Textos na área temática: Exportações

Exportações, mercado interno e produção industrial brasileira

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Edição: Ano 26 nº 10 – 2017

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As exportações brasileiras representaram, em 2016, 12,5% do Produto Interno Bruto (PIB). Esse percentual, ao longo das primeiras décadas do século XXI, teve o seu apogeu em 2004, quando o valor chegou a 16,5%. A partir de então, iniciou uma trajetória de redução, apesar de as exportações continuarem apresentando, em termos reais, um percurso de crescimento até 2007 (Gráfico 1). Depois desse último ano, a crise econômica mundial afetou tanto a quantidade exportada quanto a sua participação no PIB.

Quando se analisa a evolução do índice de quantum das exportações, observa-se que ele manteve uma elevada correlação com a evolução da produção física da indústria brasileira (transformação e extrativa mineral) até 2014, ou seja, até esse último ano, os ciclos da produção industrial acompanharam tanto o ciclo das exportações quanto o do mercado interno.

Pode-se estabelecer três fases bem definidas nessa trajetória das exportações e da produção industrial. A primeira estende-se de 2002 a 2007. Nesse período, o quantum das exportações cresceu a uma taxa média anual de 10,4%, enquanto a produção física da indústria cresceu 4,0% a.a. A segunda fase compreende o período 2008-14, quando tanto a produção física da indústria quanto o volume das exportações se mantiveram praticamente estagnados. Assim, observa-se que o volume das exportações brasileiras em 2014 foi 1,0% inferior ao apresentado em 2007, enquanto a produção industrial encerrou o ano de 2014 2,5% acima da de 2007, o que correspondeu a uma taxa média de crescimento anual de apenas 0,35%. A terceira fase engloba o período 2015-16, anos de queda acentuada do PIB, quando se verificou um comportamento assimétrico entre essas duas séries. Essa dissociação representa o impacto da redução do mercado interno sobre a produção industrial, comportamento que resultou da queda do consumo da administração pública, como consequência do ajuste fiscal promovido pelos Governos Federal e estaduais, do desemprego e da queda dos investimentos e seu impacto sobre o consumo das famílias.

Em 2017, o módico crescimento apresentado pela produção industrial nos primeiros sete meses do ano (0,9%) tem sido puxado pelas exportações localizadas em algumas atividades industriais ou por setores que têm uma participação substancial do mercado externo no total da sua demanda. Esse é o caso, por exemplo, da produção física da indústria extrativa mineral, a qual cresceu 5,2% no período em análise e que esteve associada ao crescimento das exportações de petróleo e gás natural bem como de minerais metálicos e não metálicos. Também merece destaque o crescimento da produção de veículos automotores (11,5%), que, em 2017, tem apresentado um grande aumento de suas vendas no mercado externo. Outro setor que mostra importantes efeitos de encadeamento sobre os demais setores da atividade industrial é o de fabricação de máquinas e equipamentos, cujo crescimento da produção (3,1%) está associado ao mercado externo e ao crescimento da produção agrícola. Dentro do grupo com elevado coeficiente de exportações, ainda convém destacar a produção de celulose e produtos de papel, que apresentou um crescimento tanto nas exportações como na produção (Gráfico 2).

Outros setores importantes dentro do parque industrial brasileiro, seja pela sua participação no Valor da Transformação Industrial, seja pelos seus efeitos de encadeamento, continuaram apresentando queda substancial na produção, apesar de terem tido um grande crescimento nas vendas externas. Esse é o caso das fabricações de coque e derivados do petróleo e de outros equipamentos de transporte. Apesar de, nesses setores, não haver uma correlação direta entre essas duas variáveis, pode-se inferir um desempenho bem inferior, caso não tivesse havido um substancial crescimento das exportações.
Segundo a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), quando se observa isso de um ponto de vista mais agregado, tem-se que, nos primeiros setes meses do ano, o quantum de exportações de manufaturados cresceu 2,5%, sendo que, no caso de bens de consumo duráveis, essa taxa chegou a 42,7%. No entanto, conforme demonstram os dados das Contas Nacionais, divulgadas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), relativas ao primeiro semestre do corrente ano em relação ao primeiro semestre de 2016, a formação bruta de capital fixo apresentou uma queda de 5,1%, o consumo da Administração Pública caiu 1,9%, e o consumo das famílias teve uma queda de 0,6%. Assim, em que pese o fato de alguns setores da indústria já estarem operando com taxas positivas de crescimento da produção em 2017, os dados das Contas Nacionais em conjunto com o desempenho desigual entre os setores industriais dificilmente dariam suporte a uma reversão consistente do ciclo de crise da economia brasileira.

A análise acima parece demonstrar que uma reversão mais substancial da produção industrial deverá ir além do crescimento das exportações, ou seja, faz-se necessária uma reativação da demanda doméstica. A dimensão relativamente elevada da economia brasileira (9.a colocada no ranking mundial), o grande e diversificado parque industrial e o tamanho da população do País requerem um crescimento que esteja associado com o desenvolvimento do mercado interno. Isso, no entanto, vai depender de políticas que estimulem a geração e a distribuição de renda, de emprego e de investimentos.

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A evolução do Índice de Rentabilidade das Exportações Gaúchas no período 2008-16

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Edição: Ano 26 nº 4 – 2017

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A Fundação de Economia e Estatística lançou, no dia 15 de março, um novo indicador: o Índice de Rentabilidade das Exportações Gaúchas (IREG), cujo objetivo é acompanhar mensalmente a evolução das rentabilidades total e setorial advindas da atividade exportadora do Estado ao longo do tempo. Tal acompanhamento contribui tanto para o setor governamental, auxiliando no direcionamento e na avaliação de políticas públicas voltadas ao setor produtivo, quanto para o empresarial, na medida em que permite entender, com maior precisão, a opção de uma empresa direcionar a sua produção para o exterior ou para o mercado doméstico ou, ainda, sua decisão de realizar, ou não, investimentos voltados à exportação. Logo, o IREG contribui para a avaliação da dinâmica da atividade produtiva exportadora do Rio Grande do Sul, indicando a direção e a margem de ganho de tal atividade. Ademais, o IREG é baseado no indicador nacional de rentabilidade das exportações, da Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex), e é o único existente em âmbito estadual.

O IREG resulta da relação entre três dos principais determinantes da rentabilidade exportadora, quais sejam o preço de exportação, a taxa de câmbio e os custos de produção. O diferencial do índice de rentabilidade é calcular, explicitamente, os custos de produção para as atividades econômicas que produzem bens tradables, ou seja, bens exportáveis, os quais só podem ser calculados a partir de uma matriz de insumo-produto (MIP). No caso, foi utilizada a matriz mais atual do Rio Grande do Sul — referência 2008, calculada pela Fundação de Economia e Estatística (FEE). Além da MIP-RS 2008, outra ferramenta de grande relevância para o cálculo do IREG foi o Sistema de Exportações FEE (SisExp), que fornece, nesse caso, os preços de exportação.

