Textos com assunto: argentina

Argentina substitui importações de máquinas agrícolas

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Edição: Ano 23 nº 12 - 2014

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Em 14 de agosto de 2012, no ato de lançamento das primeiras linhas de tratores e colheitadeiras da marca John Deere produzidas na Argentina, a Presidente Cristina Fernandez de Kirchner deixou claro o papel estratégico do apoio governamental a esse setor no País. Nas palavras da presidente, não se tratava apenas de geração de novos postos de trabalho, mas também de balança comercial favorável, pois, no médio prazo, se esperava que a redução das importações fosse acompanhada de aumento equivalente das exportações.

Historicamente, as principais multinacionais do setor de máquinas agrícolas (AGCO, John Deere e CNH) trataram o mercado argentino como uma extensão do mercado brasileiro, principalmente no que tange à oferta dos produtos finais de maior valor agregado. As plantas industriais de tratores e colheitadeiras estavam concentradas no Brasil, que, por sua vez, abastecia os demais mercados sul-americanos.

Nos últimos 10 anos, a produção argentina de grãos cresceu em ritmo acelerado. A elevação dos preços internacionais das commodities agrícolas capitalizou os produtores rurais, gerando incentivos à expansão das áreas de cultivo (notadamente para soja e milho) e à introdução de novas tecnologias. Em condições normais, esse seria um cenário atrativo ao consumo de máquinas agrícolas. Mas as frequentes crises no mercado de divisas limitaram o atendimento dessa demanda via importações.

O Governo argentino, vislumbrando os potenciais transbordamentos de renda da agricultura para a indústria local e a oportunidade de melhorar a balança comercial de um setor historicamente deficitário (US$ 438 milhões em 2007), lançou mão de uma série de medidas voltadas à internalização da produção de máquinas agrícolas. Pelo lado da oferta, a partir de 2011, limitou-se a entrada de produtos estrangeiros de diversos segmentos industriais (inclusive de máquinas agrícolas), impondo-se exigências para a concessão de licenças de importação. No mesmo período, foram estruturados programas visando incentivar a produção industrial doméstica e destravar o investimento. Dentre esses, destaca-se o Regime de Incentivo à Fabricação Local de Bens de Capital, pelo qual as empresas do setor beneficiam-se de um bônus fiscal de 14% sobre o faturamento, utilizado no abatimento de outros tributos nacionais. Adicionalmente, o Programa de Financiamento Produtivo do Bicentenário conferiu vantagens creditícias (empréstimos em pesos, à taxa de juros fixa e subsidiada) para a realização dos investimentos de maior envergadura.

Pelo lado da demanda, o setor de máquinas agrícolas foi incluído no Programa de Financiamento Para a Ampliação e Renovação de Frota, que conta com oferta de crédito específica e um desconto (bonificación) de 7,5%, aplicado sobre a taxa de juros praticada pelo banco oficial.

Além da John Deere, outras multinacionais do setor perceberam o potencial do mercado interno argentino e, frente às dificuldades de acessá-lo através do comércio exterior, aproveitaram os incentivos existentes para aumentar sua representação no País. Novos investimentos foram realizados, sobretudo nos segmentos de tratores e colheitadeiras. Apesar de as vendas internas desses produtos não se terem recuperado integralmente desde a crise internacional e a frustração da safra 2008/09, a produção local cresceu aceleradamente (132,0% para os tratores e 110,8% para as colheitadeiras entre 2008 e 2013). Assim, o mercado interno argentino desses produtos — que, até 2008, era atendido em mais de 80% via importações — será, em 2014, pela primeira vez, abastecido majoritariamente pela produção nacional. Segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos da Argentina, nos três primeiros trimestres de 2014, apenas 39,0% e 31,5% do valor das vendas de tratores e de colheitadeiras realizadas no País corresponderam a máquinas importadas.

