Textos na área temática: Indústria

Indústrias brasileira e gaúcha: que recuperação é essa?

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Edição: Ano 27 nº 02 – 2018

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Em 2013, a indústria brasileira iniciou um movimento de queda que alcançou sua menor taxa anualizada em janeiro de 2016 (-13,4%), em relação a igual acumulado do ano anterior. Desde então, iniciou-se uma branda recuperação, e, em setembro de 2017, houve a sinalização do primeiro resultado positivo (0,5%). No período nov./16-nov./17, essa taxa de crescimento passou de -7,3% para 2,2%, obtendo-se um ganho de 9,5 pontos percentuais. Em dez./17, a tendência de recuperação manteve-se, sendo registrada uma taxa de 2,5% (informação de dezembro disponível apenas para o Brasil). No período referido, o Rio Grande do Sul apresentou a mesma tendência positiva com taxas superiores às brasileiras, mas, a partir de out./17, o Brasil ultrapassou os resultados estaduais (ver gráfico).

Uma análise qualitativa desse desempenho requer a decomposição do agregado indústria geral nos dois grandes grupos que o compõem (indústria de transformação e extrativa mineral), sendo que essa informação desagregada é disponível apenas para o Brasil (IBGE/PIM). Entre dez./16 e dez./17, a indústria de transformação brasileira passou de -6,0% para 2,2%, uma variação de 8,2 pontos percentuais. Já a indústria extrativa mineral evoluiu de -9,4% para 4,6%, uma variação positiva de 14 pontos percentuais. Ainda que o peso da extração mineral sobre o total da produção industrial seja muito inferior ao da indústria de transformação, chama a atenção o crescimento que aquela vem obtendo na última década em relação ao grupo de atividades de transformação.

Na indústria de transformação brasileira, em nov./17, os melhores resultados foram registrados nas atividades produtoras de equipamentos de informática, produtos eletrônicos e ópticos (20,2%), fumo (17,6%) e veículos automotores, reboques e carrocerias (16,7%). O intenso crescimento de equipamentos de informática reflete o aquecimento do mercado doméstico por produtos eletrônicos em consonância com a atual tendência mundial. Porém, no Brasil, essa atividade possui um menor efeito multiplicador, uma vez que uma parcela muito significativa de componentes eletrônicos é importada, sobretudo aqueles mais intensos em tecnologia. A indústria de fumo, por sua vez, tem como base de comparação um período de forte queda, causada por problemas climáticos que reduziram a oferta de matéria-prima para processamento em 2016, o que requer uma relativização do resultado alcançado em 2017. A produção de veículos automotores foi favorecida por certo aquecimento do mercado doméstico sob possível influência da queda das taxas de juros e pela liberação do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) no segundo trimestre de 2017. Além disso, a expansão das vendas externas foi muito significativa, devido à recuperação do mercado da Argentina, principal mercado externo de autoveículos, bem como aos recentes acordos comerciais, como é o caso da Colômbia.

Os piores resultados foram registrados por fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-4,2%), fabricação de coque, de produtos derivados do petróleo e de biocombustíveis (-5,3%) e fabricação de produtos farmoquímicos e farmacêuticos (-6,5%). A indústria de outros equipamentos de transporte, exceto veículos automotores (-11,9%) é bastante diversificada e inclui muitas atividades classificadas como alta e média-alta intensidade tecnológica para o contexto da indústria brasileira. O primeiro item citado abarca a fabricação de componentes e equipamentos destinados à geração e à distribuição de energia elétrica, cabos de fibra ótica, peças para máquinas e equipamentos, dentre outros. Liga-se, portanto, à construção de bens que fazem parte das novas tecnologias de informação e telecomunicação (TICs) e à transmissão de energia, ou seja, bens de alta e média-alta tecnologia. O segundo grupo, cujo principal valor reside na atividade das refinarias de petróleo acumulou prejuízos nos últimos anos, em decorrência de várias razões. Por um lado, foi afetado pela queda do preço internacional do petróleo, assim como pela política de preços inferiores aos preços internacionais, praticada em 2013 no mercado interno, com o intuito de manter a inflação baixa. Também é importante lembrar que a Petrobras foi o principal foco da crise institucional e de desestruturação das estatais que hoje abala a economia brasileira. A modificação recente da legislação relativa ao controle da Petrobras, das reservas de petróleo e do pré-sal contribuiu para os resultados negativos da produção de petróleo e de produtos petroquímicos. O conjunto de problemas enfrentados pela Petrobras repercutiu diretamente sobre seus fornecedores, em particular os produtores de plataformas marítimas, bem como provocou impactos negativos sobre sua capacidade de ser utilizada como instrumento de desenvolvimento de sua cadeia produtiva no Brasil, sobretudo em termos tecnológicos e de estímulo à modernização e à inovação dos fornecedores. Além disso, vem implicando a perda de empregos altamente qualificados. Pode-se supor que os problemas enfrentados pela empresa tenham influenciado também a queda da atividade de outros equipamentos de transporte, que abrange, dentre outros, a produção de embarcações e estruturas flutuantes.

No RS, conforme a taxa acumulada nos últimos 12 meses até nov./17, os melhores desempenhos foram alcançados por fabricação de produtos do fumo, que passou de -30,1% (nov./2016) para 33% (nov./2017), afirmando-se como o principal responsável pelo resultado ainda positivo da indústria gaúcha. Seguem fabricação de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (de -5,3% para 9,4%), fabricação de bebidas (de -11,5% para 6%), fabricação de produtos de borracha e de material plástico (de -8,5% para 5,8%) e metalurgia (de -1,1% para 3,1%). Também apresentaram resultados positivos, porém muito próximos da média da indústria de transformação, as atividades de outros produtos químicos, minerais não metálicos e máquinas e equipamentos. A indústria gaúcha de veículos automotores, reboques e carrocerias cresceu apenas 1% contra os 16,7% obtidos no Brasil.

Os piores resultados ocorreram em fabricação de celulose, papel e produtos de papel (40,3% para -15,7%), provavelmente em decorrência da fraca demanda internacional, uma vez que o RS produz principalmente matérias-primas para exportação. Seguindo o mesmo fraco desempenho brasileiro, e pelas mesmas razões, fabricação de coque, de produtos derivados do petróleo e de biocombustíveis passaram de -10,1% para -8,2%. As indústrias gaúchas de calçados e de móveis, duas atividades tradicionais e com grande capacidade de absorção de mão de obra, também obtiveram resultados negativos, embora menos acentuados do que as citadas anteriormente.

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A tomada das ruas pelas motos e os custos sociais da mobilidade

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Edição: Ano 26 nº 12 – 2017

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A indústria brasileira de motos está majoritariamente localizada no Polo de Duas Rodas de Manaus, onde 14 empresas respondiam, em 2016, por cerca de 98,0% da produção do setor. Uma concentração dessa ordem justifica-se pelos generosos incentivos fiscais de que gozam as plantas fabris do Polo Industrial e que fazem com que, dificilmente, um fabricante de motos de alguma região do País fora da Zona Franca de Manaus possa ser competitivo.

