Textos na área temática: Indústria

Atividade leiteira no RS: produção em queda e preços elevados

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Edição: Ano 26 nº 6 – 2017

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O Rio Grande do Sul é o segundo maior produtor de leite do Brasil, sendo responsável por aproximadamente 14% do leite produzido no País. De acordo com a Pesquisa Trimestral do Leite (PTL) realizada pelo Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE)[1], o Estado produziu, em 2016, 3,2 bilhões de litros de leite. Essa quantidade corresponde a um decréscimo de 6,8% em relação ao ano anterior, no qual foram captados 3,5 bilhões de litros. A retração foi observada nos quatro trimestres de 2016, em comparação com 2015.

A queda na produção não é exclusividade do RS, ocorrendo em outros dois dos cinco principais estados produtores de leite, bem como no total da produção brasileira. Maior produtor de leite do País, o Estado de Minas Gerais registra queda desde o quarto trimestre de 2014, e o Paraná, terceiro maior, desde o terceiro trimestre de 2015.

Entre as causas da retração da oferta é possível citar as condições climáticas desfavoráveis e o aumento dos custos de produção. Em 2016, a redução na oferta de milho, um dos principais componentes da ração, elevou os preços do grão em mais de 60%. Além disso, a ocorrência de casos de adulteração do leite causou prejuízo à imagem do setor no RS.

A redução da oferta doméstica ocorreu paralelamente ao aumento das importações. Já no ano de 2015, a importação de leite em pó integral cresceu 93,5%, passando de 30,3 para 58,6 milhões de quilogramas. Em 2016, o incremento no volume importado foi ainda maior, de 115,2%, totalizando 126,0 milhões de quilogramas. Nos quatro primeiros meses de 2017, foi registrada uma quantidade significativa de leite importado, de 33,1 milhões de quilogramas, o que representa uma alta de 34,3% em relação a igual período do ano anterior. Embora tenha ocorrido uma elevação considerável nos preços em dólar, de 26,5%, a valorização cambial verificada no início do ano contribuiu para manter as importações como alternativa viável, mesmo porque os preços do leite pagos ao produtor seguem em alta após um longo período de retração, que se estendeu de setembro de 2014 a outubro de 2015. De acordo com os dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), tanto no RS quanto no Brasil, a elevação nos preços do leite superou os 30% em 2016. Em agosto de 2016, mês de maior alta, o leite chegou a ficar 68,6% mais caro do que no mesmo período do ano anterior no RS, e 56,1% mais caro no Brasil. Nos três primeiros meses de 2017, os preços seguem subindo. O preço médio pago pelo litro de leite ao produtor no primeiro trimestre apresentou aumento de 25,3% no RS e de 19,8% no Brasil, na comparação com mesmo período do ano anterior.

O consumidor também sentiu o impacto dessa elevação, embora com menor intensidade. De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o item leite e derivados teve um ganho acumulado de 15,1% em 2016, mais que o dobro do índice geral, que foi de 6,3%. O índice foi impulsionado pelos subitens: manteiga, leite condensado e creme de leite, que apresentaram alta de 55,2%, 54,0% e 37,8% respectivamente. Já o leite longa vida, com o maior peso na formação do índice, subiu 12,2%. De janeiro a março de 2017, o IPCA de leite e derivados subiu 1,9%, contra 1,0% do índice geral. Segundo informações do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o consumo total de leite fluido, no Brasil, foi de 32,6 milhões de toneladas em 2016, 2,2 milhões a menos do que em 2015. Além da elevação dos preços, pesou para o consumidor o quadro recessivo pelo qual o País está passando, caracterizado pela queda na atividade econômica, com consequente aumento do desemprego e redução da massa salarial, que, por sua vez, ocasiona retração do consumo.

Embora o IBGE ainda não tenha disponibilizado a PTL do primeiro trimestre de 2017, os dados da pesquisa emprego formal celetista do agronegócio, da Fundação de Economia e Estatística, apontam para uma continuidade do desempenho negativo do setor. Em março de 2017, a indústria de laticínios gaúcha empregava 9.053 trabalhadores com carteira assinada, 99 a menos do que em março de 2016 e 177 a menos do que no mesmo período em 2015. No Brasil, o estoque de trabalhadores vem decrescendo desde novembro de 2015, acompanhando a fase de aceleração dos preços. É interessante notar que a intensidade da queda foi aumentando ao longo dos meses. Em novembro de 2015, primeiro mês de queda, a redução no estoque foi de apenas 0,2%, crescendo até atingir 2,5%, em agosto de 2016. A partir de então, o decréscimo estabilizou-se em torno de 2,1% ao mês até março de 2017, período da última observação disponível. No RS, a maior retração também ocorreu em agosto de 2016, mas sua intensidade foi bastante superior à do Brasil, chegando a -3,2%. Esses dados sobre o emprego condizem com o quadro de oferta restrita de matéria-prima e de continuidade da elevação dos preços.

Para 2017, o USDA projeta recuperação do setor, com incremento tanto da produção quanto do consumo de leite. Entre os fatores que poderiam contribuir para que esse resultado se concretize, cita-se o aumento de 45,8% na produção nacional de milho, com efeitos deflacionários para os custos de produção do leite, o que tende a favorecer a redução dos preços do produto. Entretanto, para o RS, as projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) apontam para um cenário desfavorável, com queda de 5,7% no Valor Bruto da Produção (VBP) da atividade leiteira, o que sugere que o Estado não terá capacidade de reverter essa tendência com tanta rapidez. Em relação à demanda, talvez só a queda dos preços não seja suficiente para que o consumo volte a crescer, sendo também importante um movimento de recuperação da economia e do poder aquisitivo da população.

[1]   Cabe ressaltar que a PTL não contabiliza o leite captado para consumo próprio do agricultor, apenas o destinado à indústria.

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Pensar a indústria gaúcha em um contexto adverso

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Edição: Ano 26 nº 5 – 2017

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A atual recessão que enfrentam as indústrias de transformação brasileira e sul-rio-grandense iniciou em 2013 e, aparentemente, registrou as menores taxas em dezembro de 2015 e janeiro de 2016. Em dez./2015, o Brasil registrou uma taxa de crescimento anualizada da produção industrial de -9,8%, e o RS, de -11,5%. A partir do primeiro trimestre de 2016, ambas as curvas parecem ter encontrado seu ponto de inflexão, ainda que tenham permanecido com taxas acumuladas negativas até fevereiro de 2017 (última informação disponível). Essa desaceleração trouxe consigo uma ampliação do desemprego, sendo que os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), para o ano 2016, revelam saldo negativo em praticamente todas as atividades industriais no RS, com exceção de couro e calçados, de celulose e papel e de produtos químicos.