Além disso, a Argentina já ensaia os primeiros passos para ingressar no grupo dos grandes exportadores de máquinas agrícolas. Impulsionadas, sobretudo, por um convênio assinado com a Venezuela, as exportações desse segmento cresceram 80,6% entre 2007 e 2013. Persistindo essa tendência, em breve, poderá ser confirmado o vaticínio da presidente argentina quanto ao equilíbrio na balança comercial do setor.

Para a indústria gaúcha de máquinas agrícolas, é preocupante a passagem do país vizinho de principal cliente externo a concorrente nos mercados sul-americanos e africanos. Nos últimos anos, a queda das vendas para a Argentina (-56,7% de 2007 a 2013) não gerou maiores efeitos adversos na indústria local, porque foi mais do que compensada pelo crescimento do mercado brasileiro. Porém, em 2014, com a contração do mercado interno, a indústria local está ressentindo-se da diminuição das compras do país vizinho.

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Reestruturação da dívida argentina

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Edição: Ano 14 nº 02 - 2005

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Em setembro de 2003, o Governo argentino propôs aos credores o pagamento da sua dívida pública externa com desconto de 75% sobre o valor nominal. Dez meses depois, em julho de 2004, as autoridades daquele país admitiram que o desconto original, calculado anteriormente sobre o valor nominal, passasse a incidir sobre o valor real, implicando inclusão dos juros acumulados até aquela oportunidade. Transcorridos outros três meses, em setembro de 2004, a proposta original foi melhorada, ocasião em que foi criado um incentivo — pagamento dos juros ainda em 2005 — para apressar o fim da moratória. Finalmente, em 13 de janeiro de 2005, o Governo apresentou uma proposta de troca (canje) de títulos da dívida original no valor de US$ 81,8 bilhões por três novos títulos — ao par, quase ao par e com desconto, conforme condições da dívida reestruturada, especificadas no quadro a seguir, no valor de US$ 35,8 bilhões.

A agenda da reestruturação iniciou-se em 14 de janeiro de 2005 e deve ser encerrada em 25 de fevereiro, estando previstas a divulgação dos resultados no dia 14 de março e a entrega dos novos títulos em 28 de março do corrente ano. Paralelamente, de 13 a 24 de janeiro, o Secretário de Finanças Gilberto Nielsen visitou Estados Unidos, Itália, Alemanha, Suíça, França e Inglaterra, expondo (road show) a proposta aos credores.

A adesão à troca dos papéis velhos pelos novos bônus deve alcançar 75% dos débitos reestruturados. No dia 5 de fevereiro, prazo final para os portadores de títulos com valor abaixo de US$ 50 mil exercerem a preferência de troca do bônus ao par, a adesão ao canje encontrava-se em 31%, contra a expectativa inicial de que, naquela data, estaria em torno de 40%.

O argumento mais freqüente dos credores contra a proposta baseia-se no fato de que a economia argentina melhorou desde a moratória, e, por isso, as condições da reestruturação deveriam ser alteradas. Efetivamente, em 2004, o País cresceu em torno de 9% pelo segundo ano consecutivo, o saldo comercial atingiu US$ 12 bilhões, as reservas elevaram- se a US$ 20 bilhões, e a inflação esperada para o próximo ano é de 8%. Logo, segundo os credores, a proposta de reestruturação da dívida também deveria melhorar.

Mas o Presidente Kirchner reagiu. Ele apresentou, e o Congresso aprovou, no dia 2 de fevereiro deste ano, um projeto de lei proibindo uma melhora na proposta de reestruturação da dívida.

Em suma, de um lado, o Governo argentino e a sua proposta tornada inflexível; de outro, os credores menores, que são milhares, argumentando que os tribunais, no Exterior, não deveriam aceitar a decisão argentina de encerrar a flexibilização. Entre ambos, os bancos, as empresas de análises de risco e o Comitê Global dos credores.