Quanto aos dados, a série anualizada do IREG aponta três períodos bastante definidos: o primeiro, de redução da rentabilidade, deu-se entre 2008 e 2011; o segundo, de crescimento, ocorreu de 2012 a 2015; e o terceiro, de forte recuo da rentabilidade exportadora gaúcha, evidenciou-se em 2016.

O primeiro período foi marcado pela forte apreciação do real em relação ao dólar e pela elevação dos preços de exportação e dos custos de produção, desconsiderando os efeitos adversos da crise financeira internacional de 2008/2009. Nesse momento, os preços dos bens exportados pelo RS ainda mostravam-se elevados, sob o efeito do boom das commodities, o qual também contribuiu para a apreciação do câmbio.

Já no segundo período, a rentabilidade das exportações gaúchas cresceu ano após ano, até atingir o seu valor máximo em 2015, mesmo esse sendo um ano marcado pelas recessões brasileira e gaúcha, caracterizadas pela piora de praticamente todos os indicadores econômicos e sociais. Nesse período, a taxa de câmbio passou a se depreciar continuamente a partir do segundo semestre de 2011 (e, com maior intensidade, em meados de 2014), enquanto os custos de produção continuavam o seu comportamento altista, e os preços de exportação se mantinham praticamente estáveis até o primeiro semestre de 2014. Desse momento em diante, na esteira do fim do boom das commodities, os preços despencaram no mercado internacional. Mesmo assim, o câmbio mais que compensou os efeitos negativos dos demais componentes: enquanto a taxa de câmbio média, em 2011, fechou a R$/US$ 1,67, ela alcançou R$/US$ 3,33 em 2015.

A rentabilidade, por sua vez, recuou, em 2016, 9,9% em relação a 2015, pois o câmbio, mesmo com a depreciação de 4,8%, não foi capaz de neutralizar os efeitos adversos tanto da retração dos preços dos bens exportados (-5,3%) quanto do crescimento dos custos de produção (mais 10,5%). Com relação aos dados setoriais, todas as atividades, com exceção de apenas quatro (agricultura, produtos do fumo, outros equipamentos de transporte e pecuária e pesca), registraram variações negativas nos seus preços; por outro lado, os custos de todas as atividades econômicas apresentaram elevação. Na mesma comparação, foram registrados o maior recuo anual da rentabilidade e o maior aumento dos custos em toda a série.

Por fim, cabe destacar que a abertura setorial do IREG permite acompanhar as diferenças de trajetórias entre as atividades econômicas que o índice total não revela. Enquanto 2011 foi o ano em que o IREG total registrou o seu valor mínimo, ele também foi mínimo apenas para 12 das 25 atividades econômicas calculadas. Por outro lado, enquanto 2015 foi o ano com rentabilidade máxima no Estado, ela também foi máxima apenas para 11 atividades. Dessa forma, fica visível a relevância de se acompanhar os dados setoriais para um maior entendimento da realidade exportadora do RS, na medida em que ficam evidenciadas grandes diferenças na evolução da rentabilidade de cada atividade em resposta às diferenças no desempenho dos preços de exportação e nas estruturas de custo que impactam, de formas diferenciadas, a rentabilidade de cada atividade.

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O desempenho exportador do Rio Grande do Sul em 2016

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Edição: Ano 26 nº 2 – 2017

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Em 2016, as exportações gaúchas totalizaram US$ 16,578 bilhões, uma redução de US$ 939,9 milhões (-5,4%) em relação a 2015. A retração das receitas ocorreu a despeito do crescimento de 2,5% nos preços médios dos produtos exportados, sendo ocasionada pela queda de 7,6% no volume embarcado ao exterior. Enquanto o valor auferido em 2016 alcançou o menor patamar desde 2010 e registrou o terceiro ano consecutivo de queda, o volume embarcado (21,674 milhões de toneladas) foi o segundo maior da história, atrás apenas do de 2015. Já os preços médios dos produtos exportados voltaram a crescer após dois anos de fortes quedas. O resultado coloca o Estado como o quarto maior exportador nacional (8,9%), atrás de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Os determinantes que contribuem para explicar esses resultados são de ordem tanto estrutural quanto conjuntural, passando por questões externas e internas. No plano externo e estrutural, o ano de 2016 caracterizou-se pelo menor crescimento do comércio e da atividade econômica globais, além do recrudescimento de práticas protecionistas ao redor do mundo. Ainda sem os dados consolidados, 2016 deve ser o ano com o ritmo mais lento de crescimento do comércio mundial desde o auge da crise financeira internacional, em 2009. Adicionalmente, a taxa de crescimento do comércio, que evoluiu o dobro da taxa do PIB mundial desde os anos 80 até a crise financeira, desacelerou-se pela metade no período recente, com possibilidade de crescer menos que o produto em 2016, algo que não ocorre há mais de uma década.

Soma-se, no plano externo, a dinâmica dos preços das commodities. Após o forte arrefecimento desses preços a partir do final de 2012 e com maior intensidade desde o final de 2014, os preços em dólar dos produtos exportados pelo Rio Grande do Sul iniciaram uma recuperação gradual ao longo de 2016. Esse movimento foi influenciado pela recuperação, mesmo que incipiente, dos preços dos produtos básicos, na esteira da recuperação pontual dos preços internacionais de algumas commodities importantes para o Estado, como a soja em grão e o fumo em folhas.

No que tange ao plano interno, o destaque positivo de 2016, na comparação com 2015, foram as vendas de celulose, com crescimento de 789.000 toneladas e recorde de volume embarcado para a China — principal destino da celulose gaúcha — e outros 18 países. A explicação para o referido crescimento é a quadruplicação da capacidade produtiva da planta em Guaíba e a base de comparação ainda baixa. Outros dois produtos de destaque foram as vendas de calçados e de automóveis de passageiros. As vendas de calçados cresceram 18% em valor e 42% em volume (8,227 milhões de pares vendidos a mais do que em 2015), influenciadas pelo aumento da rentabilidade do setor no ano, da contração do mercado interno e do aumento na participação em feiras internacionais. Foram registrados crescimentos nos embarques para a Argentina (mais 1,713 milhão de pares), Estados Unidos (mais 1,590 milhão de pares) — os dois mais tradicionais destinos dos calçados gaúchos — e para outros 100 países. Já as vendas de automóveis cresceram 46% em valor e 47% em volume, influenciadas também pela contração do mercado interno e do estabelecimento de novos acordos automotivos a partir de 2015, com o consequente crescimento das exportações para a Colômbia e início para o Chile (mais 3.000 unidades cada), além da forte retomada das encomendas da Argentina (mais 7.000 unidades).