Iniciando em 1975, a indústria evoluiu de forma relativamente modesta até 1999, quando fabricava ainda menos de 500 mil unidades anuais. A partir daí, o ritmo acelerou-se, como mostra a taxa de crescimento de 18,2% a.a. entre 1999 e 2008. A marca de 1,057 milhão de veículos foi alcançada em 2004, e o pico recorde de 2,141 milhões data de 2008. Já 2009 foi um ano de perdas, com retomada posterior e retorno ao patamar de 2,137 milhões de unidades em 2011. Os anos seguintes foram de queda continuada, fechando 2016 com 887,6 mil unidades produzidas, uma volta aos níveis de 2002 (Abraciclo).

O dinamismo da indústria de veículos de duas rodas tem correspondência nas grandes vendas do setor. Assim, entre 2000 e 2011, elas cresceram 3,6 vezes (12,2% a.a.), passando de 574,1 mil para 2,044 milhões de unidades, o pico da série. As vendas tiveram, a seguir, uma forte retração, chegando-se a 858,1 mil unidades comercializadas em 2016, igualando 2003. Em tempos de crise econômica e de restrições ao crédito, é normal que os consumidores se retraiam. Isso é tanto mais verdadeiro no contexto brasileiro, em que os veículos de duas rodas de baixa cilindrada (até 160 cm3) — os de menor preço — correspondiam a 85,2% das vendas no varejo em 2016, e em que há forte dependência de consórcios e de financiamentos (36,0% e 33,0% das modalidades de aquisição respectivamente) (Abraciclo).

As estratégias de mercado do setor de duas rodas — com prestações mensais de baixo valor e de longo prazo — deram sustentação à expansão das vendas no mercado doméstico, tornando as motos um produto de fácil aquisição. Com reduzidos custos de manutenção e baixo consumo de combustível, enquadram-se bem nos apertados orçamentos familiares, tendo-se convertido em uma efetiva alternativa de mobilidade. Configuram, assim, uma opção econômica e de custo equivalente, ou mesmo inferior, aos modais coletivos de transporte, o que tem contribuído para o abandono destes últimos.

Além dos fatores de cunho econômico que sustentaram a rápida expansão da taxa de motorização entre os de renda mais baixa e que explicam o “sucesso” das motos, há outros atributos relevantes intervenientes. Citem-se as altas velocidades, o pouco espaço de que necessitam para circular e o fácil estacionamento, elementos que proporcionam agilidade e economia de tempo nos deslocamentos em meio ao congestionado tráfego urbano. Algo semelhante ocorreu nas zonas rurais e nas pequenas cidades do interior, onde substituíram a bicicleta, o cavalo ou o jegue.

Foi assim que se formou um grande parque de motos, a referência usual a respeito sendo o Denatran (Renavan). É preciso ter presente, todavia, que os dados dessa base são de natureza acumulativa, constituindo um somatório de veículos emplacados (novos) e de licenciados (antigos), do que resulta — ao incluir todos os que não tiveram seus registros desativados — um estoque superestimado. Conforme o Renavan, havia 25,303 milhões de veículos de duas rodas no País em 2016, tendo a frota crescido 72,2% no período 2009-16 e sendo que 1,227 milhão de unidades estavam registradas no Rio Grande do Sul neste último ano (Abraciclo).

Partindo dos dados do Denatran, mas deduzindo um percentual estatístico correspondente a sucateamentos por envelhecimento, acidentes com perda total e roubos sem recuperação, tem-se uma estimativa bem mais realista da frota circulante. O Sindipeças faz, tradicionalmente, esse tipo de cálculo, pelo qual existiriam 13,470 milhões de veículos de duas rodas em 2016, tendo havido um crescimento de 42,5% no período 2009-16. Para o Rio Grande do Sul, uma proxy indicaria a existência de uma frota circulante efetiva de 653 mil unidades de duas rodas em 2016.

Por suas características intrínsecas, a moto é um veículo que dá pouca proteção e segurança a seus usuários, em especial no caso de quedas ou colisões. O não uso de equipamentos básicos de segurança (inclusive o capacete), as infrações às leis de trânsito, a condução temerária, a imperícia, a baixa qualidade do treinamento exigido, a própria falta da carteira de habilitação por muitos condutores e a pouca fiscalização pelos órgãos competentes são todos fatores que contribuem para o elevado número de acidentes e as altas taxas de mortalidade a elas associadas.

As unidades de duas rodas, formando pouco menos de um quarto da frota circulante de todos os veículos automotores, responderam por 28,5% do total de vítimas fatais em 2013. Em números absolutos, segundo o Ministério da Saúde, isso representou 12.040 mortes em acidentes com motos, sendo essa a primeira causa de óbitos no trânsito (Carvalho). Esse tipo de estatística, todavia, é pouco confiável, oscilando entre os números do Denatran e os do Ministério da Saúde (que inclui mortes até 30 dias após os eventos), motivo pelo qual se costuma recorrer também ao Seguro de Danos Pessoais por Veículos Automotores de Vias Terrestres (DPVAT). Mesmo esses dados devem ser vistos com reserva, porquanto podem incluir vítimas dos três últimos exercícios do calendário civil. Do total de 434.246 indenizações do DPVAT em 2016, 76,0% foram pagas por conta de acidentes com motocicletas. Isso representava 330.130 ocorrências com motos, sendo 83,4% relativas a casos de invalidez permanente, 11,7% a despesas médicas e 4,9% a mortes (Seguradora Líder).

Segundo o Detran-RS, entre os 1.680 fatalmente vitimados no trânsito gaúcho em 2016, havia 387 motociclistas (sendo 94,1% homens). Representavam o segundo (25,2%) maior grupamento de óbitos após o dos condutores (29,9%). Dados parciais de 2017(até outubro) indicam uma piora da situação, com as vítimas fatais entre os motociclistas ascendendo a 392 e fazendo crescer sua participação relativa no total de óbitos para 27,0%, aproximando-a da primeira posição dos condutores (28,1%).

O fato é que o uso massivo das motos coloca problemas de difícil solução. Os sistemas viários não estão preparados para uma presença invasiva desse porte e, do ponto de vista ambiental, significa acolher um veículo que é tão ou mais poluidor do que o próprio automóvel. Os custos sociais decorrentes beiram o inaceitável, tamanha é a quantidade de vítimas e o peso dos gastos associados aos atendimentos médico-hospitalares conexos. A busca de soluções passa por alternativas consagradas (ainda que notoriamente ignoradas), como a de dar efetiva prioridade a um transporte público qualificado, abundante e barato.

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Exportações, mercado interno e produção industrial brasileira

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Edição: Ano 26 nº 10 – 2017

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As exportações brasileiras representaram, em 2016, 12,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse percentual, ao longo das primeiras décadas do século XXI, teve o seu apogeu em 2004, quando o valor chegou a 16,5%. A partir de então, iniciou uma trajetória de redução, apesar de as exportações continuarem apresentando, em termos reais, um percurso de crescimento até 2007 (Gráfico 1). Depois desse último ano, a crise econômica mundial afetou tanto a quantidade exportada quanto a sua participação no PIB.

Quando se analisa a evolução do índice de quantum das exportações, observa-se que ele manteve uma elevada correlação com a evolução da produção física da indústria brasileira (transformação e extrativa mineral) até 2014, ou seja, até esse último ano, os ciclos da produção industrial acompanharam tanto o ciclo das exportações quanto o do mercado interno.