Diversos argumentos, alguns divergentes entre si, vêm sendo utilizados para explicar essa situação. Alguns apontam para uma administração inadequada das variáveis macroeconômicas e do controle da dívida interna que limitaria os investimentos públicos e privados. Outras abordagens recorrem à desaceleração da economia mundial e a seus reflexos sobre as exportações, tanto de commodities industriais quanto de outros segmentos menos intensivos em tecnologia. Também é ressaltada a crise política que envolveu o processo de impeachment como um fator limitante da formulação de uma política industrial consistente. É evidente que medidas voltadas para a redução da máquina pública, assim como as reformas trabalhistas e da Previdência, tal como estão propostas, poderão estabelecer sérios limites à capacidade de crescimento industrial sustentável.

A despeito das explicações enumeradas, é importante destacar as particularidades relacionadas à indústria gaúcha a partir dos resultados acumulados em 12 meses, obtidos por seus diversos segmentos, até fevereiro de 2017 (IBGE). Esses mostram que o pior desempenho foi registrado pela indústria do fumo (-32%), resultado decorrente da redução da área plantada e agravado pela queda da rentabilidade provocada pelo clima desfavorável. Além dessa, as indústrias que também sofreram redução foram respectivamente: fabricação de coque, derivados do petróleo e biocombustíveis (-13,3%); produtos de minerais não metálicos (-10,9%); bebidas (-9,6%); mobiliário (-8%); produtos de borracha e material plástico (-5,8%); produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (-4,5%); veículos automotores, reboques e carrocerias (-3,6%); produtos químicos (-1,3%); couros, artefatos de couro e calçados (-0,8%); e máquinas e equipamentos (-0,3%). Ressalte-se que alguns segmentos poderão melhorar seu desempenho em consequência da esperada maior colheita de soja da história do Estado. A indústria fumageira, por sua vez, poderá recuperar-se um pouco, visto que a quebra de safra de 2016 foi maior do que o esperado.

A desaceleração da produção da indústria petroquímica vincula-se sobretudo à redução do preço internacional desse insumo. Vale lembrar que o complexo petroquímico vem sendo afetado pela crise institucional da Petrobrás, levando consigo importantes fornecedores gaúchos, como os produtores de plataformas marítimas, inibindo, por conseguinte, a perspectiva de criação do esperado polo naval. O desperdício do acúmulo tecnológico e a perda de empregos qualificados decorrentes do efeito do desmantelamento dessa estatal ainda não foram suficientemente avaliados. Essa empresa, profundamente enraizada na atividade industrial e nos serviços, é uma das principais companhias mundiais em termos de desenvolvimento tecnológico na exploração de petróleo em águas profundas, sendo um importante player do comércio internacional. Levando-se em conta a classificação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) quanto aos indicadores de intensidade tecnológica, o complexo químico-petroquímico é um dos poucos da indústria estadual que se enquadra como de média-alta tecnologia.

De fato, é urgente traçar um horizonte de médio prazo com base no potencial da indústria gaúcha em segmentos que apresentam melhores chances competitivas e capacidade de gerar efeitos multiplicadores sobre a matriz industrial. A definição de um programa que vise ao avanço da indústria gaúcha em termos competitivos passa pelo apoio ao seu desenvolvimento científico e tecnológico. É o caso de apostar em núcleos de alta intensidade tecnológica em que o Estado apresenta um potencial a ser desenvolvido (indústria naval e de instrumentos médicos e odontológicos), bem como estimular a expansão dos setores de média-alta intensidade já existentes (indústria de material elétrico; material de transporte, em particular de máquinas agrícolas e de máquinas-ferramenta).

Em que pese às vicissitudes da política macroeconômica, é mais do que nunca fundamental retomar alguns elementos necessários à elaboração de uma política industrial para o RS. Nesse sentido, é importante referir que uma das principais vantagens estaduais reside no existente aparato institucional de suporte à produção de ciência e tecnologia, capaz de garantir a expansão dos segmentos industriais referidos, cuja continuidade encontra-se ameaçada.

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Recessão e indústria no Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 26 nº 5 – 2017

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Recessões são fenômenos cíclicos que se repetem com frequência irregular em todas as economias de mercado. Tais períodos são caracterizados por uma queda simultânea em diversas atividades econômicas e, em geral, envolvem um alto custo social, com aumento do desemprego e queda na produção, nas vendas e na renda. Períodos assim, no entanto, constituem a exceção e não a regra na história econômica. Em outras palavras, toda recessão, uma hora ou outra, acaba e é substituída por uma nova fase de expansão, que, em média, dura mais que os períodos recessivos. Cada recessão, contudo, apresenta características que a tornam singular, seja pelos mecanismos causais, seja pelos canais de transmissão que atuam em determinado momento histórico. Não é objetivo deste texto tratar dessas especificidades, mas tão somente analisar o comportamento da produção industrial do estado à luz dos períodos de recessão no Brasil.

No Brasil, entre 1980 e 2009, houve oito períodos recessivos, com duração média de 15,8 meses, segundo o Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos (Codace-Ibre-FGV). As mais longas recessões do País, contudo, concentram-se na década de 80 e no início da década de 90, com duração média de 26 meses.

Em 2014, o Brasil entrou em sua mais recente — e longa — recessão desde a década de 80, sendo esta, talvez, a mais longa de sua história. E, com ela, a atividade econômica deteriorou-se rapidamente, processo que se intensificou em 2015 e 2016. As taxas de crescimento trimestrais tornaram-se negativas a partir do segundo trimestre de 2014, tanto no Brasil quanto no RS, indicando uma simultaneidade entre o início da fase recessiva de ambos. Com isto, nos últimos três anos, a queda acumulada no Produto Interno Bruto (PIB) foi de 6,8% no Brasil e de 6,6% no RS.
Diante dessa conjuntura, a indústria foi um dos setores que mais sofreu no Estado. O Valor Adicionado Bruto (VAB) da indústria gaúcha, nos últimos três anos, sofreu queda de aproximadamente 18%, sendo a maior parte relativa à indústria de transformação. Contudo é justamente nessa atividade onde começam a aparecer os primeiros sinais de arrefecimento na contração do setor, talvez na própria recessão no Rio Grande do Sul.

Para avaliar o cenário recessivo no qual está inserida a economia do Rio Grande do Sul, é interessante observar o comportamento da produção da indústria gaúcha. Existem dois motivos principais pelos quais o índice de produção industrial pode ser utilizado nesse contexto. Primeiramente, é um indicador historicamente utilizado como proxy mensal da atividade econômica de um país. No entanto, com o aumento considerável da participação dos serviços no produto, foi substituído por outras proxies mais adequadas para esse fim. Contudo a produção física da indústria ainda pode ser entendida como um indicador coincidente da atividade econômica. Isto é, os movimentos cíclicos na indústria tendem a acompanhar conjuntamente os ciclos econômicos e, portanto, podem dar algumas pistas sobre o comportamento da economia com uma frequência mais alta que o PIB, uma vez que os dados de produção industrial estão disponíveis mensalmente, enquanto o PIB é divulgado somente a cada trimestre.

A figura a seguir mostra o comportamento do índice de produção física do Rio Grande do Sul da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no período de janeiro de 2002 a fevereiro de 2017, juntamente com a datação das recessões no Brasil realizadas pelo Codace. Nesse período, o País entrou em recessão três vezes. A primeira foi iniciada em novembro de 2002 e findada em junho de 2003; a segunda começou em agosto de 2008 e teve término em janeiro de 2009. Mais recentemente, no segundo trimestre de 2014, o país entrou em sua primeira recessão nesta década.

