os setores da economia, além de controlar a análise para o efeito de outras variáveis que também afetem a economia gaúcha, como variações nas políticas do Governo Federal e no setor externo.

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Tendência de queda da jornada de trabalho

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Edição: Ano 19 nº 09 - 2010

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A extensão da jornada de trabalho, segundo a definição de Trabalho Decente proposta pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), expressa a qualidade das condições de trabalho em uma economia. Isso se deve ao fato de estar relacionada com a saúde física e mental dos trabalhadores, com o equilíbrio entre trabalho e vida familiar, com a produtividade do trabalho e com a remuneração. Um aumento da jornada corresponde, pois, a uma deterioração das condições de trabalho e vice-versa.

A Pesquisa Emprego e Desemprego da Região Metropolitana de Porto Alegre (PED-RMPA) mostra que a média anual de horas semanais trabalhadas dos ocupados na Região era de 43 horas em 1993. Entre 1999 e 2003, a jornada elevou-se para 44 horas semanais. A partir de 2006, no entanto, a média de horas semanais reduziu-se, vindo a atingir 42 horas em 2009.

A tendência ao declínio da jornada de trabalho no período 2000-09 e, portanto, à melhora de condições de trabalho também se expressa no percentual de trabalhadores com jornadas superiores a 44 horas semanais. Os dados indicam uma queda no percentual dos ocupados nessas condições, passando de 36,5% do total de ocupados da RMPA em 1992 para 34,8% em 2009. Entre 1998 e 2000, a parcela de ocupados nessas condições sofreu uma considerável elevação, porém, desde 2001, há uma persistente tendência à diminuição nesse indicador.

Os dados indicam que a queda da parcela dos ocupados trabalhando acima da jornada de trabalho fixada na Constituição de 1988 está associada à queda da taxa de desemprego na Região.

Tendência de queda da jornada de trabalho

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Erradicação da miséria e da pobreza na RMPA

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Edição: Ano 17 nº 06 - 2008

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A menos da metade do prazo final assumido por 191 países para reduzir a miséria do Planeta, compromisso elaborado durante a Cúpula do Milênio, organizada pela ONU no ano 2000, e no RS, através da Carta de Porto Alegre, em 2004, por decisão do Fórum da Responsabilidade Social e Desenvolvimento, pesquisas da FEE indicam que ainda resta muito a ser feito.

Buscando avaliar a situação dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) na Região Metropolitana de Porto Alegre (RMPA), recorremos à pesquisa sobre os ODM nos municípios do RS, divulgada em junho de 2007, em que, para cada uma das 18 metas a serem atingidas em 2015, foi projetada uma tendência com base na velocidade do esforço realizado entre 1991 e 2005.

Encontraram-se sete indicadores nas categorias: Alcançado e A caminho, mostrando que, se essa tendência for mantida, as metas serão alcançadas; entretanto, nas categorizações Avanço lento e Nenhuma mudança ou mudança negativa, encontram-se 11 indicadores, que deverão ser priorizados para reverter ou acelerar a situação atual, sob pena de não serem atingidas as mudanças para 2015.

Os Municípios de Novo Hamburgo, Gravataí, Alvorada, Canoas, Porto Alegre e Viamão, com população acima de 200.000 habitantes, foram os que apresentaram maiores dificuldades para atingir as metas da ONU.

As dificuldades estão nos indicadores de saúde (crianças com baixo peso ao nascer, mortalidade de crianças menores de cinco anos, mortalidade infantil, mortalidade materna, mulheres de 15 a 24 anos com HIV/AIDS e incidência de AIDS por município), de gênero (mulheres e homens no ensino superior e mulheres assalariadas) e de sustentabilidade ambiental (domicílios sem acesso à água tratada e domicílios com ligação a uma rede geral de esgoto ou pluvial).

Erradicação da miséria e da pobreza

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Tecnologia e exportações industriais do RS

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Edição: Ano 16 nº 05 - 2007

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Uma das características do processo de globalização é o aumento da parcela das exportações de produtos industrializados (mais de 78% do total mundial no ano 2000) e, dentre estes, daqueles com conteúdo tecnológico mais avançado. Os principais elementos motivadores dessa dinâmica relacionam-se às mudanças na divisão internacional da produção, capitaneadas pelas estratégias das empresas multinacionais. Elas implicam uma maior participação dos produtos não acabados no total comercializado, bem como na relocalização de parte expressiva da capacidade industrial instalada em direção aos países em desenvolvimento, notadamente na Ásia.