Pode-se estabelecer três fases bem definidas nessa trajetória das exportações e da produção industrial. A primeira estende-se de 2002 a 2007. Nesse período, o quantum das exportações cresceu a uma taxa média anual de 10,4%, enquanto a produção física da indústria cresceu 4,0% a.a. A segunda fase compreende o período 2008-14, quando tanto a produção física da indústria quanto o volume das exportações se mantiveram praticamente estagnados. Assim, observa-se que o volume das exportações brasileiras em 2014 foi 1,0% inferior ao apresentado em 2007, enquanto a produção industrial encerrou o ano de 2014 2,5% acima da de 2007, o que correspondeu a uma taxa média de crescimento anual de apenas 0,35%. A terceira fase engloba o período 2015-16, anos de queda acentuada do PIB, quando se verificou um comportamento assimétrico entre essas duas séries. Essa dissociação representa o impacto da redução do mercado interno sobre a produção industrial, comportamento que resultou da queda do consumo da administração pública, como consequência do ajuste fiscal promovido pelos Governos Federal e estaduais, do desemprego e da queda dos investimentos e seu impacto sobre o consumo das famílias.

Em 2017, o módico crescimento apresentado pela produção industrial nos primeiros sete meses do ano (0,9%) tem sido puxado pelas exportações localizadas em algumas atividades industriais ou por setores que têm uma participação substancial do mercado externo no total da sua demanda. Esse é o caso, por exemplo, da produção física da indústria extrativa mineral, a qual cresceu 5,2% no período em análise e que esteve associada ao crescimento das exportações de petróleo e gás natural bem como de minerais metálicos e não metálicos. Também merece destaque o crescimento da produção de veículos automotores (11,5%), que, em 2017, tem apresentado um grande aumento de suas vendas no mercado externo. Outro setor que mostra importantes efeitos de encadeamento sobre os demais setores da atividade industrial é o de fabricação de máquinas e equipamentos, cujo crescimento da produção (3,1%) está associado ao mercado externo e ao crescimento da produção agrícola. Dentro do grupo com elevado coeficiente de exportações, ainda convém destacar a produção de celulose e produtos de papel, que apresentou um crescimento tanto nas exportações como na produção (Gráfico 2).

Outros setores importantes dentro do parque industrial brasileiro, seja pela sua participação no Valor da Transformação Industrial, seja pelos seus efeitos de encadeamento, continuaram apresentando queda substancial na produção, apesar de terem tido um grande crescimento nas vendas externas. Esse é o caso das fabricações de coque e derivados do petróleo e de outros equipamentos de transporte. Apesar de, nesses setores, não haver uma correlação direta entre essas duas variáveis, pode-se inferir um desempenho bem inferior, caso não tivesse havido um substancial crescimento das exportações.
Segundo a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), quando se observa isso de um ponto de vista mais agregado, tem-se que, nos primeiros setes meses do ano, o quantum de exportações de manufaturados cresceu 2,5%, sendo que, no caso de bens de consumo duráveis, essa taxa chegou a 42,7%. No entanto, conforme demonstram os dados das Contas Nacionais, divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relativas ao primeiro semestre do corrente ano em relação ao primeiro semestre de 2016, a formação bruta de capital fixo apresentou uma queda de 5,1%, o consumo da Administração Pública caiu 1,9%, e o consumo das famílias teve uma queda de 0,6%. Assim, em que pese o fato de alguns setores da indústria já estarem operando com taxas positivas de crescimento da produção em 2017, os dados das Contas Nacionais em conjunto com o desempenho desigual entre os setores industriais dificilmente dariam suporte a uma reversão consistente do ciclo de crise da economia brasileira.

A análise acima parece demonstrar que uma reversão mais substancial da produção industrial deverá ir além do crescimento das exportações, ou seja, faz-se necessária uma reativação da demanda doméstica. A dimensão relativamente elevada da economia brasileira (9.a colocada no ranking mundial), o grande e diversificado parque industrial e o tamanho da população do País requerem um crescimento que esteja associado com o desenvolvimento do mercado interno. Isso, no entanto, vai depender de políticas que estimulem a geração e a distribuição de renda, de emprego e de investimentos.

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Investimentos da indústria gaúcha em inovação e novas tecnologias no mundo

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Edição: Ano 26 nº 9 – 2017

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Em dezembro de 2016, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou uma nova edição da Pesquisa de Inovação (Pintec), com dados para o triênio 2012-14, possibilitando a análise do desempenho das empresas brasileiras nessa dimensão. Um item importante é o comportamento dos investimentos em inovação da indústria — extrativa e de transformação — do Rio Grande do Sul e do Brasil. Como se sabe, a inovação, sobretudo a tecnológica, consiste em uma das principais fontes de competitividade para as empresas, pois permite a diferenciação de produtos e a melhora da eficiência na produção e dos métodos de comercialização.

Uma maneira de avaliar o comportamento dos investimentos em inovação consiste em observar a evolução da intensidade do esforço empreendido para essa finalidade. Aqui, esse indicador está sendo mensurado pela fração desses dispêndios em relação à receita líquida de vendas das empresas que implementaram inovações de produto ou de processo produtivo, novo ou significativamente aprimorado, no período 2005-14.

A intensidade do esforço em desenvolvimento tecnológico total — realização de atividades internas e aquisição externa de pesquisa e desenvolvimento (P&D) — aumentou na indústria do Rio Grande do Sul, saindo de 0,43% em 2005 para 0,41% em 2008, 0,66% em 2011, e 0,74% em 2014. Na média industrial do Brasil, a evolução desse indicador foi de 0,65%, 0,73%, 0,81% e 0,84% nos respectivos anos. Isto ocorreu mesmo em um contexto de incertezas associadas aos desdobramentos das crises financeira internacional (2008) e brasileira (desde 2014). Some-se, ainda, o processo de mais longo prazo de desindustrialização no Rio Grande do Sul e no Brasil. Cabe salientar que esse comportamento do esforço tecnológico é positivo, pois a decisão de investimento é relativamente mais sensível para os gastos em P&D do que para as demais atividades de inovação.

Contudo, quando se amplia o escopo para o total de atividades de inovação das empresas industriais — as quais englobam desenvolvimento, absorção e preparativos —, nota-se que esse foi mais afetado por estas adversidades. No Rio Grande do Sul, a evolução da intensidade de esforço em atividades de inovação de empresas que inovaram mostrou certa estabilidade, sendo de 2,18% em 2005, de 2,28% em 2008, de 2,17% em 2011, e de 2,13% em 2014. Já no Brasil, o indicador apresentou declínio, sendo de 2,77% em 2005, de 2,54% em 2008, de 2,37% em 2011, e de 2,12% em 2014. Esse comportamento dos investimentos no total das atividades de inovação deve-se à queda na absorção de tecnologias — na forma de ativos tangíveis e intangíveis (aquisição de outros conhecimentos externos, de software e de máquinas e equipamentos) — e nos demais dispêndios em preparativos para lançar inovações no mercado.

Esse comportamento influenciou a composição dos investimentos da indústria em atividades de inovação. Como consequência, constata-se um aumento na participação dos gastos em desenvolvimento tecnológico nos gastos totais em inovação, que, em 2005, representavam 19,7% no Estado e 23,5% no País, passando a responder, em 2014, por 34,5% e por 39,5% respectivamente. Ressalte-se, contudo, que, do total da absorção de tecnologia, individualmente, aquela incorporada em máquinas e equipamentos ainda responde pela maior fração dos gastos em atividades de inovação, cujas parcelas, em 2005, foram de 52,6% no Rio Grande do Sul e de 48,4% no Brasil, enquanto, em 2014, estas foram de 47,3% e de 40,2%.