Ao longo desse período, é possível observar alguns momentos de queda na produção industrial. Nota-se que há épocas de retração mais branda da atividade, associados a períodos de seca no Estado, como nos anos de 2004-05 e 2012. Contudo as contrações mais intensas nesse indicador estão associadas a períodos de recessão nacional, indicando uma alta correlação entre a queda cíclica da atividade econômica no País e a produção da indústria gaúcha.

Percebe-se também que o comportamento do indicador não é homogêneo entre os períodos recessivos nacionais. Nas duas primeiras recessões, nota-se uma rápida e profunda queda da série, seguida de uma recuperação igualmente veloz e intensa. Tais características, contudo, não parecem estar presentes na atual recessão. Alguns meses antes do início da terceira recessão, a produção industrial já vinha demonstrando tendência de queda. Após o início do período recessivo, essa tendência aprofundou-se, havendo pequenas oscilações entre crescimento positivo e negativo em torno da tendência contracionista.

Todavia, ao final do período em análise, os primeiros sinais de “trégua” na recessão começaram a aparecer na produção industrial do Rio Grande do Sul. Em primeiro lugar, o menor nível de produção da série histórica foi atingido em abril de 2016. Desse ponto até fevereiro de 2017, o indicador já acumula quase 8% de crescimento. Em segundo lugar, a frequência com que ocorreram taxas positivas de crescimento em seis meses (i.e., t/t-6) — entre as atividades da indústria de transformação gaúcha (alimentos, bebidas, fumo, couro, celulose, derivados de petróleo, químicos, borracha e plástico, metalurgia, produtos de metal, máquinas e equipamentos, veículos e móveis) — aumentou.1 Contudo, como explicado anteriormente, toda recessão tem seu fim. Salvo alguma mudança estrutural na economia que inverta para baixo a tendência de longo prazo do setor, o mesmo vale para quedas cíclicas setoriais. E quanto mais tempo dura a contração, mais aumentam as chances de a mesma se encerrar. Na produção industrial do Rio Grande do Sul, essa queda iniciou em outubro de 2013, havendo chances de ter findado ainda em 2016, caso a trajetória positiva da série se mantenha nos próximos meses. Poderia esse ser um indicativo de que a recessão no Estado está com os dias contados?


1 As séries foram dessazonalizadas utilizando o método X13-ARIMA-SEATS.

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Reflexões sobre as novas exigências de conteúdo local e o Polo Naval de Rio Grande

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Edição: Ano 26 nº 4 – 2017

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A indústria naval e offshore é uma indústria complexa que envolve diversas etapas ao longo do tempo para o planejamento e a montagem de produtos de alto valor agregado. Nas últimas décadas, os processos de produção evoluíram e houve uma crescente automação dessas etapas. Para que o setor seja competitivo, são necessários investimentos elevados, cujo retorno se dá após longa maturação, de modo que uma demanda estável por um período prolongado torna-se fundamental.
A exigência de conteúdo local é um expediente utilizado pelo Governo Federal para ampliar a participação da indústria nacional no fornecimento de bens e serviços, gerando emprego, renda e desenvolvimento tecnológico. Os contratos de concessão para exploração, desenvolvimento e produção de petróleo e gás natural são firmados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) com as empresas vencedoras nas rodadas de licitações e incluem a cláusula de conteúdo local.
Desde o início dos anos 2000, a decisão da Petrobras de priorizar a aquisição de navios e de plataformas no País por meio do estabelecimento de uma política de conteúdo local nacional foi a principal responsável pela recuperação da indústria naval brasileira. Entretanto, essa indústria está novamente em risco. Em razão da queda do preço do barril de petróleo, somada à crise na Petrobras, além das deficiências nas regras de conteúdo local, que vigoraram desde 2005, com a aferição ex post dos índices de conteúdo, novas regras, que representam uma redução substancial das exigências, foram acertadas. Essas regras vão valer em todas as rodadas que serão realizadas a partir da 14.a, prevista para o mês de setembro de 2017.

A crise na Petrobras levou ao redimensionamento de suas atividades, afetando as encomendas e os empregos tanto no setor como na cadeia produtiva. Além do cancelamento de encomendas, houve atrasos nos pagamentos aos estaleiros e nas decisões de investimento e expansão da produção. A corrupção e o endividamento excessivo de alguns estaleiros também colaboraram para agravar a situação. Conforme o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o setor naval já perdeu aproximadamente 44% dos empregos entre 2014 e 2016, passando de 71,5 mil para 40,2 mil respectivamente. No Conselho Regional de Desenvolvimento (Corede) Sul do Rio Grande do Sul, os municípios mais afetados pela situação atual da Petrobras são Rio Grande e São José do Norte. No primeiro, dos 7.483 empregos no setor naval, em dezembro de 2014, só restaram 1.651 no final de 2016, incluindo, nesse número, a demissão, no mês de dezembro, de mais de 3.000 trabalhadores por parte do Estaleiro Rio Grande. Um certo alívio sobreveio em março de 2017, quando a Petrobras e o Consórcio QGI firmaram um contrato para a montagem das plataformas P-75 e P-77. Com a retomada dessa encomenda, haverá uma recuperação parcial do emprego no setor, nesse município. Já no Município de São José do Norte, o estaleiro EBR continua montando a P-74, cuja conclusão está prevista para os próximos meses. Nesse município, os empregos no setor ficaram em 817, 2.883 e 2.613, respectivamente, nos meses de dezembro de 2014, 2015 e 2016. O problema do Polo Naval do Corede Sul é que não há previsão de novos projetos e que as encomendas da Petrobras, depois da reestruturação em curso, sofrerão uma redução substancial. Além disso, as novas regras de conteúdo local constituem um desestímulo às empresas nacionais para efetuar investimentos que exigem uma demanda estável durante longos períodos para recuperar os pesados investimentos. A política de conteúdo local incentivou a entrada em operação de empresas nacionais e permitiu o adensamento da cadeia produtiva, possibilitando o desenvolvimento de uma indústria de fornecimento de bens e serviços relativamente sofisticados tecnologicamente. Entretanto, com a redução das exigências, as empresas estrangeiras que se instalaram no território brasileiro para atender a demanda de conteúdo local não terão o mesmo estímulo para continuar produzindo no País e poderão transferir suas operações para o exterior. Assim o fazendo, estarão prejudicando aqueles fornecedores locais da cadeia produtiva que investiram para atendê-las.