Por outro lado, os produtos que mais contribuíram negativamente para o resultado geral das exportações gaúchas foram a soja em grão, o trigo e o arroz. A produção da oleaginosa cresceu 3,2%, mas as exportações recuaram 10,6% em volume (retração de 1,125 milhão de toneladas), um fato atípico na medida em que grande parte do grão produzido pelo Estado se volta à exportação. Ademais, até o primeiro semestre, as vendas externas de soja alcançaram o recorde de toda a série histórica. Contudo fatores como concorrência antecipada atípica da safra norte-americana, frustração da produção brasileira e a estratégia de segurar os estoques para alcançar maiores preços tanto pela valorização no mercado internacional quanto pela variação cambial contribuem na explicação desse desempenho aparentemente paradoxal (FEIX, 2017). Já o recuo nas vendas de trigo (70,7% em valor e 64,9% em volume) se deu pela boa qualidade na produção dos grãos, que cresceu 82,5%. Com tal qualidade, os grãos voltam-se ao abastecimento do mercado interno, diferentemente do que ocorre quando os grãos não atingem a qualidade mínima exigível e são vendidos ao exterior. Já a retração das vendas de arroz (-30,0% em valor e -27,8% em volume) foi ocasionada pela quebra de safra por conta do excesso de chuva.

Mesmo com a forte retração nas vendas de soja em grão, a oleaginosa continua sendo o produto mais vendido pelo Rio Grande do Sul (22,8% da pauta exportadora). Os demais principais produtos exportados foram: fumo em folhas (9,6%), carne de frango (6,3%), polímeros plásticos (6,1%) e farelo de soja (5,3%). A venda desses cinco produtos representou metade de toda a receita exportadora gaúcha. Em relação aos principais mercados de destino, China (26,1%), Argentina (7,9%), Estados Unidos (7,4%), Holanda (3,7%) e Bélgica (3,0%) foram os que mais compraram produtos gaúchos, com esses dois últimos países servindo de porta de entrada das mercadorias gaúchas para a União Europeia como um todo. Já a maior variação positiva de valor foi observada para o Irã (mais US$ 251,9 milhões), após a suspensão das sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) contra o país; e a maior variação negativa foi registrada para a China (menos US$ 540,3 milhões), por conta da venda, em 2015, do casco da plataforma P-67 por US$ 394,2 milhões e do recuo das compras de soja em grãos.

Dessa forma, quando se leva em consideração a conjuntura externa — baixo crescimento do comércio global e deflação nos preços dos produtos —, as exportações gaúchas não foram tão mal em 2016, na medida em que foi registrado o segundo maior volume da história, e os preços voltaram a crescer após dois anos. Contudo elas poderiam ter sido bem melhores caso, por exemplo, as vendas de soja não fossem impactadas negativamente pela tentativa frustrada de capitalização do setor. Essas questões apenas reforçam a necessidade da diversificação da pauta exportadora do Estado com o avanço nas cadeias de valor, bem como da ampliação dos seus mercados de destinos, para que movimentos conjunturais ou estruturais não afetem sobremaneira as receitas e os embarques dos produtos gaúchos destinados ao exterior.

Como citar:

TOREZANI, Tomás Amaral. O desempenho exportador do Rio Grande do Sul em 2016 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/o-desempenho-exportador-do-rio-grande-do-sul-em-2016/>. Acesso em: 22 de outubro de 2017.

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Safra recorde, exportações em queda: o desempenho do complexo soja gaúcho em 2016

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

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Na segunda semana de janeiro, a Fundação de Economia e Estatística divulgou informações detalhadas sobre as exportações de mercadorias do agronegócio gaúcho em 2016. As vendas externas do agronegócio somaram US$ 11,0 bilhões, o que equivale a 66% das exportações totais do Rio Grande do Sul no ano passado.
Em termos setoriais, o principal destaque foi o complexo soja, que, além do grão, abrange os dois principais produtos derivados do seu processamento (farelo e óleo). As exportações gaúchas desse setor totalizaram US$ 4,8 bilhões, valor 8,2% inferior ao registrado em 2015. No ano em que a safra gaúcha de soja, pela primeira vez, foi superior à marca de 16 milhões de toneladas, os volumes embarcados para o exterior recuaram 9,9%. Na sequência, são analisados três fatores que podem explicar esse desempenho aparentemente paradoxal observado em 2016.
Um primeiro aspecto a se destacar é o ritmo das vendas externas da safra brasileira. Mesmo com a frustração da produção nacional, nos primeiros meses do ano, os embarques do grão foram intensos, tendo-se registrado crescimento de 37% até o mês de maio. A expansão dos volumes comercializados foi sustentada principalmente pelo escoamento da safra da Região Centro-Oeste, colhida antecipadamente em relação ao Sul e ao Nordeste. A partir de junho, com a contabilização das perdas, sobretudo no Mato Grosso e na região dos Estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia (conhecida por Matopiba), os embarques contraíram. Aparentemente, houve um ajuste nas vendas externas para garantir o atendimento da demanda doméstica, criando-se um incentivo à retenção de uma parcela adicional da safra gaúcha.

O segundo fator que constrangeu as exportações gaúchas de soja foi a dimensão da safra dos Estados Unidos, principal produtor mundial da oleaginosa. A colheita da safra norte-americana é iniciada tradicionalmente em setembro, e as exportações intensificam-se nos meses seguintes, até fevereiro. Em 2016, tendo em vista a ocorrência de condições climáticas excepcionalmente favoráveis ao desenvolvimento da cultura, os recordes de produtividade e produção eram dados como certos já no mês de agosto. Essa perspectiva de crescimento da oferta acelerou a comercialização dos estoques de passagem nos Estados Unidos e reduziu a demanda pela produção sul-americana ainda disponível. Pela primeira vez, as exportações norte-americanas, no período imediatamente anterior à entrada da nova safra (meses de julho e agosto), superaram a marca de cinco milhões de toneladas, segundo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA).

A aproximação da supersafra, nos Estados Unidos, coincidiu com a queda das cotações internacionais, que haviam atingido o ponto mais alto em junho (média de US$ 420,03/tonelada). Até aquele momento, o crescimento da demanda externa sinalizava preços altamente remuneradores para a venda no Brasil: à valorização de 26% no preço Free on Board (FOB), em Paranaguá, acrescia-se a desvalorização de 10% na taxa de câmbio, comparativamente a junho de 2015. Desde então, além da queda nos preços de exportação, houve valorização da taxa de câmbio — interrompida em novembro —, o que produziu preços internos (em reais) menos favoráveis à exportação. Conformou-se, assim, uma terceira razão para a redução dos embarques gaúchos de soja no segundo semestre. Apenas em dezembro houve uma ligeira recuperação nas vendas, insuficiente para a compensação das quedas dos meses anteriores.