Portanto, pode-se considerar que, de 2005 a 2014, ocorreu um processo importante, ainda que de baixa intensidade, de mudança qualitativa na composição dos investimentos em atividades de inovação nas indústrias do Rio Grande do Sul e do Brasil. A realização interna e a aquisição externa de P&D geram mais benefícios para as empresas, pois possibilitam maior aprendizado, domínio da tecnologia e potencial para a diferenciação de produtos, além de ganho estratégico em experiência na execução dessas atividades e na interação com o sistema de inovação, elevando sua capacidade e eficiência para futuros desenvolvimentos. Entre seus múltiplos determinantes, entende-se que, desde 2003, a ampliação e o aprimoramento das políticas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) no País tenham contribuído para isso, pelo incentivo às atividades de P&D e pelo fortalecimento dos sistemas de inovação.

Para o Estado e o País, esses ganhos podem contribuir para combater o processo de desindustrialização e para ampliar a participação em nichos de produtos de maior valor agregado, além de auxiliar a inserção da indústria em oportunidades criadas em segmentos que incorporam as novas tecnologias que estão despontando: internet das coisas, energias renováveis, automotivas, etc. Destaque-se o pacote tecnológico da denominada “Indústria 4.0”, que se projeta que possa ampliar a coordenação, a produtividade e a flexibilidade na produção em diversas atividades econômicas. Saliente-se que a entrada em tecnologias radicalmente novas tende a ser mais fácil em seus estágios iniciais de desenvolvimento, pois as barreiras erigidas pelas empresas líderes ainda não estão suficientemente estabelecidas. As indústrias de países avançados já vêm ampliando esforços tecnológicos nessa direção, inclusive com o apoio de políticas de CT&I pelos governos, visando à mitigação de dificuldades socioeconômicas e ambientais.

Nesse contexto competitivo, o esforço tecnológico interno relativo ao PIB apresentado pela indústria do Rio Grande do Sul e do Brasil manteve certa estabilidade de 2011 a 2014, mas ainda está aquém do observado em nações industrializadas (gráfico). Porém, caso as empresas não elevem seus investimentos em atividades de inovação, sobretudo em P&D, bem como o poder público em seu apoio via políticas de CT&I, acompanhando essas tendências mundiais, arrisca-se a que a indústria estadual e a nacional percam competitividade e ampliem sua defasagem tecnológica em relação a esses países, restringindo-se a uma apropriação reduzida dessas novas oportunidades e de seus efeitos sobre o desenvolvimento econômico.

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Crise e estagnação da produção industrial brasileira

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Edição: Ano 26 nº 9 – 2017

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Apesar do otimismo presente em algumas análises sobre o desempenho industrial brasileiro de 2017 — as quais identificam o início da recuperação da produção e a saída da crise brasileira —, o que os dados mostram para os seis primeiros meses do ano é um modesto crescimento da produção industrial de 0,5% em relação ao mesmo período de 2016. Segundo os dados da Produção Industrial Mensal do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), esse desempenho foi resultado de um crescimento de 6,0% na produção da indústria extrativa mineral, enquanto o conjunto da indústria de transformação (IT) apresentou uma queda de 0,3%.

Essa aparente recuperação precisa ser interpretada dentro do contexto da produção industrial dos últimos anos, bem como dos demais condicionantes da atual conjuntura econômica nacional. Assim, quando se analisa o comportamento da indústria no período 2014-16, verifica-se que a IT acumulou uma queda de 18,8% no seu volume de produção. Tal queda colocou o nível da produção brasileira abaixo do verificado em 2004. Assim, se, por um lado, é verdadeiro que o desempenho industrial em 2017 não está demonstrando a mesma queda na produção que as verificadas nos anos anteriores, seria impreciso considerar que esse fenômeno estaria caracterizando uma recuperação da indústria. O que se tem verificado, nesse primeiro semestre de 2017, é que a produção industrial se encontra estagnada em um patamar extremamente baixo, quando comparada com o volume alcançado em anos anteriores.

Outro aspecto relativo ao desempenho industrial em 2017 é que, conforme pode ser observado no gráfico, as taxas de variação da produção tem sido muito desiguais entre os diversos setores que compõem a IT. As principais atividades da IT que apresentaram desempenho positivo no primeiro semestre de 2017 foram aquelas com forte relações comerciais com o mercado externo, ou que tiveram um crescimento no quantum das exportações, no primeiro semestre do ano. Esses são os casos, por exemplo, de fabricação de celulose e produtos de papel (2,2%), fabricação de produtos de couro e calçados (2,6%), produtos do fumo (15,6%), fabricação de veículos automotores (11,7%), máquinas e equipamentos (2,4%) e produtos de borracha e plástico (1,7%). Segundo os dados da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), embora o quantum do total das exportações no primeiro semestre do ano tenha crescido apenas 1,7%, para o caso dos setores produtores de bens de consumo duráveis essa taxa foi de 41,1%. Cabe destaque, também, à fabricação de equipamentos de informática e produtos eletrônicos, que, embora tenha pequena participação no Valor da Transformação Industrial (VTI), apresentou um crescimento de 18,6%.

Por outro lado, observa-se que alguns setores que já vinham de quedas acentuadas no período 2014-16 continuam apresentando a mesma tendência em 2017. Esses são os casos de fabricação de produtos alimentícios (-2,2%), fabricação de coque, derivados do petróleo e biocombustíveis (-7,6%), produtos farmacêuticos (-6,8%), fabricação de outros produtos químicos (-3,7%), produtos de minerais não metálicos (-3,9%), fabricação de máquinas, aparelhos e materiais elétricos (-7,4%), outros equipamentos de transporte (-11,6%) e fabricação de móveis (-4,4%). Em conjunto, esses setores representam mais de 50,0% do VTI da IT brasileira.

Em função dos níveis extremamente baixos de produção, uma plena recuperação da indústria brasileira somente ficará caracterizada quando os setores apresentarem uma tendência de crescimento que inclua os setores vinculados tanto ao mercado externo quanto ao interno e que abarquem um percentual substancial do VTI. No entanto, isso também não tem sido observado. Quando se analisam as taxas mensais de variação da produção, observa-se que as mesmas têm apresentado oscilações positivas e negativas ao longo do ano. Assim, embora, do ponto de vista estatístico, já se possa observar algumas taxas positivas de crescimento, localizadas em alguns setores, a indústria de transformação precisaria crescer cerca de 20,0% para retomar a produção de 2008, ou seja, de oito anos atrás.

Ao longo dos últimos anos, esse desempenho tem-se refletido no aumento do desemprego industrial, no reduzido nível de utilização da capacidade industrial e na consequente queda nos investimentos. Elevada capacidade ociosa, baixos níveis de investimento e depreciação de máquinas, equipamentos e instalações e quebra nas cadeias de relações interindustriais deverão ter impacto negativo no crescimento da produtividade industrial e, consequentemente, da sua inserção internacional. Esse conjunto de fatores poderá comprometer o desempenho do setor no longo prazo.