Ao optar pela redução do conteúdo local, o Governo favorece a substituição de fornecedores locais da indústria naval e offshore por fornecedores externos. Com essa decisão, praticamente desconsiderou que a política de conteúdo local anterior incentivou as empresas do setor a investirem na produção de bens e serviços e possibilitou o desenvolvimento de uma indústria tecnologicamente mais sofisticada, que permitiu a redução do hiato de competitividade com o exterior.1 A redução das encomendas já tinha abalado profundamente a indústria naval e offshore brasileira, mas a mudança nas regras de conteúdo local representa um fator adicional, que restringe as possibilidades de uma maior participação das empresas nacionais nessa indústria. O percentual de conteúdo local mínimo na produção de plataformas, por exemplo, passou de 55% para 25%, apresentando uma redução de 54,5%, retalhando, assim, a cadeia produtiva e tornando o País um simples montador de plataformas. No caso do Rio Grande do Sul, considerando a redução das encomendas e as novas regras de conteúdo local, o retrocesso do Polo Naval do Corede Sul é inevitável.

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Inovação nas indústrias brasileira e gaúcha: há o que celebrar?

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Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

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Os últimos dados da Pesquisa de Inovação (Pintec) de 2014, referente ao triênio 2012-14, divulgados recentemente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam poucos avanços em termos de desempenho e esforço inovativo por parte das empresas brasileiras e gaúchas. As informações, relacionadas às atividades de inovação desenvolvidas em empresas brasileiras, dos setores industrial, de eletricidade e gás, e de alguns serviços selecionados (como os de P&D), foram coletadas em uma amostra de 17.171 empresas, representativa de um universo de 132.529 firmas com 10 trabalhadores ou mais, sendo a maioria delas pertencentes ao setor industrial.

No Brasil, a taxa de inovação da indústria (extrativa e de transformação) foi de 36,4%, valor este não muito acima do computado no triênio anterior (2009-11), de 35,6%. Isso significa que pouco mais de um terço das empresas industriais realizaram algum tipo de aprimoramento substancial e/ou criaram um novo produto e/ou processo produtivo. No Rio Grande do Sul, a taxa foi superior à brasileira, 41,7%. Porém, em comparação ao período anterior, houve uma redução (42,2%), e o Estado perdeu uma posição na classificação nacional, passando do segundo para o terceiro lugar. Vale frisar que tanto o Brasil como o RS ainda não recuperaram os percentuais da Pintec 2008 (triênio 2006-08), quando a taxa de inovação na indústria atingiu os melhores níveis da série: 38,1% e 44,1% respectivamente.

Em 2014, as taxas de intensidade inovativa — proporção dos gastos das empresas com atividades de inovação em relação à receita líquida de vendas — também se reduziram no Brasil e em vários estados, a exemplo do RS. Na indústria brasileira, foi de 2,1%, enquanto, em 2011, alcançou 2,4%. No RS, a diminuição foi menor, passando do patamar de 2,2% para 2,1%.

Outro ponto sensível foi a inexistência ou o baixo grau de relevância imputado pelas empresas às ações de maior impacto de difusão e de criação inventiva. Como no triênio passado, as atividades internas em P&D, a aquisição externa de P&D, a aquisição de outros conhecimentos externos e a introdução de inovações tecnológicas no mercado representaram uma parte diminuta das ações executadas. Em oposição, prevaleceu, entre as ações pontuadas como de alta importância, a aquisição de máquinas e equipamentos (54,0% no Brasil e 59,6% no RS). A alta valoração conferida a essas aquisições pode revelar limites no potencial de geração de inovações próprias e recrudescer a dependência tecnológica externa.

A não realização ou a baixa relevância atribuídas às ações inovativas mais robustas dificultam o potencial de criação de novos produtos e/ou processos. Cotejando os dois últimos triênios, no Brasil, o lançamento de novos produtos e novos processos para o mercado nacional ficou estável: nos produtos, passou de 3,7% para 3,8%; e, nos processos, elevou-se de 2,1% para 2,6%. No Estado, os indicadores foram mais favoráveis: nos produtos, ocorreu um acréscimo de 5,5% para 6,3%; e, nos processos, de 2,3% para 3,2%. De fato, ao se examinar a série da pesquisa, constata-se que as empresas industriais gaúchas, em comparação com a média das brasileiras, conseguem obter melhores resultados nas suas atividades de inovação.

Em relação ao número de profissionais inseridos em atividades de P&D, não foram observadas grandes mudanças. Em 2014, na média nacional, 1% da mão de obra industrial esteve alocada em ações de P&D, ao passo que, em 2011, essa participação foi de 0,9%. Já no RS, embora a fração tenha sido semelhante, 1,2%, houve uma redução no número absoluto de pessoas ocupadas em funções de P&D. Nessas atividades, mais da metade dos profissionais são pesquisadores; ou seja, envolvem-se na concepção e/ou na criação de novos conhecimentos técnicos, produtos, processos, métodos e sistemas e na gestão dos projetos. No Brasil, 7,9% desses pesquisadores são pós-graduados. No RS, essa proporção é um pouco inferior, 6,5%. Um dado positivo para o Estado foi que, na comparação com 2011, houve um crescimento de 2,6 pontos percentuais, o que permitiu recuperar o nível de 2008 (6,5%).

Em linhas gerais, o panorama desenhado pela Pintec 2014 caracteriza-se pela estabilidade dos principais indicadores de inovação. Pode-se comemorar? Por um lado, sim, se se considerar que os níveis desses indicadores se mantiveram, apesar do cenário econômico adverso. Particularmente no País, deve-se ter em conta também os efeitos da desaceleração econômica a partir de 2014 e o período da coleta das informações da pesquisa (julho de 2015 a agosto de 2016), que transcorreu num contexto bastante atribulado nos campos econômico e político.

Por outro lado, para os próximos anos, os desafios serão enormes vis-à-vis os efeitos do ajuste fiscal, que muito provavelmente penalizarão áreas importantes para o desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no País e no Estado. A aposta deve centrar-se no aprimoramento e no monitoramento das políticas de CT&I. Um exitoso exemplo de acompanhamento de ações de CT&I foi o estudo da FEE, Ciência, Tecnologia e Inovação no Rio Grande do Sul, publicado em 2014. Além do rico acervo estatístico sobre o tema, a análise permitiu identificar fragilidades no sistema de inovação gaúcho, como o baixo esforço inovativo das empresas industriais gaúchas e os insuficientes dispêndios públicos em atividades de C&T.

Como citar:

SPEROTTO, Fernanda Queiroz. "Inovação nas indústrias brasileira e gaúcha: há o que celebrar?," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 28 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/inovacao-nas-industrias-brasileira-e-gaucha-ha-o-que-celebrar/>.

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A persistência dos efeitos da queda da indústria de transformação no RS

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

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Na nova série de Contas Regionais do IBGE e da FEE, o crescimento acumulado do PIB do Rio Grande do Sul entre 2003 e 2014 foi maior apenas que o do Estado do Rio de Janeiro, ocupando a 26.ª posição entre os estados brasileiros. Em uma primeira observação, esse resultado pode indicar que o nosso estado passa por uma crise crônica que o faz ser incapaz de acompanhar o ritmo da economia nacional. Entretanto, uma análise mais acurada mostra que se olharmos a série a partir de 2006, configura-se outro resultado, com o RS apresentando um desempenho melhor (21.º) e mais próximo à média nacional, com um crescimento acumulado maior que o dos outros estados da Região Sul (Santa Catarina e Paraná) e de outras duas grandes economias estaduais (Minas Gerais e Rio de Janeiro). Entre os grandes Estados, o RS ficou atrás apenas de São Paulo. Compreender o que ocorreu no RS, tanto nos anos iniciais da série quanto na sua persistência no tempo é importante, principalmente devido aos seus efeitos sobre o PIB per capita, sobre a participação do Estado na economia nacional e sobre a arrecadação de impostos.