Ainda que uma parcela adicional da safra gaúcha tenha sido destinada ao atendimento do mercado brasileiro, conforme sugerido anteriormente, os estoques de passagem continuam elevados no Estado. Em 2017, a perspectiva de um novo recorde de produção de soja no Rio Grande do Sul aumenta a importância do planejamento pelos atores envolvidos na atividade de comercialização. O IBGE projeta que a safra gaúcha será 1,1% superior à verificada em 2016, isso em um cenário que contempla ainda a recuperação da produção nacional (104,9 milhões de toneladas, alta de 9,6%). Se confirmado esse cenário, e a safra dos demais países sul-americanos não for severamente prejudicada pelo clima — o impacto das chuvas recentes na Argentina ainda precisa ser dimensionado —, projeta-se uma elevação na relação estoque/consumo mundial de soja. Esse seria um fator limitante à recuperação dos preços internacionais do produto no primeiro semestre de 2017. Por óbvio, há outras variáveis que influenciam as cotações e o faturamento dos produtores e dos cerealistas brasileiros, a exemplo da taxa de câmbio e das estratégias de comercialização.

Em termos mais abrangentes, tendo o desenvolvimento econômico do Rio Grande do Sul em perspectiva, permanece o desafio de estabelecer condições internas e externas que, no longo prazo, viabilizem a conversão de uma parcela maior da safra de soja e milho em proteína animal. Em outras palavras, isso significa avançar na cadeia de valor, aumentando a participação gaúcha na produção das carnes demandadas pelos países importadores de insumos para a ração animal (a China, por exemplo). Para que isso se torne possível, é fundamental melhorar a infraestrutura logística para a exportação e, sobretudo, garantir à indústria brasileira condições isonômicas em matéria tributária e de acesso a mercados, comparativamente aos principais concorrentes internacionais.

Como citar:

FEIX, Rodrigo Daniel. Safra recorde, exportações em queda: o desempenho do complexo soja gaúcho em 2016 Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/safra-recorde-exportacoes-em-queda-o-desempenho-do-complexo-soja-gaucho-em-2016/>. Acesso em: 22 de outubro de 2017.

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A evolução da economia brasileira recente revelada pela comparação de suas duas últimas Matrizes de Insumo-Produto

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Edição: Ano 26 nº 1 – 2017

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Em outubro de 2016, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou a nova Matriz de Insumo-Produto (MIP) nacional. A MIP é um painel sistemático e integrado da economia. As colunas representam os setores demandantes, e as linhas, os setores ofertantes. Os setores-linha são ordenados do Setor Primário ao Terciário. O valor total do produto de cada setor corresponde à soma do valor alocado em cada coluna-cadeia mais o consumo e investimento final das famílias. O valor total do produto de cada coluna-cadeia é o valor dos insumos adquiridos dos diversos setores mais os rendimentos dos trabalhadores e empregados (que se transformarão no consumo e investimento das famílias). O somatório dos valores de colunas e linhas é o mesmo, por definição, mas como as fontes de informação são díspares e distintas, no início do processo de cálculo, os valores podem apresentar divergências. A produção da MIP envolve a análise crítica dos dados estatísticos obtidos em separado e de forma individual. Não é raro que a produção da MIP traga à luz inconsistências em informações estatísticas parciais, que portavam algum viés (em função do padrão de coleta ou sistematização), mas que se mantinham inaparentes até que o exercício de totalização e sistematização as revelassem.

Um instrumento tão rico tem um custo: produzir uma MIP é trabalho de anos. A MIP lançada em 2016 toma por referência o ano de 2010. A MIP anterior (com menos setores) foi lançada em 2008 e tem por referência o ano de 2005. Além disso, ao longo desses cinco anos, passamos por um processo inflacionário interno, os preços relativos alteraram-se, o salário real elevou-se, houve uma crise internacional que impôs uma forte flutuação cambial, mas, ao fim e ao cabo, a moeda nacional sofreu forte apreciação real. Ao longo dos cinco anos, a relação real/dólar em Paridade do Poder de Compra (com referência a 1.° de julho de 1994) passou de R$ 1,0276 = US$ 1,00 em 31 de dezembro de 2005 para uma relação de R$ 0,6727 = US$ 1,00 em 31 de dezembro de 2010. A evolução do câmbio real e a comparação dos valores monetários das duas MIPs toma o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) como indicador de inflação e deflator. A despeito do deflator implícito do Produto Interno Bruto (PIB) ser mais amplo e estar diretamente vinculado à MIP, o IPCA apresenta uma dinâmica muito próxima e é mais adequado para avaliar a evolução do salário real.

Nosso objetivo analítico foi avaliar a relação entre a valorização real da moeda brasileira e a ampliação da abertura da economia para importações. Nossa hipótese era de que, com a crescente exposição competitiva cambial, aumentaria o componente importado, em especial dos insumos intensivos em mão de obra. Como resultado, uma variação de demanda autônoma de R$ 1 bilhão, seja em exportações (X), seja em investimentos — formação bruta de capital fixo (FBKF) —, geraria menos emprego em 2010 do que gerava em 2005. Os resultados estão expostos na tabela.

Desde logo, chama atenção a evolução contrastante das exportações (X) e da FBKF em valores absolutos entre 2005 e 2010 (R$ bilhões). Enquanto as exportações totais cresceram 3,37%, a FBKF cresceu 97,28%. Mais do que a crise de 2008 (que também deveria deprimir os investimentos), a performance inferior das exportações parece dizer respeito à evolução do câmbio. É isso que as demais colunas da tabela nos revelam.

Ao testarmos a resposta da economia a uma variação de demanda externa (X) ou interna (FBKF), notamos uma queda expressiva na geração de produto interno em relação a 2005. Nesse ano, a cada R$ 1 bilhão de acréscimo de demanda sobre as exportações ou a FBKF, aproximadamente três quartos eram canalizados para o mercado interno e um quarto se evadia como importação. Em 2010, a absorção caiu em torno de 20%, ficando pouco acima dos 60%. Os setores exportadores tradicionais (exportações exceto indústria extrativa mineral) foram os que apresentaram o maior índice de desnacionalização de insumos: as importações corresponderam a 21,6% do Valor Adicionado Bruto (VAB) e subiram para 38,6%.