A análise precedente, portanto, parece sinalizar um agravamento da estrutura industrial no País. A profunda recessão, o fechamento de empresas e a quebra de cadeias domésticas de produção industrial, associadas com a ascensão das economias asiáticas e o surgimento de importantes inovações, acabam deixando o parque industrial brasileiro na retaguarda em termos tecnológicos, além de aumentar a sua dependência de produtos importados, tanto de matérias-primas como de produtos para o consumo final.

Em um contexto de elevadas taxas de desemprego, queda no rendimento médio real do trabalhador, crise fiscal com redução dos investimentos públicos e programas sociais, com baixos incentivos aos investimentos privados, a única possível fonte de demanda capaz de oxigenar a produção industrial serão as exportações. No entanto, esta última ainda depende da conquista e da manutenção de mercados, da existência de uma taxa de câmbio favorável e do crescimento da demanda externa. Portanto, não existem, em um horizonte próximo, motivos para estabelecer uma sólida recuperação da produção industrial. Esses são alguns dos desafios para o desenvolvimento industrial brasileiro, os quais vão muito além da atual estagnação.

Gráfico do drope 3

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As barreiras e os novos desafios para inovar

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Edição: Ano 26 nº 8 – 2017

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Conforme abordado na Carta de Conjuntura de fevereiro deste ano, a análise dos dados da Pesquisa de Inovação (Pintec), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), para o triênio 2012-14, sinalizou a estagnação dos principais indicadores de inovação no Brasil e no Rio Grande do Sul. Os dados, divulgados em dezembro de 2016, foram coletados entre julho de 2015 e agosto de 2016. Nas empresas industriais, maior grupo da amostra, as taxas de inovação (produto e processo) e a taxa de intensidade inovativa (razão entre os gastos em atividades de inovação e a receita líquida de vendas) praticamente se mantiveram nos níveis do triênio anterior (2009-11).

Entre as empresas industriais gaúchas que não desenvolveram projetos de inovação em 2012-14, 60,0% delas declararam não necessitá-los devido às condições de mercado e 17,4% afirmaram não precisar desses projetos em virtude das inovações prévias. Entretanto, 22,6% não o fizeram por dificuldades que impediram sua execução. A pesquisa também averiguou os entraves nas empresas que inovaram. Em termos gerais, os problemas e obstáculos enfrentados podem ser sintetizados em três tipos de barreira: econômica (custos envolvidos e fontes de recursos monetários disponíveis), técnica (qualificação de mão de obra, variedade e oferta de insumos, conhecimento tecnológico, estrutura organizacional e acesso à informação) e institucional (redes públicas e privadas de apoio, arcabouço legal de proteção de conhecimento, instituições de ciência e tecnologia (C&T), cooperação e relação empresa-consumidores).

Para ambos os grupos de empresas — as que não inovaram por complicações na execução de projetos e as que inovaram — os principais obstáculos foram os de natureza econômica. Para as empresas do primeiro grupo, no Brasil e no Rio Grande do Sul, os custos da inovação, os riscos econômicos excessivos e a escassez de fontes apropriadas de financiamento foram os mais destacados. Em particular, no RS, esses impedimentos foram observados em 78,9%, (altos custos da inovação), 66,7% (carência de fontes apropriadas de financiamento) e 66,3% (riscos econômicos elevados) das empresas industriais. Depois da barreira econômica, a segunda que mais obstaculizou a implementação de projetos de inovação foi a técnica. No País e no Estado, os problemas mais evidenciados foram: falta de pessoal qualificado; dificuldade para se adequar a padrões, normas e regulamentações; e rigidez organizacional. Com menor ênfase foram também mencionadas as carências de serviços técnicos externos adequados e de informações sobre mercados e tecnologia. As escassas possibilidades de cooperação com outras empresas ou instituições e a fraca resposta dos consumidores quanto a novos produtos foram as duas questões de cunho institucional.

Como salientado, para as empresas industriais que inovaram, os obstáculos econômicos foram os mais críticos: elevados custos da inovação (86,0% no País e 82,2% no RS) e os riscos econômicos excessivos (82,1% no Brasil e no RS), inclusive com percentuais superiores aos do grupo que não inovou. No que tange à barreira técnica, a escassez de pessoal qualificado, no País (53,1%) e no RS (66,1%), além de ter sido o principal obstáculo técnico na classificação geral dos impedimentos, foi o quarto mais valorado. Outra dificuldade técnica apontada foi a falta de informações tecnológicas e de mercados. A rigidez organizacional, a dificuldade para se adequar a padrões, normas e regulamentações e a escassez de serviços técnicos externos adequados também foram questões referenciadas por um pouco mais de um terço das empresas inovadoras gaúchas. No Brasil, a manifestação desses problemas técnicos foi um pouco mais expressiva. É válido observar que as empresas que inovaram se ressentem mais da baixa perspectiva de cooperação com outras empresas e instituições (41,3% no RS e 43,3% no Brasil) do que aquelas que não inovaram. Isso também se verifica na resistência dos consumidores aos novos produtos, que também foi mais enfatizada no conjunto de empresas inovadoras.

Além das dificuldades destacadas pelas empresas no último triênio da Pintec (2012-14), num plano mais geral, as perspectivas de avanço da inovação no Brasil e no Estado não são nada animadoras. Existe pelo menos um aspecto que é inerente ao processo de inovação e que impacta em todas as empresas: a incerteza. Disso resulta a enorme preocupação acerca do retorno dos recursos investidos, principalmente daqueles empregados em atividades de pesquisa e desenvolvimento (P&D). Portanto, para a maioria das empresas, a decisão de aplicar mais recursos em projetos de inovação invariavelmente ficará condicionada às suas expectativas de expansão, como a entrada em novos mercados e o aumento de suas vendas. Uma forma muito utilizada por vários países para fomentar e, no mínimo, preservar as atividades de P&D é colocar em prática um rol de políticas públicas de ciência, tecnologia e inovação (CT&I) que contemplem, entre os seus instrumentos, subvenções e linhas de financiamento próprias para a inovação.

Em 1985, com a criação do Ministério de Ciência e Tecnologia, investiu-se na construção de um sistema nacional de inovação, priorizando áreas de CT&I. Mais recentemente, foi concedido um conjunto de medidas para as empresas, incluindo incentivos fiscais (como a Lei do Bem) e linhas de financiamento próprias para a inovação, como os recursos da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep). Entretanto, a defesa do ajuste fiscal, mais acirrada a partir de 2015, vem solapando as políticas de incentivo à CT&I e pondo em risco os avanços de inovação até então obtidos no Estado e no País (por exemplo, a Finep, que concedeu, em 2013, R$ 6,3 bilhões e, em 2014, R$ 8,6 bilhões, reduziu consideravelmente os aportes nos últimos dois anos: R$ 1,5 bilhão em 2015 e R$ 1,75 bilhão em 2016). Essa redução, no montante dos recursos (que atinge diretamente universidades, institutos de pesquisa e órgãos de fomento à CT&I, e, indiretamente, empresas com projetos de inovação) não prevê critérios ou orientações que atenuem seus impactos. Sem dúvida, o cenário é bastante desanimador. Como se não bastassem essas dificuldades, não se pode deixar de mencionar outras duas questões: a intensificação da comoditização produtiva acoplada às atividades com menor intensidade tecnológica e os desdobramentos da crise política e econômica brasileira que interrompem relevantes investimentos em C&T.