O significado dessas mudanças é dos mais relevantes para a competitividade internacional, uma vez que a incorporação de maior conteúdo tecnológico nos produtos comercializados representa um maior acoplamento à demanda mundial, ou seja, uma maior capacidade de ampliar as exportações. Também quanto ao reflexo para a sociedade como um todo, a experiência asiática demonstra que a elevação do conteúdo tecnológico das exportações garante uma maior geração de renda e a criação de empregos melhor remunerados. Tem-se, aqui, um dos pontos críticos que afeta a inserção comercial de países latino-americanos em geral e a do Brasil em especial.

Nesse contexto, apesar de esperada, dada a elevada importância da atividade rural e de seus linkages no RS, é preocupante que a inserção dos produtos industriais gaúchos se dê com piores indicadores do que aqueles já precários apresentados pela indústria nacional, uma vez divididas suas exportações em indústrias de baixa, média-baixa, média-alta e alta intensidade tecnológica, seguindo o padrão metodológico internacional. No ano de 2006, a participação dos manufaturados de baixo conteúdo tecnológico foi bastante mais expressiva no RS do que no resto do País, respondendo por parcela superior aos 60% do total exportado de manufaturas. A elevada participação das exportações originadas das indústrias de alimentos, bebidas e do fumo — 35,5% das exportações industriais — foi a principal responsável por esse resultado, consolidado pelas exportações das indústrias de calçados e do mobiliário. Um bom resultado foi o alcançado no segmento de média-alta tecnologia, onde a participação alcançou os 30%, equiparando-se à média nacional. Nesse segmento, encontram-se as indústrias de máquinas e equipamentos elétricos e mecânicos, bem como as de máquinas agrícolas e de veículos automotores. A participação dos produtos de alta tecnologia superou em pouco os 2% do valor total exportado pela indústria gaúcha, em que pese os esforços que se têm realizado no sentido da implantação de parques tecnológicos e de atração de empresas voltadas às novas tecnologias no Estado. Em resumo, o resultado obtido nessa classificação trata-se de valioso instrumento no sentido de identificar e de medir fraquezas da estrutura produtiva estadual, devendo ser objeto de atenção por parte dos planejadores e formuladores de políticas públicas no RS.

Tecnologia e exportações industriais do RS

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O crescimento da indústria gaúcha em 2004

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Edição: Ano 14 nº 01 - 2005

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A produção industrial do RS, assim como a do Brasil, apresentou uma tendência ascendente a partir do mês de setembro de 2003, embora tenha ocorrido uma sutil desaceleração do crescimento no mês de setembro de 2004 (gráfico). Mesmo assim, no período que acumula jan.-nov./04, as indústrias estadual e nacional tiveram um crescimento continuado bastante superior ao verificado nos últimos anos, de, respectivamente, 6,7% e 8,3%.

Conforme os resultados que discriminam as atividades por ramos industriais, as melhores taxas de crescimento acumuladas para jan.-out./04 em relação a igual período de 2003 foram alcançadas pela indústria fumageira (28,9%), seguida, em ordem decrescente, por veículos automotores (22,8%), máquinas e equipamentos (19,9%), metalúrgica básica (17,6%) e borracha e plástico (13,3%). Já alimentos (-0,9%), calçados e artigos de couro (-1,7%), refino de petróleo e álcool (-3,6%) e outros produtos químicos (-0,1) reduziram sua produção em relação a igual período do ano anterior. As demais atividades, ainda que com resultados positivos, colocaram-se abaixo da média gaúcha.

Assim como no Brasil, as vendas externas foram as principais impulsionadoras do aumento da produção industrial gaúcha, sendo esse o caso de fumo e de veículos automotores. Entretanto esse estímulo começou a perder força a partir do terceiro trimestre, devido à já excessiva valorização do real, com reflexos negativos sobre as indústrias de calçados e de móveis.

Quanto à indústria de calçados, é importante sublinhar que a redução do IPI para as exportações de couro wet blue é um fator que influencia negativamente a competitividade das empresas produtoras de calçados de maior valor agregado, onde a integração da cadeia produtiva é um elemento central. Outro fator desfavorável às atividades de calçados, móveis e produtos alimentares continuou sendo o reduzido consumo interno desses produtos.

A produção de veículos automotores, por sua vez, vem, há vários anos, ampliando sua participação no mercado mundial, através seja de exportações, seja da implantação de unidades produtivas em outros países. Em 2004, a continuidade da elevação das exportações repercutiu favoravelmente sobre o consumo doméstico. Comportamento semelhante foi observado na indústria de tratores e máquinas agrícolas, que, além das exportações, foi favorecida pelo crescimento do agronegócio. Esse aquecimento, por sua vez, teve repercussões positivas sobre a produção de autopeças do Estado.