Como não poderia deixar de ser, os vazamentos de demanda terão impacto similar sobre o emprego, mas, ao contrário do que outras estatísticas vêm indicando e tal como prevê a teoria econômica, a queda relativa do emprego mostra-se maior do que a queda relativa do VAB. Afinal, numa situação de pressão competitivo-cambial e de elevação dos salários reais (vide a última coluna da tabela), a queda de rentabilidade dos setores tradables intensivos em mão de obra é inexorável, convergindo para os segmentos de maior produtividade. Nesse caso, a elevação da taxa de salário real não se converte em elevação da participação da massa salarial na renda e do multiplicador da economia. De fato, a MIP 2010 aponta para uma significativa elevação da produtividade do trabalho nos setores tradables. Dada a manutenção da política cambial e do afrouxamento recente da política industrial de defesa do componente nacional, é muito provável que esse processo tenha se aprofundado ainda mais de 2010 até a atualidade. Se isso de fato ocorreu, é hora de reavaliarmos os determinantes da (nova) década perdida. Por enquanto, o que é certo é que as críticas dos novo-desenvolvimentistas ao real forte ganham um expressivo aliado com a MIP 2010.

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Como citar:

PAIVA, Carlos Aguedo Nagel. A evolução da economia brasileira recente revelada pela comparação de suas duas últimas Matrizes de Insumo-Produto Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/a-evolucao-da-economia-brasileira-recente-revelada-pela-comparacao-de-suas-duas-ultimas-matrizes-de-insumo-produto/>. Acesso em: 22 de outubro de 2017.

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O que esperar para as exportações gaúchas em 2017?

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Edição: Ano 25 nº 11 – 2016

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O atual cenário recessivo brasileiro enseja diversos questionamentos a respeito das possibilidades e perspectivas de uma possível retomada do crescimento da economia do País, assim como da gaúcha, em 2017. Na comparação com o trimestre imediatamente anterior, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro vem recuando há seis trimestres sucessivos, desde o primeiro de 2015. Já na comparação interanual, a queda vem de nove trimestres consecutivos, acompanhada, há pelo menos seis trimestres sucessivos, por praticamente todos os componentes do produto. No mesmo sentido, o PIB do Rio Grande do Sul registrou quedas em oito dos últimos nove trimestres, desde o segundo de 2014.

Por outro lado, a exceção desse movimento são as exportações de bens e serviços, as quais são o único componente do PIB, pela ótica da demanda, a apresentar contribuição positiva desde 2015. O coeficiente de exportação da indústria de transformação apresentou, em 2015, uma reversão da trajetória de queda observada desde 2006 e mantém uma evolução positiva até o presente momento. Segundo a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Brasil foi o país, entre as grandes economias, que mais aumentou os embarques no primeiro semestre de 2016, e, embora com receitas menores por conta dos preços mais baixos dos produtos, a quantidade embarcada pelo País em 2016 no acumulado janeiro-outubro é a maior de toda a série histórica pelos dados do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços (MDIC). Os números do RS, na média, também seguem essa direção.

Recorrendo aos dados de registro fiscal de saídas da Secretaria da Fazenda do RS, é possível identificar três tipos de destinos das vendas gaúchas: para dentro do Estado, para o restante do Brasil e para o exterior. O gráfico abaixo evidencia que 2015 foi o ponto de inflexão das trajetórias crescentes das vendas para o resto do Brasil e das decrescentes para o exterior. A partir do referido período, todavia, as receitas em reais das vendas ao exterior cresceram fortemente. Nesse sentido, a recessão não prejudicou tanto as exportações do Estado, pelo contrário: a retração do mercado nacional, a forte depreciação da taxa de câmbio e uma demanda maior dos principais parceiros comerciais contribuíram para o incremento dos embarques, a rentabilidade dos exportadores e a elevação do número de empresas exportadoras, consolidando o mercado externo como alternativa viável à destinação da produção não vendida internamente. A questão que se impõe neste momento é se essa dinâmica favorável das exportações se manterá, ou não, em 2017.

Primeiramente, é mister compreender as perspectivas de crescimento do produto e do comércio mundiais. Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o produto global, que cresceu 3,2% em 2015, tem previsão de crescimento de 3,1% para 2016 e de 3,4% para 2017, crescimentos esses puxados pelos países emergentes, sobretudo pela gradual normalização das condições macroeconômicas em economias que passaram por recessões e pelo aumento do peso dos países de rápido crescimento na economia mundial. Contudo, tal cenário é dependente de alguns fatores atinentes a riscos tanto políticos, tais como as incertezas em relação ao Brexit e a possibilidade de discursos protecionistas se refletirem nas políticas comerciais, quanto econômicos, tais como a estagnação persistente das economias avançadas, o ajustamento da economia chinesa e seus efeitos sobre a economia mundial, além da volatilidade financeira dos países emergentes.

O arrefecimento da demanda global nos últimos anos (em especial do investimento) desempenha um papel importante para explicar o crescimento moderado do comércio. Nesse particular, 2016 deve ser o ano com o ritmo mais lento de crescimento do comércio e do produto mundiais desde o auge da crise financeira internacional, em 2009. O volume do comércio, que cresceu a taxas médias de 2,1% a.a. entre 2012 e 2015, obteve crescimento zero até julho de 2016. A projeção da OMC é de crescimento de 1,7% no final do ano e de algo entre 1,8% e 3,1% em 2017. Adicionalmente, o comércio, que crescia, na média, o dobro da taxa do produto global desde os anos 80 até a crise financeira, desacelerou pela metade e passou a acompanhar a taxa média de crescimento da atividade econômica no período recente, com possibilidade de crescer menos que o produto em 2016, algo inédito há 15 anos. Mesmo com uma possível melhora da demanda externa em 2017, os riscos continuam sendo altos.

Em relação ao principal item da pauta de exportação gaúcha, a soja em grão, a Emater-RS projeta uma redução na produção de 2,1%. Apesar de uma possível retração da quantidade exportada em 2017, o preço do grão vem revertendo a trajetória baixista desde o fim do boom das commodities. De forma mais geral, a intensa retração dos preços dos bens exportados iniciada em meados de 2014 começa a dar sinais de desaceleração, embora incipientes, sobretudo os preços dos produtos básicos, que já registram uma trajetória ascendente desde abril de 2016, no acumulado em 12 meses, no Estado. Nesse tocante, os preços das commodities, que atingiram o seu menor valor no início de 2016 desde o fim do boom, agora exibem certa valorização — em grande parte, pela dinâmica das commodities energéticas. Já a projeção para os preços de produtos relevantes na pauta exportadora do Estado, como os do complexo soja, as carnes e o fumo, é de ligeira redução, embora o cenário ainda seja incerto.