A primeira suspeita obviamente recai sobre a estiagem que se abateu sobre o Estado em 2004 e 2005, provocando severas perdas para a agropecuária. Entretanto, ela recuperou essas perdas em 2006 e exibiu um crescimento acumulado superior ao brasileiro de 2003 a 2014, mesmo com outra estiagem severa em 2012. Dessa forma, as perdas agrícolas decorrentes de problemas climáticos não podem explicar diretamente o desempenho gaúcho durante todo o período.

No gráfico, podemos ver que a indústria de transformação gaúcha teve desempenhos negativos em 2005 e 2006, enquanto o desempenho brasileiro, apesar de pequeno, foi positivo. Como o diferencial observado com o desempenho nacional não foi recuperado nos anos subsequentes, e, a partir de 2007, a indústria de transformação do RS e do Brasil tiveram desempenhos bastante similares, é na queda especificamente local da indústria de transformação desses anos que se encontra a maior diferença acumulada no PIB para o conjunto da série. Por que, nestes dois anos (2005 e 2006) especificamente, as atividades industriais se descolaram do desempenho do restante do País? Apesar de ser comum a ideia de que a valorização da taxa de câmbio está associada ao desempenho negativo da indústria gaúcha, ela não explica o porquê da retomada industrial a partir de 2007, mesmo com o câmbio valorizando-se até a crise de 2008 e em 2010 e 2011.

Se, além da seca e do câmbio, observarmos a redução da taxa de formação bruta de capital fixo nacional e o comportamento dos preços agropecuários, principalmente o da soja, nos anos de 2005 e 2006, poderemos acrescentar uma hipótese multicausal para o que aconteceu nesses anos e, assim, compreender melhor a dinâmica interna da nossa economia. A indústria de transformação é impactada diretamente de duas formas pela produção agropecuária: a montante, acarretando uma redução de demanda por insumos, e a jusante, provocando uma redução de oferta agrícola. A valorização da taxa de câmbio aumenta a concorrência externa aos produtos industriais, prejudicando tanto suas vendas internas quanto suas exportações. A redução do investimento nacional diminui a demanda por bens de capital e sua cadeia de fornecedores. A queda dos preços internacionais, combinada com a valorização do real, reduz a renda agrícola mediante a queda do valor da produção.

O efeito da estiagem é local, e sua duração por dois anos amplificou o impacto da demanda sobre o setor de insumos. Os efeitos do câmbio e do investimento nacional impactaram toda a indústria nacional, mas, ainda mais, a indústria gaúcha devido à especificidade de sua estrutura. O efeito da queda de preços da soja, apesar de atingir todo o País, atingiu mais o Estado porque esta veio combinada com a redução da quantidade, causada pela estiagem. Ao atingir um contingente significativo de ocupados no RS, a queda de renda reduziu a demanda por bens locais, e, mais fortemente, por bens de capital (máquinas e implementos agrícolas). A importância do efeito-renda é corroborada pelo desempenho inferior do comércio gaúcho comparado ao nacional até 2009. Outra forma de vermos a questão é compararmos o que acorreu depois da seca de 2012 com a rápida recuperação decorrente da elevada capitalização do setor agrícola e do nível alto de preços da soja em 2012.

Entre os resultados do menor nível no volume do PIB do RS no período, a partir da queda da indústria de transformação gaúcha, a diminuição da arrecadação de impostos é que tem um significado mais direto para a atual situação fiscal do Estado. Como mais de 45% do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) é arrecadado pela indústria de transformação, o fato de a taxa acumulada pela indústria estar 70% inferior à brasileira ao longo do período de 2003 a 2014 indica uma potencial perda de arrecadação que poderia minorar as dificuldades fiscais do Estado e dos municípios. O efeito estrutural das consequências dessa queda e o caráter exógeno das causas do problema revelam a dificuldade de os governos estaduais e municipais mitigarem sozinhos suas consequências. Problemas como esses deveriam receber um tratamento diferente da Federação, sendo um dos objetos de um redesenho do pacto federativo.

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Como citar:

ROCHA, Roberto. "A persistência dos efeitos da queda da indústria de transformação no RS," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 28 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/a-persistencia-dos-efeitos-da-queda-da-industria-de-transformacao-no-rs/>.

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A produção industrial no RS, em 2016, e suas perspectivas de crescimento

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

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A indústria de transformação (IT), no Rio Grande do Sul, apresentou, no período de janeiro a novembro de 2016, uma queda acumulada de 4,3% na produção física em relação ao mesmo período do ano anterior, de acordo com a Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No acumulado do ano, esse desempenho esteve ligeiramente acima da sua congênere nacional, a qual apresentou uma diminuição de 6,9% no volume de produção.

Em 2016, apenas quatro atividades industriais, no RS, apresentaram taxas positivas de crescimento, a saber: Fabricação de celulose e produtos de papel (36,9%), Metalurgia (2,7%), Artefatos de couro e calçados (2,4%) e Produtos alimentícios (1,0%). As demais atividades apresentaram queda na produção física. Esse fraco desempenho veio a se somar às quedas ocorridas em anos anteriores. Assim, quando se observam as taxas médias anuais de variação da produção física no período 2011-15, verifica-se que apenas três atividades apresentaram taxas positivas de crescimento. Como resultado, ao longo desses cinco anos, a taxa média de variação da IT foi de -2,7% a.a. (Gráfico), valor muito próximo ao da sua similar nacional (-2,8% a.a.). Essas sucessivas quedas da produção física fizeram com que a produção industrial, no Rio Grande do Sul, encerrasse 2016 cerca de 9,5% abaixo do nível de 2002.

Em virtude de o parque industrial do RS representar segmentos da indústria nacional, não há como dissociar o desempenho do primeiro em relação ao segundo. Assim, a análise da evolução da produção física ao longo de uma série de tempo mais longa demonstra que os ciclos de crescimento e queda da produção industrial do Estado seguem os ciclos da indústria nacional. Em função de algumas especificidades do parque industrial instalado no RS, como, por exemplo, a elevada participação da indústria de produtos alimentícios, de máquinas e equipamentos, da fabricação de veículos automotores e também da fabricação de produtos químicos, as quais, em conjunto, representam aproximadamente 47,0% do valor da transformação industrial, os ciclos da indústria, no Estado, tendem a apresentar maiores oscilações do que a média nacional. Portanto, é no desempenho da economia nacional que se devem buscar os principais determinantes das oscilações da produção industrial do Estado.