A projeção do desempenho industrial relativa ao próximo ano, para o Brasil e para o RS, relaciona-se principalmente com as exportações, profundamente dependentes do mercado dos EUA, e com a taxa de juros, cujas expectativas são de manutenção e/ou nova elevação. Essas variáveis não apresentam perspectivas muito favoráveis à continuidade do crescimento das indústrias nacional e estadual em 2005.

O crescimento da indústria gaúcha em 2004

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Estiagem frustra previsão de supersafra no RS

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Edição: Ano 14 nº 01 - 2005

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Quebras de safra ocasionadas por problemas climáticos, como as de 2002 e de 2004, são comuns no Rio Grande do Sul, revelando-se, ao longo do tempo, uma desvantagem competitiva em relação a outros estados do País que não enfrentam tal problema com a mesma intensidade. Dentre os principais estados produtores de grãos do País, em função do clima, o RS é o que tem apresentado a maior variação de produtividade.

Para a safra de verão 2004/2005, o IBGE previa, em dezembro de 2004, uma produção recorde para o Estado, podendo alcançar 20,7 milhões de toneladas, divididas entre os quatro principais grãos (ver tabela). Acontece que o clima deverá frustrar, pelo menos em parte, essa previsão. A estiagem que atinge o RS desde o final de 2004 deve comprometer a produtividade do feijão e do milho, sendo que a do arroz e a da soja ficarão na dependência do comportamento futuro das chuvas.

Os baixos preços recebidos pelos produtores nos últimos anos têm estimulado a diminuição da área de feijão em favor das do fumo e da soja, que vêm apresentando melhores rentabilidades. Se a área menor já faria diminuir a produção nesta safra, as perdas em conseqüência da falta de chuva, que podem variar de 20% a 30%, conforme a Emater-RS, farão com que o volume colhido de feijão seja ainda menor que o previsto inicialmente.

O cultivo do milho continua perdendo área, principalmente para a soja. Desde 2001, 350 mil hectares deixaram de ser usados para o plantio do cereal. Na safra passada, a produção de milho foi extremamente prejudicada pela estiagem, sofrendo perdas de quase 30% em seu rendimento médio. Dentro da normalidade, previa-se que sua produtividade reagisse neste ano, podendo alcançar 3.875 kg/ha, um acréscimo de 38% em relação à safra anterior. Com a estiagem iniciada em novembro de 2004, a produtividade da lavoura de milho deve diminuir, mesmo que de maneira distinta entre as regiões produtoras. A Emater-RS estima perdas que vão de 30% a 50% nas regiões mais afetadas. Entretanto é bem provável que a presente estiagem cause menores prejuízos do que aquela ocorrida na safra passada. Isto porque as precipitações, mesmo que irregulares, ocorridas na segunda semana de janeiro permitiram replantios em certas regiões, que poderão desenvolver-se bem, se as previsões da meteorologia, que indicam chuvas um pouco acima ou igual à média a partir do final de janeiro, se confirmarem.

Quanto ao arroz, o baixo nível das barragens na época do plantio impediu que a área cultivada na safra passada se repetisse na de 2004/2005, encolhendo 10 mil hectares. Além disso, os problemas com a irrigação só aumentaram nas últimas semanas de dezembro em função da estiagem, o que pode comprometer a produtividade da cultura, estimada inicialmente pelo IBGE em 5.853 kg/ha.

A incorporação de áreas antes destinadas à pecuária e ao milho fez com que houvesse incremento de 4,1% na área de soja. Entretanto expectativas de menor rentabilidade nesta safra acarretaram desaceleração no crescimento da incorporação de novas áreas ao cultivo da oleaginosa. A produção esperada é de 9,4 milhões de toneladas, com rendimento médio de 2.275 kg/ha, bem abaixo do recorde de 2003, de mais de 2.600 kg/ha. A estiagem ameaça comprometer a produtividade da soja, mas a quantificação das perdas ainda é prematura, ainda mais que a provável mudança no quadro climático pode reverter, em parte, os potenciais prejuízos.

Estiagem frustra previsão de supersafra no RS

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Balança comercial do agronegócio gaúcho

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Edição: Ano 13 nº 07 – 2004

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De janeiro a abril de 2004, as exportações do agronegócio (produtos in natura e industrializados derivados da agropecuária) representaram 62,9% do total exportado pelo RS, enquanto as importações do agronegócio pelo Estado, no mesmo período, representaram apenas 9,88% do total importado. Já o saldo comercial do agronegócio foi maior que o saldo comercial total do Estado, confirmando o RS como uma região caracteristicamente exportadora de produtos do agronegócio, pois a balança comercial das demais mercadorias foi deficitária no período em análise, e esse tem sido o comportamento habitual do comércio externo gaúcho, conforme se observa na tabela. Ou seja, são as exportações do agronegócio gaúcho que sustentam o saldo comercial positivo do Estado.