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Atividade leiteira no RS: produção em queda e preços elevados

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Edição: Ano 26 nº 6 – 2017

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O Rio Grande do Sul é o segundo maior produtor de leite do Brasil, sendo responsável por aproximadamente 14% do leite produzido no País. De acordo com a Pesquisa Trimestral do Leite (PTL) realizada pelo Instituto Brasileiro de Economia e Estatística (IBGE)[1], o Estado produziu, em 2016, 3,2 bilhões de litros de leite. Essa quantidade corresponde a um decréscimo de 6,8% em relação ao ano anterior, no qual foram captados 3,5 bilhões de litros. A retração foi observada nos quatro trimestres de 2016, em comparação com 2015.

A queda na produção não é exclusividade do RS, ocorrendo em outros dois dos cinco principais estados produtores de leite, bem como no total da produção brasileira. Maior produtor de leite do País, o Estado de Minas Gerais registra queda desde o quarto trimestre de 2014, e o Paraná, terceiro maior, desde o terceiro trimestre de 2015.

Entre as causas da retração da oferta é possível citar as condições climáticas desfavoráveis e o aumento dos custos de produção. Em 2016, a redução na oferta de milho, um dos principais componentes da ração, elevou os preços do grão em mais de 60%. Além disso, a ocorrência de casos de adulteração do leite causou prejuízo à imagem do setor no RS.

A redução da oferta doméstica ocorreu paralelamente ao aumento das importações. Já no ano de 2015, a importação de leite em pó integral cresceu 93,5%, passando de 30,3 para 58,6 milhões de quilogramas. Em 2016, o incremento no volume importado foi ainda maior, de 115,2%, totalizando 126,0 milhões de quilogramas. Nos quatro primeiros meses de 2017, foi registrada uma quantidade significativa de leite importado, de 33,1 milhões de quilogramas, o que representa uma alta de 34,3% em relação a igual período do ano anterior. Embora tenha ocorrido uma elevação considerável nos preços em dólar, de 26,5%, a valorização cambial verificada no início do ano contribuiu para manter as importações como alternativa viável, mesmo porque os preços do leite pagos ao produtor seguem em alta após um longo período de retração, que se estendeu de setembro de 2014 a outubro de 2015. De acordo com os dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), tanto no RS quanto no Brasil, a elevação nos preços do leite superou os 30% em 2016. Em agosto de 2016, mês de maior alta, o leite chegou a ficar 68,6% mais caro do que no mesmo período do ano anterior no RS, e 56,1% mais caro no Brasil. Nos três primeiros meses de 2017, os preços seguem subindo. O preço médio pago pelo litro de leite ao produtor no primeiro trimestre apresentou aumento de 25,3% no RS e de 19,8% no Brasil, na comparação com mesmo período do ano anterior.

O consumidor também sentiu o impacto dessa elevação, embora com menor intensidade. De acordo com o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o item leite e derivados teve um ganho acumulado de 15,1% em 2016, mais que o dobro do índice geral, que foi de 6,3%. O índice foi impulsionado pelos subitens: manteiga, leite condensado e creme de leite, que apresentaram alta de 55,2%, 54,0% e 37,8% respectivamente. Já o leite longa vida, com o maior peso na formação do índice, subiu 12,2%. De janeiro a março de 2017, o IPCA de leite e derivados subiu 1,9%, contra 1,0% do índice geral. Segundo informações do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), o consumo total de leite fluido, no Brasil, foi de 32,6 milhões de toneladas em 2016, 2,2 milhões a menos do que em 2015. Além da elevação dos preços, pesou para o consumidor o quadro recessivo pelo qual o País está passando, caracterizado pela queda na atividade econômica, com consequente aumento do desemprego e redução da massa salarial, que, por sua vez, ocasiona retração do consumo.

Embora o IBGE ainda não tenha disponibilizado a PTL do primeiro trimestre de 2017, os dados da pesquisa emprego formal celetista do agronegócio, da Fundação de Economia e Estatística, apontam para uma continuidade do desempenho negativo do setor. Em março de 2017, a indústria de laticínios gaúcha empregava 9.053 trabalhadores com carteira assinada, 99 a menos do que em março de 2016 e 177 a menos do que no mesmo período em 2015. No Brasil, o estoque de trabalhadores vem decrescendo desde novembro de 2015, acompanhando a fase de aceleração dos preços. É interessante notar que a intensidade da queda foi aumentando ao longo dos meses. Em novembro de 2015, primeiro mês de queda, a redução no estoque foi de apenas 0,2%, crescendo até atingir 2,5%, em agosto de 2016. A partir de então, o decréscimo estabilizou-se em torno de 2,1% ao mês até março de 2017, período da última observação disponível. No RS, a maior retração também ocorreu em agosto de 2016, mas sua intensidade foi bastante superior à do Brasil, chegando a -3,2%. Esses dados sobre o emprego condizem com o quadro de oferta restrita de matéria-prima e de continuidade da elevação dos preços.

Para 2017, o USDA projeta recuperação do setor, com incremento tanto da produção quanto do consumo de leite. Entre os fatores que poderiam contribuir para que esse resultado se concretize, cita-se o aumento de 45,8% na produção nacional de milho, com efeitos deflacionários para os custos de produção do leite, o que tende a favorecer a redução dos preços do produto. Entretanto, para o RS, as projeções do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) apontam para um cenário desfavorável, com queda de 5,7% no Valor Bruto da Produção (VBP) da atividade leiteira, o que sugere que o Estado não terá capacidade de reverter essa tendência com tanta rapidez. Em relação à demanda, talvez só a queda dos preços não seja suficiente para que o consumo volte a crescer, sendo também importante um movimento de recuperação da economia e do poder aquisitivo da população.

[1]   Cabe ressaltar que a PTL não contabiliza o leite captado para consumo próprio do agricultor, apenas o destinado à indústria.

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Pensar a indústria gaúcha em um contexto adverso

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Edição: Ano 26 nº 5 – 2017

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A atual recessão que enfrentam as indústrias de transformação brasileira e sul-rio-grandense iniciou em 2013 e, aparentemente, registrou as menores taxas em dezembro de 2015 e janeiro de 2016. Em dez./2015, o Brasil registrou uma taxa de crescimento anualizada da produção industrial de -9,8%, e o RS, de -11,5%. A partir do primeiro trimestre de 2016, ambas as curvas parecem ter encontrado seu ponto de inflexão, ainda que tenham permanecido com taxas acumuladas negativas até fevereiro de 2017 (última informação disponível). Essa desaceleração trouxe consigo uma ampliação do desemprego, sendo que os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), para o ano 2016, revelam saldo negativo em praticamente todas as atividades industriais no RS, com exceção de couro e calçados, de celulose e papel e de produtos químicos.

Diversos argumentos, alguns divergentes entre si, vêm sendo utilizados para explicar essa situação. Alguns apontam para uma administração inadequada das variáveis macroeconômicas e do controle da dívida interna que limitaria os investimentos públicos e privados. Outras abordagens recorrem à desaceleração da economia mundial e a seus reflexos sobre as exportações, tanto de commodities industriais quanto de outros segmentos menos intensivos em tecnologia. Também é ressaltada a crise política que envolveu o processo de impeachment como um fator limitante da formulação de uma política industrial consistente. É evidente que medidas voltadas para a redução da máquina pública, assim como as reformas trabalhistas e da Previdência, tal como estão propostas, poderão estabelecer sérios limites à capacidade de crescimento industrial sustentável.