Em relação à produção industrial, o Estado acumula um recuo de 5,2% nos primeiros oito meses do ano, e de 8,8% nos últimos 12 meses. Apesar da desaceleração das quedas, uma retomada sustentada já para 2017 mostra-se difícil, mesmo que exista grande capacidade ociosa na indústria. Ademais, a taxa de câmbio nominal, que vinha em forte depreciação desde o início de 2015 — alcançando R$/US$ 4,04 no final de janeiro de 2016 —, fechou outubro a 3,18. A expectativa do mercado financeiro para 2017, segundo o Relatório Focus, é de uma taxa a 3,33.

Dessa forma, o atual cenário, caracterizado pelo baixo crescimento do comércio e do produto globais e pela elevação de práticas protecionistas, impõe o acirramento da concorrência aos produtos gaúchos no exterior e lança mais desafios para as exportações em 2017. Todavia, por apresentar uma pauta exportadora concentrada em poucos produtos e destinos, uma recuperação de parceiros comerciais relevantes e uma evolução mais favorável dos preços dos bens exportados podem reverter um cenário ainda pior para as vendas externas gaúchas.

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Como citar:

TOREZANI, Tomás Amaral. O que esperar para as exportações gaúchas em 2017? Carta de Conjuntura FEE. Porto Alegre, disponível em: <http://carta.fee.tche.br/article/o-que-esperar-para-as-exportacoes-gauchas-em-2017/>. Acesso em: 22 de outubro de 2017.

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Os árduos caminhos do crescimento sustentado

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Edição: Ano 25 nº 06 – 2016

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Embora os últimos governos tenham tentado lançar as bases de um crescimento econômico sustentado, esse horizonte parece cada vez mais distante. De um lado, porque parte da política econômica e parte das perspectivas de ampliação dos investimentos permaneceram excessivamente atreladas à orientação do capital internacional. De outro, porque os programas voltados para o reforço da dinâmica endógena, além de encerrarem importantes conflitos internos, não encontraram sustentáculo político-institucional.

No que se refere ao primeiro ponto, o Brasil vem afirmando, nas últimas décadas, uma inserção internacional com forte participação da exportação de commodities minerais e agrícolas. Tal especialização está alinhada com as novas tendências internacionais dos investimentos diretos do exterior (IDE), caracterizando um “modelo” que é chamado por muitos especialistas de especialização regressiva. Essa dinâmica gera pelo menos dois grupos de problemas. O primeiro decorre dos já verificados efeitos da destruição ambiental e da ampliação dos conflitos no campo. O segundo está relacionado à excessiva dependência da economia brasileira das oscilações internacionais dos preços desses produtos. O apoio aos IDEs aparece nos relatórios do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Isso não se restringe apenas aos financiamentos concedidos às grandes empresas internacionais, mas através de vários programas voltados para a implantação de infraestrutura visando à expansão das atividades de mineração e de agricultura extensiva. Essas ações estão configuradas sobretudo em alguns pontos do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), lançado em 2007 e ampliado em 2014.

Outro conjunto de programas buscou reforçar os elementos endógenos da economia dentro de uma estratégia de crescimento sustentado. É o caso da Política Industrial, Tecnológica e de Comércio Exterior (PITCE) (2003), da Política de Desenvolvimento Industrial (2010) e do Plano Brasil Maior (2011). Todos apresentaram como pontos comuns metas destinadas a ampliar os investimentos governamentais e privados, expandir as despesas em desenvolvimento tecnológico para difundir inovações sobre o tecido industrial brasileiro e qualificar as exportações. O Plano Brasil Maior, por exemplo, definiu metas de ampliação da participação dos investimentos de 18,4% para 22,4% e dos gastos em pesquisa e desenvolvimento de 0,59% para 0,9%, ambos com relação ao Produto Interno Bruto (PIB). Também buscou ampliar a participação dos segmentos de alta e média tecnologias sobre o valor da transformação industrial. Nesse sentido, também se insere o Inovar Auto (2012-13), destinado à inovação tecnológica e ao adensamento da cadeia produtiva de veículos automotores.

O terceiro conjunto de medidas destinou-se a elevar o consumo doméstico e baseou-se tanto em melhorar as condições de crédito e gerar isenções fiscais favoráveis ao consumo quanto na manutenção do poder de compra do salário mínimo e em políticas sociais específicas. A ampliação do consumo interno, no entanto, começou a perder fôlego devido ao recrudescimento do desemprego e aos limites impostos pelo equilíbrio fiscal.

É importante observar que todos os planos arrolados se basearam, em boa parte, na ampliação das exportações, concentradas, por sua vez, em commodities, gerando um círculo vicioso difícil de romper. A falta de uma base político-institucional capaz de apoiar algumas decisões econômicas mais polêmicas está bem ilustrada pelas controvérsias decorrentes da descoberta das reservas de Pré-Sal (2006). A implantação de um sistema de partilha (Lei 12.351/2010), que estabeleceu o Governo brasileiro como principal proprietário do petróleo extraído, e não mais a empresa que executava a extração, dificultou ainda mais as negociações do Governo com o Parlamento, porque se ampliou o interesse dos grandes grupos internacionais sobre a Petrobrás. Outros pontos também geraram disputas de difícil superação, como é o caso da legislação relativa à preservação ambiental e à manutenção dos direitos trabalhistas, diretamente relacionada à expansão da produção de commodities.

Em que pese às variações conjunturais da atividade produtiva, a definição de linhas básicas para a retomada do crescimento econômico, com uma relativa estabilidade, depende da recuperação e do foco dos investimentos. Na prática, continuaram dominando os investimentos orientados pelas tendências do mercado mundial. De fato, a indústria de transformação, após a queda consequente da crise internacional de 2008, manteve-se praticamente estagnada, caindo nitidamente após 2013, juntamente com o emprego. Já a extração mineral, à exceção do último trimestre de 2015, vem crescendo de forma regular. Os investimentos, por sua vez, estão em queda desde 2014.

Sinteticamente, pode-se afirmar que seria necessária a implantação de políticas públicas que, mesmo mantendo a exportação de commodities para garantir o superávit comercial, fundamentassem a qualificação e a ampliação do investimento produtivo. Um dos elementos-chave para a geração de uma base endógena para o crescimento sustentado relaciona-se ao estímulo às relações intersetoriais. O reforço de uma dinâmica de crescimento, baseada em variáveis internas e internalizadas, repousa sobre a dinamização dos setores de bens de capital e intermediários de média e alta intensidades tecnológicas. Somente com a inovação desses segmentos e com a ampliação de sua demanda interna seria possível estabelecer um contraponto às constantes oscilações do crescimento econômico.