A participação do agronegócio nas exportações gaúchas poderia ser ainda maior, não fossem as inúmeras barreiras tarifárias e não tarifárias impostas aos produtos agrícolas em todo o mundo, especialmente às commodities tradicionais. A agropecuária é o setor mais protegido na maioria dos países, e as barreiras dão-se através de tarifas elevadíssimas, subsídios domésticos e de exportação, cotas de importação e restrições técnicas, sanitárias e fitossanitárias, sendo raras as oportunidades de se promoverem alterações concretas nessas barreiras. Tanto na Organização Mundial do Comércio (OMC) quanto nos acordos da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e da União Européia-Mercosul, a resistência para se reduzirem os entraves ao comércio de produtos da agropecuária tem sido muito grande, e os maiores parceiros comerciais, nesses dois acordos, têm pressionado apenas por reduções tarifárias, quando, atualmente, a maior dificuldade encontrada pelo setor tem sido em relação às barreiras não tarifárias.

Os principais produtos do agronegócio exportados pelo Estado em 2003 foram: calçados de couro; soja em grão; fumo; farelo de soja; óleo de soja; carne de frango e de suíno; pasta química de madeira; couros; móveis de madeira; madeira; proteína de soja; carne em conserva; extrato tanante; maçã; mate; e milho. Dentre as principais mercadorias do agronegócio importadas pelo RS no ano passado, destacaram-se: trigo; couros e peles; arroz; cevada cervejeira; cebola; leite em pó; pasta química de madeira; painéis de madeira; fumo não manufaturado; vinho; e papel para escrita.

Os produtos do agronegócio que registraram as maiores diferenças, em valores absolutos, entre suas exportações e suas importações foram: calçados de couro; fumo; soja em grão; carnes; farelo de soja; couro; óleo de soja; e móveis de madeira; o que os caracteriza como tendo boas oportunidades de inserção no comércio internacional, além de se incluírem entre aqueles que mais contribuíram para o superávit comercial do Estado. Por outro lado, os maiores déficits comerciais, em valores absolutos, do agronegócio gaúcho em 2003 foram ocasionados por cereais (trigo em particular); produtos hortícolas; bebidas; papel e cartão; borracha natural; leite e laticínios; todos com suas importações muito superiores às suas exportações.

Pode-se ainda destacar, no agronegócio gaúcho, que algumas mercadorias apresentaram altos índices de comércio intra-industrial em 2003, indicando um forte intercâmbio bilateral, já que os valores exportados e os importados, nesse caso, registraram cifras aproximadas. Dentre esses produtos, alguns apresentaram índice de comércio intra-industrial acima de 75%, como foi o caso de produtos da indústria da moagem (83,9%); algodão (82,5%); plantas vivas (77,2%); e papel e cartão (75,7%).

Balança comercial do agronegócio gaúcho

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Dimensão do agronegócio do Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 11 nº 11 - 2002

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o agronegócio mostra-se mais importante na economia do RS do queno espaço nacional. A participação no PIB do Estado (29,5%) é aproximadamente 49% maior que sua correspondência nacional (19,8%).

Dimensão do agroegócio do Rio Grande do Sul

É evidente a especificidade estadual da composição do agronegócio. As atividades a montante (insumos e máquinas e implementos) representam 8,6% no RS, enquanto, no Brasil, respondem por 5,6%. Esse resultado está associado à histórica vocação primária do Estado, que contribuiu para o desenvolvimento de atividades fornecedoras de insumos e de bens de capital destinados à produção rural. Em especial, a produção de adubos, fertilizantes e defensivos e de máquinas e tratores supera a demanda do RS, sendo o excedente destinado, principalmente, para o mercado interno e, em menor escala, para o resto do mundo.

Analogamente, as atividades a jusante (agroindústria, distribuição e serviços) respondem por 58,5% no RS face a 54,5% no Brasil. No caso do RS, destacam-se os setores agroindustriais: calçados e couros, abate de animais, demais indústrias alimentares, beneficiamento vegetal, madeira e mobiliário, laticínios, fumo, celulose e papel, óleos vegetais, vestuário e têxtil.

Em função da maior diversificação a montante e na agroindústria, a participação da agropecuária no agronegócio do RS é menor comparativamente ao Brasil.

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