A despeito das explicações enumeradas, é importante destacar as particularidades relacionadas à indústria gaúcha a partir dos resultados acumulados em 12 meses, obtidos por seus diversos segmentos, até fevereiro de 2017 (IBGE). Esses mostram que o pior desempenho foi registrado pela indústria do fumo (-32%), resultado decorrente da redução da área plantada e agravado pela queda da rentabilidade provocada pelo clima desfavorável. Além dessa, as indústrias que também sofreram redução foram respectivamente: fabricação de coque, derivados do petróleo e biocombustíveis (-13,3%); produtos de minerais não metálicos (-10,9%); bebidas (-9,6%); mobiliário (-8%); produtos de borracha e material plástico (-5,8%); produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (-4,5%); veículos automotores, reboques e carrocerias (-3,6%); produtos químicos (-1,3%); couros, artefatos de couro e calçados (-0,8%); e máquinas e equipamentos (-0,3%). Ressalte-se que alguns segmentos poderão melhorar seu desempenho em consequência da esperada maior colheita de soja da história do Estado. A indústria fumageira, por sua vez, poderá recuperar-se um pouco, visto que a quebra de safra de 2016 foi maior do que o esperado.

A desaceleração da produção da indústria petroquímica vincula-se sobretudo à redução do preço internacional desse insumo. Vale lembrar que o complexo petroquímico vem sendo afetado pela crise institucional da Petrobrás, levando consigo importantes fornecedores gaúchos, como os produtores de plataformas marítimas, inibindo, por conseguinte, a perspectiva de criação do esperado polo naval. O desperdício do acúmulo tecnológico e a perda de empregos qualificados decorrentes do efeito do desmantelamento dessa estatal ainda não foram suficientemente avaliados. Essa empresa, profundamente enraizada na atividade industrial e nos serviços, é uma das principais companhias mundiais em termos de desenvolvimento tecnológico na exploração de petróleo em águas profundas, sendo um importante player do comércio internacional. Levando-se em conta a classificação da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) quanto aos indicadores de intensidade tecnológica, o complexo químico-petroquímico é um dos poucos da indústria estadual que se enquadra como de média-alta tecnologia.

De fato, é urgente traçar um horizonte de médio prazo com base no potencial da indústria gaúcha em segmentos que apresentam melhores chances competitivas e capacidade de gerar efeitos multiplicadores sobre a matriz industrial. A definição de um programa que vise ao avanço da indústria gaúcha em termos competitivos passa pelo apoio ao seu desenvolvimento científico e tecnológico. É o caso de apostar em núcleos de alta intensidade tecnológica em que o Estado apresenta um potencial a ser desenvolvido (indústria naval e de instrumentos médicos e odontológicos), bem como estimular a expansão dos setores de média-alta intensidade já existentes (indústria de material elétrico; material de transporte, em particular de máquinas agrícolas e de máquinas-ferramenta).

Em que pese às vicissitudes da política macroeconômica, é mais do que nunca fundamental retomar alguns elementos necessários à elaboração de uma política industrial para o RS. Nesse sentido, é importante referir que uma das principais vantagens estaduais reside no existente aparato institucional de suporte à produção de ciência e tecnologia, capaz de garantir a expansão dos segmentos industriais referidos, cuja continuidade encontra-se ameaçada.

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Recessão e indústria no Rio Grande do Sul

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Edição: Ano 26 nº 5 – 2017

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Recessões são fenômenos cíclicos que se repetem com frequência irregular em todas as economias de mercado. Tais períodos são caracterizados por uma queda simultânea em diversas atividades econômicas e, em geral, envolvem um alto custo social, com aumento do desemprego e queda na produção, nas vendas e na renda. Períodos assim, no entanto, constituem a exceção e não a regra na história econômica. Em outras palavras, toda recessão, uma hora ou outra, acaba e é substituída por uma nova fase de expansão, que, em média, dura mais que os períodos recessivos. Cada recessão, contudo, apresenta características que a tornam singular, seja pelos mecanismos causais, seja pelos canais de transmissão que atuam em determinado momento histórico. Não é objetivo deste texto tratar dessas especificidades, mas tão somente analisar o comportamento da produção industrial do estado à luz dos períodos de recessão no Brasil.

No Brasil, entre 1980 e 2009, houve oito períodos recessivos, com duração média de 15,8 meses, segundo o Comitê de Datação dos Ciclos Econômicos (Codace-Ibre-FGV). As mais longas recessões do País, contudo, concentram-se na década de 80 e no início da década de 90, com duração média de 26 meses.

Em 2014, o Brasil entrou em sua mais recente — e longa — recessão desde a década de 80, sendo esta, talvez, a mais longa de sua história. E, com ela, a atividade econômica deteriorou-se rapidamente, processo que se intensificou em 2015 e 2016. As taxas de crescimento trimestrais tornaram-se negativas a partir do segundo trimestre de 2014, tanto no Brasil quanto no RS, indicando uma simultaneidade entre o início da fase recessiva de ambos. Com isto, nos últimos três anos, a queda acumulada no Produto Interno Bruto (PIB) foi de 6,8% no Brasil e de 6,6% no RS.
Diante dessa conjuntura, a indústria foi um dos setores que mais sofreu no Estado. O Valor Adicionado Bruto (VAB) da indústria gaúcha, nos últimos três anos, sofreu queda de aproximadamente 18%, sendo a maior parte relativa à indústria de transformação. Contudo é justamente nessa atividade onde começam a aparecer os primeiros sinais de arrefecimento na contração do setor, talvez na própria recessão no Rio Grande do Sul.

Para avaliar o cenário recessivo no qual está inserida a economia do Rio Grande do Sul, é interessante observar o comportamento da produção da indústria gaúcha. Existem dois motivos principais pelos quais o índice de produção industrial pode ser utilizado nesse contexto. Primeiramente, é um indicador historicamente utilizado como proxy mensal da atividade econômica de um país. No entanto, com o aumento considerável da participação dos serviços no produto, foi substituído por outras proxies mais adequadas para esse fim. Contudo a produção física da indústria ainda pode ser entendida como um indicador coincidente da atividade econômica. Isto é, os movimentos cíclicos na indústria tendem a acompanhar conjuntamente os ciclos econômicos e, portanto, podem dar algumas pistas sobre o comportamento da economia com uma frequência mais alta que o PIB, uma vez que os dados de produção industrial estão disponíveis mensalmente, enquanto o PIB é divulgado somente a cada trimestre.

A figura a seguir mostra o comportamento do índice de produção física do Rio Grande do Sul da Pesquisa Industrial Mensal (PIM-PF) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no período de janeiro de 2002 a fevereiro de 2017, juntamente com a datação das recessões no Brasil realizadas pelo Codace. Nesse período, o País entrou em recessão três vezes. A primeira foi iniciada em novembro de 2002 e findada em junho de 2003; a segunda começou em agosto de 2008 e teve término em janeiro de 2009. Mais recentemente, no segundo trimestre de 2014, o país entrou em sua primeira recessão nesta década.