Em que pese o fato de que as menores taxas de queda na produção verificadas em 2016 já sinalizem para uma reversão do ciclo — em 2015, a queda na produção foi de 11,5% — e na possibilidade de que ocorra algum crescimento em 2017, convém destacar que o fraco desempenho dos últimos anos acaba retirando mercados das indústrias instaladas, bem como promovendo a saída de tantas outras que não foram capazes de enfrentar a crise. Tal fato cria fissuras na estrutura industrial através da quebra de relações de encadeamento industrial, cuja superação somente se dará no longo prazo, em um novo ciclo de crescimento. Por outro lado, uma vez retomado o crescimento, tais fissuras podem gerar gargalos que venham a comprometê-lo, originando a possibilidade de se ter que substituir por importações o que antes era produzido no mercado doméstico.
Em função da elevada participação da produção industrial no PIB estadual e também pelos seus efeitos multiplicadores, a retomada do crescimento da economia do Estado passa, necessariamente, pelo retorno do seu crescimento. Essa retomada, por sua vez, irá depender da reversão do cenário recessivo que se tem apresentado na economia brasileira nos últimos dois anos. De forma semelhante ao que ocorre em nível nacional, até mesmo a melhora das contas públicas do Estado irá depender muito mais da retomada da atividade econômica do que de políticas de corte nos gastos públicos. Estas últimas contribuem para a redução da demanda e, consequentemente, também para a queda na arrecadação tributária, o que pode acabar acarretando uma deterioração ainda maior da situação fiscal do RS.

A reversão cíclica que possa recolocar o Brasil em uma trajetória de crescimento de longo prazo irá depender, no entanto, de um conjunto de elementos que vão desde a solução dos graves problemas políticos que assolam o País, a retomada dos investimentos em infraestrutura nacional e o reajuste do câmbio e dos juros, de forma a favorecer uma maior competitividade industrial. Concomitantemente, fazem-se necessárias medidas que possibilitem o reaquecimento do mercado interno e do consumo das famílias. Somente após a correção dessa trajetória, que leve a um aumento do uso da capacidade instalada e gere perspectivas de rentabilidade futura, pode-se esperar um retorno dos investimentos que estejam acima do nível de depreciação do capital existente. Por fim, convém destacar que muitas das decisões de investimentos dependem de empresas que têm seu centro de decisão fora do País, as quais, portanto, irão avaliar não apenas a estabilidade econômica nacional e o potencial de crescimento do mercado doméstico, como também as alternativas que se colocam no cenário internacional.

Esse conjunto de elementos faz com que a retomada da atividade econômica do Estado, a melhora nas condições sociais e a solução para a crise das finanças públicas estejam, em grande parte, fora do alcance das autoridades estaduais. De qualquer forma, cabe aos gestores públicos atuarem no sentido de preservar e aprimorar as áreas de educação, pesquisa, saúde, social e de infraestrutura, para que, uma vez retomado o crescimento, coloquem a economia do RS em condições competitivas no cenário nacional. Tais medidas, associadas à existência de um parque industrial diversificado e às vantagens associadas à condição de fronteira, podem favorecer a economia do Estado em um novo ciclo de crescimento.

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Como citar:

CONTRI, André Luis. "A produção industrial no RS, em 2016, e suas perspectivas de crescimento," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 28 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/a-producao-industrial-no-rs-em-2016-e-suas-perspectivas-de-crescimento/>.

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Competitividade em aglomerações produtivas e Arranjos Produtivos Locais no RS

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

Área temática:

Em novembro último, uma equipe de pesquisadores da FEE publicou o e-book Aglomerações e Arranjos Produtivos Locais no Rio Grande do Sul, que faz uma síntese de estudos realizados em 11 aglomerações produtivas (APs) e Arranjos Produtivos Locais (APLs) do RS. A pesquisa originou-se de uma solicitação do Governo do Estado por informações e análises para subsidiar a elaboração de ações de apoio no âmbito do Projeto de Fortalecimento dos Arranjos Produtivos Locais. Procurou-se identificar APs industriais nos Conselhos Regionais de Desenvolvimento (Coredes) e selecionar para estudo — por critérios de importância estratégica — casos que possuíssem potencial para contribuir para o desenvolvimento econômico das respectivas regiões. Objetivou-se investigar a aderência das APs selecionadas ao conceito de APL; delinear a cadeia produtiva dessas aglomerações e analisar os fatores determinantes da competitividade das empresas; e sugerir ações para o seu desenvolvimento. Os casos estudados foram: instrumentos médicos (Cidade de Pelotas), gemas e joias (Alto da Serra do Botucaraí), máquinas agrícolas (Central e Jacuí-Centro), máquinas agrícolas (Alto Jacuí e Produção), componentes eletrônicos (Metropolitano Delta do Jacuí e Município de São Leopoldo), máquinas-ferramenta (Vale do Rio dos Sinos e municípios adjacentes), setor automotivo (Serra), móveis (Serra), calçados (Vale do Rio dos Sinos e Paranhana-Encosta da Serra), laticínios (Fronteira Noroeste e Celeiro) e laticínios (Vale do Taquari). Este drope foca a apresentação das vantagens e dos gargalos à competitividade que se repetiram com maior frequência nesses casos, pois refletem vetores gerais incidindo sobre a indústria gaúcha.

A relevância das políticas para os APLs, enquanto instrumentos de desenvolvimento setorial e regional, reside nos benefícios proporcionados pela aglomeração de empresas de uma mesma atividade. Sob a ótica teórica, APs e APLs permitem a criação de sinergias — economias externas — a partir da escala de mercado gerada, possibilitando a instalação de fornecedores de insumos, de máquinas e equipamentos e de serviços, assim como a formação de um mercado de trabalho com mão de obra qualificada, voltados às necessidades da produção local. Isso gera benefícios, como acesso a recursos específicos, troca de conhecimentos produtivos e comerciais, maior visibilidade política ao pleito de demandas junto ao poder público, entre outros. A proximidade também facilita a interação e a cooperação para a solução de problemas comuns, com base no capital social e na cultura compartilhada. Em especial, no processo de desenvolvimento de inovações, as interações entre os atores são fundamentais devido às trocas de recursos e de conhecimentos científicos e tecnológicos. A apropriação desses fatores pelas empresas eleva sua competitividade — sendo particularmente importantes para as de micro e pequeno porte, que possuem maiores dificuldades em investir na formação de suas capacitações produtivas e tecnológicas — proporcionando aumentos de produção, emprego e renda, contribuindo, dessa maneira, ao desenvolvimento econômico regional. O Rio Grande do Sul, inclusive, foi pioneiro, no Brasil, na aplicação deste tipo de política desde 1999, sendo seguido pelo Governo Federal a partir de 2004.