Tendo em vista a atual correlação de forças do Parlamento brasileiro, bem como a nova orientação do executivo, é previsível que a orientação dos investimentos e das exportações, ainda que se ampliem, aprofunde sua dependência dos rumos dos IDEs. A Petrobrás, que está à frente de uma grande cadeia de fornecedores internos, com qualificação tecnológica e geradores de empregos qualificados, corre o risco de ser internacionalizada. Ademais, deve dominar o comércio bilateral, com a valorização do Tratado Transpacífico (TTP) e consequente perda de importância do Mercado Comum do Sul (Mercosul). O Parlamento, por seu turno, poderá aprovar as propostas de liberalização do controle ambiental e de flexibilização do trabalho. Finalmente, a recente aprovação da proposta orçamentária para 2016 poderá repercutir negativamente sobre a demanda interna.

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Indústria de fumo gaúcha tem desempenho positivo no primeiro trimestre

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Edição: Ano 25 nº 06 – 2016

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Com um crescimento de 136,2% em fevereiro e de 21,7% em março, a fabricação de produtos do fumo é um dos poucos destaques positivos da indústria gaúcha no primeiro trimestre de 2016, segundo a Pesquisa Industrial Mensal (PIM) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nesse período, foram criados 8.049 novos postos de trabalho com carteira assinada, o que representa um crescimento de 0,5%, ou 44 postos, em relação ao mesmo trimestre do ano anterior (ver tabela). Essa pequena elevação é resultado de um aumento significativo do emprego em fevereiro. Os empregos concentram-se em Santa Cruz do Sul e Venâncio Aires, que são os dois municípios onde se situa o maior número de empresas do ramo.

Esse resultado chama mais atenção se for levado em conta o fraco desempenho da lavoura de fumo no RS. De acordo com o último Levantamento Sistemático da Produção Agrícola (LSPA), do IBGE, em abril de 2016, a quantidade produzida de fumo no Estado sofreu uma retração de 21,3% devido a condições climáticas adversas, tais como o excesso de chuvas e a ocorrência de granizo nos meses de setembro e outubro de 2015. Embora menor, a produção não teve sua qualidade afetada segundo a Associação dos Fumicultores do Brasil (Afubra).

No Brasil, embora o crescimento da produção de fumo tenha sido superior ao do RS, o saldo de admitidos e desligados ficou praticamente estagnado. Quanto ao estoque de empregos no setor em março, este apresentou, no RS, variação negativa de 0,9% em comparação a março de 2015. O estoque anual tem caído desde 2013, no RS, acompanhando a queda da produção industrial, sendo que o mesmo pode ser observado no Brasil, desde 2012. Em março de 2016, a indústria de fumo gaúcha representava mais da metade da nacional no tocante à quantidade de trabalhadores com carteira assinada. O movimento do emprego nesse segmento tem caráter sazonal, apresentando saldo positivo no período de janeiro a maio e negativo no resto do ano. Tradicionalmente, o pico das contratações ocorre no mês de março, momento em que a colheita do fumo é encerrada e se inicia sua comercialização para a indústria. De acordo com a Afubra, aproximadamente 86% do que é produzido têm como destino o mercado externo, principalmente União Europeia, China, Estados Unidos e Rússia. Vietnã, Polônia e Paraguai são os destinos com maior crescimento absoluto das exportações gaúchas desde 2007.

O volume exportado no primeiro trimestre cresceu 2,1%, mais uma vez impulsionado pelo desempenho excelente do mês de fevereiro (aumento de 33,4%), que compensou as quedas de janeiro e março. Já o valor sofreu queda de 9,2%, decorrente da redução nos preços médios. As exportações somaram 73,7 mil toneladas em volume e US$ 287,0 milhões em valor. O fumo não manufaturado e os desperdícios do fumo, de menor valor agregado, são responsáveis por mais de 90% do volume total embarcado no Rio Grande do Sul.

Apesar dos números positivos verificados no início do ano, a perspectiva para a indústria fumageira é de desaceleração nos próximos trimestres. Em fevereiro de 2016, a Souza Cruz confirmou a decisão de desativar a unidade de produção de cigarros situada em Cachoeirinha, o que deve motivar a perda de pelo menos 190 empregos diretos. Além da crise econômica, que afeta praticamente todos os setores produtivos no País, existe uma tendência histórica de redução da atividade. Desde 2002, início da série do IBGE, até 2015, a produção industrial de fumo caiu 34,5% no Estado. A restrição cada vez maior de locais para o consumo, a conscientização da população a respeito dos malefícios causados pelo cigarro, tanto no Brasil como nos Estados Unidos e na União Europeia, o aumento de tributos e da concorrência desleal com produtos contrabandeados no mercado doméstico são alguns dos fatores comumente referidos para explicar esse movimento.

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Calçados de maior valor agregado e dólar estimulam exportações do setor no RS

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Edição: Ano 25 nº 05 – 2016

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As vendas externas gaúchas de calçados de todos os tipos, que representam 3,43% do total exportado pelo RS, totalizaram 6.481 mil pares e geraram US$ 96.405 mil no primeiro trimestre de 2016, reconfirmando a posição do RS de maior exportador de calçados do Brasil. A partir do final do ano passado, a exportação de calçados produzidos no Estado vem-se recuperando, ao contrário do ocorrido em nível nacional. Tanto na comparação do primeiro trimestre de 2016 com o mesmo período em 2015 como do quarto trimestre de 2015 com igual período em 2014, houve crescimento nas exportações gaúchas (respectivamente, 9,47% e 5,24%). No Brasil, essa mesma comparação trimestral foi marcada por variações negativas (respectivamente, -6,14% e -4,54%).

Os níveis de emprego e os índices da produção física na indústria de calçados gaúcha também vêm mostrando recuperação. A comparação dos saldos de admitidos e demitidos na produção de calçados, entre os primeiros dois meses de 2016 e o mesmo período em 2015, já registrou um aumento de 6,81%. No setor produtivo, desde novembro observam-se sinais de retomada no ritmo de crescimento, haja vista a melhora nos índices mensais na comparação com o mesmo mês do ano anterior. As taxas anualizadas também apontam recuperação nessa indústria em nível regional. O movimento de depreciação do real frente ao dólar, que ganhou intensidade em 2015, tem-se mostrado um fator determinante para explicar a recuperação das exportações gaúchas de calçados. Os valores negociados nas feiras foram favorecidos pelo câmbio, que deixou os preços dos calçados brasileiros mais competitivos e aumentou a procura pelo produto brasileiro, com reflexos visíveis no número de pares embarcados, que cresceu entre 2014 e 2015. A aposta na preservação dos preços em nível competitivo, somada aos resultados dos negócios alinhados em grandes feiras internacionais no início do ano, tais como a GDS, na Alemanha, a Expo Riva Schuh e a TheMicam, na Itália, e a FNPlatform e a Coterie, nos Estados Unidos, deverá render aumentos graduais da exportação de calçados nos próximos meses.

Mas não é apenas o fator preço que atua como determinante nas negociações. A estratégia de investimento contínuo na exportação, especialmente agora, com a retração do mercado doméstico, vem permitindo que calçados de maior valor agregado e de melhor qualidade voltem a interessar os compradores externos.