Ao longo desse período, é possível observar alguns momentos de queda na produção industrial. Nota-se que há épocas de retração mais branda da atividade, associados a períodos de seca no Estado, como nos anos de 2004-05 e 2012. Contudo as contrações mais intensas nesse indicador estão associadas a períodos de recessão nacional, indicando uma alta correlação entre a queda cíclica da atividade econômica no País e a produção da indústria gaúcha.

Percebe-se também que o comportamento do indicador não é homogêneo entre os períodos recessivos nacionais. Nas duas primeiras recessões, nota-se uma rápida e profunda queda da série, seguida de uma recuperação igualmente veloz e intensa. Tais características, contudo, não parecem estar presentes na atual recessão. Alguns meses antes do início da terceira recessão, a produção industrial já vinha demonstrando tendência de queda. Após o início do período recessivo, essa tendência aprofundou-se, havendo pequenas oscilações entre crescimento positivo e negativo em torno da tendência contracionista.

Todavia, ao final do período em análise, os primeiros sinais de “trégua” na recessão começaram a aparecer na produção industrial do Rio Grande do Sul. Em primeiro lugar, o menor nível de produção da série histórica foi atingido em abril de 2016. Desse ponto até fevereiro de 2017, o indicador já acumula quase 8% de crescimento. Em segundo lugar, a frequência com que ocorreram taxas positivas de crescimento em seis meses (i.e., t/t-6) — entre as atividades da indústria de transformação gaúcha (alimentos, bebidas, fumo, couro, celulose, derivados de petróleo, químicos, borracha e plástico, metalurgia, produtos de metal, máquinas e equipamentos, veículos e móveis) — aumentou.1 Contudo, como explicado anteriormente, toda recessão tem seu fim. Salvo alguma mudança estrutural na economia que inverta para baixo a tendência de longo prazo do setor, o mesmo vale para quedas cíclicas setoriais. E quanto mais tempo dura a contração, mais aumentam as chances de a mesma se encerrar. Na produção industrial do Rio Grande do Sul, essa queda iniciou em outubro de 2013, havendo chances de ter findado ainda em 2016, caso a trajetória positiva da série se mantenha nos próximos meses. Poderia esse ser um indicativo de que a recessão no Estado está com os dias contados?


1 As séries foram dessazonalizadas utilizando o método X13-ARIMA-SEATS.

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Reflexões sobre as novas exigências de conteúdo local e o Polo Naval de Rio Grande

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Edição: Ano 26 nº 4 – 2017

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A indústria naval e offshore é uma indústria complexa que envolve diversas etapas ao longo do tempo para o planejamento e a montagem de produtos de alto valor agregado. Nas últimas décadas, os processos de produção evoluíram e houve uma crescente automação dessas etapas. Para que o setor seja competitivo, são necessários investimentos elevados, cujo retorno se dá após longa maturação, de modo que uma demanda estável por um período prolongado torna-se fundamental.
A exigência de conteúdo local é um expediente utilizado pelo Governo Federal para ampliar a participação da indústria nacional no fornecimento de bens e serviços, gerando emprego, renda e desenvolvimento tecnológico. Os contratos de concessão para exploração, desenvolvimento e produção de petróleo e gás natural são firmados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) com as empresas vencedoras nas rodadas de licitações e incluem a cláusula de conteúdo local.
Desde o início dos anos 2000, a decisão da Petrobras de priorizar a aquisição de navios e de plataformas no País por meio do estabelecimento de uma política de conteúdo local nacional foi a principal responsável pela recuperação da indústria naval brasileira. Entretanto, essa indústria está novamente em risco. Em razão da queda do preço do barril de petróleo, somada à crise na Petrobras, além das deficiências nas regras de conteúdo local, que vigoraram desde 2005, com a aferição ex post dos índices de conteúdo, novas regras, que representam uma redução substancial das exigências, foram acertadas. Essas regras vão valer em todas as rodadas que serão realizadas a partir da 14.a, prevista para o mês de setembro de 2017.

A crise na Petrobras levou ao redimensionamento de suas atividades, afetando as encomendas e os empregos tanto no setor como na cadeia produtiva. Além do cancelamento de encomendas, houve atrasos nos pagamentos aos estaleiros e nas decisões de investimento e expansão da produção. A corrupção e o endividamento excessivo de alguns estaleiros também colaboraram para agravar a situação. Conforme o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), o setor naval já perdeu aproximadamente 44% dos empregos entre 2014 e 2016, passando de 71,5 mil para 40,2 mil respectivamente. No Conselho Regional de Desenvolvimento (Corede) Sul do Rio Grande do Sul, os municípios mais afetados pela situação atual da Petrobras são Rio Grande e São José do Norte. No primeiro, dos 7.483 empregos no setor naval, em dezembro de 2014, só restaram 1.651 no final de 2016, incluindo, nesse número, a demissão, no mês de dezembro, de mais de 3.000 trabalhadores por parte do Estaleiro Rio Grande. Um certo alívio sobreveio em março de 2017, quando a Petrobras e o Consórcio QGI firmaram um contrato para a montagem das plataformas P-75 e P-77. Com a retomada dessa encomenda, haverá uma recuperação parcial do emprego no setor, nesse município. Já no Município de São José do Norte, o estaleiro EBR continua montando a P-74, cuja conclusão está prevista para os próximos meses. Nesse município, os empregos no setor ficaram em 817, 2.883 e 2.613, respectivamente, nos meses de dezembro de 2014, 2015 e 2016. O problema do Polo Naval do Corede Sul é que não há previsão de novos projetos e que as encomendas da Petrobras, depois da reestruturação em curso, sofrerão uma redução substancial. Além disso, as novas regras de conteúdo local constituem um desestímulo às empresas nacionais para efetuar investimentos que exigem uma demanda estável durante longos períodos para recuperar os pesados investimentos. A política de conteúdo local incentivou a entrada em operação de empresas nacionais e permitiu o adensamento da cadeia produtiva, possibilitando o desenvolvimento de uma indústria de fornecimento de bens e serviços relativamente sofisticados tecnologicamente. Entretanto, com a redução das exigências, as empresas estrangeiras que se instalaram no território brasileiro para atender a demanda de conteúdo local não terão o mesmo estímulo para continuar produzindo no País e poderão transferir suas operações para o exterior. Assim o fazendo, estarão prejudicando aqueles fornecedores locais da cadeia produtiva que investiram para atendê-las.

Ao optar pela redução do conteúdo local, o Governo favorece a substituição de fornecedores locais da indústria naval e offshore por fornecedores externos. Com essa decisão, praticamente desconsiderou que a política de conteúdo local anterior incentivou as empresas do setor a investirem na produção de bens e serviços e possibilitou o desenvolvimento de uma indústria tecnologicamente mais sofisticada, que permitiu a redução do hiato de competitividade com o exterior.1 A redução das encomendas já tinha abalado profundamente a indústria naval e offshore brasileira, mas a mudança nas regras de conteúdo local representa um fator adicional, que restringe as possibilidades de uma maior participação das empresas nacionais nessa indústria. O percentual de conteúdo local mínimo na produção de plataformas, por exemplo, passou de 55% para 25%, apresentando uma redução de 54,5%, retalhando, assim, a cadeia produtiva e tornando o País um simples montador de plataformas. No caso do Rio Grande do Sul, considerando a redução das encomendas e as novas regras de conteúdo local, o retrocesso do Polo Naval do Corede Sul é inevitável.

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