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O Arranjo Produtivo Local de Saúde em Pelotas

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Edição: Ano 25 nº 02 – 2016

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Os denominados Arranjos Produtivos Locais (APL) constituem um tipo de aglomeração territorial de empresas cuja dinâmica se baseia na interação dos agentes locais, os quais, por sua vez, compartilham elementos histórico-culturais formadores daquele território. Trata-se de uma organização produtiva voltada a atividades do mesmo setor e/ou complementares, que conta com a interação não somente das firmas entre si, mas também delas com outras instituições, como universidades, associações, prefeituras, agentes financeiros, entre outras. A proximidade estimula essas relações, o que pode resultar em diferenciais de competitividade para o conjunto de firmas, bem como em práticas de cooperação e parceria, sinergias inovativas e a busca de solução para problemas locais (como infraestrutura, oferta de serviços públicos, etc.).

Em Pelotas, está em desenvolvimento um arranjo produtivo, que tem por base empresas produtoras de bens finais e de serviços relacionados à saúde, e se assemelha, em diversos aspectos, ao que foi acima descrito. A formalização do arranjo deu-se em 2013, com sua integração ao programa de apoio aos APLs implementado pela Agência Gaúcha de Desenvolvimento e Promoção do Investimento (AGDI) do Governo do Estado. Antes disso, porém, já se esboçavam algumas iniciativas a partir de contatos entre empresas e universidades, bem como com a prefeitura e agências de financiamento.

Atualmente, o arranjo está formado por oito empresas produtoras de bens e de serviços relacionados à saúde, quatro instituições de ensino e pesquisa, seis associações e lideranças regionais e duas prefeituras municipais, tendo sido criada uma associação do APL em dezembro de 2015. Em termos de produção industrial, têm-se aparelhos auditivos, cadeiras de roda, aparelhos para diagnóstico, monitores multiparamétricos, instrumentos e acessórios para infusão, materiais odontológicos, entre outros. No que concerne a serviços, o APL fornece análises clínicas com fins de diagnóstico, efetua pesquisas em genotipagem animal e desenvolve sistemas operacionais a serem incorporados a cadeiras de roda.

A estruturação da governança emergiu da iniciativa dos participantes — tanto empresas como instituições — no sentido de fortalecer e dinamizar as relações internas ao arranjo. São realizadas reuniões presenciais mensais, foram criados grupos de trabalho em torno de temas de interesse, são buscadas interações com outras aglomerações produtivas da região e do Estado, visando à troca de experiências e ao estabelecimento de eventuais parcerias. O APL participa de seminários, feiras, congressos, no Brasil e no Estado, como estratégia de integração e de atualização sobre assuntos de interesse do setor. Note-se que o APL tem apresentado capacidade de se abrir às experiências de fora da região, combinando-a com linhas de ação estratégicas definidas endogenamente. Esse fato tem grande importância para o futuro da aglomeração.

Ao mesmo tempo em que deve seguir normas rigorosas de fabricação, a produção de equipamentos de saúde incorpora tecnologias avançadas (embora nem todas as empresas do APL atuem nesse patamar), o que está ligado à busca constante pela inovação. Foi constatado que as empresas se preocupam em valorizar cada vez mais as atividades de computação, eletrônica, mecânica e design de produtos, por exemplo. De fato, a consciência de que se trata de uma atividade intensiva em conhecimento leva as firmas locais a estreitar suas ligações com as diversas instituições de ensino e pesquisa presentes na região, as quais têm um protagonismo marcante desde a origem do APL. Esse é, também, um elemento relevante no que respeita ao futuro do aglomerado.

Pelo lado da demanda, há boas perspectivas para o APL, tendo em vista as alterações no perfil etário da população. Estudos demográficos mostram elevação na esperança de vida (ampliando os cuidados preventivos) e maior incidência de doenças crônico-degenerativas, o que resulta numa expansão da demanda por serviços de saúde tanto públicos como privados. As compras efetuadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) representam parte importante do mercado das empresas do APL, que, por outro lado, não atuam no mercado externo.

Importa salientar que o emprego nas atividades industriais ligadas aos equipamentos de saúde de Pelotas tem um peso muito pequeno no contexto brasileiro dessas atividades (0,9% em 2014). Já no Estado, esse quadro se altera bastante, passando a representar 16,5%. É, pois, no contexto local que devem ser examinadas as potencialidades e as perspectivas desse APL.

O gráfico mostra que o crescimento do emprego no APL foi de 45% entre 2006 e 2014, numa trajetória claramente ascendente. Embora ainda pequeno em proporção ao total do emprego local, esse desempenho indica que se trata de uma atividade com potencial para promover o adensamento do tecido produtivo, numa região até então dedicada à produção alimentar (conservas e arroz) e que teve sua origem ligada à indústria têxtil. Hoje, o componente tecnológico presente (em diferentes intensidades) nos equipamentos e nos serviços de saúde produzidos em Pelotas pode vir a adicionar novos traços ao perfil econômico da região, sobretudo porque conta com a participação de universidades e centros de pesquisa.

Apesar das incertezas que o futuro reserva, pode-se dizer que o APL tem potencialidades significativas para se desenvolver, podendo contribuir para a diversificação industrial com ênfase em atividades de média e alta tecnologia.

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