Antes, os bancos foram criticados por terem vendido títulos da dívida aos investidores por valores elevados, quando a quebra da Argentina era iminente; agora, são contestados por estarem comprando títulos da dívida dos investidores por valores reduzidos, a fim de entrarem no canje. A Standard & Poor´s antecipou que melhorará a qualificação da dívida local após o final do canje. Por fim, o Comitê Global, que repetidamente tem enfatizado a sua força, terá sua representatividade testada no dia 25 de fevereiro, quando se concluírem as negociações.

O Presidente demonstra confiança; os seus oponentes, também. Não bastassem as dificuldades atuais, a Argentina ainda deverá conviver com as imensas adversidades do dia depois, o dia depois do canje: a inflação, o dólar, as reformas, os investimentos, as empresas privatizadas… E por aí vai…

Reestruturação da dívida argentina

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Comércio assimétrico com a Argentina

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Edição: Ano 13 nº 09 - 2004

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Uma análise do comércio Brasil-Argentina e RS-Argentina de 2000 a 2003 mostra que o saldo comercial com esse país foi sempre deficitário (gráfico). Em 1999, a alteração do regime cambial no Brasil aumentou a competitividade dos produtos brasileiros nos mercados externos e deu início às restrições comerciais impostas pela Argentina. Apesar de esse país, em fins de 2001, ter abolido o regime de conversibilidade com o dólar e desvalorizado sua moeda nos meses subseqüentes, essa situação foi acompanhada de uma grande crise interna. E, não obstante a forte recuperação da paridade cambial entre os dois países, o ano de 2002 apresentou a menor corrente de comércio bilateral. A partir de 2003, porém, os fluxos comerciais recuperaram-se, principalmente nas exportações brasileiras para a Argentina, a qual apresentou crescimento generalizado das importações. Enquanto o Brasil aumentou sua participação na pauta importadora da Argentina, esta perdeu representatividade nas importações brasileiras. Essa situação levou a Argentina a questionar os benefícios do processo de integração, aumentando as tensões no comércio, com a adoção de medidas protecionistas unilaterais.

Analisando-se a balança comercial com a Argentina de jan.-jul./04 em relação aos sete primeiros meses de 2003, observa- se que as exportações brasileiras e gaúchas para a Argentina cresceram, respectivamente, 80% e 67%, enquanto as importações oriundas desse país evoluíram apenas 12% para o Brasil e 15% para o Estado. Por decorrência, verificaram-se um saldo superavitário para o Brasil, ao contrário do que vinha ocorrendo, e um menor saldo deficitário para o RS.

Essa situação, parcialmente explicada pelas diferenças de estrutura do comércio bilateral e pelos respectivos tamanhos das economias, gerou grandes insatisfações e retaliações por parte dos argentinos e aprofundou as disputas comerciais entre as duas maiores economias do Mercosul. Várias medidas de caráter unilateral foram anunciadas — algumas já adotadas pela Argentina — para dificultar o acesso de alguns produtos brasileiros, como a adoção de cotas e licenças de importação, dentre outras.

Para os argentinos, essas medidas estão de acordo com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC), tendo em vista a necessidade de proteger a indústria local, com capacidade ociosa, do elevado crescimento das importações, as quais estariam impedindo sua recuperação e comprometendo a geração de emprego. Tais medidas atingiram, em especial, os produtos eletrodomésticos — geladeiras, fogões, máquinas de lavar e televisores —, havendo uma ameaça sobre os calçados. Já os representantes do setor eletroeletrônico brasileiro afirmam que as restrições argentinas não se justificam e infringem as regras do Mercosul. A despeito das diferenças de opiniões, o Brasil não manifestou interesse em discutir a situação na OMC. Isto porque, em processos de integração, existem alguns custos que devem ser assimiláveis pelos maiores sócios, sem que isso represente abdicar da reciprocidade. No caso, se o Brasil quiser manter a hegemonia no Mercosul, talvez precise sustentar uma balança comercial deficitária com a Argentina, para favorecer os ajustes necessários a serem realizados nessa economia, já que, para o Brasil, o Mercosul representa, sobretudo, uma questão estratégica de geopolítica, além da inserção no mercado internacional.

Comércio assimétrico com a Argentina

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