As análises dos casos pesquisados revelaram que as vantagens competitivas mais frequentes residem nas economias de aglomeração. Os entrevistados destacaram o apoio das instituições locais, especialmente as de ensino e pesquisa (públicas ou privadas), de treinamento profissional e de assessoramento. Essas formam recursos humanos qualificados, realizam pesquisas e desenvolvem tecnologias, transferindo-as às empresas, além de prestarem serviços tecnológicos através do acesso à sua infraestrutura de laboratórios. Foi apontado que as funções desempenhadas por essas organizações gaúchas efetivamente contribuem para a competitividade das empresas. Os atores locais relataram que existe disponibilidade de trabalhadores aptos para a realização de tarefas de menor complexidade e sofisticação na produção e, sobretudo, para a fabricação de produtos tradicionais das APs e dos APLs pesquisados. Algumas empresas de grande e médio porte de setores intensivos em tecnologia — como o automotivo e o de máquinas agrícolas — também conseguem possuir capacitações próximas à fronteira tecnológica de suas atividades. Contudo, essa realidade não é comumente partilhada pelas empresas menores da mesma AP ou do mesmo APL.

Dentre os limitantes à competitividade indicados reiteradamente, especialmente para as micro e pequenas empresas, elencam-se dificuldades que se devem: à baixa capacitação em técnicas de gestão e de comercialização; ao acesso restrito às linhas de crédito; à ausência de fornecedores locais para determinados insumos — sobretudo para aqueles de maior complexidade tecnológica, com destaque para os componentes eletrônicos, requerendo sua importação de outros estados ou do exterior; à insuficiência financeira para a aquisição de máquinas e equipamentos tecnologicamente atualizados; aos baixos investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D); à baixa frequência na interação universidade-empresa para o desenvolvimento de inovações tecnológicas; e ao elevado custo de logística. Assim, em alguns casos, encontram-se limitações nas capacitações das empresas, como defasagens tecnológicas em produtos e processos produtivos, baixa disponibilidade de trabalhadores com determinadas qualificações, entre outras, que dificultam a inserção em segmentos de mercado de produtos de maior valor agregado, mesmo em setores tradicionais (por exemplo, gemas e joias). Somam-se a isso alguns obstáculos que limitam a cooperação em APLs, destacando-se as dificuldades para integrar as micro e pequenas empresas com as de maior porte, a ocorrência de acirrada competição através de estratégias de baixo custo e baixo preço em determinados nichos de mercado; e a fragilidade da governança estabelecida quanto à sua capacidade de representar os interesses dos diferentes grupos de atores locais.

Resumidamente, esses foram os determinantes da competitividade mais frequentemente encontrados nos casos estudados, indicando algumas das questões a serem tratadas. Nesse rumo, ressalta-se a necessidade de ampliar o fomento à pesquisa e ao desenvolvimento científico e tecnológico no Estado e à sua difusão entre as empresas gaúchas. Evidentemente, as vantagens e os obstáculos apontados variam em importância e intensidade de seu impacto sobre a competitividade, estando detalhados nos estudos individuais. Alinhada à missão da FEE, espera-se que o e-book e os demais produtos da pesquisa contribuam à elaboração de ações, pelos poderes públicos e pelos atores locais, voltadas ao desenvolvimento econômico de cada AP ou APL, além de servirem como fonte de informações à comunidade acadêmica, estando os mesmos disponibilizados na internet.

Como citar:

COSTA, Rodrigo Morem da. "Competitividade em aglomerações produtivas e Arranjos Produtivos Locais no RS," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 28 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/competitividade-em-aglomeracoes-produtivas-e-arranjos-produtivos-locais-no-rs/>.

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Recuperação na indústria de transformação?

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Edição: Ano 25 nº 11 – 2016

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A possibilidade de recuperação da indústria de transformação nacional tem sido apresentada como o principal elemento dinâmico de uma eventual retomada da economia brasileira. Em que pesem a melhora das expectativas dos empresários do setor, o crescimento das exportações e a tendência de estabilização da produção na margem, os dados parecem indicar, quando muito, um crescimento lento a partir de um patamar bastante reduzido.

Após um longo período de ajustes, que resultou numa redução acumulada da produção de 18% entre o primeiro trimestre de 2014 e o primeiro trimestre de 2016 — segundo dados da Pesquisa Industrial Mensal-Produção Física (PIM-PF) do IBGE —, alguns setores da indústria de transformação passaram a exibir um desempenho mais favorável a partir de abril deste ano, pelo menos na comparação com o trimestre imediatamente anterior. Esses setores podem ser divididos em dois grupos. No primeiro, estão aqueles cuja rentabilidade aumentou com a depreciação do real, com reflexos tanto na ampliação das exportações quanto no aumento da parcela do mercado interno atendida pela produção nacional. Podem ser incluídos, nesse grupo, calçados, têxteis, papel e celulose e químicos. No segundo grupo, estão os setores vinculados à produção de bens de capital, categoria que registrou uma expansão de 7,0% entre abril e agosto. Incluem-se, nesse grupo, parte da metalurgia e a produção de máquinas e equipamentos, de material elétrico e de equipamentos de informática. A expansão da produção de bens de capital parece refletir a conjunção de três fenômenos: a ampliação de exportações, o fim do ciclo de redução de estoques e um processo incremental de reposição do capital depreciado. Trata-se, porém, de um crescimento pequeno, frente aos longos meses de cortes.

Apesar da melhora marginal em alguns setores, o total da indústria de transformação ainda registrou queda de 1,6% entre abril e agosto. Entre os setores que seguem em retração, há alguns que ora sinalizam uma estabilização, ora voltam a se reduzir, apresentando um desempenho irregular. Esse parece ser o caso dos produtos alimentícios e dos veículos automotores. Entre abril e julho, por exemplo, ambos os setores haviam registrado um crescimento acumulado de 3,0% e 4,6% respectivamente. Nos dois casos, a expansão verificada foi completamente anulada pelo desempenho negativo registrado apenas no mês de agosto. No setor de veículos, há informações de que a queda no mês teria sido aprofundada por problemas pontuais com o fornecimento de peças e com a greve bancária. Com a normalização da produção, é possível que o setor retome a trajetória observada até julho.

Há, finalmente, aqueles setores nos quais houve redução da produção devido à atuação de elementos exógenos, como a queda de 41,4% na produção de fumo, afetada pela quebra de safra, ou cuja dinâmica de produção é caracterizada por descontinuidades, como nos derivados de petróleo e nos outros equipamentos de transporte (aviões e construção de embarcações). No geral, o desempenho do conjunto da indústria nacional ainda não avaliza a hipótese de recuperação. Porém, quando são excluídos os eventos pontuais, a tendência à estabilização, acompanhada de um crescimento moderado na margem, parece ser a regra entre os principais setores (gráfico).

A indústria do Rio Grande do Sul costuma apresentar uma maior variabilidade frente à média nacional, a despeito de ser uma das mais diversificadas do País. Tal fenômeno é próprio das economias regionais, haja vista a maior concentração de determinados setores ou o menor número de empresas em cada setor. Com efeito, algumas especificidades da composição setorial da indústria gaúcha, como a maior participação relativa da produção de fumo e de derivados de petróleo — setores que, por suas características, costumam ser mais voláteis —, ajudam a explicar não apenas a queda mais intensa, de 3,8%, registrada entre abril e agosto, mas também as oscilações que vêm sendo verificadas ao longo deste ano. A maior participação da produção de móveis, cuja crise perdura no País, também justifica o diferencial de crescimento no período. Em sentido contrário, pesam a favor do desempenho da indústria gaúcha a expansão da produção de celulose, que ampliou a sua relevância recentemente, bem como a de calçados e dos setores que compõem o segmento metalmecânico, ainda tradicionais na estrutura produtiva estadual.