Essa situação favorece a indústria calçadista do Rio Grande do Sul, onde a adição de valor ao calçado tem pautado as estratégias inovadoras em design, qualidade das matérias-primas, sofisticação e marca própria diferenciada adotadas por um segmento expressivo de empresas. A comercialização desses calçados é feita, na maior parte, com marca própria, em lojas próprias ou em boutiques, mas muitos vendem em lojas de calçados multimarcas ou para importadores que distribuem o produto nas redes de lojas exclusivas. Ressalte-se que o mercado externo absorve cerca de 20% da produção do segmento de alto valor agregado, de modo que ainda existe enorme potencial para expansão. Os principais países compradores do calçado gaúcho são EUA, França, Argentina e Reino Unido.

O preço médio de exportação do calçado produzido no RS reflete o resultado dessa busca por maior agregação de valor, que ocorre também nos calçados gaúchos elaborados com materiais sintéticos. Em todos os trimestres dos últimos dois anos, observa-se que o preço dos calçados exportados é pelo menos o dobro do obtido pelo similar nacional. É certo que a majoritária produção de calçados de couro, tradicionalmente de preço mais elevado, deve estar elevando o preço médio total. De fato, os calçados desse tipo, exportados para países como Reino Unido, Itália, Polônia e Portugal, registraram preços médios de até US$ 33 o par no primeiro trimestre de 2016.

Por fim, pode-se inferir que a continuidade dos investimentos em inovação e a adoção de estratégias de produção e comercialização de calçados com alto ou maior valor agregado permeiam a indústria calçadista gaúcha como um todo e que, lado a lado com a presença de preços internacionais competitivos, são elementos determinantes para alavancar a recuperação dessa indústria no RS.

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O efeito-preço e o papel das commodities na retração das exportações dos principais estados brasileiros em 2015

Por: e

Edição: Ano 25 nº 02 – 2016

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Segundo dados do Sistema de Exportações FEE (SixExp), as vendas externas brasileiras de bens alcançaram US$ 191,134 bilhões em 2015, um recuo de 15,1% no valor exportado em relação ao ano anterior, recuo este influenciado pela expressiva redução dos preços (15,8%), dado que houve um pequeno incremento em volume (0,8%). Nesse particular, em 2015, mesmo com a quantidade recorde embarcada ao exterior (637,6 milhões de toneladas), as receitas recuaram a um patamar menor que o de 2008 (US$ 197,942 bilhões). Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) sugerem que se a quantidade exportada em 2015 fosse vendida ao preço médio de 2014, haveria receitas extras de cerca de US$ 37 bilhões. Assim, o fundamental responsável pelo recuo das receitas auferidas em dólar das exportações brasileiras foi a forte queda nos preços médios dos produtos exportados pelo País.

Um relevante fator que contribui na explicação desse recuo consiste no profundo e generalizado arrefecimento dos preços internacionais das commodities iniciado no segundo semestre de 2014, uma vez que a pauta exportadora do País é bastante concentrada nesse tipo de produto (o valor exportado de commodities representou 58,2% da pauta brasileira em 2014 e 54,9% em 2015, mesmo com crescimento do volume embarcado ao exterior).

Analisando esses números sob um recorte regional, todos os principais estados exportadores registraram crescimento em volume, mas recuos em preços, resultando em retração em valor. Excetuando-se São Paulo, dos sete principais estados exportadores (54,7% das exportações brasileiras em 2015), podemos dividi-los em dois grupos com base na magnitude de seus recuos em valor, isto é, um com as maiores retrações e outro com os menores recuos. Conforme pode ser observado na tabela, emerge o contraste da estrutura de suas pautas exportadoras: enquanto os estados do primeiro grupo, composto por Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pará e Espírito Santo, exibem forte presença de produtos relativos à indústria extrativa (mais especificamente minério de ferro e/ou petróleo), os do segundo grupo (Rio Grande do Sul, Paraná e Mato Grosso) apresentam grande peso de produtos da agropecuária, notadamente soja em grão.

Dentre esses estados, os do segundo grupo, mesmo registrando recuo no valor exportado, ganharam participação nas exportações nacionais em relação a 2014, em detrimento dos do primeiro grupo. Isso se deve ao fato, no mesmo período de comparação, de os preços internacionais de commodities como o minério de ferro (-43,0%) e o petróleo (-47,2%) terem apresentado recuos bem maiores que o da soja (-24,1%).

Portanto, estados exportadores de minério de ferro e/ou petróleo perderam participação nas exportações nacionais, enquanto ocorreu o contrário nos estados exportadores de soja. Em outras palavras, a magnitude da retração do valor exportado advém de impactos em intensidades distintas do efeito-preço nas economias regionais. De qualquer forma, a queda generalizada nos preços de commodities afetou de maneira decisiva a receita auferida em dólar das exportações de praticamente todos os estados brasileiros.

Mesmo com o crescimento em volume das commodities na pauta de todos os estados analisados, suas participações no valor exportado reduziram-se significativamente de 2014 para 2015: o minério perdeu 14 p.p. no PA, 12 p.p. em MG e 8 p.p. no ES, enquanto o petróleo diminui em 5 p.p. no RJ e 4 p.p. no ES. Já em relação à soja, houve recuo apenas no MT (-6 p.p.), enquanto registrou-se aumento na pauta do RS (2 p.p.) e estabilidade no PR. Mesmo com perdas de participação nas exportações desses estados em função da redução de seus preços, as commodities continuaram representando mais da metade das pautas estaduais em 2015: 50% no PA, 54% no RS, 60% no PR, 65% em MG, 66% no RJ e 96% no MT.

Um agravante dessa situação é ressaltado quando se investiga o destino das exportações dessas commodities e se encontra a China como principal comprador de todos os estados analisados (em quantidade: 14% do minério do ES, 32% do petróleo do RJ, 51% do minério do PA, 62% do minério de MG, 64% da soja do MT, 86% da soja do PR e 89% da soja do RS). Novos sinais de desaceleração da China (em função da mudança de um modelo econômico com ênfase nos investimentos na indústria e em infraestrutura para outro, focado no consumo interno e nos serviços) vêm provocando mais volatilidade e um viés negativo nas cotações de commodities, configurando-se como um aspecto de preocupação para o futuro de parcela expressiva das exportações brasileiras, sobretudo para aqueles estados produtores de petróleo e minério de ferro (mais sensíveis a essa mudança no modelo chinês pelo perfil do consumo final desses produtos).

Nesse contexto, acende-se, ainda mais, o alerta ao problema de uma pauta exportadora estruturalmente pouco diversificada, seja em termos de produtos, seja em termos de destinos.

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