Superada a fase inicial de ajustes e de estabilização, a recuperação da indústria, nacional e regionalmente, poderá ganhar consistência quando o mercado interno mostrar sinais mais claros de expansão. Ainda que as exportações de bens industriais sejam um destino relevante para a produção, sobretudo no Rio Grande do Sul, o seu potencial de crescimento é reduzido por diversos motivos, entre os quais, o lento crescimento esperado para a demanda mundial. Nesse contexto, o cenário de queda da inflação e da taxa de juros no País, combinado com alguma melhora nas condições de crédito, poderá contribuir para a retomada. Porém, os níveis elevados de endividamento das famílias e das empresas, assim como o alto desemprego e a persistência da tendência de redução dos rendimentos reais, podem limitar o potencial expansivo desse movimento. Por outro lado, apesar do crescimento recente do investimento, o nível de utilização da capacidade instalada na indústria ainda é baixo, sendo pouco provável que a expansão autônoma da produção dos bens de capital persista para além da fase de reposição. Assim, é possível que a recuperação ensaiada em 2016 se consolide em 2017, a partir de uma recuperação moderada do mercado interno, na esteira da redução dos juros. Não há, porém, indicativos de que essa retomada possa adquirir força suficiente para restabelecer o nível de produção pré-crise no curto prazo.

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Como citar:

HOFF, Cecília Rutkoski. "Recuperação na indústria de transformação?," em Carta de Conjuntura FEE. [visto em 28 de junho de 2017], disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/recuperacao-na-industria-de-transformacao/>.

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A crise econômica e as perspectivas para a indústria brasileira

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Edição: Ano 25 nº 10 – 2016

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Segundo a Pesquisa Industrial Mensal de Produção Física, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o volume da produção física da indústria de transformação (IT) brasileira apresentou uma queda de 8,9% nos sete primeiros meses de 2016, em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse desempenho veio somar-se a uma queda acumulada de 13,6% nos dois anos anteriores, fazendo com que o nível de produção de 2016 tenha ficado inferior ao de 2004. Mesmo com essa performance, segundo dados recentes da Organização das Nações Unidas Para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), o Brasil ocupou, em 2015, a 9.ª posição no ranking dos maiores parques industriais do mundo, quando considerado o Valor Adicionado industrial.

Esse fraco desempenho afetou todas as atividades da IT, e os setores produtores de bens de consumo duráveis e de capital foram os que apresentaram as quedas mais substanciais. Nos sete primeiros meses do ano, esses setores haviam apresentado diminuição na produção de, respectivamente, 22,3% e 19,5%, em relação ao mesmo período do ano anterior. Considerando que a queda acumulada dessas duas categorias em 2014-15 havia sido de 26,0% e 24,6% respectivamente, tem-se que o nível de produção se encontra em torno de 40% menor do que há três anos. Também com desempenho negativo em 2016, embora não tão acentuado, aparecem os setores produtores de bens intermediários (-8,9%) e de bens de consumo não duráveis (-1,6%).

Apesar dessas quedas expressivas, quando se observa a evolução das taxas acumuladas em 12 meses, verifica-se que a trajetória descendente da produção física da IT foi interrompida a partir do segundo trimestre deste ano, tendo, inclusive, a partir de então, iniciado uma tênue recuperação (gráfico). Convém destacar, no entanto, que essa recuperação tem sido motivada pelas exportações de bens de capital, as quais cresceram, em volume, 32,0% até agosto de 2016, em relação ao mesmo período do ano anterior.

Uma diminuição tão acentuada no volume de produção, como a que se tem observado, não pode ser creditada a apenas alguns poucos fatores. Ela é, com certeza, resultado de um conjunto de condicionantes de natureza tanto estrutural como conjuntural, que vêm atuando ao longo dos últimos anos.

Sem procurar estabelecer uma hierarquia entre esses condicionantes, convém destacar, em primeiro lugar, que a indústria já vinha apresentando oscilações de variação entre taxas negativas e positivas na produção física, ao longo de 2009-13, trajetória que manteve o volume de produção estagnado nesse período. Essa estagnação na produção industrial refletia as consequências da crise econômica internacional que se iniciou em 2007. De fato, o Brasil faz parte de um grande grupo de países que tiveram dificuldades para recuperar sua produção industrial após 2009, além de outros que nem mesmo conseguiram tal recuperação. Em segundo lugar, é importante enfatizar que a valorização cambial que se estendeu de meados de 2004 a meados de 2011 trouxe comprometimentos estruturais à indústria nacional, ao retirar dela, por um longo período, mercados e competitividade internacionais.

A esse cenário desfavorável vieram somar-se outros fatores de natureza conjuntural, como o impacto da Operação Lava Jato sobre a Petrobras, seus fornecedores e as grandes empreiteiras nacionais, o qual comprometeu profundamente os planos de investimentos de tais empresas, afetando, assim, toda a cadeia produtora de bens de capital. Simultaneamente, a deliberada política de ajuste fiscal promovida em 2015 só veio a agravar o quadro recessivo. Com isso, a taxa de desemprego que, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, estava 6,5% em dezembro de 2014, atualmente se encontra em 11,8%. Associados com a elevação inflacionária que se observou nesses anos e a restrição do crédito, os setores de produtores de bens de consumo duráveis e não duráveis também tiveram comprometidos não só os seus níveis de produção como também os seus planos de investimentos.

O Brasil ainda continua tendo um parque industrial amplo e diversificado, com um produto industrial maior do que o de países como a Rússia, o Canadá e o próprio Reino Unido. A queda nos níveis de produção observada nestes últimos três anos levou o País a uma diminuição de participação no Valor Adicionado manufatureiro mundial, embora este último fenômeno esteja também afetando as maiores economias mundiais, com exceção da Índia, da China e da Coreia do Sul.

Assim, em que pese a tênue recuperação que se tem manifestado neste segundo semestre, a retomada de uma trajetória de crescimento de longo prazo da produção industrial exigirá o enfrentamento de um conjunto de fatores que a tem restringido. A manutenção das elevadas taxas de juros reais, com o seu impacto sobre o câmbio, e a continuidade de uma política de ajuste fiscal estão entre os fatores de ordem conjuntural que deverão ser contornados. Do ponto de vista estrutural, convém destacar que esse fraco desempenho da indústria nacional desde 2009 pode ter gerado uma defasagem tecnológica e competitiva que irá dificultar ainda mais o processo de recuperação industrial e, consequentemente, de retomada do crescimento da economia brasileira. Dadas essas restrições, a sorte da indústria nacional dependerá da aceleração do crescimento da economia mundial, fato que tem sido a grande preocupação dos líderes das maiores economias do mundo.

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